Seu guia para um mundo complexo. Aqui, debatemos desde as últimas notícias até as mais profundas reflexões sobre a vida. Junte-se a nós nesta jornada de conhecimento e opinião!


Em Nome da Rosa

FLOP30:FIASCO, HIPOCRISIA E MANIPULAÇÃO.

Que me cancelem. Até reconheço a importância de trazer os holofotes para a Amazônia e debater o clima, mas minha paciência com a COP – ou “FLOP30”, como insisto em chamar – se esgotou. Toda aquela encenação solene de “governança global” me soa cada vez mais vazia. E se é para manter essa hipocrisia, seria mais honesto acabar de vez com esses eventos. Não passam de feiras de negócios com cobertura manipulado, onde tudo é orquestrado para que os senhores na Sala Azul sigam impunes, suas fachadas verdes intactas.

Enquanto o mundo literalmente pega fogo, a máquina que alimenta o caos veste terno sustentável e desfila em Belém. A mesma Vale de Mariana e Brumadinho, a JBS da boiada desmatada, a Hydro dos rios intoxicados – todas lá, não para serem julgadas, mas como patrocinadoras oficiais do debate. Bancam a imprensa que deveria fiscalizá-las. É o mundo de ponta-cabeça.

E não se engane: o lobby dos combustíveis fósseis nunca esteve tão forte. Eles passeiam pelos corredores, sussurram nos ouvidos dos negociadores, asseguram a “longevidade” do petróleo no próprio evento que deveria enterrá-lo. Do lado de fora, a Cúpula dos Povos, com indígenas e comunidades reais, é relegada ao papel de figurante. Suas vozes são o incômodo que a estrutura da COP foi criada para abafar.

O roteiro é sempre o mesmo: metas para daqui a 30 anos, acordos sem dentes, a velha promessa de “transição” que só serve para criar novos mercados, nunca para frear a destruição. As COPs 28 e 29 já foram esse mesmo fracasso. O Acordo de Paris é uma lembrança distante de um otimismo que não temos mais.

O professor Paulo Jubilut fez a pergunta que dói: como firmar acordos ambientais com quem lucra destruindo o ambiente? É como pedir a um viciado em jogo que reforme o cassino. O sistema econômico que organiza o mundo não pode salvar o planeta, porque sua existência depende da exploração infinita de um mundo finito.

Então talvez a pergunta não seja o que esperar da próxima COP. Talvez a verdadeira questão seja: quando vamos parar de pedir licença para esse sistema e começar a imaginar um mundo que não precise crescer até morrer? Um mundo onde “decrescer” não seja um palavrão, mas a única saída lógica para uma humanidade que esgotou o próprio lar.

A FLOP30 é o velho mundo fazendo de conta que se reinventa. O planeta, sangrando, não aguenta mais essa ficção.

2 months ago | [YT] | 34

Em Nome da Rosa

Amanhã vai rolar evento importante lá no canal ‪@brasilgrande‬ às 15 horas. Não percam.

2 months ago | [YT] | 7

Em Nome da Rosa

Galera, para quem perdeu, segue aqui outra participação em que falo sobre a filiação do Ciro Gomes ao PSDB

2 months ago | [YT] | 7

Em Nome da Rosa

JOSUÉ DE CASTRO, UM HOMEM CONTRA A FOME


Em um tempo de sombras e silêncios, quando a fome era um fantasma aceito com resignação fatalista, ergueu-se um titã de palavra clara e punho cerrado. Seu nome era Josué de Castro, e sua arma não era a espada, mas a lucidez impiedosa da ciência aliada ao fogo inextinguível da compaixão.

Nascido sob o sol inclemente do Nordeste brasileiro, se despediu dos brasileiros em 24 de setembro de 1973. Ele carregou consigo, desde a infância, a memória de uma terra paradoxal: fértil e faminta. Essa contradição moldou seu destino. Não bastaria ser apenas médico; foi preciso ser nutrólogo para entender a fisiologia da privação. Não bastaria ser professor; foi preciso ser geógrafo para mapear as feridas do território e sociólogo para desvendar as estruturas perversas que condenavam multidões à miséria.

Josué de Castro foi o arauto que desmascarou o maior dos crimes silenciosos. Em sua obra monumental, Geografia da Fome, ele lançou um desafio ao mundo e aos poderosos: a fome não é uma maldição divina ou uma inevitabilidade climática. É, sim, uma criação humana, um fruto amargo da injustiça social, da concentração de terras, do abandono político. Com a precisão de um cientista e a paixão de um poeta, ele demonstrou que os "habitats" da fome eram desenhados pela mão do homem.

