Ouvi “Grace” (1994), álbum de estreia do Jeff Buckley, e fiquei meio desnorteado. É um disco onde a voz é o instrumento principal — tudo orbita em torno dela. Em “Mojo Pin”, o clima muda de melancolia pra doçura e depois pra confissão crua. A frase sobre não precisar de heroína pra se manter satisfeito me pegou forte. A música brinca com ritmo e BPM como se quisesse simular a própria ação da droga no corpo. Parece que são várias músicas dentro de uma só.
“Grace” já vem mais direta, quase um diário de alguém flertando com a morte. O violão alterna entre palhetadas e dedilhados, a bateria acompanha sem roubar a cena, e a voz ganha camadas sutis de coral e efeitos. Tem até um som de “tempo passando” que conversa com a letra — detalhe fino de produção.
Em “Last Goodbye”, o baixo finalmente aparece com mais presença. A vibe é leve no instrumental, quase pop, mas a letra é pesada: amar e se afastar ao mesmo tempo. Violino por baixo dá uma classe absurda. Já “Lilac Wine” é puro vai e vem de tensão: instrumentos entram e somem, a voz cresce quando a emoção pede, a bateria aparece só pra apertar o coração.
“So Real” traz acordes com sétima pedindo continuidade, refrão mais cheio, guitarra suja lembrando grunge, e uns gritos que mostram o alcance vocal absurdo do Buckley. Rock n roll com sentimento, não só pose.
“Hallelujah” é um capítulo à parte. Ele canta as notas que a letra descreve, sobe quando fala de ascender, desce quando fala de cair. O “aleluia” aqui é conforto, mas também solidão. Parece uma conversa com Deus misturada com rancor e cansaço. Reverb e falsete transformam a voz num instrumento quente, quase espiritual.
“Lover, You Should’ve Come Over” me quebrou. Órgão com clima de velório, letra de desilusão e lucidez tardia. Fala de errar, perder, amadurecer tarde demais. É a dor de quem ama e se perde no próprio impulso. Minha favorita do disco.
“Corpus Christi Carol” soa como uma missa: falsete, reverb, algo angelical. “Eternal Life” vem com raiva rock n roll, questionando líderes, guerra e fé distorcida. “Dream Brother” fecha com um clima de trauma e abandono, quase uma súplica pra não repetir ciclos.
Não tem solos virtuosos aqui — tem intenção. “Grace” é um disco sobre sentir sem anestesia. Voz como instrumento, dor como linguagem, beleza como consequência.
O disco começa como um filme: som de água, alguém na banheira, um casal conversando… cordas, vozes, e então entra a voz icônica do Snoop. Já dá pra sentir que isso não é só um álbum de rap, é uma experiência sonora.
O primeiro beat é G-Funk puro, swingado, clássico dos anos 90. Produção com a cara do Dr. Dre: minimalista, elegante e extremamente precisa. Ele usa timbres de voz como instrumentos, constrói camadas sem excessos. O baixo é grave, distorcido, quase solando por trás de tudo, enquanto sintetizadores criam tensão e aliviam o groove.
Sempre me impressiona como esses beats antigos soam ricos sem precisar de “samplezão”. A música nasce do instrumento. É a origem do som. Outra mentalidade.
Em “Gin and Juice”, os vocais cantados não entram como refrão óbvio, há interferências de rádio, anúncios, ambiência. Dre não faz só música, ele cria cenários. Em “Tha Shiznit”, uma descida de escala curiosa e um flow que te obriga a balançar a cabeça. Snoop é liso demais.
O disco alterna leveza e peso. Tem groove, humor, mas também tiros, sino de igreja, coma, prisão, pactos simbólicos. É quase cinematográfico. Mesmo nas faixas mais gangsta, o discurso não atropela a música — isso define a vibe.
“Who Am I (What’s My Name?)” é puro branding: feita pra fixar o nome do artista na cabeça. Não à toa foi o primeiro single. Dre é cirúrgico: só entra o que falta, nunca sobra. Nate Dogg aparece, Jewell, George Clinton… tudo se conecta.
Tem escola simulada, criança dizendo que quer ser traficante quando crescer, tensão e repouso o tempo todo. O flow do Snoop é natural, elegante, sem esforço.
No fim, Doggystyle é um clássico porque transforma um discurso pesado em algo dançante, envolvente e até leve. Gangsta, mas com charme. G-Funk no seu estado mais refinado.
Ouvir “Alfagamabetizado” (1996) hoje é perceber o quanto Carlinhos Brown estava à frente do tempo. O disco começa como uma interferência: palavras gregas, ruídos, violinos. Parece uma máquina tentando falar — e logo em seguida o corpo começa a se mover.
“Pandeiro-Deiro” já entrega o espírito do álbum: suingue, mistura, identidade. Apesar do nome, o pandeiro é sutil. Há bateria poderosa, guitarras distorcidas, percussões trocando de lugar o tempo todo. Tudo tem função, nada é apego. Brown usa a voz como instrumento, a boca como percussão, o estéreo como linguagem. Meu corpo balança sem pedir permissão.
Eu esperava um disco puramente percussivo, mas encontro muita harmonia, jogos de palavras divertidos e melodias simples que escondem complexidade. Instrumentos entram e saem com precisão cirúrgica. A mixagem valoriza o espaço, o silêncio, o impacto.
