São Paulo e Rio de Janeiro, anos 1940. Entre o aroma delicado das flores de rua e o burburinho elegante da Confeitaria Dois Amores, o destino de duas irmãs separadas ao nascer está prestes a se cruzar de forma inesquecível.
De um lado, Rosinha carrega a força e a doçura de quem vende flores para sobreviver. Sonhadora e batalhadora, sua vida desaba quando o pai de criação, Antenor, morre em um incêndio devastador. Sem olhar para trás, ela parte rumo a São Paulo em busca de suas verdadeiras origens. Disfarçada entre a poeira e o suor do trabalho como faxineira na imponente mansão de seus pais biológicos, Rosinha começa a desvendar segredos profundos que podem mudar tudo, enquanto anseia pelo dia em que poderá abraçar sua família.
Do outro lado do país, na vibrante capital carioca, vive Cassandra. Irmã gêmea de Rosinha e separada dela ainda no berço, Cassandra leva uma rotina agitada servindo mesas na charmosa Confeitaria Dois Amores, sem imaginar que a outra metade de sua alma respira a poucos quilômetros de distância.
Em uma época de rádio de válvula, vestidos rodados, cartãoes postais e trens de ferro fumegantes, prepare-se para acompanhar uma jornada emocionante sobre identidade, perda, esperança e o reencontro mais esperado da década.
Qual segredo revelado na mansão vai mudar a vida de Rosinha para sempre?
A luz do quarto de hospital é branca, estéril, fria e implacável. Júlia abre os olhos lentamente. Tudo está desfoca- do, confuso, pesado. Ela tenta respirar fundo, mas até o ato mais simples parece exigir um esforço hercúleo.
VOZ DISTANTE (FORA DE CENA): Júlia…?
Uma voz conhecida, ainda que dista- nte. Ela pisca repetidamente até cons- eguir focar a visão. Cristian está ali ao lado da cama. Os olhos vermelhos, o rosto marcado pelo cansaço extremo, mas transbordando de um amor aflito.
JÚLIA (voz fraca, quase um sopro): Cris…?
Ele se aproxima de imediato, segura- ndo a mão dela com uma delicadeza extrema, como se temesse que ela se desmanchasse ao toque.
CRISTIAN: Eu tô aqui… eu não saí daqui nenhum segundo…
Júlia tenta esboçar um sorriso frágil.
JÚLIA: A gente… casou?
A pergunta flutua no ar estéril do quarto. Cristian engole em seco, luta- ndo contra as lágrimas que ameaçam transbordar.
CRISTIAN: Ainda não… mas a gente vai. A gente vai fazer isso do jeito mais lindo que existe.
Ela fecha os olhos por um instante, buscando forças na respiração lenta.
JÚLIA: Eu tive um sonho… tão estranho…
CRISTIAN: Que sonho?
JÚLIA: Eu caía… e você gritava…
Cristian fecha os olhos, sentindo o peso invisível daquela premonição.
CRISTIAN: Foi só um pesadelo, amor… passou. Você tá segura agora.
Júlia tenta mover o corpo. Os múscu- los respondem… apenas parcialmente. Suas sobrancelhas se franzem em uma expressão de estranhamento.
JÚLIA: Eu tô… pesada demais…
Cristian se inclina, preocupado.
CRISTIAN: Você sofreu um acidente feio, meu amor… seu corpo ainda tá se recuperando do choque.
Ela tenta comandar as pernas sob o lençol branco. Nada acontece. O olhar muda instantaneamente, migrando da confusão para um incômodo profundo e cortante.
JÚLIA: Cris…
Ele sente o tom de voz dela e o próprio coração dispara em desespero sordo.
CRISTIAN: O que foi? O que você tá sentindo?
JÚLIA: Eu não tô sentindo…
Um silêncio pesado e sufocante toma conta do ambiente. Júlia tenta de novo, aplicando mais força e concentração. Nada.
A voz começa a falhar, frágil e trêmula. Cristian aperta a mão gelada dela com firmeza desesperada.
CRISTIAN: Calma… os médicos disseram que o edema...
JÚLIA (gritando): O QUE ELES DISSERAM?!
O desespero irrompe como uma lâmina. Os monitores cardíacos disparam em um ritmo frenético e estridente.
BIP BIP BIP BIP
CRISTIAN: Júlia, por favor, se acalma—
JÚLIA: POR QUE EU NÃO SINTO NADA?! EU PRECISO LEVANTAR!
Ela tenta impulsionar o torso para cima, mas o corpo não obedece aos comandos da mente.
CRISTIAN: Amor, não faz isso, você pode se machucar...
JÚLIA: EU PRECISO DANÇAR!
A frase corta o ar como vidro quebra- do. E, naquele exato segundo, o mun- do construído por ela desmorona por completo.
CENA 03-HOSPITAL/QUARTO UTI- PORTA DE ENTRADA
A porta se abre bruscamente. O mé- dico entra no quarto com postura séria e extremamente cautelosa. Karina aparece logo atrás, com o maxilar travado e o olhar tenso. Clara observa timidamente da soleira da porta, sentindo o terror no ar.
MÉDICO: Júlia… (diz ele, medindo cada palavra).
Ela o encara com os olhos arregalados, banhados em pânico puro.
JÚLIA: Faz eu sentir minhas pernas. Por favor. Faz passar.
O silêncio pesa como chumbo. O médico respira fundo, preparando-se para desferir o golpe final.
MÉDICO: Você sofreu uma lesão medular gravíssima no impacto…
JÚLIA (interrompendo abruptamente): Eu não quero saber o nome técnico! Eu quero saber quando eu vou voltar a dançar!
O médico hesita por um segundo eterno. Olha para Cristian, depois para Karina, e finalmente devolve o olhar para Júlia.
MÉDICO: Existe uma probabilidade muito real de você não voltar a andar.
O universo físico parece parar de girar. Literalmente. Júlia pisca. Uma vez. Duas. Três.
JÚLIA: Não.
A resposta é simples, seca, cortante.
CRISTIAN: Júlia…
JÚLIA (a voz elevando-se): NÃO!
Ela começa a rir. Um riso oco,estranho ,febril e profundamente nervoso.
JÚLIA: Vocês estão errados… totalm- ente errados… eu sou bailarina profissional! Meu corpo… meu corpo simplesmente funciona, é isso que ele faz!
Ela tenta forçar as pernas mais uma vez, em vão. O nada absoluto. O riso se desfaz instantaneamente em um pranto convulsivo.
JÚLIA: Não… meu Deus, não… não… Cristian avança um passo, de braços estendidos.
CRISTIAN: Meu amor, deixa eu...
JÚLIA (esbravejando com ódio e dor): NÃO ENCOSTA EM MIM!
Cristian congela no lugar, completam- ente destruído.
CENA 05-HOSPITAL/QUARTO UTI- CANTO DA CAMA
Júlia continua respirando com dificuldade.
JÚLIA: Isso não tá acontecendo… isso é um pesadelo… tem que ser!
Clara se aproxima lentamente da cama, pisando com cautela extrema, como quem caminha sobre gelo fino prestes a estalar.
CLARA (voz suave): Júlia…
Júlia vira o rosto devagar, os olhos inundados de lágrimas.
CLARA: Se você quiser… eu posso dançar pra você. Todos os dias. Até você melhorar e voltar.
Silêncio absoluto. A proposta é de uma pureza devastadora. Sem maldade, sem filtro, sem peso conceitual — mas atinge Júlia com a força de um golpe físico no estômago. Júlia vira o rosto bruscamente para o lado oposto e chora como nunca havia chorado em toda a sua vida.
De canto, Karina observa a cena inteira imóvel, petrificada. Mas por dentro, cada estrutura de sua armadura emocional entra em colapso violento.
KARINA (com uma frieza trêmula): Isso não pode ser verdade. Vocês cometeram um erro.
MÉDICO: Senhora, nós já realizamos todos os exames de imagem e checagem neurológica possíveis...
KARINA: Então façam mais!
MÉDICO: Mas...
KARINA (com autoridade cortante): EU DISSE PARA FAZEREM MAIS EXAMES!
O consultório e o corredor parecem tremer sob o comando implacável de Karina. Mas, pela primeira vez em sua vida, nem mesmo o seu controle absoluto tem o poder de alterar a realidade.
CENA 07-HOSPITAL/QUARTO UTI-FIM DE TARDE
Horas mais tarde. O quarto está mergulhado em um silêncio fúnebre. A luz da tarde banha o ambiente de forma melancólica. Júlia olha fixame- nte para o teto branco, com o olhar completamente esvaziado. Cristian permanece sentado na poltrona ao lado, sem saber o que dizer, sem saber como continuar existindo naquele espaço diminuto.
JÚLIA (voz quase inaudível, sem alma): Cris…
CRISTIAN: Oi, meu amor… tô aqui.
JÚLIA: Se eu não puder mais dançar… eu não sou absolutamente nada.
Cristian fecha os olhos com força, sentindo a dor física daquelas palavras.
CRISTIAN: Você é tudo para mim, Júlia. Tudo.
JÚLIA: Não sou. Você ama uma baila- rina… você ama a arte que eu fazia, o movimento, a leveza…
CRISTIAN: Eu amo você. Só você.
JÚLIA: Mas eu não sou mais eu. Eu virei outra pessoa. Uma sombra.
CRISTIAN: Você ainda continua sendo a mulher da minha vida…
JÚLIA (cortando com rispidez desespe- rada): NÃO! Você devia ir embora daqui agora. Sumir.
Cristian congela, o fôlego preso na garganta.
CRISTIAN: O quê…? O que você tá dizendo?
JÚLIA: Eu não posso te dar a vida, o futuro e a alegria que você merece ter!
CRISTIAN: Júlia, para com isso...
JÚLIA (gritando em prantos): EU NÃO POSSO NEM ANDAR, CRISTIAN! ACABOU!
O grito ecoa pelas paredes do quarto do hospital. Em seguida, apenas o som abafado e sufocante do choro incon- tido preenche o espaço.
CENA 09-HOSPITAL/QUARTO UTI- NOITE
Cristian se levanta e se aproxima devagar da cama. Mesmo sentindo medo, mesmo com o peito estraçalha- do e sangrando por dentro. Ele estende a mão e segura a de Júlia. Com firmeza irredutível.
CRISTIAN: Então eu fico.
Júlia vira o rosto lentamente, surpresa através das lágrimas.
CRISTIAN: Mesmo que você grite, mesmo que tente me mandar embora… eu não vou sair daqui. Se você não consegue caminhar agora, eu caminho por nós dois. Se você perder a esperança… eu guardo a esperança por nós dois.
Uma única lágrima solitária escapa e desce devagar pelo rosto de Júlia. Silêncio. Longo. Profundo. Doloroso. Ela fecha os olhos lentamente. E, pela primeira vez desde que acordou, ela percebe que a dor não vai sumir mas há algo indestrutível ao lado dela.
