Ouvir “Alfagamabetizado” (1996) hoje é perceber o quanto Carlinhos Brown estava à frente do tempo. O disco começa como uma interferência: palavras gregas, ruídos, violinos. Parece uma máquina tentando falar — e logo em seguida o corpo começa a se mover.
“Pandeiro-Deiro” já entrega o espírito do álbum: suingue, mistura, identidade. Apesar do nome, o pandeiro é sutil. Há bateria poderosa, guitarras distorcidas, percussões trocando de lugar o tempo todo. Tudo tem função, nada é apego. Brown usa a voz como instrumento, a boca como percussão, o estéreo como linguagem. Meu corpo balança sem pedir permissão.
Eu esperava um disco puramente percussivo, mas encontro muita harmonia, jogos de palavras divertidos e melodias simples que escondem complexidade. Instrumentos entram e saem com precisão cirúrgica. A mixagem valoriza o espaço, o silêncio, o impacto.
Em faixas como “Covered Saints” e “Cumplicidade de Armário”, há blues, rap, funk, África, Bahia e mundo convivendo sem conflito. Sopros criam ambiência, guitarras dialogam com teclados, baixos assumem protagonismo. Tudo soa vivo, humano.
“O Bode” foi uma surpresa pessoal: conhecia a música por outra banda e descobrir que é do Brown foi uma vitória íntima. Já “Seo Zé”, com Marisa Monte, carrega uma das frases mais fortes do disco — o Brasil não é só verde, amarelo e azul. É rosa e carvão.
Esse álbum soa como trilha sonora de memória, de paisagem, de identidade. Cada instrumento aparece no momento exato. Nada sobra. Nada falta.
“Alfagamabetizado” não é só um disco: é um manifesto sonoro, um documento cultural e uma aula de como tradição e experimentação podem caminhar juntas. Um clássico que continua pulsando.
Carlinhos Brown é muitos — e aqui, ele é todos ao mesmo tempo.
Ouvir "The Chronic" (1992) é entrar direto no estado mental do Dr. Dre. Logo na introdução dá pra sentir a raiva acumulada, o incômodo, a necessidade de falar o que ficou entalado por anos. Depois de assistir Straight Outta Compton, tudo faz ainda mais sentido: os conflitos com Eazy-E, Jerry Heller, a ruptura com o N.W.A. e o clima pesado da Death Row. Esse álbum soa como a carta de alforria do Dre.
Como produtor, ele já mostra sua assinatura: beats orgânicos, pratos que conduzem o groove, graves melódicos, teclados elétricos e uma bateria que soa real. Nada de hi-hats digitais modernos — aqui o swing é noventista, lembra mais bailes charme do que a estética eletrônica atual. Não é um disco “à frente do tempo”, é um disco que te coloca exatamente nos anos 90.
Em “Fuck Wit Dre Day”, a raiva vira discurso direto. Dre fala de traição e confronto, enquanto Snoop Dogg entra equilibrando tudo com carisma, flow e leveza. A química entre os dois é evidente. Em “Let Me Ride”, Dre brinca com o estéreo, troca hi-hats por snares e usa detalhes sutis (como um wah-wah discreto) pra evitar qualquer sensação de repetição.
As letras funcionam como diário de Compton: violência, vigilância constante e sobrevivência. Em “The Day The Niggaz Took Over”, o álbum ganha peso político, citando o apartheid, usando ruídos de rádio e deixando claro que o rap aqui também é manifesto.
“Nuthin’ But A ‘G’ Thang” surge como a faixa mais acessível — estratégica, melódica e comercial. É ali que fica claro por que Dre é um arquiteto do hip-hop: três melodias bem pensadas, simplicidade difícil de alcançar e identidade absoluta.
Entre quebras inesperadas, texturas ousadas e momentos controversos, The Chronic expõe uma realidade crua sem pedir desculpas. Não é só um clássico do rap — é um documento social, sonoro e histórico.
Ouvir Da Lama ao Caos (1994) foi como finalmente entrar na mente do Chico Science. Eu já conhecia o nome, a ligação com Recife, já tinha visto o documentário “Um Caranguejo Elétrico”, mas só agora parei pra ouvir de verdade — e o impacto foi enorme.
Esse disco não causa estranheza gratuita. Ele provoca curiosidade. É uma convocação. Chico está chamando a multidão. Logo no início, decisões simples dizem muito: a primeira faixa em mono, a seguinte em estéreo. Parece que a mensagem é clara — o importante é soar bem aos ouvidos.
Tudo aqui soa como um manifesto. A instrumentação mistura guitarra, percussão, groove e experimentação de um jeito muito consciente. Há sons que aparecem uma única vez e somem, criando surpresa. Há texturas que hoje seriam feitas em software, mas que aqui ganham outra força por serem tocadas, vivas.
A mixagem, assinada por Liminha, é fundamental. Me trouxe a mesma sensação de Nevermind, do Nirvana: a obra já é forte, mas a mixagem é o que torna tudo acessível sem perder identidade. Ela te leva direto pra Recife — sem te expulsar do conforto de ouvir.
A guitarra é simples, mas cheia de personalidade. Um espírito noventista muito claro, quase um “grunge brasileiro”, só que cheio de groove. A voz de Chico não tenta ser protagonista: ele soa como um mensageiro. O discurso, sim, é revolucionário.
Faixas como “Samba Makossa” e “A Praieira” mostram isso bem: simples, marcantes, com um linguajar que pode soar estranho ao mercado, mas que casa perfeitamente com o sotaque pernambucano. É ali que a identidade acontece.
Esse disco não tenta levar o Nordeste pro mundo. Ele faz o contrário: convida o mundo a entrar aqui. Dá orgulho ouvir algo tão bem ensaiado, tão orgânico, tão vivo.