Em faixas como “Covered Saints” e “Cumplicidade de Armário”, há blues, rap, funk, África, Bahia e mundo convivendo sem conflito. Sopros criam ambiência, guitarras dialogam com teclados, baixos assumem protagonismo. Tudo soa vivo, humano.
“O Bode” foi uma surpresa pessoal: conhecia a música por outra banda e descobrir que é do Brown foi uma vitória íntima. Já “Seo Zé”, com Marisa Monte, carrega uma das frases mais fortes do disco — o Brasil não é só verde, amarelo e azul. É rosa e carvão.
Esse álbum soa como trilha sonora de memória, de paisagem, de identidade. Cada instrumento aparece no momento exato. Nada sobra. Nada falta.
“Alfagamabetizado” não é só um disco: é um manifesto sonoro, um documento cultural e uma aula de como tradição e experimentação podem caminhar juntas. Um clássico que continua pulsando.
Carlinhos Brown é muitos — e aqui, ele é todos ao mesmo tempo.
Ouvir "The Chronic" (1992) é entrar direto no estado mental do Dr. Dre. Logo na introdução dá pra sentir a raiva acumulada, o incômodo, a necessidade de falar o que ficou entalado por anos. Depois de assistir Straight Outta Compton, tudo faz ainda mais sentido: os conflitos com Eazy-E, Jerry Heller, a ruptura com o N.W.A. e o clima pesado da Death Row. Esse álbum soa como a carta de alforria do Dre.
Como produtor, ele já mostra sua assinatura: beats orgânicos, pratos que conduzem o groove, graves melódicos, teclados elétricos e uma bateria que soa real. Nada de hi-hats digitais modernos — aqui o swing é noventista, lembra mais bailes charme do que a estética eletrônica atual. Não é um disco “à frente do tempo”, é um disco que te coloca exatamente nos anos 90.
Em “Fuck Wit Dre Day”, a raiva vira discurso direto. Dre fala de traição e confronto, enquanto Snoop Dogg entra equilibrando tudo com carisma, flow e leveza. A química entre os dois é evidente. Em “Let Me Ride”, Dre brinca com o estéreo, troca hi-hats por snares e usa detalhes sutis (como um wah-wah discreto) pra evitar qualquer sensação de repetição.
As letras funcionam como diário de Compton: violência, vigilância constante e sobrevivência. Em “The Day The Niggaz Took Over”, o álbum ganha peso político, citando o apartheid, usando ruídos de rádio e deixando claro que o rap aqui também é manifesto.
“Nuthin’ But A ‘G’ Thang” surge como a faixa mais acessível — estratégica, melódica e comercial. É ali que fica claro por que Dre é um arquiteto do hip-hop: três melodias bem pensadas, simplicidade difícil de alcançar e identidade absoluta.
Entre quebras inesperadas, texturas ousadas e momentos controversos, The Chronic expõe uma realidade crua sem pedir desculpas. Não é só um clássico do rap — é um documento social, sonoro e histórico.
Ouvir Da Lama ao Caos (1994) foi como finalmente entrar na mente do Chico Science. Eu já conhecia o nome, a ligação com Recife, já tinha visto o documentário “Um Caranguejo Elétrico”, mas só agora parei pra ouvir de verdade — e o impacto foi enorme.
Esse disco não causa estranheza gratuita. Ele provoca curiosidade. É uma convocação. Chico está chamando a multidão. Logo no início, decisões simples dizem muito: a primeira faixa em mono, a seguinte em estéreo. Parece que a mensagem é clara — o importante é soar bem aos ouvidos.
Tudo aqui soa como um manifesto. A instrumentação mistura guitarra, percussão, groove e experimentação de um jeito muito consciente. Há sons que aparecem uma única vez e somem, criando surpresa. Há texturas que hoje seriam feitas em software, mas que aqui ganham outra força por serem tocadas, vivas.
A mixagem, assinada por Liminha, é fundamental. Me trouxe a mesma sensação de Nevermind, do Nirvana: a obra já é forte, mas a mixagem é o que torna tudo acessível sem perder identidade. Ela te leva direto pra Recife — sem te expulsar do conforto de ouvir.
A guitarra é simples, mas cheia de personalidade. Um espírito noventista muito claro, quase um “grunge brasileiro”, só que cheio de groove. A voz de Chico não tenta ser protagonista: ele soa como um mensageiro. O discurso, sim, é revolucionário.
Faixas como “Samba Makossa” e “A Praieira” mostram isso bem: simples, marcantes, com um linguajar que pode soar estranho ao mercado, mas que casa perfeitamente com o sotaque pernambucano. É ali que a identidade acontece.
Esse disco não tenta levar o Nordeste pro mundo. Ele faz o contrário: convida o mundo a entrar aqui. Dá orgulho ouvir algo tão bem ensaiado, tão orgânico, tão vivo.
Fiquei com vontade imediata de ouvir o próximo álbum.
Ouvi “Xtranho”, novo álbum do Matuê, e já deixo claro: não é meu disco favorito dele, mas é impossível ignorar a evolução sonora, estética e estratégica do projeto.
Antes de falar do álbum, é preciso olhar o contexto: o Brasil ainda consome música com rimas previsíveis, referências limitadas e uma cena de trap enfraquecida por festivais sucateados e expectativas irreais. Ao mesmo tempo, o público cobra inovação, mas só aceita referências vindas dos EUA. É um paradoxo.