A câmera se afasta de forma gradual, elevando-se pelo teto do quarto esté; ril. Mostrando os dois ali, reduzidos ao essencial, presos em uma nova e implacável realidade. Onde o amor ainda existe… mas agora, será testado até o seu limite absoluto.
escrita e criada por: LEONARDO DE PAULA JOÃO VITOR PRADO
Supervisão de: VANESSA COUTO
direção geral: DIOGO ITAMAR
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CENA 01-CATIVEIRO-MADRUGADA
A porta do cativeiro se abriu lentame- nte, rangendo no silêncio da madruga- da. A luz fraca do corredor invadiu a sala escura por um segundo. Otávio, que ainda tinha uma das mãos livres, reagiu com a velocidade de quem já havia planejado cada segundo. Em um movimento rápido e silencioso, voltou para a cadeira, ajeitou o corpo e fingiu que as cordas ainda o prendiam por completo. A mão solta ficou escondida atrás das costas, apertando o pedaço de vidro com força.
Um capanga entrou carregando uma bandeja com comida simples: arroz, feijão e um pouco de carne fria. O homem deixou o prato no chão perto de Otávio e ficou olhando para ele com irritação.
CAPANGA: Você tá dando trabalho demais. Toda hora o Rogério pergun- tando se você ainda tá vivo. Se dependesse de mim, a gente já tinha acabado com isso faz tempo.
Otávio não respondeu. Apenas mante- ve a cabeça baixa, o olhar discreto fixo na cintura do homem. Ali, parcialmente escondida pela jaqueta, estava a arma. Um detalhe importante. O capanga resmungou mais alguma coisa, chutou levemente a bandeja na direção de Otávio e saiu sem perceber que uma das cordas já estava cortada.
Assim que a porta se fechou com um estrondo seco, Otávio soltou a respira- ção que estava segurando. O peito subiu e desceu com alívio contido. Ele olhou para a própria mão livre, depois para a porta, e murmurou baixinho para si mesmo:
OTÁVIO: Mais um pouco… só mais um pouco.
CENA 02-MANSÃO MONTEIRO- MANHÃ
A mansão estava mais movimentada do que nos dias anteriores. O som de teclas sendo digitadas, papéis sendo revirados e conversas baixas preenchia a sala de estar transformada em centro de investigação improvisado. Documentos do Projeto Ônix estavam espalhados pela grande mesa de madeira, alguns grifados, outros com post-its coloridos.
Edu Bastos estava sentado ao lado de Caio, os dois concentrados nas planil- has e extratos bancários. O jornalista apontava para uma sequência de transferências com o dedo.
EDU: Essas transferências do Projeto Ônix começaram há quase quinze anos. Olha a data. Quinze anos. Muito antes de qualquer notícia sobre o desaparecimento do seu pai. E os valores… não são pequenos.
Caio franziu a testa, os olhos percorr- endo as linhas com atenção crescente. A expressão dele mudou aos poucos, de concentração para algo mais sombrio.
CAIO: Muito antes do meu pai inves- tigar. Isso não faz sentido. Ele sempre falou que descobriu o Projeto Ônix há pouco tempo. Como pode ter começado tanto tempo atrás?
Henrique entrou na sala carregando uma bandeja com xícaras de café. Colocou uma na frente de Caio e outra na frente de Edu, o olhar atento à conversa.
HENRIQUE: Isso significa que Otávio talvez tenha participado no começo. Ou pelo menos sabia da existência disso muito antes do que vocês imaginavam.
O silêncio que se seguiu foi imediato e pesado. Ninguém falou por alguns segundos. O café esfriava sobre a mesa enquanto a possibilidade pairava no ar como uma acusação não dita.
CENA 03-COZINHA DA MANSÃO
Maya estava escondida perto da porta da cozinha, ouvindo cada palavra. O rosto dela, antes apenas curioso, agora estava vermelho de indignação. Quando ouviu a sugestão de que o pai poderia ter participado do projeto, não aguentou mais. Entrou na sala com passos firmes, os olhos brilhando de raiva contida.
MAYA: Não. Meu pai não faria isso. Vocês estão falando como se ele fosse algum tipo de criminoso. Otávio Monteiro não era assim. Ele era… ele era o meu pai.
A voz dela tremeu no final da frase. Lívia apareceu logo atrás, os braços cruzados, a expressão mais cética e cansada.
LÍVIA: A gente não conhece metade da vida dele, Maya. Sério. A gente mal se conhecia entre si até poucas semanas atrás. Como você pode ter certeza absoluta do que ele fazia ou deixava de fazer quinze anos atrás?
Maya ficou em silêncio. As palavras da irmã a atingiram em cheio. O olhar dela baixou por um segundo, e pela primeira vez a certeza absoluta pareceu rachar. Ela se mexeu, inquieta, o peito apertado.
CENA 04-QUARTO DE BENÍCIO- MANHÃ.
O quarto de Benício, a luz da manhã entrava suavemente pelas cortinas semiabertas. Valentina estava ajoelhada no chão, ajudando o jovem a organizar algumas partituras espalhadas sobre a cama. As folhas estavam um pouco amassadas, algumas com anotações antigas à lápis. Benício ainda fazia caretas de dor sempre que se inclinava demais.
VALENTINA: Você devia descansar mais. O médico falou pra não forçar. Seu corpo ainda está se recuperando.
Benício suspirou, passando a mão pelo cabelo bagunçado.
BENÍCIO: Se eu parar pra pensar muito, eu enlouqueço. Fico lembrando do hospital, do barulho da porta sendo arrombada, daquele símbolo no carro… Eu preciso de alguma coisa pra ocupar a cabeça. Qualquer coisa.
Valentina observou o rosto dele por um momento. Depois se sentou ao lado dele na beira da cama, o ombro quase tocando o dele.
VALENTINA: Então canta pra mim. Qualquer coisa. Uma música antiga, uma que você gostava quando era criança… só canta.
Benício sorriu sem jeito, o rosto corando levemente. Pegou o violão que estava encostado na parede e passou os dedos pelas cordas com carinho.
CENA 05-EMPRESA MONTEIRO-TARDE
Na sede da empresa Monteiro, a sala de reuniões estava lotada. Funcioná- rios antigos, novos diretores e investidores sentavam-se ao redor da longa mesa de vidro, os rostos tensos. O ar-condicionado trabalhava no máximo, mas o clima ainda assim era abafado.
Rogério estava de pé na cabeceira da mesa, as mãos apoiadas sobre a madeira, o olhar firme e calculado.
ROGÉRIO: Enquanto Otávio não for encontrado, eu assumo oficialmente a presidência da empresa. Não podemos deixar a companhia à deriva. Os merc- ados estão inquietos, os investidores estão ligando o tempo todo e a imprensa não para de especular. A partir de hoje, todas as decisões estratégicas passam por mim.
Alguns assentiram. Outros apenas baixaram o olhar. Do lado de fora da sala, parcialmente escondido atrás de uma coluna no corredor, Edu Bastos fotografava tudo com o celular, o zoom apertado, o rosto sério. Cada gesto de Rogério, cada reação dos presentes… tudo era registrado.
CENA 06-MANSÃO MONTEIRO-TARDE
No escritório antigo de Otávio, Lívia revirava caixas de papelão empilhadas no canto. Entre papéis velhos, pastas e objetos esquecidos, ela encontrou uma caixa de madeira escura, pequena e empoeirada. Abriu com cuidado.
Dentro havia fotos. Dezenas delas. Os quatro filhos ainda crianças. Lívia sorrindo de forma rebeldemente aos sete anos. Caio de óculos e uniforme escolar. Maya de vestidinho colorido fazendo pose. Benício com um violão maior do que ele. Algumas fotos eram de aniversários, outras de momentos simples, como um dia no parque.
Lívia segurou uma das imagens com as duas mãos. Os olhos marejaram, mas ela tentou disfarçar. Foi então que Caio apareceu na porta.
CAIO: Você tá chorando?
Lívia limpou o canto do olho com o dorso da mão, irritada consigo mesma.
LÍVIA: Cala a boca.
Caio sorriu de leve, sem insistir. Apro- ximou-se e observou as fotos espalha- das sobre a mesa. O olhar dele também amoleceu.
CAIO: Então ele acompanhava a gente… mesmo de longe. Guardava essas coisas.
Lívia passou o dedo pela borda de uma das fotos e percebeu algo estranho. Havia um papel fino colado atrás da imagem. Ela puxou com cuidado. Era uma anotação escrita à mão, com a letra firme e conhecida de Otávio:
“Confie em Clara.”
Os dois se entreolharam em silêncio.
CENA 07-APARTAMENTO DE CLARA- NOITE
O apartamento de Clara Monteiro ficava em um prédio elegante da Zona Sul. Os quatro irmãos chegaram juntos, ainda processando a descobe- rta da anotação. Caio tocou a campainha.
Clara abriu a porta vestida com eleg- ância impecável, como sempre. O cabelo branco impecavelmente penteado, o colar discreto, o olhar afiado. Ela observou os quatro netos parados no corredor e logo percebeu a tensão nos rostos.
CLARA Então finalmente resolveram aparecer juntos. Eu estava começando a achar que vocês só iriam me procu- rar quando precisassem de dinheiro ou de um favor.
Caio estendeu a foto com a anotação atrás.
CAIO: Meu pai disse pra confiar na senhora. Achamos isso escondido entre as coisas dele. “Confie em Clara.” Escrito com a letra dele.
O sorriso educado de Clara desapare- ceu pela primeira vez. O rosto dela endureceu, e por um segundo ela pareceu muito mais velha e cansada.
Clara fechou a porta com cuidado e, antes de dizer qualquer coisa, foi até as janelas e fechou todas as cortinas. O apartamento ficou mais escuro, mais fechado. Só então ela se virou para os netos.
CLARA: O Projeto Ônix começou como um acordo empresarial. Algo aparent- emente legítimo. Investimentos, parc- erias internacionais, uma estrutura complexa… mas virou algo muito maior. E muito mais sujo.
Maya deu um passo à frente, o rosto pálido.
MAYA: O papai tava envolvido?
Clara hesitou. Os olhos dela percorr- eram os quatro rostos jovens na frente dela.
CLARA: Seu pai tentou sair disso quando percebeu no que tinha se tornado. Ele passou anos tentando se afastar, tentando proteger vocês. Mas algumas coisas… algumas coisas não deixam a gente ir embora tão facilmente.
Lívia cruzou os braços, o olhar afiado.
LÍVIA: E quem criou isso? Quem está por trás de tudo?
Clara encarou os quatro netos por um longo momento. A voz dela saiu baixa, mas clara:
CLARA: Rogério não é o verdadeiro chefe.
O silêncio que tomou conta da sala foi absoluto. Nenhum dos irmãos conseg- uiu falar. A revelação pairava no ar, pesada e irreversível.
O som estridente da rádio comunitária ecoa pelos corredores da mansão. Artur Valente, que tomava café com o banqueiro Bernardo e a esposa, para- lisa com a xícara na mão. Heloísa deixa escapar um grito de horror ao ouvir a voz de Tiago transmitida em rede nacional.
ARTUR (esmurrando a mesa de vidro, que trinca com o impacto): Filha da puta! Aquele caipira maldito sobreviveu!