Fiquei com vontade imediata de ouvir o próximo álbum.
Ouvi “Xtranho”, novo álbum do Matuê, e já deixo claro: não é meu disco favorito dele, mas é impossível ignorar a evolução sonora, estética e estratégica do projeto.
Antes de falar do álbum, é preciso olhar o contexto: o Brasil ainda consome música com rimas previsíveis, referências limitadas e uma cena de trap enfraquecida por festivais sucateados e expectativas irreais. Ao mesmo tempo, o público cobra inovação, mas só aceita referências vindas dos EUA. É um paradoxo.
Matuê parece ter cansado disso. Ex-professor de inglês, saturado das mesmas fórmulas da indústria, ele foi buscar outras fontes — e deixa isso claro quando assume uma estética “que só tem na Alemanha”. Ele sabia que causaria resistência. “Meu Cemitério”, música de trabalho, vem com BPM mais baixo (117), quebrando a expectativa de drops explosivos e euforia de festival. A disrupção começa aí.
Ciente do risco, ele acerta ao trazer feats do underground brasileiro, ampliando vozes fora da bolha da 30PRAUM. Isso aparece até na mixagem: cada faixa soa diferente. Em algumas, os adlibs são discretos; em outras, viram backing vocals. Nada engessado.
Nem tudo me agrada — e tudo bem. Um álbum bom não é aquele em que todas as faixas agradam, mas aquele em que algumas ficam. Os feats femininos me surpreenderam muito, com uma mixagem limpa, pop e levemente suja, exatamente o que o trap polido precisava repensar.
A produção mostra cuidado: drum kits variados, menos cordas, mais eletrônicos, clima sombrio como contraste ao álbum anterior. “Rei Tuê” abre o disco dialogando com os fãs mais antigos, enquanto o resto aponta pra frente.
Matuê não está fazendo algo revolucionário — mas, por enquanto, é o único que ousou mudar a referência. “Xtranho” é o nome perfeito: foi a reação dele, e foi a do público. A estética chama atenção, mas a mensagem está nas frequências. O marketing provoca — a arte acontece no som.
Em mais um capítulo da minha saga ouvindo os 1001 álbuns, cheguei ao disco de estreia de Caetano Veloso (1968) — e que viagem.
A abertura com “Tropicália” já te joga num Brasil vivo, cheio de batuques, imagens e contrastes. Caetano costura palavras como quem monta um mosaico do país. A mixagem tem aquele charme de 1968, meio torta, meio linda. E o final sem tônica parece dizer: “calma, ainda tem mais”.
“Clarice” e “No dia em que eu vim-me embora” soam como duas partes da mesma história: partida, silêncio, mala pronta, futuro incerto. Sendo nordestino, me identifiquei pesado — esse sentimento de deixar casa nunca sai da pele.
Quando chega “Alegria, Alegria”, bate a sensação de curiosidade diante do mundo. A frase “Eu vou, porque não?” virou quase um mantra. A música fala sobre caminhar sem mapa, confiando no caminho.
“Onde Andarás?” mostra o outro lado: quando o novo vira hábito e o tédio aparece. Já “Superbacana” é Caetano elétrico, rimando “supersônica” como se fosse óbvio, encarando a cidade grande com os olhos brilhando.
Em “Clara”, a presença da Clara Nunes dá uma camada extra: ela interpreta Clara, e Caetano canta como marinheiro. A mistura entre “Clara” e “águas claras” é linda demais. E a flauta doce? Puro gatilho de infância.
Daí ele mete “Soy Loco Por Ti, América” no álbum de estreia. Apaixonada, dançante, misturando português e espanhol. Uma ode ao continente.
“Eles” fecha discutindo futuro, dinheiro e a mania humana de esperar amanhã pra viver hoje. O baixo aqui é destaque.
O que eu mais senti: Caetano é obsessivo nos detalhes. Ele descreve cheiros, cômodos, cenas inteiras. É experimental sem medo — violinos, pausas, conversas com maestro, e quase nada de guitarra. É como se ele dissesse: o Brasil é estranho, bonito e gigante — e a música também pode ser.
Fechei o disco admirando o cara. E rindo porque ele ainda dá a deixa pros Mutantes no final. Caetano é estrategista desde sempre.
Comecei errado: ouvi Frank Zappa solo antes de ouvir o Mothers of Invention, culpa do meu amigo Fox. Mas depois que ele me mandou um vídeo ao vivo da banda, decidi finalmente ouvir o disco de estreia deles, “Freak Out!” (1966). E logo na primeira faixa já percebi que eu não fazia ideia do que me esperava.
O álbum começa com uma vibe “boy band” que me enganou direitinho. Achei que vinha aí uma tentativa americana de imitar os Beatles… até que o disco virou outra coisa completamente diferente, algo tão progressivo pra época que às vezes nem parece anos 60. E o mais impressionante: eu jurava que seria um álbum só instrumental, então ser surpreendido por vocais logo no começo já desmontou minhas expectativas.
A guitarra é o grande cérebro do disco — rasgada, aguda, identitária, nada polida, com aquela sujeira perfeita que mostra o toque real do instrumentista. E o uso do estéreo é completamente caótico (no melhor sentido). Às vezes a bateria está no centro, às vezes só no lado esquerdo… e tem momentos em que o bumbo está de um lado e o resto do kit no outro. É chocante e genial.
O Mothers cria cenários inteiros: sons de respiração que parecem gemidos, imitações de pássaros, gaitas, metais, teclados psicodélicos… tudo compondo pequenas peças de teatro dentro do fone. Tem hora que parece trilha de gangue de motoqueiro no deserto, hora que parece Doors, hora que vira bagunça controlada.