Matuê parece ter cansado disso. Ex-professor de inglês, saturado das mesmas fórmulas da indústria, ele foi buscar outras fontes — e deixa isso claro quando assume uma estética “que só tem na Alemanha”. Ele sabia que causaria resistência. “Meu Cemitério”, música de trabalho, vem com BPM mais baixo (117), quebrando a expectativa de drops explosivos e euforia de festival. A disrupção começa aí.
Ciente do risco, ele acerta ao trazer feats do underground brasileiro, ampliando vozes fora da bolha da 30PRAUM. Isso aparece até na mixagem: cada faixa soa diferente. Em algumas, os adlibs são discretos; em outras, viram backing vocals. Nada engessado.
Nem tudo me agrada — e tudo bem. Um álbum bom não é aquele em que todas as faixas agradam, mas aquele em que algumas ficam. Os feats femininos me surpreenderam muito, com uma mixagem limpa, pop e levemente suja, exatamente o que o trap polido precisava repensar.
A produção mostra cuidado: drum kits variados, menos cordas, mais eletrônicos, clima sombrio como contraste ao álbum anterior. “Rei Tuê” abre o disco dialogando com os fãs mais antigos, enquanto o resto aponta pra frente.
Matuê não está fazendo algo revolucionário — mas, por enquanto, é o único que ousou mudar a referência. “Xtranho” é o nome perfeito: foi a reação dele, e foi a do público. A estética chama atenção, mas a mensagem está nas frequências. O marketing provoca — a arte acontece no som.
Em mais um capítulo da minha saga ouvindo os 1001 álbuns, cheguei ao disco de estreia de Caetano Veloso (1968) — e que viagem.
A abertura com “Tropicália” já te joga num Brasil vivo, cheio de batuques, imagens e contrastes. Caetano costura palavras como quem monta um mosaico do país. A mixagem tem aquele charme de 1968, meio torta, meio linda. E o final sem tônica parece dizer: “calma, ainda tem mais”.
“Clarice” e “No dia em que eu vim-me embora” soam como duas partes da mesma história: partida, silêncio, mala pronta, futuro incerto. Sendo nordestino, me identifiquei pesado — esse sentimento de deixar casa nunca sai da pele.
Quando chega “Alegria, Alegria”, bate a sensação de curiosidade diante do mundo. A frase “Eu vou, porque não?” virou quase um mantra. A música fala sobre caminhar sem mapa, confiando no caminho.
“Onde Andarás?” mostra o outro lado: quando o novo vira hábito e o tédio aparece. Já “Superbacana” é Caetano elétrico, rimando “supersônica” como se fosse óbvio, encarando a cidade grande com os olhos brilhando.
Em “Clara”, a presença da Clara Nunes dá uma camada extra: ela interpreta Clara, e Caetano canta como marinheiro. A mistura entre “Clara” e “águas claras” é linda demais. E a flauta doce? Puro gatilho de infância.
Daí ele mete “Soy Loco Por Ti, América” no álbum de estreia. Apaixonada, dançante, misturando português e espanhol. Uma ode ao continente.
“Eles” fecha discutindo futuro, dinheiro e a mania humana de esperar amanhã pra viver hoje. O baixo aqui é destaque.
O que eu mais senti: Caetano é obsessivo nos detalhes. Ele descreve cheiros, cômodos, cenas inteiras. É experimental sem medo — violinos, pausas, conversas com maestro, e quase nada de guitarra. É como se ele dissesse: o Brasil é estranho, bonito e gigante — e a música também pode ser.
Fechei o disco admirando o cara. E rindo porque ele ainda dá a deixa pros Mutantes no final. Caetano é estrategista desde sempre.
Comecei errado: ouvi Frank Zappa solo antes de ouvir o Mothers of Invention, culpa do meu amigo Fox. Mas depois que ele me mandou um vídeo ao vivo da banda, decidi finalmente ouvir o disco de estreia deles, “Freak Out!” (1966). E logo na primeira faixa já percebi que eu não fazia ideia do que me esperava.
O álbum começa com uma vibe “boy band” que me enganou direitinho. Achei que vinha aí uma tentativa americana de imitar os Beatles… até que o disco virou outra coisa completamente diferente, algo tão progressivo pra época que às vezes nem parece anos 60. E o mais impressionante: eu jurava que seria um álbum só instrumental, então ser surpreendido por vocais logo no começo já desmontou minhas expectativas.
A guitarra é o grande cérebro do disco — rasgada, aguda, identitária, nada polida, com aquela sujeira perfeita que mostra o toque real do instrumentista. E o uso do estéreo é completamente caótico (no melhor sentido). Às vezes a bateria está no centro, às vezes só no lado esquerdo… e tem momentos em que o bumbo está de um lado e o resto do kit no outro. É chocante e genial.
O Mothers cria cenários inteiros: sons de respiração que parecem gemidos, imitações de pássaros, gaitas, metais, teclados psicodélicos… tudo compondo pequenas peças de teatro dentro do fone. Tem hora que parece trilha de gangue de motoqueiro no deserto, hora que parece Doors, hora que vira bagunça controlada.
O disco pula entre músicas “bonitinhas” de dois vocalistas no mesmo microfone e depois volta pra um caos sonoro total. Tem monólogos, ruídos, reverb pesado, gritos, interferências, solos que parecem conversas… e até efeito de voz fininha estilo Alvin e os Esquilos — em 1966.