Seu combate foi épico. Nas salas de aula da Universidade do Brasil, ele incutia nos discípulos a consciência crítica. Nos corredores da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), onde presidiu o Conselho, sua voz ecoou como um alerta solene para as nações. Ele não pedia esmolas; exigia mudanças. Denunciava a fome como um flagelo que minava a própria humanidade, um cancro que impedia qualquer projeto de civilização.

Mas os heróis que desafiam as trevas muitas vezes são perseguidos por elas. Em 1964, o golpe militar que assombrou o Brasil viu em sua luz uma ameaça. O intelectual que ousara dizer que a fome tinha dono e endereço, foi cassado, exilado. Sua pátria o expulsou, mas sua pátria maior era a humanidade faminta. Seguiu seu combate longe de casa, levando sua mensagem por toda parte, até que seu coração, tão grande quanto sua causa, cessou de bater no exílio parisiense, em 24 de setembro de 1973.

Morreu o homem, longe de sua terra natal. Mas nasceu o mito, a ideia-força que jamais seria exilada. Josué de Castro partiu, mas sua profecia permanece: a fome é um exterminável. Sua vida foi um épico inacabado, uma batalha que nos legou. Ele nos mostrou que o verdadeiro heroísmo não está na conquista de territórios, mas na libertação do ventre vazio; não na glória pessoal, mas na luta incansável pelo direito mais básico: o direito à vida, à comida, à dignidade.

Que a memória de Josué de Castro, o médico, o nutrólogo, o professor, o geógrafo, o sociólogo, o ativista, não seja apenas uma recordação, mas um chamado à ação. Pois, enquanto houver um só ser humano com fome, sua batalha histórica ainda não estará ganha. E a nós, cabe pegar o seu estandarte e seguir em frente.

3 months ago | [YT] | 34

Em Nome da Rosa

Viva, a Revolução! Somos gaúchos e brasileiros.

No véu da cerração, o Pampa acorda,
Onde a geada borda o campo em prata,
O gado livre e a paisagem devora,
E o gaúcho, no frio, sua alma desata.

Ecoa um grito na neblina: “Esta terra tem dono!”
É Sepé, é Kaingang, é o Guarani ancestral,
Que na cuia de mate nos estende a mão,
Herança verde, amarga e imortal.

Veio o Iberó, a espada e a cobiça,
Riscando fronteiras no chão sem fim,
Até que o Ipiranga, com nova cicatriz,
Gritou por um só dono, um só país.

Mas o jugo pesou no sul da nação,
O império cobrou o suor do Rincão.
E ergueu-se a voz de Bento, forte e leal,
Com Netto, seu braço, no temporal.

E no turbilhão de poeira e paixão,
Veio o casal de além-mar, de visão:
Garibaldi, o condottiero do mar,
E Anita, de fogo, a não vacilar.

E na vanguarda, na carga feroz,
Canabarro comanda a lança veloz:
São lanceiros negros, homens de valor,
Lutando livres por um sol que virá.

Europeus, crioulos, negros libertos,
Uniram espadas, romperam desertos,
Por um ideal, um inimigo em comum,
Brandindo esperança contra o opressor

A paz veio, sim, com seu acordo infiel,
Contradiçoes que o tempo não apagou,
Ferida aberta no chão do Brasil,
Um paradoxo que nunca sarou.

E ainda há quem negue a brasilidade,
Herdeiro faccionado de uma antiga unidade.
Mas somos o laço de dois amores iguais:
O Brasil no peito, o Sul nos sinais.

Terra de transição, de portunhol suave,
Onde o castelhano ao português se abre,
Onde o Pampa é irmão do Prata ao luar,
E o mesmo vento nos ensina a cantar.

Oh, Rio Grande de climas atípicos,
De invernos crus, de verões históricos,
Onde os rios serpenteiam tua saga imortal,
És um estado, és um mundo, és um Brasil original.

E assim seguimos, com a cuia na mão,
Aquecendo o peito com a mesma tradição,
Campereando a vida com coragem e labor,
Carregando contigo a dor e o amor.

Somos o grito de Sepé e de Bento,
O brado retumbante do Ipiranga ao vento.
Uma só Pátria,múltipla em razão,
Gaúcho de alma, brasileiro de coração.