BERNARDO (levantando-se da mesa, visivelmente constrangido e irritado): Artur, o que significa isso?! Você me garantiu que a situação estava sob controle e que este projeto não tinha nenhum passivo jurídico ou ambiental! Minha empresa não vai associar o nome a um escândalo de corrupção e violência na imprensa!
SÍLVIA (esposa de Bernardo, pegando a bolsa): Vamos embora daqui, Bernar- do. Este lugar é um antro de bandidos!
ENZO (tentando conter a situação, pálido): Seu Bernardo, por favor, não acredite nesses boatos de radialista...
ARTUR (com o rosto vermelho de ódio, perdendo totalmente o controle): Siqueira! Chame os seguranças particulares! Traga o Tiago aqui nem que seja arrastado pelos cabelos! Grotas é minha, e ninguém vai me derrubar na minha própria terra!
Aurora observa a cena com um sorriso discreto de vitória, enquanto sua mãe chora de desespero no sofá, vendo o império de luxo desabar diante de seus olhos.
CENA 07-INT/DELEGACIA DE GROTAS/SALA DE INTERROGATÓRIO-NOITE
Artur Valente está sentado de um lado da mesa, algemado, com a gravata desalinhada e a expressão transtor- nada. Doutor Siqueira está ao seu lado, enquanto o Delegado Gabriel e dois Agentes Federais ocupam o outro lado.
DOUTOR SIQUEIRA: Meu cliente não vai responder a nenhuma pergunta sem que a liminar de soltura seja apreciada pelo tribunal da capital, Delegado. Isso é um abuso!
DELEGADO GABRIEL (tranquilo, abrin- do a pasta): O abuso, Doutor Siqueira, foi jogar toneladas de mercúrio no afl- uente do São Francisco e forjar licen- ças ambientais. As provas trazidas pela perícia e o depoimento dos trabalha- dores do garimpo são irrefutáveis.
ARTUR (esmurrando a mesa com as mãos algemadas): Isso é uma conspi- ração do pessoal da cooperativa! Aquele Tiago armou tudo com a minha filha! Eu exijo falar com o Deputado Otávio Vianna agora!
AGENTE FEDERAL: O Deputado Otávio Vianna está sendo notificado neste momento pela Polícia Federal na capital, Senhor Artur. O seu esquema de desapropriação ilegal acabou.
Artur empalidece e se encosta na cadeira, caindo na real da sua situação.
CENA 08-INT/MANSÃO VALENTE/ SALA DE ESTAR-NOITE
A casa está em absoluto caos. Heloísa Valente anda em círculos pela sala, jogando almofadas para o lado e chorando de desespero. Enzo Castelo arruma uma mala no corredor.
HELOÍSA (gritando): Enzo! Você não pode ir embora agora! Quem vai me ajudar a resolver esse absurdo?! Os jornalistas da capital estão me ligando sem parar!
ENZO (fechando o zíper da mala, frio e pragmático): Eu não tenho nada a ver com as tramoias do seu marido, Heloísa. Meu pai já mandou cancelar todas as contas do projeto e o meu advogado mandou eu voltar pra capital imediatamente.
HELOÍSA: Mas e a marina?! E o seu evento de lançamento?! E o seu noiva- do com a Aurora?!
ENZO (debochado): Que noivado, Heloísa? A sua filha tá nos braços do caipira do café e o seu marido tá preso por crime ambiental. O nome dos Valente agora é lama. Passar bem!
Enzo sai puxando a mala e bate a porta principal com força, deixando Heloísa sozinha no meio do luxo arruinado.
CENA 09-INT/FAZENDA DE SEU TONHO/SALA DE JANTAR-NOITE
A mesa está farta com broas, café fresco e queijo do sertão. Tiago, Aurora, Seu Tonho, Dona Dorinha, Seu Reginaldo e Marlene celebram em um clima de paz e alívio.
DONA DORINHA (servindo café para Aurora): Come um pedaço de bolo, minha filha. Você tá muito pálida depois de tudo o que passou naquela mansão.
AURORA (sorrindo docemente): Obrig- ada, Dona Dorinha. Aqui com vocês eu me sinto em casa de verdade. É a primeira vez em anos que eu sinto paz no coração.
SEU REGINALDO: A paz voltou pro nosso vale, Aurora. O rio tá limpo e o povo do café pode trabalhar sem medo das ameaças do Artur.
TIAGO (segurando a mão de Aurora por cima da mesa): A nossa luta valeu a pena, pai. Mas agora a gente precisa cuidar de reconstruir a cooperativa e garantir que o café das Grotas chegue forte no mercado.
SEU TONHO: É isso mesmo, Tiago! Amanhã cedo a gente reúne todo mu- ndo na associação pra organizar o mutirão da colheita!
CENA 10-INT/POSTO DE SAÚDE COMUNITÁRIO-NOITE
Dra. Helena examina a última criança da fila com um estetoscópio. Isabel e Perito Lineu estão ao lado de Tinha, organizando os medicamentos doados pela cidade vizinha.
DRA. HELENA (sorrindo de alívio): A febre da meninada cedeu totalmente, Tinha. A água limpa que o pessoal da aldeia trouxe fez toda a diferença.
ISABEL: Os laudos da água do riacho já mostram queda nos níveis de contami- nação. O rio tá se limpando sozinho agora que as bombas do garimpo foram desligadas.
PERITO LINEU: A força de regeneração do São Francisco é impressionante. Isabel, amanhã eu preciso enviar o relatório final pra Brasília, mas... Eu queria conversar com você antes.
ISABEL (olhando para Lineu com cari- nho): Sobre o quê, Lineu?
PERITO LINEU: Sobre o meu futuro. Eu pedi transferência pra ficar responsá- vel pela fiscalização permanente da bacia do São Francisco. Eu não quero mais ir embora de Grotas.
Isabel sorri emocionada e os dois se abraçam apaixonadamente.
CENA 11-INT-MANSÃO VALENTE/ COZINHA-MADRUGADA
A mansão está silenciosa e na penum- bra. Heloísa entra na cozinha descabe- lada, vestindo um seda amassado, e encontra Ester guardando a louça.
HELOÍSA (com a voz trêmula e arroga- nte): Ester! Por que a casa tá toda escura?! Vá preparar um chá de camo- mila pra mim imediatamente e chame o motorista! Preciso ir à capital ver o Artur!
ESTER (virando-se devagar, com extre- ma dignidade): O motorista foi embora logo depois do Seu Enzo,Dona Heloísa. E os outros empregados também pedi- ram demissão porque os pagamentos do mês atrasaram.
HELOÍSA (chocada, levando as mãos à cabeça): Como assim pediram demis- são?! Quem vai cuidar da minha casa?! Quem vai passar as minhas roupas?!
ESTER (tirando o avental de trabalho e colocando sobre a mesa): A senhora vai ter que aprender a fazer isso sozinha, Dona Heloísa. Eu também tô saindo. Vou trabalhar onde o meu esforço é respeitado. Tenha uma boa noite.
Ester pega sua bolsa e sai pela porta dos fundos, deixando Heloísa olhando para o avental com a cara da derrota.
CENA 12-EXT/ALDEIA ANCESTRAL/ MATA CILIAR-AMANHECER
O sol desponta no horizonte, lançando raios dourados sobre as copas das árvores seculares da mata ciliar. Pajé Moacir e Yara fazem uma oração de agradecimento à beira da água.
PAJÉ MOACIR (jogando pétalas de flores brancas na correnteza): A mãe água lavou a sujeira dos homens de ganância. A terra ancestral tá forte de novo.
YARA (olhando para o rio com um sorriso sereno): As máquinas se calaram, Pajé. O vento do rio voltou a soprar limpo nas folhas.
Tiago surge caminhando pela trilha e se junta a eles na margem.
TIAGO: Bom dia, Pajé. Bom dia, Yara. Vim agradecer por tudo o que vocês fizeram na estrada do cânion. Sem vocês, o dossiê não tinha chegado na Justiça.
PAJÉ MOACIR: O rio uniu a nossa gente, Tiago. Enquanto o café da terra for cultivado com respeito, o São Francisco vai proteger o povo de Grotas.
CENA 13-EXT/SEDE DA COOPERATIVA DOS CAFEICULTORES-MANHÃ
A praça central de Grotas está lotada de trabalhadores, ribeirinhos, artesãs e moradores. Tiago, Aurora, Seu Tonho, Isabel, Cláudio e Dra. Helena sobem no coreto improvisado sob aplausos calorosos.
CLÁUDIO (no microfone da rádio): Povo de Grotas do Destino! Hoje começa um novo tempo pra nossa terra! O garimpo acabou, o rio tá livre e a nossa cooperativa tá mais forte do que nunca!
O povo comemora com vivas e aplausos efusivos. Tiago pega a mão de Aurora e a ergue diante de todos.
TIAGO: A nossa união provou que o dinheiro e a ganância não podem comprar a nossa dignidade nem destruir as nossas águas! A partir de hoje, a gente colhe o nosso café com orgulho e de cabeça erguida!
Aurora olha para Tiago com amor radiante. De repente, uma tontura leve faz Aurora vacilar por um segundo no coreto. Tiago a segura com carinho e preocupação.
TIAGO (em voz baixa, amparando-a): Aurora?! O que foi, meu amor? Você tá bem?!
AURORA (colocando a mão sobre o ventre,sorrindo com os olhos mareja- dos de emoção): Eu tô bem, Tiago... Mais do que bem. Eu tô sentindo uma alegria imensa... A nossa vida tá só começando.
Aurora e Tiago se olham profundam- ente,enquanto o povo da praça continua a celebrar em festa.
CONGELA NO ROSTO EMOCIONADO DE AURORA E TIAGO SE ABRAÇANDO NO CORETO.
CENA 01-EXT/ESTRADA DE RAGEM/CURVA DO CÂNYON-MADRUGADA
As rodas dianteiras da picape de Tiago giram em falso no ar, balançando peri- gosamente sobre o abismo do São Francisco. Corta-Vento e o capanga se aproximam a passos lentos, com as barras de ferro erguidas e sorrisos sádicos no rosto.
CORTA-VENTO (rindo,com desprezo): Deixa de ser teimoso,moleque! O teu destino é o mesmo daquela draga de ferro lá no fundo do rio!
Tiago, preso pelo cinto de segurança e com a pasta de documentos apertada contra o peito,avalia o espaço redu- zido da cabine. Ele solta o cinto de um puxão só e chuta a porta do motorista com toda a força. A porta se abre bru- scamente,atingindo o joelho do capan- ga, que cambaleia para trás na beira do precipício.
Aproveitando o instante de desequilí- brio, Tiago pula para fora da cabine antes que a picape ceda de vez ao peso e despenca morro abaixo, espati- fando-se nas pedras da margem com um estrondo ensurdecedor.
CORTA-VENTO (furioso,apontando a barra de ferro): Pega ele! Não deixa esse caipira escapar com a pasta! Tiago rola pela poeira da estrada e corre em direção à mata fechada, enquanto os capangas disparam atrás dele, desferindo golpes cegos na escuridão.
CENA 02-INT/MANSÃO VALENTE/ESCRITÓRIO DE ARTUR-MANHÃ
O sol começa a dourar os cumes das montanhas de Grotas do Destino. Artur Valente fuma um charuto caro na polt- rona de couro, enquanto o Deputado Otávio Vianna anda de um lado para o outro,impaciente. Doutor Siqueira en- tra na sala com uma maleta diplomá- tica.