Algumas músicas aceleram o BPM conforme avançam, outras têm drops (antes disso ter nome), e várias misturam diálogos, sons de animais e atmosferas cinematográficas. As minhas favoritas foram “Trouble Every Day” e “Motherly Love”, as mais radiofônicas e as únicas que me fizeram dançar sem perceber.
No fim, “Freak Out!” me deu a sensação de assistir um show dentro da minha cabeça. Se eles são assim em estúdio, imagina ao vivo. É literalmente como entrar num cinema auditivo — caos, teatro, ironia, invenção e energia pura.
Em mais um episódio da minha saga ouvindo os 1001 discos para ouvir antes de morrer, cheguei a “Vento de Maio”, da nossa incomparável Elis Regina — e que experiência.
Logo na primeira faixa, um detalhe técnico me chama atenção: um batuque (parece um agogô) só no lado esquerdo da mixagem, junto a uma referência a “Um girassol da cor do seu cabelo”, do Clube da Esquina. A partir daí, o álbum já mostra que vai além do óbvio.
O que mais me encantou é como esse disco revela uma Elis mais contida, madura e experimental, diferente da teatralidade de “O bêbado e o equilibrista”. Em “Tiro ao Álvaro”, a parceria com Adoniran é simplesmente deliciosa — ele mesmo dizia que ela cantava “do jeito que ele gostava”.
Mas o ápice, pra mim, é “O que foi feito deverá”, com Milton Nascimento. A mixagem, o equilíbrio entre os dois, a força do violão e as camadas vocais — tudo é de uma precisão que beira o milagre.
Outros momentos me marcaram profundamente: 🎧 “Rebento” — começa suave e explode em emoção, um verdadeiro estudo sobre interpretação. 🔥 “Calcanhar de Aquiles” — dançante, viva, e com uma Elis tão divertida que dá pra sentir o sorriso na voz. 💫 “Se eu quiser falar com Deus” — encerra o disco com uma espiritualidade desarmante.
“Vento de Maio” me fez entender, de fato, a diferença entre cantora e intérprete. Elis era as duas em grau máximo. Ela não apenas cantava — ela possuía cada música, transformava cada verso em verdade.
Esse álbum é um presente aos ouvidos, um abraço da arte brasileira no tempo. Obrigado, Elis. 🌬️💙
Seguindo minha saga dos 1001 discos, dessa vez decidi revisitar um que já tinha ouvido antes, mas do qual não lembrava quase nada — e isso é maravilhoso. Significa que pretendo ouvi-lo muitas vezes ao longo da vida, e ele sempre continuará uma incógnita positiva: “Clube da Esquina”, de Milton Nascimento & Lô Borges.
Minhas faixas favoritas até agora são “O Sol” e “Um Girassol da Cor do Seu Vestido”. Essa última eu já conhecia pelo filme “Somos Tão Jovens”, mas ouvir a versão original foi como descobrir uma lembrança antiga de mim mesmo.
O disco tem um trabalho de panorama de som incrível — cordas de um lado, batida do outro. Teve um momento em que achei que o fone tinha parado, mas era só o Milton brincando com o espaço. Me senti trollado (e maravilhado).
Há passagens tensas, quando ficam apenas o violão e a voz. Em certos trechos, ele até soa como se cantasse em italiano. A ausência de batida mostra que música é movimento — e sem isso, tudo parece uma trama.
“Me Deixa em Paz”, com Alaíde Costa, é simplesmente genial. Que voz! O jeito que ela canta “...me iludir...” parece um sample feito nos anos 70, antes mesmo do hip-hop existir. Mesmo com batida, a faixa continua densa e emocional.
O álbum é um parque de diversões cultural — experimento, poesia, brasilidade, tudo junto. A guitarra às vezes soa como outro instrumento, e as músicas parecem trilhas de uma novela que a gente já viveu sem perceber.
Milton sobe o tom de repente, e parece que grita por força. Quando canta “O homem é mais sólido que a maré”, lembrei de Hemingway, que dizia que o mar pode ser cruel para criaturas frágeis.
“Um Gosto de Sol” me inspirou a imaginar um boombapzão acelerado — o disco desperta vontade de criar. Em outros momentos, o som ganha ares medievais, com metais e órgão, como uma trilha épica.
No final, o álbum parece se referir a si mesmo, um flashback sonoro, um déjà vu musical. E, do nada, tudo vira rock progressivo.
Thales Tkzin :):
Ouvi “Grace” (1994), álbum de estreia do Jeff Buckley, e fiquei meio desnorteado. É um disco onde a voz é o instrumento principal — tudo orbita em torno dela. Em “Mojo Pin”, o clima muda de melancolia pra doçura e depois pra confissão crua. A frase sobre não precisar de heroína pra se manter satisfeito me pegou forte. A música brinca com ritmo e BPM como se quisesse simular a própria ação da droga no corpo. Parece que são várias músicas dentro de uma só.
“Grace” já vem mais direta, quase um diário de alguém flertando com a morte. O violão alterna entre palhetadas e dedilhados, a bateria acompanha sem roubar a cena, e a voz ganha camadas sutis de coral e efeitos. Tem até um som de “tempo passando” que conversa com a letra — detalhe fino de produção.