O disco pula entre músicas “bonitinhas” de dois vocalistas no mesmo microfone e depois volta pra um caos sonoro total. Tem monólogos, ruídos, reverb pesado, gritos, interferências, solos que parecem conversas… e até efeito de voz fininha estilo Alvin e os Esquilos — em 1966.
Algumas músicas aceleram o BPM conforme avançam, outras têm drops (antes disso ter nome), e várias misturam diálogos, sons de animais e atmosferas cinematográficas. As minhas favoritas foram “Trouble Every Day” e “Motherly Love”, as mais radiofônicas e as únicas que me fizeram dançar sem perceber.
No fim, “Freak Out!” me deu a sensação de assistir um show dentro da minha cabeça. Se eles são assim em estúdio, imagina ao vivo. É literalmente como entrar num cinema auditivo — caos, teatro, ironia, invenção e energia pura.
Em mais um episódio da minha saga ouvindo os 1001 discos para ouvir antes de morrer, cheguei a “Vento de Maio”, da nossa incomparável Elis Regina — e que experiência.
Logo na primeira faixa, um detalhe técnico me chama atenção: um batuque (parece um agogô) só no lado esquerdo da mixagem, junto a uma referência a “Um girassol da cor do seu cabelo”, do Clube da Esquina. A partir daí, o álbum já mostra que vai além do óbvio.
O que mais me encantou é como esse disco revela uma Elis mais contida, madura e experimental, diferente da teatralidade de “O bêbado e o equilibrista”. Em “Tiro ao Álvaro”, a parceria com Adoniran é simplesmente deliciosa — ele mesmo dizia que ela cantava “do jeito que ele gostava”.
Mas o ápice, pra mim, é “O que foi feito deverá”, com Milton Nascimento. A mixagem, o equilíbrio entre os dois, a força do violão e as camadas vocais — tudo é de uma precisão que beira o milagre.
Outros momentos me marcaram profundamente: 🎧 “Rebento” — começa suave e explode em emoção, um verdadeiro estudo sobre interpretação. 🔥 “Calcanhar de Aquiles” — dançante, viva, e com uma Elis tão divertida que dá pra sentir o sorriso na voz. 💫 “Se eu quiser falar com Deus” — encerra o disco com uma espiritualidade desarmante.
“Vento de Maio” me fez entender, de fato, a diferença entre cantora e intérprete. Elis era as duas em grau máximo. Ela não apenas cantava — ela possuía cada música, transformava cada verso em verdade.
Esse álbum é um presente aos ouvidos, um abraço da arte brasileira no tempo. Obrigado, Elis. 🌬️💙
Seguindo minha saga dos 1001 discos, dessa vez decidi revisitar um que já tinha ouvido antes, mas do qual não lembrava quase nada — e isso é maravilhoso. Significa que pretendo ouvi-lo muitas vezes ao longo da vida, e ele sempre continuará uma incógnita positiva: “Clube da Esquina”, de Milton Nascimento & Lô Borges.
Minhas faixas favoritas até agora são “O Sol” e “Um Girassol da Cor do Seu Vestido”. Essa última eu já conhecia pelo filme “Somos Tão Jovens”, mas ouvir a versão original foi como descobrir uma lembrança antiga de mim mesmo.
O disco tem um trabalho de panorama de som incrível — cordas de um lado, batida do outro. Teve um momento em que achei que o fone tinha parado, mas era só o Milton brincando com o espaço. Me senti trollado (e maravilhado).
Há passagens tensas, quando ficam apenas o violão e a voz. Em certos trechos, ele até soa como se cantasse em italiano. A ausência de batida mostra que música é movimento — e sem isso, tudo parece uma trama.
“Me Deixa em Paz”, com Alaíde Costa, é simplesmente genial. Que voz! O jeito que ela canta “...me iludir...” parece um sample feito nos anos 70, antes mesmo do hip-hop existir. Mesmo com batida, a faixa continua densa e emocional.
O álbum é um parque de diversões cultural — experimento, poesia, brasilidade, tudo junto. A guitarra às vezes soa como outro instrumento, e as músicas parecem trilhas de uma novela que a gente já viveu sem perceber.
Milton sobe o tom de repente, e parece que grita por força. Quando canta “O homem é mais sólido que a maré”, lembrei de Hemingway, que dizia que o mar pode ser cruel para criaturas frágeis.
“Um Gosto de Sol” me inspirou a imaginar um boombapzão acelerado — o disco desperta vontade de criar. Em outros momentos, o som ganha ares medievais, com metais e órgão, como uma trilha épica.
No final, o álbum parece se referir a si mesmo, um flashback sonoro, um déjà vu musical. E, do nada, tudo vira rock progressivo.
Um álbum feito com o propósito claro de exportar a cultura brasileira. “Tanto Tempo” não é samba de bar nem trilha de boteco — é uma obra sofisticada, planejada nos mínimos detalhes, com produção e engenharia de som impecáveis. Cada instrumento ocupa um espaço próprio nesse salão sonoro que Bebel e sua equipe constroem dentro da cabeça do ouvinte.
A percussão é delicada: baterias tocadas no aro, pandeirolas e pequenos detalhes distribuídos com precisão no estéreo. O piano, discreto mas encantador, evoca Tom Jobim com leve ousadia. A mixagem é moderna, com guitarras wah-wah e uma separação de canais que mostra cuidado técnico raro na época.
Em “Alguém”, o pop se mistura ao samba, com o pandeiro revelando a raiz brasileira escondida sob uma estética global. Os harmônicos do violão e os sintetizadores constroem uma atmosfera contemporânea — o disco poderia ter sido lançado ontem.