DOUTOR SIQUEIRA: A liminar de soltu- ra do Trovoada já está assinada por um juiz plantonista da capital,Artur. O problema é que o delegado Gabriel se recusou a cumprir o despacho de pro- nto, alegando resistência técnica.
ARTUR (batendo o punho na mesa, os olhos injetados de raiva): Aquele dele- gado de meia-pataca pensa que man- da em alguma coisa! Otávio, use a sua influência na Secretaria de Segurança Pública. Eu quero o Gabriel exonerado até o meio-dia!
DEPUTADO OTÁVIO: Calma, Artur. Não podemos agir com tanta sede ao pote. A imprensa da capital já começou a farejar esse escândalo do mercúrio. Se a gente afastar o delegado agora, vai parecer que estamos acuados. Deixe que o Siqueira resolva a burocracia na base da lei.
HELOÍSA (entrando na sala com uma xícara de café prateada, entediada): Queridos, por favor, parem de gritar com essa política de aldeia. O banqueiro Bernardo e a Sílvia que- rem tomar o café da manhã na varanda com vista para o rio. Não estrangulem o clima com papelada policial.
AURORA (entrando logo atrás da mãe, com o semblante firme): O único clima que vai ser estrangulado aqui, mãe, é a farsa desse condomínio construído com sangue e veneno!
Todos se viram, surpresos com a ousa- dia de Aurora. Artur levanta-se deva- gar,com uma expressão fria e ameaçadora.
CENA 03-INT/DELEGACIA DE GROTAS/CARCERAGEM-MANHÃ
Delegado Gabriel caminha pelo corre- dor da carceragem com o jornal do dia debaixo do braço. Valdor "Trovoada" está sentado no banco de cimento, sorrindo de orelha a orelha,enquanto o advogado substituto agita documentos na porta da cela.
ADVOGADO DO VALENTE: Aqui está a ordem de soltura,Delegado! O manda- do de prisão preventiva foi revogado pela instância superior. Libere o meu cliente imediatamente,ou entrarei com uma representação por abuso de aut- oridade.
DELEGADO GABRIEL (olhando friame- nte para o papel,sem se abalar): A or- dem veio rápida mesmo... Mas o inqu- érito principal sobre crime ambiental e tentativa de homicídio na estrada do cânion continua aberto.
TROVOADA (levantando-se, ajeitando a camisa com pose de valentão): A rua é minha de novo,Delegado. E avisa que aquele teu amiguinho da picape, o Tiago, teve uma surpresinha desagra- dável agora de madrugada. O mundo dá voltas,e quem mexe com o Dr. Artur não tem paz.
Gabriel aperta os dentes,mas é obrig- ado a abrir o portão da cela. Trovoada sai rindo,acompanhado pelo advogado, deixando o clima pesado na delegacia.
CENA 04-INT/TRILHA DA MATA/MARGEM DO RIO SÃO FRANCISCO- MANHÃ
Tiago caminha apressado por entre as raízes e a folhagem úmida,com arran- hões nos braços e a roupa empoeirada, mas segurando firme a pasta com o dossiê. Ele avista a silhueta de Isabel e Perito Lineu, que o esperam perto da ponte de madeira com rostos aflitos.
ISABEL (correndo ao encontro dele,ali- viada): Tiago! Graças a Deus! O Cláu- dio recebeu um rádio de um camin- honeiro dizendo que uma picape preta bateu no teu carro na curva do cânion! A gente achou que...
TIAGO (respirando fundo,enxugando o suor): Eu tive que pular antes que o carro despencasse no precipício. Os capangas do Valente tentaram me matar,Isabel. Eles queriam roubar o dossiê a todo custo.
PERITO LINEU (abrindo a pasta e che- cando os arquivos intocados): Os documentos estão salvos, Tiago. Mas se eles tentaram te eliminar na estra- da,significa que o despacho do Minis- tério Público Federal precisa ser proto- colado agora mesmo,antes que o Artur tente queimar o resto das provas no garimpo.
SEU TONHO (aproximando-se com seu cavalo,trazendo notícias): Rapazes, a coisa tá feia na vila. A polícia de patru- lha acabou de soltar o Trovoada por ordem de um juiz da capital, e o povo tá revoltado na praça!
TIAGO (olhando para o horizonte,com o olhar decidido): Eles soltaram o cap- anga,mas não conseguiram calar a gente. Vamos pra rádio agora trans- mitir a denúncia ao vivo para todo o estado!
CENA 05-INT/RÁDIO COMUNITÁRIA DE GROTAS-MANHÃ
O estúdio da rádio está lotado. Cláudio ajeita os fones de ouvido enquanto Tiago entra às pressas,colocando a pasta de documentos sobre a mesa. Lucas opera a mesa de som e Isabel faz anotações rápidas.
CLÁUDIO (no microfone,com voz fir- me): Povo de Grotas do Destino e de toda a região do São Francisco! Aten- ção máxima! Tentaram calar a nossa voz e destruir as nossas provas na madrugada,mas a verdade não tem freio!
TIAGO (tomando o microfone das mãos de Cláudio,olhando fixamente para a lente da câmera de transmissão que o Perito Lineu acionou para as re- des sociais): Aqui está o dossiê compl- eto da contaminação do nosso rio, assinado pelo perito federal e respald- ado pela comunidade! O garimpo clandestino do senhor Artur Valente e seus protetores políticos não vai ficar impune! O Velho Chico é nosso, e a justiça vai ser feita!
Fora do estúdio, na praça central,deze- nas de moradores param para ouvir os alto-falantes da rádio, aplaudindo e erguendo cartazes em sinal de apoio.
Ela tenta mover os lábios para esboçar um sorriso, mas o corpo inteiro falha. A cabeça pende frouxa para o lado.
CRISTIAN: NÃO! NÃO, NÃO, NÃO!
Uma mão firme agarra o ombro de Cristian. É um paramédico, que che- ga abrindo caminho com autoridade.
PARAMÉDICO: Afastem-se! A gente precisa de espaço,abre o cerco! Cristian agarra a mão fria de Júlia com uma força descomunal.
CRISTIAN: Eu não vou soltar!
PARAMÉDICO: Senhor, por favor, afaste-se!
CRISTIAN: EU NÃO VOU SOLTAR!
O olhar de Cristian é o de um animal ferido encurralado. Até que o paramé- dico o encara de frente, com firmeza e urgência:
PARAMÉDICO: Se você ama ela… dei- xa a gente salvar.
O cérebro de Cristian trava. O som ao redor cessa. Ele processa a frase, solta a mão dela lentamente,centímetro por centímetro,como se estivesse entrega- ndo a própria alma.
CENA 08-INT/CARRO DE BERNARDO -CONTINUAÇÃO
A quarteirões dali, dentro de um carro parado na transversal. As mãos de BERNARDO (Pedro Novaes) estão cravadas no volante com tanta força que os nós dos dedos estão brancos. Sua respiração é um estertor acele- rado. Os olhos arregalados fitam o retrovisor e o caos instaurado na rua.
BERNARDO: Não… não… não…
Ele olha pelo retrovisor. Vê Cristian ajoelhado no asfalto. Vê o corpo de Júlia sendo atendido. Vê o horror. No assoalho do carona, uma garrafa de bebida alcoólica rola e bate na porta. Bernardo treme dos pés à cabeça, tomado pelo pânico.
BERNARDO: Eu não quis… eu não quis…
Mas ele não tem coragem de sair do carro. Não presta socorro. Não assume o que fez. Tomado pela covardia, ele engata a marcha a trancos e barran- cos, pisa fundo no acelerador e desaparece na esquina.
CENA 09-EXT/AVENIDA/ AMBULÂN- CIA-MOMENTO SEGUINTE
A ambulância rasga a cidade com a sirene uivando em tom de emergência máxima. Lá dentro, o clima é de guerra cirúrgica.
MÉDICO DA AMBULÂNCIA: Pressão caindo vertiginosamente!
ENFERMEIRA: Hemorragia interna grave!
MÉDICO DA AMBULÂNCIA: Prepara o acesso venoso central, rápido!
Logo atrás da viatura médica, Cristian pilota sua moto desgovernado pelo trânsito,arriscando a própria vida para acompanhar a ambulância. As lágrimas misturam-se ao suor dentro do capa- cete. Ele grita sozinho, rezando alto em prantos.
CRISTIAN: Fica comigo, Júlia… por favor, fica comigo…
CENA 10-INT/HOSPITAL-ENTRADA DE URGÊNCIA
Instrumental On:
As portas duplas de vidro abrem estalando. Uma maca entra empurrada em disparada por uma equipe de prontidão.
MÉDICO DE PLANTÃO: Centro cirúrgico, AGORA!
Cristian entra correndo logo atrás, tentando invadir o corredor restrito.
CRISTIAN: Eu sou o noivo! Eu preciso ir com ela!
SEGURANÇA: O senhor não pode entrar, espaço restrito!
CRISTIAN: EU PRECISO! ELA É A MINHA VIDA!
Dois seguranças o interceptam e o seguram à força. Cristian luta, esper- neia, tenta avançar, mas o desespero drena o resto de sua energia física. Suas pernas fraquejam. Ele desmorona de joelhos bem no meio do piso frio do corredor do hospital. Pela primeira vez na vida, o monstro gélido do medo o consome por inteiro.
CENA 11-INT/HOSPITAL/CORREDOR- MINUTOS DEPOIS
O som seco de salto alto ecoa pelo corredor estéril. Karina vança a passos firmes,o olhar duro, a respiração mili- metricamente controlada para não transparecer o caos que a consome por dentro.
KARINA: Onde está minha filha?! Nin- guém ousa responder de imediato. Até que o olhar implacável de Karina encontra Cristian.
Ele está sentado no chão,encolhido, com as roupas e as mãos sujas com o sangue de Júlia, completamente destroçado. O semblante de Karina se retorce em confusão e pavor.
KARINA: O que aconteceu aqui?
Cristian abre a boca, tenta articular as palavras, mas só o que sai é um soluço engasgado. Ele não consegue falar. Só chora. Karina dá mais um passo à fren- te, a voz gélida cortando o ar como lâmina.
KARINA: O que você fez com a minha filha?!
Cristian levanta o rosto,os olhos verm- elhos e chocados pela violência da acusação.
CRISTIAN: Eu… não…
KARINA: Você estava com ela!
CRISTIAN: Foi um acidente, eu juro..
KARINA (berrando): ACIDENTE?!
O grito de Karina ecoa pelas paredes brancas do hospital, atraindo olhares assustados.
KARINA: Minha filha estava indo se arrumar para o dia mais feliz da vida dela… e me aparece assim?!
Silêncio. Um silêncio pesado,asfixiante e acusador cai sobre eles. E ali, em meio à tragédia e à dor insuportável, nasce oficialmente a primeira e profu- nda semente do ódio.
Clara chega correndo pelo corredor, escoltada de perto por uma enfermeira do abrigo ou da família. O rostinho infantil está pálido de pavor. Os olhos grandes buscam freneticamente por Júlia. Mas encontram apenas Cristian. A menina caminha devagar, pisando em falso.