Em “Last Goodbye”, o baixo finalmente aparece com mais presença. A vibe é leve no instrumental, quase pop, mas a letra é pesada: amar e se afastar ao mesmo tempo. Violino por baixo dá uma classe absurda. Já “Lilac Wine” é puro vai e vem de tensão: instrumentos entram e somem, a voz cresce quando a emoção pede, a bateria aparece só pra apertar o coração.
“So Real” traz acordes com sétima pedindo continuidade, refrão mais cheio, guitarra suja lembrando grunge, e uns gritos que mostram o alcance vocal absurdo do Buckley. Rock n roll com sentimento, não só pose.
“Hallelujah” é um capítulo à parte. Ele canta as notas que a letra descreve, sobe quando fala de ascender, desce quando fala de cair. O “aleluia” aqui é conforto, mas também solidão. Parece uma conversa com Deus misturada com rancor e cansaço. Reverb e falsete transformam a voz num instrumento quente, quase espiritual.
“Lover, You Should’ve Come Over” me quebrou. Órgão com clima de velório, letra de desilusão e lucidez tardia. Fala de errar, perder, amadurecer tarde demais. É a dor de quem ama e se perde no próprio impulso. Minha favorita do disco.
“Corpus Christi Carol” soa como uma missa: falsete, reverb, algo angelical. “Eternal Life” vem com raiva rock n roll, questionando líderes, guerra e fé distorcida. “Dream Brother” fecha com um clima de trauma e abandono, quase uma súplica pra não repetir ciclos.
Não tem solos virtuosos aqui — tem intenção. “Grace” é um disco sobre sentir sem anestesia. Voz como instrumento, dor como linguagem, beleza como consequência.
#JeffBuckley #rockalternativo #folkrock #jazzrock
6 days ago | [YT] | 1
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Thales Tkzin :):
Doggystyle (1993) – Snoop Dogg
O disco começa como um filme: som de água, alguém na banheira, um casal conversando… cordas, vozes, e então entra a voz icônica do Snoop. Já dá pra sentir que isso não é só um álbum de rap, é uma experiência sonora.
O primeiro beat é G-Funk puro, swingado, clássico dos anos 90. Produção com a cara do Dr. Dre: minimalista, elegante e extremamente precisa. Ele usa timbres de voz como instrumentos, constrói camadas sem excessos. O baixo é grave, distorcido, quase solando por trás de tudo, enquanto sintetizadores criam tensão e aliviam o groove.
Sempre me impressiona como esses beats antigos soam ricos sem precisar de “samplezão”. A música nasce do instrumento. É a origem do som. Outra mentalidade.
Em “Gin and Juice”, os vocais cantados não entram como refrão óbvio, há interferências de rádio, anúncios, ambiência. Dre não faz só música, ele cria cenários. Em “Tha Shiznit”, uma descida de escala curiosa e um flow que te obriga a balançar a cabeça. Snoop é liso demais.
O disco alterna leveza e peso. Tem groove, humor, mas também tiros, sino de igreja, coma, prisão, pactos simbólicos. É quase cinematográfico. Mesmo nas faixas mais gangsta, o discurso não atropela a música — isso define a vibe.
“Who Am I (What’s My Name?)” é puro branding: feita pra fixar o nome do artista na cabeça. Não à toa foi o primeiro single. Dre é cirúrgico: só entra o que falta, nunca sobra. Nate Dogg aparece, Jewell, George Clinton… tudo se conecta.
Tem escola simulada, criança dizendo que quer ser traficante quando crescer, tensão e repouso o tempo todo. O flow do Snoop é natural, elegante, sem esforço.
No fim, Doggystyle é um clássico porque transforma um discurso pesado em algo dançante, envolvente e até leve. Gangsta, mas com charme. G-Funk no seu estado mais refinado.
#snoopdogg #drdre #doggystyle #gfunk #westcoasthiphop #gangstarap
2 weeks ago | [YT] | 5
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Thales Tkzin :):
Ouvir “Alfagamabetizado” (1996) hoje é perceber o quanto Carlinhos Brown estava à frente do tempo. O disco começa como uma interferência: palavras gregas, ruídos, violinos. Parece uma máquina tentando falar — e logo em seguida o corpo começa a se mover.
“Pandeiro-Deiro” já entrega o espírito do álbum: suingue, mistura, identidade. Apesar do nome, o pandeiro é sutil. Há bateria poderosa, guitarras distorcidas, percussões trocando de lugar o tempo todo. Tudo tem função, nada é apego. Brown usa a voz como instrumento, a boca como percussão, o estéreo como linguagem. Meu corpo balança sem pedir permissão.
Eu esperava um disco puramente percussivo, mas encontro muita harmonia, jogos de palavras divertidos e melodias simples que escondem complexidade. Instrumentos entram e saem com precisão cirúrgica. A mixagem valoriza o espaço, o silêncio, o impacto.
Em faixas como “Covered Saints” e “Cumplicidade de Armário”, há blues, rap, funk, África, Bahia e mundo convivendo sem conflito. Sopros criam ambiência, guitarras dialogam com teclados, baixos assumem protagonismo. Tudo soa vivo, humano.
“O Bode” foi uma surpresa pessoal: conhecia a música por outra banda e descobrir que é do Brown foi uma vitória íntima. Já “Seo Zé”, com Marisa Monte, carrega uma das frases mais fortes do disco — o Brasil não é só verde, amarelo e azul. É rosa e carvão.