O repertório impressiona: Vinicius, Cazuza, Gilberto Gil, Dinho Ouro Preto. A sonoridade é de elite, sem perder a simplicidade das melodias. Bebel costura brasilidade e modernidade com elegância, e até sons que lembram conchas e vento nos transportam à beira-mar.
O baixo brilha em “Bananeira”, junto a metais e flautas que dão vida ao groove. É um Brasil filtrado e refinado, o que explica o reconhecimento maior no exterior.
Em “Samba e Amor”, só voz e violão — uma pausa intimista e necessária. Já em “So Nice (Summer Samba)”, o arranjo é puro requinte: bongôs, baixo sutil, flauta e reverb que preenche o ar. “Mais Feliz” surpreende com o uso de um copofone, som que parece de outro mundo.
“Tanto Tempo” é um disco de atmosfera e intenção. Sofisticado, atemporal e lindamente brasileiro — um retrato de um país que aprendeu a ser ouvido lá fora sem perder a própria alma.
Em mais um episódio da minha lista de escutar os 1001 álbuns que todos devem ouvir antes de morrer, decidi revisitar um disco que já conhecia de longe — tinha ouvido uma ou outra faixa, mas na época, o contexto não ajudou. Preciso dizer: ouvir uma música desse álbum na academia definitivamente não foi uma boa escolha. Só que dessa vez, tudo parecia diferente. Não sei se fui eu quem mudou, ou se meu estado de espírito estava precisando de obras mais calmas, mas foi uma excelente decisão me permitir ouvir novamente — e completo dessa vez.
Confesso que essa semana começou difícil. No domingo, resolvi beber com uns amigos, passei um pouco do ponto, dei perda total e acordei derrubado na segunda-feira. A sensação era de que aquela seria a pior semana da minha vida. Fiz menos do que o de costume, e a bola de neve foi crescendo até que percebi que talvez eu estivesse me cobrando demais. No fim das contas, eu não sou um robô que faz tudo freneticamente. Hoje, veio um pensamento: “Vou deixar a música me levar.” E se soubesse que essa era a melhor opção, teria começado a semana assim desde segunda-feira. É o que vou fazer religiosamente a partir de agora: começar cada semana ouvindo um álbum completo.
O álbum da vez é Getz/Gilberto, fruto da parceria entre o nosso João Gilberto e o saxofonista norte-americano Stan Getz. Ele começa com “Garota de Ipanema”, numa versão diferente da original. Não há o backing vocal feminino coral, o que tira um pouco da alegria que a música tinha — ainda que a Bossa Nova sempre tenha um “quê” de contenção emocional. Essa versão traz um complemento inédito em inglês, e diferente da de Sinatra, ela combina perfeitamente com a voz sutil de Astrud Gilberto (esposa de João na época). Eu amei a voz dela. Não é potente como Elis ou Ella, mas soa como se tivesse nascido para essa música. Sem ela, a faixa parece incompleta. Não à toa, essa versão venceu o Grammy de Música do Ano em 1965 — tornando Astrud a primeira mulher a conquistar o prêmio.
O álbum é muito bem mixado para a época. Ainda assim, dá pra perceber o que seria aprimorado numa remasterização atual — especialmente o ruído do saxofone, que me pegou de surpresa. Não esperava o instrumento em mono e centralizado, mas conforme o álbum avança, o sax de Getz ganha vida, fala, chora, desabafa. Depois do susto, ele se torna indispensável. O violão 2x2 da Bossa é previsível e sutil, perfeito para estudar ou acalmar o coração. Mas quando o sax entra com escalas imprevisíveis, o coração precisa confiar no músico.
Há também um piano/teclado que, por vezes, assume o papel do violão, como se teclas e cordas dançassem juntas. E quando o piano se solta, o faz com classe e timidez — minimalista e precioso. Aparece principalmente no lado direito da mixagem, e aquele estilo de tocar denuncia: é Tom Jobim. Não precisei olhar os créditos. O jeito dele é inconfundível e memorável. A voz de João Gilberto é contida e sucinta, mas quando aparece, tem peso. O mesmo vale para o sax. A presença e a ausência de ambos são sentidas — e isso é pra poucos.
O baixo, tocado por Sebastião Neto, também tem seus momentos de protagonismo. O mérito, nesse caso, vai ao engenheiro de som, pela sensibilidade. O baixo não tem groove e nem precisa: é simples, cordial, e parece ser tocado de olhos fechados, com a alma em outro lugar.
E é com essa obra que meus ouvidos e meu coração parecem ter encontrado paz. Getz/Gilberto me trouxe conforto e sentido. Minha faixa favorita foi Corcovado, e já consigo imaginá-la num sample. Eu amo ser brasileiro. Esse disco parece ter sido feito pra mim — e é incrível como a música ainda exerce poder sobre almas de todas as idades, mesmo 60 anos depois.
Thales Tkzin :):
Ouvir “Alfagamabetizado” (1996) hoje é perceber o quanto Carlinhos Brown estava à frente do tempo. O disco começa como uma interferência: palavras gregas, ruídos, violinos. Parece uma máquina tentando falar — e logo em seguida o corpo começa a se mover.
“Pandeiro-Deiro” já entrega o espírito do álbum: suingue, mistura, identidade. Apesar do nome, o pandeiro é sutil. Há bateria poderosa, guitarras distorcidas, percussões trocando de lugar o tempo todo. Tudo tem função, nada é apego. Brown usa a voz como instrumento, a boca como percussão, o estéreo como linguagem. Meu corpo balança sem pedir permissão.
Eu esperava um disco puramente percussivo, mas encontro muita harmonia, jogos de palavras divertidos e melodias simples que escondem complexidade. Instrumentos entram e saem com precisão cirúrgica. A mixagem valoriza o espaço, o silêncio, o impacto.