4 months ago | [YT] | 50

Em Nome da Rosa

Oswaldo Aranha: A Sombra da Partilha de 1947

No dia 16 de setembro de 1947, o diplomata brasileiro Oswaldo Aranha ascendeu ao ápice do multilateralismo ao assumir a presidência da Assembleia-Geral da ONU. A imagem é a de um estadista global, um virtuose da política internacional no palco do mundo pós-guerra. No entanto, por trás do glamour e do formalismo, Aranha presidia não um triunfo da diplomacia, mas um ato fundacional de um conflito perene: a votação do Plano de Partilha da Palestina (Resolução 181).

Para compreender Aranha, é preciso desmontar a estátua de bronze e ver o político pragmático. Um gaúcho astuto, da linhagem de Getúlio Vargas, sobrevivente hábil das reviravoltas do Estado Novo. Não era um idealista ingênuo, mas um operador realista. Sua nomeação para a ONU foi, em si, um movimento geopolítico do Brasil, que buscava projetar-se como líder do hemisfério sul e mediador entre os colossos da Guerra Fria que então se anunciava.

O contexto geopolítico da Partilha era uma tempestade perfeita de culpa ocidental, realpolitik e trauma recente. O Holocausto, ainda fresco e horrível, fornecia um imperativo moral incontestável para a criação de um Estado judeu. As potências europeias, principalmente o Reino Unido, exausto e falido, lavavam as mãos de um Mandato ingovernável. EUA e URSS, em raro e cinicamente alinhados, viam na criação de Israel uma oportunidade: para os soviéticos, um enfraquecimento do poder britânico no Oriente Médio; para os americanos, um posto avançado de influência e um lobby doméstico poderoso a ser atendido.

Os palestinos árabes, habitantes nativos daquela terra há séculos, foram o elo ausente na equação. Suas aspirações nacionais foram tratadas como um detalhe administrativo, um obstáculo à grandiosa narrativa de reparação e reorganização mundial. Eles eram, na melhor das hipóteses, figurantes no drama que decidiria seu próprio destino.

E é aqui que a presidência de Aranha deixa de ser um mero capítulo na história diplomática brasileira e se torna um ato de profunda consequência. Sua habilidade foi crucial. Ele adiou a votação, manobrando nos corredores, pressionando, cedendo e coagindo. O Brasil, sob sua influência, não era um mero espectador; era o maestro de um processo que exigia uma maioria de dois terços. Diz-se que ele conseguiu o voto crucial de países como as Filipinas e o Haiti através de intensa pressão, incluindo, segundo relatos, ameaças de cortar fornecimento de vacinas. Lenda ou fato, a narrativa ilustra o ambiente de horse trading implacável que caracterizou o nascimento da ONU.

Aranha conduziu a sessão com mão firme. Em 29 de novembro de 1947, o Plano foi aprovado. Ele bateu o martelo, consagrando a divisão de uma terra sem o consentimento de metade de seu povo. Foi um ato de auto-determinação para um povo, e de negação dessa auto-determinação para outro. A assinatura brasileira, sob sua égide, legitimou uma solução imposta, um mapa desenhado à régua em escritórios distantes, ignorando a tessitura humana no terreno.

O Diálogo com o Conflito Atual: A Cicatriz que nunca Fechou

A votação de 1947 não é um mero prelúdio histórico; é o software original do conflito Israel-Gaza. A operação militar em Gaza, os foguetes, o bloqueio, a espiral infinita de violência são sintomas da doença diagnosticada naquela sala: a imposição de uma solução sem um acordo mútuo.

A Partilha criou um Estado para um povo, mas condenou outro ao limbo da nakba (a "catástrofe" palestina), ao exílio e à ocupação. A recusa árabe ao plano é frequentemente citada para culpabilizá-los pelo resultado, mas ignora-se o fato fundamental: era ética e politicamente insustentável esperar que uma população nativa aceitasse pacificamente que mais da metade de sua terra fosse destinada a um novo Estado, formado por imigrantes majoritariamente europeus, contra sua vontade.

Gaza hoje é o epicentro do fracasso daquela partilha. É o território mínimo, superpovoado e sitiado, onde se refugiaram muitos dos descendentes daqueles expulsos em 1948. A Faixa de Gaza é a materialização da desconexão entre a engenharia territorial da ONU e a realidade humana. O cerco israelense é, em parte, a resposta de segurança a um problema criado pela própria lógica da criação de um Estado em terreno contestado sem resolver a questão do outro povo.