Esse álbum soa como trilha sonora de memória, de paisagem, de identidade. Cada instrumento aparece no momento exato. Nada sobra. Nada falta.
“Alfagamabetizado” não é só um disco: é um manifesto sonoro, um documento cultural e uma aula de como tradição e experimentação podem caminhar juntas. Um clássico que continua pulsando.
Carlinhos Brown é muitos — e aqui, ele é todos ao mesmo tempo.
#carlinhosbrown #mpb #ijexá #axé #alfagamabetizado
4 weeks ago | [YT] | 6
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Thales Tkzin :):
Ouvir "The Chronic" (1992) é entrar direto no estado mental do Dr. Dre. Logo na introdução dá pra sentir a raiva acumulada, o incômodo, a necessidade de falar o que ficou entalado por anos. Depois de assistir Straight Outta Compton, tudo faz ainda mais sentido: os conflitos com Eazy-E, Jerry Heller, a ruptura com o N.W.A. e o clima pesado da Death Row. Esse álbum soa como a carta de alforria do Dre.
Como produtor, ele já mostra sua assinatura: beats orgânicos, pratos que conduzem o groove, graves melódicos, teclados elétricos e uma bateria que soa real. Nada de hi-hats digitais modernos — aqui o swing é noventista, lembra mais bailes charme do que a estética eletrônica atual. Não é um disco “à frente do tempo”, é um disco que te coloca exatamente nos anos 90.
Em “Fuck Wit Dre Day”, a raiva vira discurso direto. Dre fala de traição e confronto, enquanto Snoop Dogg entra equilibrando tudo com carisma, flow e leveza. A química entre os dois é evidente. Em “Let Me Ride”, Dre brinca com o estéreo, troca hi-hats por snares e usa detalhes sutis (como um wah-wah discreto) pra evitar qualquer sensação de repetição.
As letras funcionam como diário de Compton: violência, vigilância constante e sobrevivência. Em “The Day The Niggaz Took Over”, o álbum ganha peso político, citando o apartheid, usando ruídos de rádio e deixando claro que o rap aqui também é manifesto.
“Nuthin’ But A ‘G’ Thang” surge como a faixa mais acessível — estratégica, melódica e comercial. É ali que fica claro por que Dre é um arquiteto do hip-hop: três melodias bem pensadas, simplicidade difícil de alcançar e identidade absoluta.
Entre quebras inesperadas, texturas ousadas e momentos controversos, The Chronic expõe uma realidade crua sem pedir desculpas. Não é só um clássico do rap — é um documento social, sonoro e histórico.
#drdre #gangstarap #thechronic #culturahiphop #raphiphop
1 month ago | [YT] | 5
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Thales Tkzin :):
Ouvir Da Lama ao Caos (1994) foi como finalmente entrar na mente do Chico Science. Eu já conhecia o nome, a ligação com Recife, já tinha visto o documentário “Um Caranguejo Elétrico”, mas só agora parei pra ouvir de verdade — e o impacto foi enorme.
Esse disco não causa estranheza gratuita. Ele provoca curiosidade. É uma convocação. Chico está chamando a multidão. Logo no início, decisões simples dizem muito: a primeira faixa em mono, a seguinte em estéreo. Parece que a mensagem é clara — o importante é soar bem aos ouvidos.
Tudo aqui soa como um manifesto. A instrumentação mistura guitarra, percussão, groove e experimentação de um jeito muito consciente. Há sons que aparecem uma única vez e somem, criando surpresa. Há texturas que hoje seriam feitas em software, mas que aqui ganham outra força por serem tocadas, vivas.
A mixagem, assinada por Liminha, é fundamental. Me trouxe a mesma sensação de Nevermind, do Nirvana: a obra já é forte, mas a mixagem é o que torna tudo acessível sem perder identidade. Ela te leva direto pra Recife — sem te expulsar do conforto de ouvir.
A guitarra é simples, mas cheia de personalidade. Um espírito noventista muito claro, quase um “grunge brasileiro”, só que cheio de groove. A voz de Chico não tenta ser protagonista: ele soa como um mensageiro. O discurso, sim, é revolucionário.
Faixas como “Samba Makossa” e “A Praieira” mostram isso bem: simples, marcantes, com um linguajar que pode soar estranho ao mercado, mas que casa perfeitamente com o sotaque pernambucano. É ali que a identidade acontece.
Esse disco não tenta levar o Nordeste pro mundo. Ele faz o contrário: convida o mundo a entrar aqui. Dá orgulho ouvir algo tão bem ensaiado, tão orgânico, tão vivo.
Fiquei com vontade imediata de ouvir o próximo álbum.
Chico vive.
#chicoscience #chicoscienceenaçãozumbi #naçãozumbi #manguebeat #dalamaaocaos
1 month ago | [YT] | 8
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Thales Tkzin :):
Ouvi “Xtranho”, novo álbum do Matuê, e já deixo claro: não é meu disco favorito dele, mas é impossível ignorar a evolução sonora, estética e estratégica do projeto.
Antes de falar do álbum, é preciso olhar o contexto: o Brasil ainda consome música com rimas previsíveis, referências limitadas e uma cena de trap enfraquecida por festivais sucateados e expectativas irreais. Ao mesmo tempo, o público cobra inovação, mas só aceita referências vindas dos EUA. É um paradoxo.