Em faixas como “Covered Saints” e “Cumplicidade de Armário”, há blues, rap, funk, África, Bahia e mundo convivendo sem conflito. Sopros criam ambiência, guitarras dialogam com teclados, baixos assumem protagonismo. Tudo soa vivo, humano.
“O Bode” foi uma surpresa pessoal: conhecia a música por outra banda e descobrir que é do Brown foi uma vitória íntima. Já “Seo Zé”, com Marisa Monte, carrega uma das frases mais fortes do disco — o Brasil não é só verde, amarelo e azul. É rosa e carvão.
Esse álbum soa como trilha sonora de memória, de paisagem, de identidade. Cada instrumento aparece no momento exato. Nada sobra. Nada falta.
“Alfagamabetizado” não é só um disco: é um manifesto sonoro, um documento cultural e uma aula de como tradição e experimentação podem caminhar juntas. Um clássico que continua pulsando.
Carlinhos Brown é muitos — e aqui, ele é todos ao mesmo tempo.
#carlinhosbrown #mpb #ijexá #axé #alfagamabetizado
1 week ago | [YT] | 6
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Thales Tkzin :):
Ouvir "The Chronic" (1992) é entrar direto no estado mental do Dr. Dre. Logo na introdução dá pra sentir a raiva acumulada, o incômodo, a necessidade de falar o que ficou entalado por anos. Depois de assistir Straight Outta Compton, tudo faz ainda mais sentido: os conflitos com Eazy-E, Jerry Heller, a ruptura com o N.W.A. e o clima pesado da Death Row. Esse álbum soa como a carta de alforria do Dre.
Como produtor, ele já mostra sua assinatura: beats orgânicos, pratos que conduzem o groove, graves melódicos, teclados elétricos e uma bateria que soa real. Nada de hi-hats digitais modernos — aqui o swing é noventista, lembra mais bailes charme do que a estética eletrônica atual. Não é um disco “à frente do tempo”, é um disco que te coloca exatamente nos anos 90.
Em “Fuck Wit Dre Day”, a raiva vira discurso direto. Dre fala de traição e confronto, enquanto Snoop Dogg entra equilibrando tudo com carisma, flow e leveza. A química entre os dois é evidente. Em “Let Me Ride”, Dre brinca com o estéreo, troca hi-hats por snares e usa detalhes sutis (como um wah-wah discreto) pra evitar qualquer sensação de repetição.
As letras funcionam como diário de Compton: violência, vigilância constante e sobrevivência. Em “The Day The Niggaz Took Over”, o álbum ganha peso político, citando o apartheid, usando ruídos de rádio e deixando claro que o rap aqui também é manifesto.
“Nuthin’ But A ‘G’ Thang” surge como a faixa mais acessível — estratégica, melódica e comercial. É ali que fica claro por que Dre é um arquiteto do hip-hop: três melodias bem pensadas, simplicidade difícil de alcançar e identidade absoluta.
Entre quebras inesperadas, texturas ousadas e momentos controversos, The Chronic expõe uma realidade crua sem pedir desculpas. Não é só um clássico do rap — é um documento social, sonoro e histórico.
#drdre #gangstarap #thechronic #culturahiphop #raphiphop
2 weeks ago | [YT] | 5
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Thales Tkzin :):
Ouvir Da Lama ao Caos (1994) foi como finalmente entrar na mente do Chico Science. Eu já conhecia o nome, a ligação com Recife, já tinha visto o documentário “Um Caranguejo Elétrico”, mas só agora parei pra ouvir de verdade — e o impacto foi enorme.
Esse disco não causa estranheza gratuita. Ele provoca curiosidade. É uma convocação. Chico está chamando a multidão. Logo no início, decisões simples dizem muito: a primeira faixa em mono, a seguinte em estéreo. Parece que a mensagem é clara — o importante é soar bem aos ouvidos.
Tudo aqui soa como um manifesto. A instrumentação mistura guitarra, percussão, groove e experimentação de um jeito muito consciente. Há sons que aparecem uma única vez e somem, criando surpresa. Há texturas que hoje seriam feitas em software, mas que aqui ganham outra força por serem tocadas, vivas.
A mixagem, assinada por Liminha, é fundamental. Me trouxe a mesma sensação de Nevermind, do Nirvana: a obra já é forte, mas a mixagem é o que torna tudo acessível sem perder identidade. Ela te leva direto pra Recife — sem te expulsar do conforto de ouvir.
A guitarra é simples, mas cheia de personalidade. Um espírito noventista muito claro, quase um “grunge brasileiro”, só que cheio de groove. A voz de Chico não tenta ser protagonista: ele soa como um mensageiro. O discurso, sim, é revolucionário.
Faixas como “Samba Makossa” e “A Praieira” mostram isso bem: simples, marcantes, com um linguajar que pode soar estranho ao mercado, mas que casa perfeitamente com o sotaque pernambucano. É ali que a identidade acontece.
Esse disco não tenta levar o Nordeste pro mundo. Ele faz o contrário: convida o mundo a entrar aqui. Dá orgulho ouvir algo tão bem ensaiado, tão orgânico, tão vivo.
Fiquei com vontade imediata de ouvir o próximo álbum.
Chico vive.
#chicoscience #chicoscienceenaçãozumbi #naçãozumbi #manguebeat #dalamaaocaos
2 weeks ago | [YT] | 8
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Thales Tkzin :):
Ouvi “Xtranho”, novo álbum do Matuê, e já deixo claro: não é meu disco favorito dele, mas é impossível ignorar a evolução sonora, estética e estratégica do projeto.
Antes de falar do álbum, é preciso olhar o contexto: o Brasil ainda consome música com rimas previsíveis, referências limitadas e uma cena de trap enfraquecida por festivais sucateados e expectativas irreais. Ao mesmo tempo, o público cobra inovação, mas só aceita referências vindas dos EUA. É um paradoxo.