CLARA: Cadê a Júlia? Ninguém tem coragem de pronunciar uma única sílaba. Clara fixa os olhos aterrorizados no sangue seco espalhado pela roupa de Cristian.
CLARA: Ela se machucou muito?
Cristian morde o lábio com tanta força que chega a sangrar, tentando conter o pranto para não assustá-la ainda mais. Mas falha miseravelmente. Cla- ra se aproxima e segura a mão trêmula dele.
CLARA: Ela vai voltar pra casa com a gente, né?
Cristian aperta os olhos com força, es- magando as pálpebras como se pude- sse apagar a realidade. E naquele instante,o último resquício de inocên- cia e sanidade que restava nele se quebra em cacos irrecuperáveis.
Luzes cirúrgicas estouram claridade sobre a mesa de operação. Cirurgiões suam sob o gorro, trabalhando em ritmo frenético.
CIRURGIÃO 1: Hemorragia abdominal controlada?
CIRURGIÃO 2: Ainda não cem por cento, doutor!
CIRURGIÃO 1: A pressão está despenc- ando de novo! Perfusão periférica ruim!
CIRURGIÃO 2: Vamos lá,garota, aguen- ta! Não podemos perdê-la!
O monitor cardíaco dispara um apito intermitente,tenso,insistente. Cada se- gundo na sala é uma linha tênue sepa- rando a vida da morte.
HORAS DEPOIS
O tempo perdeu completamente o sentido. Cristian continua sentado no mesmo canto, o olhar completamente vazio fixo em um ponto invisível no chão. Karina está em pé, imóvel como uma estátua de mármore perto da janela. Fria por fora, mas triturada em pedaços microscópicos por dentro. Clara está encolhida em uma cadeira de plástico,abraçando os próprios joelhos,com o rosto enterrado nos braços. É um silêncio absoluto. Um silêncio que grita e corrói a alma.
MOMENTO SEGUINTE
As portas corta-fogo do centro cirúrgi- co se abrem com um baque suave. O Cirurgião Chefe sai pelo vão. Seu rosto está exausto,marcado pelo suor e pela tensão extrema da maratona médica. Imediatamente,todos se levantam num só ímpeto.
KARINA: E então?! Como ela está?! Exijo saber agora!
O médico suspira fundo,tirando a touca cirúrgica e passando a mão pelo cabelo.
MÉDICO: A Júlia… sobreviveu à cirurgia.
Uma lufada de ar vira o peito de todos. O oxigênio volta ao aposento,mas a tensão continua densa.
MÉDICO: Mas…
A conjunção cai como uma bigorna de chumbo.
MÉDICO: Ela sofreu múltiplas lesões ortopédicas graves. O impacto foi viol- entíssimo,concentrando o dano princi- pal na região da coluna vertebral. Cristian trava o maxilar, sentindo o ar sumir dos pulmões. Karina empalidece a ponto de parecer translúcida.
KARINA: O que… o que o senhor quer dizer com isso? O que significa?
O médico hesita por um segundo, sab- endo que a notícia que vai dar mudará para sempre a rota daquelas vidas. Mas ele não tem como fugir da verdade.
MÉDICO: Existe um risco clínico graví- ssimo e extremamente alto de que ela… não volte a andar.
Silêncio absoluto. O mundo parece parar de girar no eixo. Clara levanta a cabeça, sem conseguir processar a brutalidade do termo.
CLARA: Mas… ela dança… balbucia a menina,com a inocência dilacerada. Ninguém responde. Ninguém tem voz para confortá-la.
Cristian deixa o corpo ceder,curvando- se para a frente enquanto as lágrimas começam a jorrar descontroladamen- te,sem som,sem força, consumido por uma culpa infinita. Karina fecha os olhos com toda a força. E,pela prime- ira vez desde que pisou naquele hos- pital,uma única lágrima pesada escapa de seus olhos e desce por seu rosto vincado pela dor.
A câmera se afasta lentamente, subin- do pelo teto do hospital, enquadrando a estrutura pequena e frágil do edifício diante da imensidão impiedosa do mundo lá fora. E ali, naquele instante de dor intransponível sem que nenhum deles saiba ou perceba ainda,o destino de todos começa a ser impiedosamen- te redesenhado. Não apenas pelas marcas da tragédia que os atropelou. Mas pelas escolhas definitivas e som- brias que ainda virão.
O sol ainda nem nasceu direito. CRIS- TIAN (Matheus Abreu) corta o vento frio da manhã a bordo de sua moto. Ele não reclama do frio. Pelo contrá- rio… sorri sozinho por dentro do capacete, com aquela expressão típica de quem está nas nuvens. Ele para no semáforo vermelho. Tira o celular do bolso rapidamente. Na tela, uma foto: ele e JÚLIA (Vitória Bohn). Ela ri, joga- ndo a cabeça para trás. Ele a olha como se o resto do mundo nem existisse.
CRISTIAN (murmura para si mesmo): Hoje você vira minha esposa…
O semáforo abre. Cristian acelera e some na curva.
CENA 02-INT/QUARTO DE JÚLIA- MANHÃ
A luz do dia invade o espaço com uma suavidade quase irreal.
Júlia está no centro do quarto,descal- ça. Ela fecha os olhos. E começa a dançar. Não é um ensaio coreografado, não há técnica rígida é puro sentime- nto. Cada movimento é leve,solto e cheio de vida, como se o corpo dela não obedecesse a regras, apenas ao ritmo do próprio coração. Ela gira,para, respira fundo… e abre um sorriso puro.
CLARA (voz suave): Você dança como se estivesse apaixonada.
Instrumental off.
Júlia abre os olhos.
CLARA (Samantha Quadrado) está se- ntada na cama,observando a cena com um brilho encantado nos olhos.
JÚLIA (rindo, indo na direção dela): E eu tô.
Clara bate palminhas, empolgada.
CLARA: O Cristian te faz feliz, né?
Júlia senta na beirada da cama e seg- ura o rosto da menina com todo o cari- nho do mundo.
JÚLIA: Muito.
Clara pensa por um segundinho, avali- ando a resposta.
CLARA: Então ele é bom.
JÚLIA (sorri,com os olhos brilhando): É o melhor.
As duas se abraçam apertado. Na por- ta do quarto,KARINA (Débora Falabella) observa tudo em silêncio. Sem interromper. Mas também… sem esboçar nenhum sorriso. Apenas obs- erva com um olhar indecifrável.
CENA 03-EXT/FLORICULTURA-DIA
Cristian estaciona a moto em frente a uma floricultura de bairro, simples e charmosa. Ele tira o capacete.
CRISTIAN: Fala, seu Antônio!
SEU ANTÔNIO (Roberto Bonfim),o florista,limpa as mãos no avental e sorri ao reconhecê-lo.
SEU ANTÔNIO: Vai casar hoje,né, garoto?
Cristian coça a nuca, rindo timidamente.
CRISTIAN: Dá para ver assim na cara?
SEU ANTÔNIO: Dá para ver nos olhos. O que vai ser?
Uma praça simples e arborizada. O lugar exato onde tudo começou entre eles. Júlia está sentada em um banco de madeira,ajeitando nervously o teci- do leve do vestido. Ela olha impaciente para o relógio de pulso.
JÚLIA (murmura sozinha): Ele vai se atrasar justo hoje…
CRISTIAN: Tô aqui.
Júlia levanta o olhar num susto bom. Cristian está parado a poucos passos dela, segurando o buquê de flores com as duas mãos,olhando fixamente para ela como se estivesse a vendo pela primeira vez na vida.
JÚLIA: Você tá…
Ele trava, sem conseguir terminar a frase diante da imagem dela.
JÚLIA (sorri, em tom de provocação): O quê?
CRISTIAN: Ainda mais linda do que ontem..
Ela ri, balançando a cabeça.
JÚLIA: Mentiroso.
Ele se aproxima devagar e estende as flores.
CRISTIAN: Eu treino todo dia para te elogiar melhor.
Júlia pega o buquê,sentindo o perfume.
JÚLIA: E hoje você caprichou.
Silêncio entre os dois. Os olhares se grudam. O barulho da rua,das pessoas e do trânsito ao redor simplesmente… some. Cristian estende a mão e segura a dela.
CRISTIAN: Tá com medo?
Júlia respira fundo, encarando o chão por um segundo antes de voltar a olhá-lo.
JÚLIA: Tô.
CRISTIAN: De quê?
JÚLIA: De ser feliz demais… e alguma coisa dar errado.
Cristian aperta a mão dela com firme- za,transmitindo toda a segurança do mundo.
CRISTIAN: Então a gente erra junto.
Ela sorri, com os olhos marejados de emoção.
JÚLIA: Promete?
CRISTIAN: Prometo.
Ele se inclina e encosta a testa na dela.
CRISTIAN: Eu não tenho muito, Júlia…
JÚLIA: Você tem tudo o que eu preciso.
CRISTIAN: Eu vou ralar,trabalhar,fazer o impossível…
JÚLIA: Eu sei.
CRISTIAN: Mas eu vou te dar uma vida boa.
Júlia balança a cabeça negativamente, com um sorriso terno nos lábios.
JÚLIA: Você já me deu.
Silêncio. Sem mais palavras necessá- rias. Eles se beijam. Um beijo calmo, profundo,sem pressa e sem nenhuma sombra de dúvida.
Trilha Sonora off.
CENA 05-EXT/PRAÇA-MOMENTO DEPOIS
Clara aparece correndo por entre as árvores da praça, esbaforida.
CLARA: EU ACHEI VOCÊS!
Júlia ri,abrindo os braços.
JÚLIA: Clara!
A menina chega abraçando os dois de uma vez só.
CLARA: Vocês vão casar hoje!
CRISTIAN (sorrindo): Vamos.
Clara se afasta um pouco, erguendo o queixo e olhando bem séria para Cris- tian,em uma pose quase protetora.
CLARA: Você vai cuidar dela?
Cristian desce do salto,agachando-se para ficar exatamente na altura dos olhos da menina.
CRISTIAN: Vou. Muito.
CLARA: Promete de verdade?
CRISTIAN: Prometo de verdade.
O rosto de Clara se desmancha em um sorriso satisfeito.
CLARA: Então você pode casar.
Os três irrompem em risadas. Mais ao longe, próxima à saída da praça, Karina observa a cena com os braços cruza- dos,o corpo rígido e a expressão com- pletamente fechada.
CENA 06-EXT/CALÇADÃO DA PRAÇA- MINUTOS DEPOIS
Cristian e Júlia caminham de mãos dadas,aproveitando os últimos minutos de calmaria antes da cerimônia.
JÚLIA (provocativa): Lembra quando você caiu da moto tentando me impr- essionar?
CRISTIAN: Eu não caí.
JÚLIA: Caiu sim,esborrachado.
CRISTIAN: Foi uma descida estraté- gica.
Ela ri alto, contagiante.
JÚLIA: Você é ridículo.
CRISTIAN: E você me ama.
JÚLIA: Amo mesmo.