Matuê parece ter cansado disso. Ex-professor de inglês, saturado das mesmas fórmulas da indústria, ele foi buscar outras fontes — e deixa isso claro quando assume uma estética “que só tem na Alemanha”. Ele sabia que causaria resistência. “Meu Cemitério”, música de trabalho, vem com BPM mais baixo (117), quebrando a expectativa de drops explosivos e euforia de festival. A disrupção começa aí.
Ciente do risco, ele acerta ao trazer feats do underground brasileiro, ampliando vozes fora da bolha da 30PRAUM. Isso aparece até na mixagem: cada faixa soa diferente. Em algumas, os adlibs são discretos; em outras, viram backing vocals. Nada engessado.
Nem tudo me agrada — e tudo bem. Um álbum bom não é aquele em que todas as faixas agradam, mas aquele em que algumas ficam. Os feats femininos me surpreenderam muito, com uma mixagem limpa, pop e levemente suja, exatamente o que o trap polido precisava repensar.
A produção mostra cuidado: drum kits variados, menos cordas, mais eletrônicos, clima sombrio como contraste ao álbum anterior. “Rei Tuê” abre o disco dialogando com os fãs mais antigos, enquanto o resto aponta pra frente.
Matuê não está fazendo algo revolucionário — mas, por enquanto, é o único que ousou mudar a referência. “Xtranho” é o nome perfeito: foi a reação dele, e foi a do público. A estética chama atenção, mas a mensagem está nas frequências. O marketing provoca — a arte acontece no som.
#Matuê #Xtranho #30praum #trapbrasileiro #trapbr #culturahiphop
1 month ago | [YT] | 3
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Thales Tkzin :):
Em mais um capítulo da minha saga ouvindo os 1001 álbuns, cheguei ao disco de estreia de Caetano Veloso (1968) — e que viagem.
A abertura com “Tropicália” já te joga num Brasil vivo, cheio de batuques, imagens e contrastes. Caetano costura palavras como quem monta um mosaico do país. A mixagem tem aquele charme de 1968, meio torta, meio linda. E o final sem tônica parece dizer: “calma, ainda tem mais”.
“Clarice” e “No dia em que eu vim-me embora” soam como duas partes da mesma história: partida, silêncio, mala pronta, futuro incerto. Sendo nordestino, me identifiquei pesado — esse sentimento de deixar casa nunca sai da pele.
Quando chega “Alegria, Alegria”, bate a sensação de curiosidade diante do mundo. A frase “Eu vou, porque não?” virou quase um mantra. A música fala sobre caminhar sem mapa, confiando no caminho.
“Onde Andarás?” mostra o outro lado: quando o novo vira hábito e o tédio aparece. Já “Superbacana” é Caetano elétrico, rimando “supersônica” como se fosse óbvio, encarando a cidade grande com os olhos brilhando.
Em “Clara”, a presença da Clara Nunes dá uma camada extra: ela interpreta Clara, e Caetano canta como marinheiro. A mistura entre “Clara” e “águas claras” é linda demais. E a flauta doce? Puro gatilho de infância.
Daí ele mete “Soy Loco Por Ti, América” no álbum de estreia. Apaixonada, dançante, misturando português e espanhol. Uma ode ao continente.
“Eles” fecha discutindo futuro, dinheiro e a mania humana de esperar amanhã pra viver hoje. O baixo aqui é destaque.
O que eu mais senti: Caetano é obsessivo nos detalhes. Ele descreve cheiros, cômodos, cenas inteiras. É experimental sem medo — violinos, pausas, conversas com maestro, e quase nada de guitarra. É como se ele dissesse: o Brasil é estranho, bonito e gigante — e a música também pode ser.
Fechei o disco admirando o cara. E rindo porque ele ainda dá a deixa pros Mutantes no final. Caetano é estrategista desde sempre.
#caetanoveloso #tropicália #tropicalismo #mpb #ditaduranuncamais
www.youtube.com/playlist?list...
2 months ago | [YT] | 1
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Thales Tkzin :):
Comecei errado: ouvi Frank Zappa solo antes de ouvir o Mothers of Invention, culpa do meu amigo Fox. Mas depois que ele me mandou um vídeo ao vivo da banda, decidi finalmente ouvir o disco de estreia deles, “Freak Out!” (1966). E logo na primeira faixa já percebi que eu não fazia ideia do que me esperava.
O álbum começa com uma vibe “boy band” que me enganou direitinho. Achei que vinha aí uma tentativa americana de imitar os Beatles… até que o disco virou outra coisa completamente diferente, algo tão progressivo pra época que às vezes nem parece anos 60. E o mais impressionante: eu jurava que seria um álbum só instrumental, então ser surpreendido por vocais logo no começo já desmontou minhas expectativas.
A guitarra é o grande cérebro do disco — rasgada, aguda, identitária, nada polida, com aquela sujeira perfeita que mostra o toque real do instrumentista. E o uso do estéreo é completamente caótico (no melhor sentido). Às vezes a bateria está no centro, às vezes só no lado esquerdo… e tem momentos em que o bumbo está de um lado e o resto do kit no outro. É chocante e genial.
O Mothers cria cenários inteiros: sons de respiração que parecem gemidos, imitações de pássaros, gaitas, metais, teclados psicodélicos… tudo compondo pequenas peças de teatro dentro do fone. Tem hora que parece trilha de gangue de motoqueiro no deserto, hora que parece Doors, hora que vira bagunça controlada.