Matuê parece ter cansado disso. Ex-professor de inglês, saturado das mesmas fórmulas da indústria, ele foi buscar outras fontes — e deixa isso claro quando assume uma estética “que só tem na Alemanha”. Ele sabia que causaria resistência. “Meu Cemitério”, música de trabalho, vem com BPM mais baixo (117), quebrando a expectativa de drops explosivos e euforia de festival. A disrupção começa aí.
Ciente do risco, ele acerta ao trazer feats do underground brasileiro, ampliando vozes fora da bolha da 30PRAUM. Isso aparece até na mixagem: cada faixa soa diferente. Em algumas, os adlibs são discretos; em outras, viram backing vocals. Nada engessado.
Nem tudo me agrada — e tudo bem. Um álbum bom não é aquele em que todas as faixas agradam, mas aquele em que algumas ficam. Os feats femininos me surpreenderam muito, com uma mixagem limpa, pop e levemente suja, exatamente o que o trap polido precisava repensar.
A produção mostra cuidado: drum kits variados, menos cordas, mais eletrônicos, clima sombrio como contraste ao álbum anterior. “Rei Tuê” abre o disco dialogando com os fãs mais antigos, enquanto o resto aponta pra frente.
Matuê não está fazendo algo revolucionário — mas, por enquanto, é o único que ousou mudar a referência. “Xtranho” é o nome perfeito: foi a reação dele, e foi a do público. A estética chama atenção, mas a mensagem está nas frequências. O marketing provoca — a arte acontece no som.
#Matuê #Xtranho #30praum #trapbrasileiro #trapbr #culturahiphop
4 weeks ago | [YT] | 3
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Thales Tkzin :):
Em mais um capítulo da minha saga ouvindo os 1001 álbuns, cheguei ao disco de estreia de Caetano Veloso (1968) — e que viagem.
A abertura com “Tropicália” já te joga num Brasil vivo, cheio de batuques, imagens e contrastes. Caetano costura palavras como quem monta um mosaico do país. A mixagem tem aquele charme de 1968, meio torta, meio linda. E o final sem tônica parece dizer: “calma, ainda tem mais”.
“Clarice” e “No dia em que eu vim-me embora” soam como duas partes da mesma história: partida, silêncio, mala pronta, futuro incerto. Sendo nordestino, me identifiquei pesado — esse sentimento de deixar casa nunca sai da pele.
Quando chega “Alegria, Alegria”, bate a sensação de curiosidade diante do mundo. A frase “Eu vou, porque não?” virou quase um mantra. A música fala sobre caminhar sem mapa, confiando no caminho.
“Onde Andarás?” mostra o outro lado: quando o novo vira hábito e o tédio aparece. Já “Superbacana” é Caetano elétrico, rimando “supersônica” como se fosse óbvio, encarando a cidade grande com os olhos brilhando.
Em “Clara”, a presença da Clara Nunes dá uma camada extra: ela interpreta Clara, e Caetano canta como marinheiro. A mistura entre “Clara” e “águas claras” é linda demais. E a flauta doce? Puro gatilho de infância.
Daí ele mete “Soy Loco Por Ti, América” no álbum de estreia. Apaixonada, dançante, misturando português e espanhol. Uma ode ao continente.
“Eles” fecha discutindo futuro, dinheiro e a mania humana de esperar amanhã pra viver hoje. O baixo aqui é destaque.
O que eu mais senti: Caetano é obsessivo nos detalhes. Ele descreve cheiros, cômodos, cenas inteiras. É experimental sem medo — violinos, pausas, conversas com maestro, e quase nada de guitarra. É como se ele dissesse: o Brasil é estranho, bonito e gigante — e a música também pode ser.
Fechei o disco admirando o cara. E rindo porque ele ainda dá a deixa pros Mutantes no final. Caetano é estrategista desde sempre.
#caetanoveloso #tropicália #tropicalismo #mpb #ditaduranuncamais
www.youtube.com/playlist?list...
1 month ago | [YT] | 1
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Thales Tkzin :):
Comecei errado: ouvi Frank Zappa solo antes de ouvir o Mothers of Invention, culpa do meu amigo Fox. Mas depois que ele me mandou um vídeo ao vivo da banda, decidi finalmente ouvir o disco de estreia deles, “Freak Out!” (1966). E logo na primeira faixa já percebi que eu não fazia ideia do que me esperava.
O álbum começa com uma vibe “boy band” que me enganou direitinho. Achei que vinha aí uma tentativa americana de imitar os Beatles… até que o disco virou outra coisa completamente diferente, algo tão progressivo pra época que às vezes nem parece anos 60. E o mais impressionante: eu jurava que seria um álbum só instrumental, então ser surpreendido por vocais logo no começo já desmontou minhas expectativas.
A guitarra é o grande cérebro do disco — rasgada, aguda, identitária, nada polida, com aquela sujeira perfeita que mostra o toque real do instrumentista. E o uso do estéreo é completamente caótico (no melhor sentido). Às vezes a bateria está no centro, às vezes só no lado esquerdo… e tem momentos em que o bumbo está de um lado e o resto do kit no outro. É chocante e genial.
O Mothers cria cenários inteiros: sons de respiração que parecem gemidos, imitações de pássaros, gaitas, metais, teclados psicodélicos… tudo compondo pequenas peças de teatro dentro do fone. Tem hora que parece trilha de gangue de motoqueiro no deserto, hora que parece Doors, hora que vira bagunça controlada.