Oswaldo Aranha, portanto, não é apenas um herói diplomático brasileiro. É uma figura complexa, um arquiteto de um momento que oscila entre a esperança de um refúgio para um povo perseguido e o pecado original de uma injustiça contra outro. Sua presidência na ONU simboliza o momento em que a comunidade internacional, movida por uma mistura de culpa, interesse e pragmatismo, escolheu o caminho da imposição sobre o da conciliação genuína.

Setenta e seis anos depois, o som do martelo de Aranha ainda ecoa em cada bombardeio em Gaza e em cada alarme de sirene em Israel. É o som de uma ferida que nunca foi suturada, apenas continuamente aberta, lembrando-nos que as pazes duradouras não são votadas, mas construídas. E que, às vezes, a diplomacia mais refinada pode ser cúmplice da mais brutal das realidades.

4 months ago | [YT] | 33

Em Nome da Rosa

O Arquiteto da Nação: Getúlio Vargas no Panteão da Pátria

Que a memória não se apague e que o bronze dos monumentos ecoe para sempre a saga daquele que forjou o Brasil moderno com as próprias mãos e com inquebrantável vontade. No firmamento dos heróis nacionais, um novo astro foi inscrito em 15 de Setembro de 2010, elevando ao Panteão da Pátria a figura colossal de Getúlio Vargas, o Estadista, o Pai dos Pobres, o visionário que olhou para o vasto território e viu, não um mero celeiro do mundo, mas uma potência adormecida.

Em meio aos ventos tempestuosos que assolavam o globo, ele se ergueu como um rochedo de determinação. Seu grito de guerra não era para batalhas de conquista, mas para a grande epopeia da construção nacional. Seu projeto não era para um mandato, mas para séculos; sua visão, não para o curto prazo, mas para o destino eterno da Pátria.

Com mão firme e olhar além do horizonte, ele concebeu e executou a grandiosa estratégia da substituição de importações. Onde antes dependíamos do ferro e do aço alheios, ele ergueu a monumental Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), cujos altos-fornos passaram a ser o coração pulsante da indústria nacional, bombeando o aço que seria a espinha dorsal do Brasil que nascia.

Não contente em apenas moldar o metal, ele cavou as profundezas da terra em busca da energia soberana. Desafiando céticos e potências estrangeiras, fundou a Petrobras, proclamando que seu petróleo era mais do que uma commodity: era o sangue da nossa autonomia, a chama da nossa liberdade econômica. "O petróleo é nosso!" tornou-se o brado uníssono de uma nação que reclamava seu direito ao futuro.

Sua mente arquitetônica não parou. Ele teceu uma rede de Correios e Telegrafos que costurou o imenso território, unindo o litoral ao sertão, a floresta ao pampa, fazendo da comunicação um laço de unidade nacional. Com igual grandeza, forjou a Companhia Vale do Rio Doce para, com ordem e progresso, extrair as riquezas do solo em prol do bem comum.

Compreendeu que uma nação que não investe no seu próprio intelecto está fadada à servidão. Assim, lançou as sementes do amanhã ao criar o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), cultuando a ciência e atraindo as mentes mais brilhantes para semear o conhecimento em solo brasileiro. E para financiar os grandes empreendimentos, a coluna vertebral financeira do desenvolvimento: o Banco Nacional de Desenvolvimento Económico (BNDE), alavanca de ferro que ergueria usinas, estradas e indústrias.

E, na sua sabedoria profética, soube que o verdadeiro poder de uma nação reside no conhecimento de seu povo. Foi sob sua égide que as universidades floresceram, templos do saber onde se formariam os engenheiros, médicos, juristas e professores que dariam continuidade à sua obra ciclópica.

Getúlio Vargas não governou; ele conduziu. Não administrou; ele arquitetou. Sua vida terminou em um ato supremo de entrega, mas sua obra permanece, indelével, na paisagem econômica, na estrutura social e na alma do Brasil. Ele não é uma figura do passado; é um fundamento do presente e uma luz para o futuro.

Por isso, sua entrada no Panteão dos Heróis da Pátria não é um mero ato formal. É o reconhecimento eterno de que a história brasileira divide-se em antes e depois de Getúlio Vargas. Que sua memória, agora eternizada no Livro de Aço dos Heróis Nacionais, inspire todas as gerações futuras a acreditar que um Brasil grande, soberano e justo não é um sonho, mas um destino a ser conquistado com bravura, visão e amor incondicional pela Pátria.