O disco pula entre músicas “bonitinhas” de dois vocalistas no mesmo microfone e depois volta pra um caos sonoro total. Tem monólogos, ruídos, reverb pesado, gritos, interferências, solos que parecem conversas… e até efeito de voz fininha estilo Alvin e os Esquilos — em 1966.
Algumas músicas aceleram o BPM conforme avançam, outras têm drops (antes disso ter nome), e várias misturam diálogos, sons de animais e atmosferas cinematográficas. As minhas favoritas foram “Trouble Every Day” e “Motherly Love”, as mais radiofônicas e as únicas que me fizeram dançar sem perceber.
No fim, “Freak Out!” me deu a sensação de assistir um show dentro da minha cabeça. Se eles são assim em estúdio, imagina ao vivo. É literalmente como entrar num cinema auditivo — caos, teatro, ironia, invenção e energia pura.
Tô pronto pro próximo.
#themothersofinvention #frankzappa #freakout #rockandroll #blues #rockprogressivo #rockexperimental
https://www.youtube.com/watch?v=-Wq83...
2 months ago | [YT] | 0
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Thales Tkzin :):
Em mais um episódio da minha saga ouvindo os 1001 discos para ouvir antes de morrer, cheguei a “Vento de Maio”, da nossa incomparável Elis Regina — e que experiência.
Logo na primeira faixa, um detalhe técnico me chama atenção: um batuque (parece um agogô) só no lado esquerdo da mixagem, junto a uma referência a “Um girassol da cor do seu cabelo”, do Clube da Esquina. A partir daí, o álbum já mostra que vai além do óbvio.
O que mais me encantou é como esse disco revela uma Elis mais contida, madura e experimental, diferente da teatralidade de “O bêbado e o equilibrista”. Em “Tiro ao Álvaro”, a parceria com Adoniran é simplesmente deliciosa — ele mesmo dizia que ela cantava “do jeito que ele gostava”.
Mas o ápice, pra mim, é “O que foi feito deverá”, com Milton Nascimento. A mixagem, o equilíbrio entre os dois, a força do violão e as camadas vocais — tudo é de uma precisão que beira o milagre.
Outros momentos me marcaram profundamente:
🎧 “Rebento” — começa suave e explode em emoção, um verdadeiro estudo sobre interpretação.
🔥 “Calcanhar de Aquiles” — dançante, viva, e com uma Elis tão divertida que dá pra sentir o sorriso na voz.
💫 “Se eu quiser falar com Deus” — encerra o disco com uma espiritualidade desarmante.
“Vento de Maio” me fez entender, de fato, a diferença entre cantora e intérprete. Elis era as duas em grau máximo. Ela não apenas cantava — ela possuía cada música, transformava cada verso em verdade.
Esse álbum é um presente aos ouvidos, um abraço da arte brasileira no tempo.
Obrigado, Elis. 🌬️💙
#VentoDeMaio #ElisRegina #ReviewMusical #1001Albuns #MúsicaBrasileira #MPB #ClubeDaEsquina #MiltonNascimento #AdoniranBarbosa #AnáliseMusical #ResenhaMusical #ArteBrasileira
3 months ago | [YT] | 0
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Thales Tkzin :):
Seguindo minha saga dos 1001 discos, dessa vez decidi revisitar um que já tinha ouvido antes, mas do qual não lembrava quase nada — e isso é maravilhoso. Significa que pretendo ouvi-lo muitas vezes ao longo da vida, e ele sempre continuará uma incógnita positiva: “Clube da Esquina”, de Milton Nascimento & Lô Borges.
Minhas faixas favoritas até agora são “O Sol” e “Um Girassol da Cor do Seu Vestido”. Essa última eu já conhecia pelo filme “Somos Tão Jovens”, mas ouvir a versão original foi como descobrir uma lembrança antiga de mim mesmo.
O disco tem um trabalho de panorama de som incrível — cordas de um lado, batida do outro. Teve um momento em que achei que o fone tinha parado, mas era só o Milton brincando com o espaço. Me senti trollado (e maravilhado).
Há passagens tensas, quando ficam apenas o violão e a voz. Em certos trechos, ele até soa como se cantasse em italiano. A ausência de batida mostra que música é movimento — e sem isso, tudo parece uma trama.
“Me Deixa em Paz”, com Alaíde Costa, é simplesmente genial. Que voz! O jeito que ela canta “...me iludir...” parece um sample feito nos anos 70, antes mesmo do hip-hop existir. Mesmo com batida, a faixa continua densa e emocional.
O álbum é um parque de diversões cultural — experimento, poesia, brasilidade, tudo junto. A guitarra às vezes soa como outro instrumento, e as músicas parecem trilhas de uma novela que a gente já viveu sem perceber.
Milton sobe o tom de repente, e parece que grita por força. Quando canta “O homem é mais sólido que a maré”, lembrei de Hemingway, que dizia que o mar pode ser cruel para criaturas frágeis.
“Um Gosto de Sol” me inspirou a imaginar um boombapzão acelerado — o disco desperta vontade de criar. Em outros momentos, o som ganha ares medievais, com metais e órgão, como uma trilha épica.
No final, o álbum parece se referir a si mesmo, um flashback sonoro, um déjà vu musical.
E, do nada, tudo vira rock progressivo.
#MiltonNascimento #ClubedaEsquina #LôBorges #MPB #BossaNova
3 months ago | [YT] | 1
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