O disco pula entre músicas “bonitinhas” de dois vocalistas no mesmo microfone e depois volta pra um caos sonoro total. Tem monólogos, ruídos, reverb pesado, gritos, interferências, solos que parecem conversas… e até efeito de voz fininha estilo Alvin e os Esquilos — em 1966.
Algumas músicas aceleram o BPM conforme avançam, outras têm drops (antes disso ter nome), e várias misturam diálogos, sons de animais e atmosferas cinematográficas. As minhas favoritas foram “Trouble Every Day” e “Motherly Love”, as mais radiofônicas e as únicas que me fizeram dançar sem perceber.
No fim, “Freak Out!” me deu a sensação de assistir um show dentro da minha cabeça. Se eles são assim em estúdio, imagina ao vivo. É literalmente como entrar num cinema auditivo — caos, teatro, ironia, invenção e energia pura.
Tô pronto pro próximo.
#themothersofinvention #frankzappa #freakout #rockandroll #blues #rockprogressivo #rockexperimental
https://www.youtube.com/watch?v=-Wq83...
1 month ago | [YT] | 0
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Thales Tkzin :):
Em mais um episódio da minha saga ouvindo os 1001 discos para ouvir antes de morrer, cheguei a “Vento de Maio”, da nossa incomparável Elis Regina — e que experiência.
Logo na primeira faixa, um detalhe técnico me chama atenção: um batuque (parece um agogô) só no lado esquerdo da mixagem, junto a uma referência a “Um girassol da cor do seu cabelo”, do Clube da Esquina. A partir daí, o álbum já mostra que vai além do óbvio.
O que mais me encantou é como esse disco revela uma Elis mais contida, madura e experimental, diferente da teatralidade de “O bêbado e o equilibrista”. Em “Tiro ao Álvaro”, a parceria com Adoniran é simplesmente deliciosa — ele mesmo dizia que ela cantava “do jeito que ele gostava”.
Mas o ápice, pra mim, é “O que foi feito deverá”, com Milton Nascimento. A mixagem, o equilíbrio entre os dois, a força do violão e as camadas vocais — tudo é de uma precisão que beira o milagre.
Outros momentos me marcaram profundamente:
🎧 “Rebento” — começa suave e explode em emoção, um verdadeiro estudo sobre interpretação.
🔥 “Calcanhar de Aquiles” — dançante, viva, e com uma Elis tão divertida que dá pra sentir o sorriso na voz.
💫 “Se eu quiser falar com Deus” — encerra o disco com uma espiritualidade desarmante.
“Vento de Maio” me fez entender, de fato, a diferença entre cantora e intérprete. Elis era as duas em grau máximo. Ela não apenas cantava — ela possuía cada música, transformava cada verso em verdade.
Esse álbum é um presente aos ouvidos, um abraço da arte brasileira no tempo.
Obrigado, Elis. 🌬️💙
#VentoDeMaio #ElisRegina #ReviewMusical #1001Albuns #MúsicaBrasileira #MPB #ClubeDaEsquina #MiltonNascimento #AdoniranBarbosa #AnáliseMusical #ResenhaMusical #ArteBrasileira
2 months ago | [YT] | 0
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Thales Tkzin :):
Seguindo minha saga dos 1001 discos, dessa vez decidi revisitar um que já tinha ouvido antes, mas do qual não lembrava quase nada — e isso é maravilhoso. Significa que pretendo ouvi-lo muitas vezes ao longo da vida, e ele sempre continuará uma incógnita positiva: “Clube da Esquina”, de Milton Nascimento & Lô Borges.
Minhas faixas favoritas até agora são “O Sol” e “Um Girassol da Cor do Seu Vestido”. Essa última eu já conhecia pelo filme “Somos Tão Jovens”, mas ouvir a versão original foi como descobrir uma lembrança antiga de mim mesmo.
O disco tem um trabalho de panorama de som incrível — cordas de um lado, batida do outro. Teve um momento em que achei que o fone tinha parado, mas era só o Milton brincando com o espaço. Me senti trollado (e maravilhado).
Há passagens tensas, quando ficam apenas o violão e a voz. Em certos trechos, ele até soa como se cantasse em italiano. A ausência de batida mostra que música é movimento — e sem isso, tudo parece uma trama.
“Me Deixa em Paz”, com Alaíde Costa, é simplesmente genial. Que voz! O jeito que ela canta “...me iludir...” parece um sample feito nos anos 70, antes mesmo do hip-hop existir. Mesmo com batida, a faixa continua densa e emocional.
O álbum é um parque de diversões cultural — experimento, poesia, brasilidade, tudo junto. A guitarra às vezes soa como outro instrumento, e as músicas parecem trilhas de uma novela que a gente já viveu sem perceber.
Milton sobe o tom de repente, e parece que grita por força. Quando canta “O homem é mais sólido que a maré”, lembrei de Hemingway, que dizia que o mar pode ser cruel para criaturas frágeis.
“Um Gosto de Sol” me inspirou a imaginar um boombapzão acelerado — o disco desperta vontade de criar. Em outros momentos, o som ganha ares medievais, com metais e órgão, como uma trilha épica.
No final, o álbum parece se referir a si mesmo, um flashback sonoro, um déjà vu musical.
E, do nada, tudo vira rock progressivo.
#MiltonNascimento #ClubedaEsquina #LôBorges #MPB #BossaNova
2 months ago | [YT] | 1
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Thales Tkzin :):
Bebel Gilberto – “Tanto Tempo” (1996)
Um álbum feito com o propósito claro de exportar a cultura brasileira. “Tanto Tempo” não é samba de bar nem trilha de boteco — é uma obra sofisticada, planejada nos mínimos detalhes, com produção e engenharia de som impecáveis. Cada instrumento ocupa um espaço próprio nesse salão sonoro que Bebel e sua equipe constroem dentro da cabeça do ouvinte.