Eles param de caminhar de repente. O tom de brincadeira se esvai,dando lu- gar a uma vulnerabilidade mútua.
JÚLIA: A gente vai ficar bem, né?
CRISTIAN (sem hesitar por um segun- do sequer): A gente já tá.
CENA 07-EXT/ESQUINA DA RUA-MO- MENTO SEGUINTE
Hora da despedida temporária. Eles param na calçada,prestes a seguir caminhos opostos rumo ao altar.
CRISTIAN: Vai na frente. Eu ainda tenho uma entrega rápida.
JÚLIA (sobressaltada): No dia do casa- mento?!
CRISTIAN: Última corrida de solteiro. Prometo que é vapt-vupt.
Júlia revira os olhos, mas acaba sorri- ndo, incapaz de brigar com ele.
Júlia dá meia-volta e começa a atra- vessar a rua na faixa de pedestres. Cristian caminha até sua moto, sobe no banco, ajeita o capacete e liga o motor. O ronco da máquina ecoa. Mas antes de engatar a marcha e sair, um ímpeto inexplicável o faz parar. Ele olha para frente,como se algo invisível exigisse mais um olhar. Júlia já está no meio da rua,caminhando tranquilame- nte. Ela sente o peso do olhar dele e se vira para trás.
Os olhares se cruzam à distância. O mundo ao redor parece desacelerar bruscamente. O som ambiente diminui, abafado. Cristian solta o guidão com uma das mãos, enche o peito e grita com toda a força do seu amor:
CRISTIAN: EU TE AMO!
Júlia abre aquele sorriso luminoso, o sorriso que pertence exclusivamente a ele. Ela responde,elevando a voz ainda mais alto:
Nesse exato instante,uma melodia sua- ve,O vento sopra forte, fazendo o tecido leve do vestido de Júlia dançar ao redor de seu corpo. Cristian sorri, apaixonado. Júlia, brincalhona e inte- iramente entregue ao momento, ergue as mãos e faz o gesto de um coração no ar para ele. Cristian abre um sorriso ainda maior e retribui o gesto, erguen- do as mãos para formar o coração de volta. E então… De repente, cortando a atmosfera mágica, um carro surge em alta velocidade na rua transversal. Desgovernado. Rápido demais. O sorriso no rosto de Cristian despenca num segundo, dando lugar ao terror absoluto.
CRISTIAN: Júlia…!
O som estridente e metálico de um Freio Brusco rasga o ar, cortando a música. O som do impacto ainda ecoa pelas paredes dos prédios ao redor. Mas o mundo… simplesmente silen- ciou. Por um único e agonizante segu- ndo, tudo parece congelado no tempo. O corpo de Júlia estendido no asfalto. O vestido de noiva manchado. O buquê de flores espalhado e pisoteado pela pista.
VOZ: SOCORRO!
A realidade despenca como um soco no estômago. A moto de Cristian tomba pesada no chão antes mesmo que ele perceba que a soltou.
CRISTIAN: JÚLIA!!!
Ele corre enlouquecido. Tropeça no próprio desespero, quase cai,levanta -se num pulo. Empurra pessoas que tentam se aproximar. Nada mais impo- rta no universo. Nada existe. Só ela. Ele chega rasgando espaço e cai de joelhos no asfalto duro. Suas mãos tremem violentamente ao tocar o rosto dela.
CRISTIAN: Júlia… olha pra mim… por favor… por favor…
O sangue quente e rubro mancha seus dedos. A respiração dela é um sopro fraco,irregular,dolorosamente escasso.
CRISTIAN: Fica comigo… eu tô aqui… eu tô aqui…
Os olhos de Júlia pestanejam e se abrem por uma fração de segundo. Estão perdidos, turvos, sem foco.
JÚLIA (um fio de voz quase impercep- tível): Cris…?
A cozinha estava iluminada apenas pelas luzes sob os armários. Docume- ntos espalhados sobre a grande mesa de madeira. Impressões, anotações, capturas de tela. Edu Bastos estava sentado, as mangas da camisa arrega- çadas, analisando cada página relacio- nada ao Projeto Ônix com atenção de quem já tinha visto muita coisa suja na vida.
EDU: Tem muita gente poderosa envo- lvida nisso, nomes que não costumam aparecer em noticiários. Empresas de fachada. Transferências internacionais. E um padrão de silêncio que só existe quando alguém muito bem posiciona- do decide que certas coisas não devem ser investigadas.
Maya, encostada na bancada com os braços cruzados, o encarava com desconfiança aberta.
MAYA: E por que você tá ajudando a gente?Jornalistas não costumam se meter tanto assim sem ter algum ângulo. Ou alguma recompensa.
Edu hesitou. Os dedos pararam sobre uma das folhas. Por um segundo, o rosto dele perdeu a confiança habitual.
EDU: Porque eu comecei a investigar o desaparecimento do Otávio. Logo depois que a notícia estourou. Achei algumas coisas estranhas. Mandei uma pauta. E quase fui demitido por isso. Recebi um aviso claro: “esse assunto não é pra você”. Desde então… eu não consegui largar. E agora que vocês apareceram no meio disso tudo, eu acho que finalmente encontrei quem pode me ajudar a chegar no fundo.
O clima na cozinha ficou sério. Ningu- ém falou por alguns segundos. O peso das palavras de Edu pairava sobre a mesa junto com os documentos.
CENA 07-JARDIM DA MANSÃO-DIA
O jardim estava quieto. As luzes da piscina criavam reflexos dançantes na água. O vento balançava levemente as folhas das árvores. Lívia saiu pela porta dos fundos carregando um copo de água e encontrou Diego sentado na beira da piscina, as pernas balançando, o olhar perdido no escuro.
Ele ergueu o rosto quando a viu se aproximar.
DIEGO: Então agora vocês têm jornalista, ex-policial e sistema de segurança. Está ficando profissional.
Lívia ri fraco, o som quase sem força.
LÍVIA: Ainda parece insuficiente. Cada vez que a gente acha que está um passo à frente, acontece alguma coisa pior.
Diego se levantou devagar e se aproximou dela. A distância entre os dois diminuiu. O olhar dele era sério, mas carregado de uma ternura que Lívia já não tentava mais negar.
DIEGO: Você não precisa carregar tudo sozinha. Eu sei que você se acostumou a resolver as coisas no grito e na raiva. Mas agora… agora você tem gente do lado. Tem os seus irmãos. Tem o Augusto. E me tem. Se você deixar.
Lívia ficou em silêncio, olhando para ele. O vento mexeu o cabelo dela. Pela primeira vez em muito tempo, a expressão de resistência no rosto dela amoleceu. Os olhos se suavizaram.
Pela primeira vez, ela pareceu realmente acreditar naquelas palavras.
CENA 08-LUGAR DESCONHECIDO
A sala continuava escura e fria. O cheiro de umidade e metal era ainda mais forte naquela hora. Otávio, depois de horas de trabalho silencioso e doloroso, finalmente conseguiu soltar uma das mãos. A corda cedeu com um estalo quase inaudível. Ele massageou o pulso dolorido, sentindo o sangue voltar a circular.
Com movimentos lentos e calculados, ele tentou alcançar a porta. Cada centímetro era uma negociação com o próprio corpo exausto. Do lado de fora, vozes baixas ecoavam.
Dois capangas discutiam perto da entrada.
CAPANGA: Rogério quer acabar logo com isso. Disse que a gente está demorando demais. Que os filhos estão bagunçando o plano.
Otávio prendeu a respiração. Forçou o peito a se mover o mínimo possível. Os dedos da mão livre tocaram finalmente a maçaneta fria.
Quando ele começou a girá-la com extremo cuidado…
A porta começou a abrir do outro lado.
Otávio congelou completamente. O corpo inteiro ficou imóvel. O coração disparou, mas ele não fez o menor ruído.
Do outro lado da porta, alguém estava prestes a entrar.
escrita e criada por: LEONARDO DE PAULA JOÃO VITOR PRADO
Supervisão de: VANESSA COUTO
direção geral: DIOGO ITAMAR
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CENA 01-HOSPITAL-MANHÃ
A manhã chegou cinzenta e úmida sobre o hospital. O sol tentava furar as nuvens sem muito sucesso, jogando uma luz pálida pelos corredores ainda cheios de movimento. No quarto, o clima era de alívio contido misturado a uma inquietação que ninguém conseguia disfarçar.
Benício recebeu a alta oficial. O mé- dico assinou os papéis com um sorriso profissional e algumas recomendações que Rosana anotou com atenção quase obsessiva. O jovem se levantou deva- gar, apoiado no braço da mãe. Cada movimento ainda doía um pouco, mas ele tentava disfarçar. Rosana passava a mão pelas costas dele com carinho protetor, ajustando a jaqueta leve sobre os ombros estreitos.
ROSANA: Devagar, meu amor. Não precisa ter pressa. A gente espera o tempo que for necessário.
Maya,do outro lado do quarto, organi- zava as bolsas com eficiência nervosa. Separava roupas, carregadores, documentos, empurrando tudo para dentro das sacolas de forma quase mecânica. O cabelo preso num coque bagunçado e o rosto sem maquiagem revelavam o cansaço dos últimos dias.
MAYA: Finalmente saindo desse lugar.
Comentou ela, tentando soar mais leve do que realmente se sentia.
MAYA: Eu juro que se eu tivesse que ouvir mais um bip de máquina ou cheiro de desinfetante, ia pirar de vez.
Lívia estava parada perto da porta, os braços cruzados,o olhar varendo o corredor com desconfiança aberta. Cada enfermeiro que passava, cada macarrão de oxigênio sendo empu- rrado, cada passo de segurança… tudo merecia sua atenção. O maxilar trava- do denunciava a tensão.
LÍVIA: E voltando direto pro caos. Porque a gente sabe que lá fora não vai ser exatamente um retiro de paz.
Caio terminava de assinar os últimos papéis da alta junto à mesa da enfer- meira. A caneta deslizava com firmeza sobre o papel quando o som de passos firmes ecoou pelo corredor. Alguém se aproximava com determinação.
Era Henrique Valença.
Elegante como sempre,o terno impe- cável apesar da hora, o cabelo pente- ado com precisão, o olhar sério e claramente preocupado. Ele parou por um segundo na entrada do corredor, como se precisasse confirmar com os próprios olhos que Caio estava ali, de pé, vivo.
CENA 02-CORREDOR DO HOSPITAL- MANHÃ
Caio ergueu o rosto e se surpreendeu. A caneta parou no ar por um instante.
CAIO: Henrique?
Henrique se aproximou em passos rápidos, sem se importar com os olhares curiosos dos funcionários ao redor. Quando chegou perto o suficiente, a preocupação no rosto dele ficou ainda mais evidente.
HENRIQUE: Eu tentei te ligar desde ontem. Você não atendeu. Mandei mensagem. Nada. Eu fiquei… preocu- pado. Soube do que aconteceu aqui. Do ataque.
Lívia e Maya trocaram um olhar rápido, carregado de compreensão imediata. O clima entre os dois homens era impossível de ignorar. Havia história ali. E preocupação genuína.
Henrique deu mais um passo, os olhos fixos em Caio.
HENRIQUE: Você tá bem?