Salve, Getúlio Vargas! O Arquitecto da Nação! Herói do Brasil!

4 months ago | [YT] | 71

Em Nome da Rosa

O ÉPICO BREVE SETEMBRO: ALLENDE PRESIDENTE

Era o décimo quarto dia do nono mês, no alvorecer de 1970. O Chile, uma faixa longa de terra entre a cordilheira intocável e o mar furioso, parou para respirar. Não foi apenas uma eleição; foi um tremor que percorreu a espinha dorsal dos Andes. Salvador Allende Gossens, homem de semblante sereno e palavras de aço temperado, ascendeu ao poder não pela mão de um deus, mas pelo voto de um povo. Pela primeira vez na história do Ocidente, o socialismo não chegou pela fúria da bala, mas pela solenidade da urna. Foi um "camino propio", um experimento audacioso de alquimia política: transformar a estrutura sem despedaçar o vaso.

O sol daquela primavera parecia mais quente, iluminando as promessas gravadas no ar rarefeito do altiplano. Sua voz, ecoando em praças abarrotadas de esperança, não era um grito de guerra, mas um canto de ordenação. A nacionalização do cobre, o "sueldo de Chile", era mais que uma reforma económica; era um ato de soberania, uma declaração de que as veias abertas da América Latina poderiam, enfim, sangrar para dentro de sua própria terra, para nutrir seu próprio povo. A terra seria repartida, a educação e a saúde seriam direitos universais, o leite fluiria para as crianças das poblaciones. Era a construção de um reino de dignidade na Terra, um projeto épico de justiça.

E por um tempo, breve e intenso como o verão austral, as conquistas floresceram. Havia um brilho novo nos olhos dos despossuídos, um sussurro de que o futuro, finalmente, não era um privilégio hereditário. A nação, soberana sobre suas riquezas, caminhava com passos próprios, desafiando a lógica férrea de um continente acostumado a curvar a nuca.

Mas toda epopeia traz consigo a sombra da tragédia. O mesmo sol que iluminou as conquistas, projetou sombras longas e tortuosas. Os deuses do dinheiro e do poder, em salas refrigeradas para além das montanhas e dos oceanos, olharam para aquele experimento e viram uma heresia perigosa. O cobre era seu, a terra era sua, a ordem era sua. E a ordem precisava ser mantida.

O cerco se fechou. A economia foi estrangulada por mãos invisíveis, o cobre gritou no mercado internacional e seu grito foi abafado. O caos, semeado com precisão cirúrgica, começou a brotar nas ruas. Os tambores da discórdia rufaram, financiados pelo medo dos que temiam perder o mundo tal como o conheciam. A grandeza do projeto de Allende chocava-se contra os rochedos de uma realidade implacável, a mesma que sempre aflige os sonhos na América Latina: o pesadelo da intervenção, da guerra suja, do império que não tolera desvios.

E então, veio o Inverno. Onze de setembro de 1973. O palácio de La Moneda, símbolo da democracia republicana, foi engolido pelo fogo e pelo estrondo dos bombardeios. O ar, outrora carregado de esperança, encheu-se de fumo, de metal e de traição. Allende, encurralado não pela vontade do povo que o elegeu, mas pela frieza das baionetas, fez sua última reforma: a da própria morte. Recusou a rendição, recusou o exílio. Transformou-se no último bastião de seu próprio governo, morrendo não como um mártir passivo, mas como um capitão que afunda com seu navio, leal até o fim ao juramento que fizera ao povo.

Seu fim triste não foi apenas chileno; foi uma cicatriz em todo o continente. Foi o dia em que a América Latina aprendeu, de forma mais crua e visceral, que algumas portas abertas pela via das urnas seriam fechadas à força pelas das casamatas. O sonho de um socialismo com sabor de empanada e vinho tinto foi sufocado pelo frio silêncio das ditaduras que se espalhariam como uma praga por toda a nossa terra.

Mas daquela fumaça e daquela dor, uma semente de memória teimosa permaneceu. A imagem de Allende, com seu último discurso e seu elmo de ilusão, não é um monumento à derrota, mas um farol de dignidade. Lembra-nos do preço da ousadia, da ferocidade dos que guardam o status quo, e da beleza trágica e eterna de quem ousa sonhar com um amanhecer diferente, mesmo sabendo que a noite que se avizinha será longa e gelada. Sua épica breve é um verso inacabado no grande poema da luta latino-americana, um verso que ainda hoje espera por uma rima de justiça.