A percussão é delicada: baterias tocadas no aro, pandeirolas e pequenos detalhes distribuídos com precisão no estéreo. O piano, discreto mas encantador, evoca Tom Jobim com leve ousadia. A mixagem é moderna, com guitarras wah-wah e uma separação de canais que mostra cuidado técnico raro na época.
Em “Alguém”, o pop se mistura ao samba, com o pandeiro revelando a raiz brasileira escondida sob uma estética global. Os harmônicos do violão e os sintetizadores constroem uma atmosfera contemporânea — o disco poderia ter sido lançado ontem.
O repertório impressiona: Vinicius, Cazuza, Gilberto Gil, Dinho Ouro Preto. A sonoridade é de elite, sem perder a simplicidade das melodias. Bebel costura brasilidade e modernidade com elegância, e até sons que lembram conchas e vento nos transportam à beira-mar.
O baixo brilha em “Bananeira”, junto a metais e flautas que dão vida ao groove. É um Brasil filtrado e refinado, o que explica o reconhecimento maior no exterior.
Em “Samba e Amor”, só voz e violão — uma pausa intimista e necessária. Já em “So Nice (Summer Samba)”, o arranjo é puro requinte: bongôs, baixo sutil, flauta e reverb que preenche o ar. “Mais Feliz” surpreende com o uso de um copofone, som que parece de outro mundo.
“Tanto Tempo” é um disco de atmosfera e intenção. Sofisticado, atemporal e lindamente brasileiro — um retrato de um país que aprendeu a ser ouvido lá fora sem perder a própria alma.
www.youtube.com/playlist?list...
#bebelgilberto #bossanova #mpb #cazuza
3 months ago | [YT] | 0
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Thales Tkzin :):
Em mais um episódio da minha lista de escutar os 1001 álbuns que todos devem ouvir antes de morrer, decidi revisitar um disco que já conhecia de longe — tinha ouvido uma ou outra faixa, mas na época, o contexto não ajudou. Preciso dizer: ouvir uma música desse álbum na academia definitivamente não foi uma boa escolha. Só que dessa vez, tudo parecia diferente.
Não sei se fui eu quem mudou, ou se meu estado de espírito estava precisando de obras mais calmas, mas foi uma excelente decisão me permitir ouvir novamente — e completo dessa vez.
Confesso que essa semana começou difícil. No domingo, resolvi beber com uns amigos, passei um pouco do ponto, dei perda total e acordei derrubado na segunda-feira. A sensação era de que aquela seria a pior semana da minha vida. Fiz menos do que o de costume, e a bola de neve foi crescendo até que percebi que talvez eu estivesse me cobrando demais. No fim das contas, eu não sou um robô que faz tudo freneticamente.
Hoje, veio um pensamento: “Vou deixar a música me levar.”
E se soubesse que essa era a melhor opção, teria começado a semana assim desde segunda-feira. É o que vou fazer religiosamente a partir de agora: começar cada semana ouvindo um álbum completo.
O álbum da vez é Getz/Gilberto, fruto da parceria entre o nosso João Gilberto e o saxofonista norte-americano Stan Getz. Ele começa com “Garota de Ipanema”, numa versão diferente da original. Não há o backing vocal feminino coral, o que tira um pouco da alegria que a música tinha — ainda que a Bossa Nova sempre tenha um “quê” de contenção emocional.
Essa versão traz um complemento inédito em inglês, e diferente da de Sinatra, ela combina perfeitamente com a voz sutil de Astrud Gilberto (esposa de João na época). Eu amei a voz dela. Não é potente como Elis ou Ella, mas soa como se tivesse nascido para essa música. Sem ela, a faixa parece incompleta. Não à toa, essa versão venceu o Grammy de Música do Ano em 1965 — tornando Astrud a primeira mulher a conquistar o prêmio.
O álbum é muito bem mixado para a época. Ainda assim, dá pra perceber o que seria aprimorado numa remasterização atual — especialmente o ruído do saxofone, que me pegou de surpresa. Não esperava o instrumento em mono e centralizado, mas conforme o álbum avança, o sax de Getz ganha vida, fala, chora, desabafa. Depois do susto, ele se torna indispensável.
O violão 2x2 da Bossa é previsível e sutil, perfeito para estudar ou acalmar o coração. Mas quando o sax entra com escalas imprevisíveis, o coração precisa confiar no músico.
Há também um piano/teclado que, por vezes, assume o papel do violão, como se teclas e cordas dançassem juntas. E quando o piano se solta, o faz com classe e timidez — minimalista e precioso. Aparece principalmente no lado direito da mixagem, e aquele estilo de tocar denuncia: é Tom Jobim. Não precisei olhar os créditos. O jeito dele é inconfundível e memorável.
A voz de João Gilberto é contida e sucinta, mas quando aparece, tem peso. O mesmo vale para o sax. A presença e a ausência de ambos são sentidas — e isso é pra poucos.
O baixo, tocado por Sebastião Neto, também tem seus momentos de protagonismo. O mérito, nesse caso, vai ao engenheiro de som, pela sensibilidade. O baixo não tem groove e nem precisa: é simples, cordial, e parece ser tocado de olhos fechados, com a alma em outro lugar.
E é com essa obra que meus ouvidos e meu coração parecem ter encontrado paz. Getz/Gilberto me trouxe conforto e sentido.
Minha faixa favorita foi Corcovado, e já consigo imaginá-la num sample.
Eu amo ser brasileiro.
Esse disco parece ter sido feito pra mim — e é incrível como a música ainda exerce poder sobre almas de todas as idades, mesmo 60 anos depois.
#joãogilberto #stangetz #bossanova #mpb #jazz
3 months ago | [YT] | 1
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