Caio demorou alguns segundos para responder. O peito subiu e desceu numa respiração funda. Pela primeira vez em dias, alguém perguntava aquilo de um jeito que parecia realmente querer a verdade.
CAIO: Não muito. A gente quase perdeu o Benício. E agora… tudo parece estar piorando. Eu não sei mais quem confiar.
Henrique observou o rosto dele com atenção. Viu as olheiras profundas, a tensão nos ombros, o jeito como Caio apertava o envelope dos documentos com força demais. Percebeu o quanto ele estava abalado e como tentava esconder isso atrás da postura contro- lada de sempre.
HENRIQUE: Eu estou aqui agora, se você precisar de qualquer coisa…
Caio apenas assentiu, sem conseguir dizer mais nada naquele momento.
CENA 03-ENTRADA DO HOSPITAL- MANHÃ
A saída do hospital foi feita com cau- tela. Dois seguranças caminhavam à frente, outros dois atrás. Rosana segu- rava o braço de Benício com firmeza protetora. Maya puxava a mala maior. Lívia e Caio fechavam o grupo, os olhos sempre alertas.
Do outro lado da rua, parcialmente escondido atrás de um carro estacio- nado, um homem com uma câmera profissional tirava fotos discretas. O clique era quase inaudível, mas o enquadramento era preciso: os quatro irmãos, a mãe de Benício, a tensão nos rostos.
Edu Bastos, que observava a cena de uma distância maior, notou o movim- ento. O jornalista atravessou a rua em passos largos e decididos. Chegou perto do fotógrafo antes que o homem percebesse e segurou o braço dele com firmeza.
EDU: Acho que você esqueceu de pedir autorização.
O homem se debatiu, soltou a câmera por um segundo, deu um empurrão e saiu correndo rua abaixo, sumindo entre os carros. Edu não tentou perse- guir. Apenas observou a fuga com um olhar calculista.
Os irmãos, que tinham parado ao perceber a movimentação, olhavam assustados. Benício apertou a mão da mãe. Maya deu um passo para trás.
Edu se aproximou do grupo, guardan- do o celular no bolso.
EDU: Vocês precisam começar a pres- tar mais atenção em quem tá seguindo vocês. Esse tipo de gente não aparece por acaso.
Lívia franziu a testa, reconhecendo o rosto.
LÍVIA: Você é o jornalista da televisão. Aquele que fica aparecendo em reportagens de crime.
Edu sorriu de canto, rápido, quase imperceptível.
EDU: E vocês são a família mais procu- rada do Rio no momento. Pelo menos nos bastidores. Todo mundo quer saber o que aconteceu com Otávio Monteiro. E agora, pelo jeito, alguém está disposto a ir bem longe para impedir que vocês descubram.
CENA 04-MANSÃO MONTEIRO-DIA
A mansão Monteiro recebeu os irmãos sob um silêncio pesado. Os portões se abriram com o som metálico habitual, mas agora havia mais seguranças do lado de fora. Câmeras adicionais tinham sido instaladas. O clima de casa, que um dia fora apenas luxuoso e distante, agora parecia militarizado.
Augusto conversava em tom baixo com o chefe da equipe de segurança, troca- ndo informações rápidas, apontando para plantas da casa e pontos cegos. Caio observava tudo de perto, os braços cruzados, o olhar analítico varendo cada detalhe.
AUGUSTO: Ninguém entra sem autori- zação agora. Nem prestadores de ser- viço, nem entregadores, nem conhe- cidos. Qualquer pessoa precisa de confirmação prévia. E os portões vão ficar trancados o tempo todo.
Lívia pegou o molho de chaves da casa que estava sobre a mesa de entrada. As chaves tilintaram entre os dedos dela.
LÍVIA: Troquem tudo, senhas, fechadu- ras, códigos de alarme, acesso remoto. Tudo. Se alguém tinha cópia de qual- quer coisa, agora não tem mais.
Augusto assentiu.
AUGUSTO: Já está em andamento.
CENA 05-SALA DA MANSÃO-DIA
Na sala principal, funcionários técnicos trabalhavam com eficiência. Trocavam senhas dos portões eletrônicos,reconf- iguravam câmeras, testavam alarmes. O som de teclas sendo digitadas e de rádios crepitando preenchia o ambiente.
Maya observava as várias telas de segurança agora montadas sobre uma mesa improvisada. Imagens de todos os ângulos da propriedade apareciam em preto e branco, nítidas demais.
MAYA: Isso aqui virou prisão de luxo. A gente tem piscina, jardim, cinema… e agora também tem cercas invisíveis e olho eletrônico em cada canto.
Benício se sentou no sofá grande, o corpo ainda cansado. Fechou os olhos por um segundo, tentando respirar fundo.
Henrique se aproximou discretamente de Caio, que observava a movimenta- ção perto da janela.
HENRIQUE: Você devia descansar. Sério. Você está no limite.
Caio finalmente baixou um pouco a guarda. Os ombros cederam alguns centímetros. O olhar cansado encontrou o de Henrique.
CAIO: Eu não consigo. Toda vez que eu fecho os olhos, eu penso no que quase aconteceu com o Benício. Ou no que pode acontecer com qualquer um de nós.
Henrique, sem se importar com quem pudesse estar olhando, segurou a mão de Caio rapidamente. O toque foi breve, firme, reconfortante.
Do outro lado da sala, Lívia percebeu o gesto. Não disse nada. Apenas sorriu de canto, um sorriso pequeno, quase imperceptível, e desviou o olhar, dando privacidade aos dois.
CineNovelas
São Paulo e Rio de Janeiro, anos 1940. Entre o aroma delicado das flores de rua e o burburinho elegante da Confeitaria Dois Amores, o destino de duas irmãs separadas ao nascer está prestes a se cruzar de forma inesquecível.
De um lado, Rosinha carrega a força e a doçura de quem vende flores para sobreviver. Sonhadora e batalhadora, sua vida desaba quando o pai de criação, Antenor, morre em um incêndio devastador. Sem olhar para trás, ela parte rumo a São Paulo em busca de suas verdadeiras origens. Disfarçada entre a poeira e o suor do trabalho como faxineira na imponente mansão de seus pais biológicos, Rosinha começa a desvendar segredos profundos que podem mudar tudo, enquanto anseia pelo dia em que poderá abraçar sua família.
Do outro lado do país, na vibrante capital carioca, vive Cassandra. Irmã gêmea de Rosinha e separada dela ainda no berço, Cassandra leva uma rotina agitada servindo mesas na charmosa Confeitaria Dois Amores, sem imaginar que a outra metade de sua alma respira a poucos quilômetros de distância.
Em uma época de rádio de válvula, vestidos rodados, cartãoes postais e trens de ferro fumegantes, prepare-se para acompanhar uma jornada emocionante sobre identidade, perda, esperança e o reencontro mais esperado da década.
Qual segredo revelado na mansão vai mudar a vida de Rosinha para sempre?
#rosa #Kassandra #segredos #gemeas #doisamores
11 hours ago | [YT] | 7
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CineNovelas
CONFLITO • Capítulo 02
escrita e criada por:
JOÃO GABRIEL FERNANDES
Supervisão de:
EDGAR OLIVEIRA
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
abertura: https://youtu.be/5ZqTP2gLy28?is=FlRUn...
⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️
CENA 01-HOSPITAL/QUARTO UTI- MANHÃ
Instrumental On:
https://youtu.be/uCrhgy0sqjw?is=d1JOx...
O som é constante e mecânico.
Bip… bip… bip…
A luz do quarto de hospital é branca, estéril, fria e implacável. Júlia abre os olhos lentamente. Tudo está desfoca-
do, confuso, pesado. Ela tenta respirar fundo, mas até o ato mais simples parece exigir um esforço hercúleo.
VOZ DISTANTE (FORA DE CENA): Júlia…?
Uma voz conhecida, ainda que dista-
nte. Ela pisca repetidamente até cons-
eguir focar a visão. Cristian está ali ao lado da cama. Os olhos vermelhos, o rosto marcado pelo cansaço extremo, mas transbordando de um amor aflito.
JÚLIA (voz fraca, quase um sopro): Cris…?
Ele se aproxima de imediato, segura-
ndo a mão dela com uma delicadeza extrema, como se temesse que ela se desmanchasse ao toque.
CRISTIAN: Eu tô aqui… eu não saí daqui nenhum segundo…
Júlia tenta esboçar um sorriso frágil.
JÚLIA: A gente… casou?
A pergunta flutua no ar estéril do quarto. Cristian engole em seco, luta-
ndo contra as lágrimas que ameaçam transbordar.
CRISTIAN: Ainda não… mas a gente vai. A gente vai fazer isso do jeito mais lindo que existe.
Ela fecha os olhos por um instante, buscando forças na respiração lenta.
JÚLIA: Eu tive um sonho… tão estranho…
CRISTIAN: Que sonho?
JÚLIA: Eu caía… e você gritava…
Cristian fecha os olhos, sentindo o peso invisível daquela premonição.
CRISTIAN: Foi só um pesadelo, amor… passou. Você tá segura agora.
Júlia tenta mover o corpo. Os múscu-
los respondem… apenas parcialmente. Suas sobrancelhas se franzem em uma expressão de estranhamento.
JÚLIA: Eu tô… pesada demais…
Cristian se inclina, preocupado.
CRISTIAN: Você sofreu um acidente feio, meu amor… seu corpo ainda tá se recuperando do choque.
Ela tenta comandar as pernas sob o lençol branco. Nada acontece. O olhar muda instantaneamente, migrando da confusão para um incômodo profundo e cortante.
JÚLIA: Cris…
Ele sente o tom de voz dela e o próprio coração dispara em desespero sordo.
CRISTIAN: O que foi? O que você tá sentindo?
JÚLIA: Eu não tô sentindo…
Um silêncio pesado e sufocante toma conta do ambiente. Júlia tenta de novo, aplicando mais força e concentração. Nada.
JÚLIA: Cris… eu não tô sentindo as minhas pernas!
Instrumental off.
CENA 02-HOSPITAL/QUARTO UTI- MOMENTO SEGUINTE
Instrumental On:
https://youtu.be/jTfelceHV40?is=0QIUj...
A voz começa a falhar, frágil e trêmula. Cristian aperta a mão gelada dela com firmeza desesperada.
CRISTIAN: Calma… os médicos disseram que o edema...
JÚLIA (gritando): O QUE ELES DISSERAM?!
O desespero irrompe como uma lâmina. Os monitores cardíacos disparam em um ritmo frenético e estridente.
BIP BIP BIP BIP
CRISTIAN: Júlia, por favor, se acalma—
JÚLIA: POR QUE EU NÃO SINTO NADA?! EU PRECISO LEVANTAR!
Ela tenta impulsionar o torso para cima, mas o corpo não obedece aos comandos da mente.
CRISTIAN: Amor, não faz isso, você pode se machucar...
JÚLIA: EU PRECISO DANÇAR!
A frase corta o ar como vidro quebra-
do. E, naquele exato segundo, o mun-
do construído por ela desmorona por completo.