4 months ago | [YT] | 38

Em Nome da Rosa

6 DE SETEMBRO, O DIA QUE BRIZOLA RETORNOU DO EXÍLIO

O rugido dos motores do avião que rasgou o céu de Foz do Iguaçu, na véspera solene de 7 de setembro, ecoava mais que o som de uma aterrissagem. Era o prenúncio de um retorno que transcendia o tempo: Leonel de Moura Brizola, após quinze longos anos de exílio, pisava novamente em solo brasileiro. A brisa que o saudou trazia consigo o perfume da liberdade, mas também o peso da construção interrompida do Brasil que o trabalhismo brasileiro erguera.

Ao desembarcar, em 6 de setembro de 1979, o líder trabalhista não proferiu apenas palavras, mas um grito de reencontro com sua missão: "Venho para tratar do ressurgimento da nossa causa." Um chamado que reverberou por toda a nação, como a voz de um legítimo herdeiro retornando para retomar seu posto. A coincidência da data, imbuída de profundo simbolismo, parecia orquestrada pela própria história: um dia antes da celebração da Independência, Brizola chegava para bradar por uma verdadeira independência do Brasil. Uma emancipação que ia além dos símbolos, buscando a soberania do povo, a justiça social e a dignidade do trabalhador, pilares fundantes do projeto trabalhista.

Os militares que o exilaram, talvez, não pudessem prever que o herdeiro de Getúlio, o incansável defensor dos trabalhadores, retornaria com a força de quem se reapresenta para concluir uma obra. A multidão reunida não via apenas um político, mas a personificação de uma luta, a esperança encarnada. Seus olhos, outrora marejados pela saudade, agora ardiam com a determinação de quem retoma o fio da história, pronto para tecer um novo capítulo para o país.

Leonel de Moura Brizola não era apenas um homem; ele era a essência do trabalhismo brasileiro, a lenda viva que, após o hiato forçado, ressurgia com a convicção inabalável de que a causa do povo jamais seria esquecida. Em sua volta, ele trazia não apenas a promessa de um futuro, mas a certeza de que o legado de luta e a construção de um Brasil mais justo estavam, finalmente, em mãos que sabiam o peso e o valor de cada tijolo. A anistia abriu as portas, mas foi o coração do povo que o chamou de volta, para que o fio da história pudesse, enfim, retornar ao seu legítimo herdeiro.

4 months ago | [YT] | 90

Em Nome da Rosa

ADEUS, SILVIO TENDLER

Ontem, o Brasil se despediu de ​Silvio Tendler, um nome proeminente no cinema documental brasileiro, que dedicou sua carreira a explorar e retratar figuras históricas, movimentos sociais e os meandros da política brasileira e latino-americana. Nascido no Rio de Janeiro em 1950, Tendler iniciou sua jornada cinematográfica em um período turbulento da história do Brasil, o que moldou profundamente sua visão artística e seu compromisso com a memória e a justiça social.

​Tendler construiu uma filmografia vasta e impactante, com mais de 80 títulos. Entre suas obras mais célebres estão "Jango" (1984), um retrato do ex-presidente João Goulart, e "Os Anos JK - Uma Trajetória Política" (1980), que aborda a vida e o legado de Juscelino Kubitschek. Estes filmes, entre outros como "Glauber o Filme, Labirinto do Brasil" e "Encontro com Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá", não apenas alcançaram sucesso de público e crítica, mas também se tornaram documentos essenciais para a compreensão da história recente do Brasil. Sua capacidade de dar voz a personagens e eventos cruciais, muitas vezes negligenciados ou distorcidos, representa uma contribuição inestimável para o cinema nacional e latino-americano.


​A obra de Silvio Tendler está intrinsecamente ligada ao período da Ditadura Militar no Brasil. Sua atuação no movimento cineclubista nos anos 1960 e seu subsequente exílio no Chile e na França foram experiências formativas que fortaleceram seu olhar crítico. Filmes como "Revolta da Chibata" (cujo negativo foi queimado na época) e "Militares da Democracia: os militares que disseram NÃO" evidenciam seu interesse em revisitar momentos de resistência e luta por direitos civis e políticos. Tendler frequentemente afirmava que o golpe de 1964 o impulsionou a se tornar artista, dedicando-se a discutir a realidade histórica e política do país através do cinema.

4 months ago | [YT] | 44