CENA 03-HOSPITAL/QUARTO UTI- PORTA DE ENTRADA
A porta se abre bruscamente. O mé-
dico entra no quarto com postura séria e extremamente cautelosa. Karina aparece logo atrás, com o maxilar travado e o olhar tenso. Clara observa timidamente da soleira da porta, sentindo o terror no ar.
MÉDICO: Júlia… (diz ele, medindo cada palavra).
Ela o encara com os olhos arregalados, banhados em pânico puro.
JÚLIA: Faz eu sentir minhas pernas. Por favor. Faz passar.
O silêncio pesa como chumbo. O médico respira fundo, preparando-se para desferir o golpe final.
MÉDICO: Você sofreu uma lesão medular gravíssima no impacto…
JÚLIA (interrompendo abruptamente):
Eu não quero saber o nome técnico! Eu quero saber quando eu vou voltar a dançar!
O médico hesita por um segundo eterno. Olha para Cristian, depois para Karina, e finalmente devolve o olhar para Júlia.
MÉDICO: Existe uma probabilidade muito real de você não voltar a andar.
Instrumental off.
CENA 04-HOSPITAL/QUARTO UTI- CENTRO DO QUARTO
Instrumental On:
https://youtu.be/WxwLKKHPROI?is=UDkrN...
O universo físico parece parar de girar. Literalmente. Júlia pisca. Uma vez. Duas. Três.
JÚLIA: Não.
A resposta é simples, seca, cortante.
CRISTIAN: Júlia…
JÚLIA (a voz elevando-se): NÃO!
Ela começa a rir. Um riso oco,estranho
,febril e profundamente nervoso.
JÚLIA: Vocês estão errados… totalm-
ente errados… eu sou bailarina profissional! Meu corpo… meu corpo simplesmente funciona, é isso que ele faz!
Ela tenta forçar as pernas mais uma vez, em vão. O nada absoluto. O riso se desfaz instantaneamente em um pranto convulsivo.
JÚLIA: Não… meu Deus, não… não…
Cristian avança um passo, de braços estendidos.
CRISTIAN: Meu amor, deixa eu...
JÚLIA (esbravejando com ódio e dor):
NÃO ENCOSTA EM MIM!
Cristian congela no lugar, completam-
ente destruído.
CENA 05-HOSPITAL/QUARTO UTI- CANTO DA CAMA
Júlia continua respirando com dificuldade.
JÚLIA: Isso não tá acontecendo… isso é um pesadelo… tem que ser!
Clara se aproxima lentamente da cama, pisando com cautela extrema, como quem caminha sobre gelo fino prestes a estalar.
CLARA (voz suave): Júlia…
Júlia vira o rosto devagar, os olhos inundados de lágrimas.
CLARA: Se você quiser… eu posso dançar pra você. Todos os dias. Até você melhorar e voltar.
Silêncio absoluto. A proposta é de uma pureza devastadora. Sem maldade, sem filtro, sem peso conceitual — mas atinge Júlia com a força de um golpe físico no estômago. Júlia vira o rosto bruscamente para o lado oposto e chora como nunca havia chorado em toda a sua vida.
Instrumental off.
CENA 06-HOSPITAL/QUARTO UTI- ÁREA DE VISÃO
Instrumental On:
https://youtu.be/QUj0myIWo3A?is=SRCfw...
De canto, Karina observa a cena inteira imóvel, petrificada. Mas por dentro, cada estrutura de sua armadura emocional entra em colapso violento.
KARINA (com uma frieza trêmula):
Isso não pode ser verdade. Vocês cometeram um erro.
MÉDICO: Senhora, nós já realizamos todos os exames de imagem e checagem neurológica possíveis...
KARINA: Então façam mais!
MÉDICO: Mas...
KARINA (com autoridade cortante): EU DISSE PARA FAZEREM MAIS EXAMES!
O consultório e o corredor parecem tremer sob o comando implacável de Karina. Mas, pela primeira vez em sua vida, nem mesmo o seu controle absoluto tem o poder de alterar a realidade.
CENA 07-HOSPITAL/QUARTO UTI-FIM DE TARDE
Horas mais tarde. O quarto está mergulhado em um silêncio fúnebre. A luz da tarde banha o ambiente de forma melancólica. Júlia olha fixame-
nte para o teto branco, com o olhar completamente esvaziado. Cristian permanece sentado na poltrona ao lado, sem saber o que dizer, sem saber como continuar existindo naquele espaço diminuto.
JÚLIA (voz quase inaudível, sem alma):
Cris…
CRISTIAN: Oi, meu amor… tô aqui.
JÚLIA: Se eu não puder mais dançar… eu não sou absolutamente nada.
Cristian fecha os olhos com força, sentindo a dor física daquelas palavras.
CRISTIAN: Você é tudo para mim, Júlia. Tudo.
JÚLIA: Não sou. Você ama uma baila-
rina… você ama a arte que eu fazia, o movimento, a leveza…
CRISTIAN: Eu amo você. Só você.
JÚLIA: Mas eu não sou mais eu. Eu virei outra pessoa. Uma sombra.
Instrumental off.
CENA 08-HOSPITAL/QUARTO UTI
Instrumental On:
https://youtu.be/fwcQ_09EZts?is=8xwyO...
A frase pesa no ar como um bloco de concreto.
CRISTIAN: Você ainda continua sendo a mulher da minha vida…
JÚLIA (cortando com rispidez desespe-
rada): NÃO! Você devia ir embora daqui agora. Sumir.
Cristian congela, o fôlego preso na garganta.
CRISTIAN: O quê…? O que você tá dizendo?
JÚLIA: Eu não posso te dar a vida, o futuro e a alegria que você merece ter!
CRISTIAN: Júlia, para com isso...
JÚLIA (gritando em prantos): EU NÃO POSSO NEM ANDAR, CRISTIAN! ACABOU!
O grito ecoa pelas paredes do quarto do hospital. Em seguida, apenas o som abafado e sufocante do choro incon-
tido preenche o espaço.
CENA 09-HOSPITAL/QUARTO UTI- NOITE
Cristian se levanta e se aproxima devagar da cama. Mesmo sentindo medo, mesmo com o peito estraçalha-
do e sangrando por dentro. Ele estende a mão e segura a de Júlia. Com firmeza irredutível.
CRISTIAN: Então eu fico.
Júlia vira o rosto lentamente, surpresa através das lágrimas.
CRISTIAN: Mesmo que você grite, mesmo que tente me mandar embora… eu não vou sair daqui. Se você não consegue caminhar agora, eu caminho por nós dois. Se você perder a esperança… eu guardo a esperança por nós dois.
Uma única lágrima solitária escapa e desce devagar pelo rosto de Júlia.
Silêncio. Longo. Profundo. Doloroso.
Ela fecha os olhos lentamente. E, pela primeira vez desde que acordou, ela percebe que a dor não vai sumir mas há algo indestrutível ao lado dela.
A câmera se afasta de forma gradual, elevando-se pelo teto do quarto esté;
ril. Mostrando os dois ali, reduzidos ao essencial, presos em uma nova e implacável realidade. Onde o amor ainda existe… mas agora, será testado até o seu limite absoluto.
FIM DO CAPÍTULO
15 hours ago | [YT] | 12
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O PAPAI SUMIU! Capítulo 13
escrita e criada por:
LEONARDO DE PAULA
JOÃO VITOR PRADO
Supervisão de:
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔
CENA 01-CATIVEIRO-MADRUGADA
A porta do cativeiro se abriu lentame-
nte, rangendo no silêncio da madruga-
da. A luz fraca do corredor invadiu a sala escura por um segundo. Otávio, que ainda tinha uma das mãos livres, reagiu com a velocidade de quem já havia planejado cada segundo. Em um movimento rápido e silencioso, voltou para a cadeira, ajeitou o corpo e fingiu que as cordas ainda o prendiam por completo. A mão solta ficou escondida atrás das costas, apertando o pedaço de vidro com força.
Um capanga entrou carregando uma bandeja com comida simples: arroz, feijão e um pouco de carne fria. O homem deixou o prato no chão perto de Otávio e ficou olhando para ele com irritação.
CAPANGA: Você tá dando trabalho demais. Toda hora o Rogério pergun-
tando se você ainda tá vivo. Se dependesse de mim, a gente já tinha acabado com isso faz tempo.
Otávio não respondeu. Apenas mante-
ve a cabeça baixa, o olhar discreto fixo na cintura do homem. Ali, parcialmente escondida pela jaqueta, estava a arma. Um detalhe importante. O capanga resmungou mais alguma coisa, chutou levemente a bandeja na direção de Otávio e saiu sem perceber que uma das cordas já estava cortada.
Assim que a porta se fechou com um estrondo seco, Otávio soltou a respira-
ção que estava segurando. O peito subiu e desceu com alívio contido. Ele olhou para a própria mão livre, depois para a porta, e murmurou baixinho para si mesmo:
OTÁVIO: Mais um pouco… só mais um pouco.
CENA 02-MANSÃO MONTEIRO- MANHÃ
A mansão estava mais movimentada do que nos dias anteriores. O som de teclas sendo digitadas, papéis sendo revirados e conversas baixas preenchia a sala de estar transformada em centro de investigação improvisado. Documentos do Projeto Ônix estavam espalhados pela grande mesa de madeira, alguns grifados, outros com post-its coloridos.
Edu Bastos estava sentado ao lado de Caio, os dois concentrados nas planil-
has e extratos bancários. O jornalista apontava para uma sequência de transferências com o dedo.
EDU: Essas transferências do Projeto Ônix começaram há quase quinze anos. Olha a data. Quinze anos. Muito antes de qualquer notícia sobre o desaparecimento do seu pai. E os valores… não são pequenos.
Caio franziu a testa, os olhos percorr-
endo as linhas com atenção crescente. A expressão dele mudou aos poucos, de concentração para algo mais sombrio.
CAIO: Muito antes do meu pai inves-
tigar. Isso não faz sentido. Ele sempre falou que descobriu o Projeto Ônix há pouco tempo. Como pode ter começado tanto tempo atrás?
Henrique entrou na sala carregando uma bandeja com xícaras de café. Colocou uma na frente de Caio e outra na frente de Edu, o olhar atento à conversa.
HENRIQUE: Isso significa que Otávio talvez tenha participado no começo. Ou pelo menos sabia da existência disso muito antes do que vocês imaginavam.
O silêncio que se seguiu foi imediato e pesado. Ninguém falou por alguns segundos. O café esfriava sobre a mesa enquanto a possibilidade pairava no ar como uma acusação não dita.
CENA 03-COZINHA DA MANSÃO
Maya estava escondida perto da porta da cozinha, ouvindo cada palavra. O rosto dela, antes apenas curioso, agora estava vermelho de indignação. Quando ouviu a sugestão de que o pai poderia ter participado do projeto, não aguentou mais. Entrou na sala com passos firmes, os olhos brilhando de raiva contida.
MAYA: Não. Meu pai não faria isso. Vocês estão falando como se ele fosse algum tipo de criminoso. Otávio Monteiro não era assim. Ele era… ele era o meu pai.
A voz dela tremeu no final da frase. Lívia apareceu logo atrás, os braços cruzados, a expressão mais cética e cansada.
LÍVIA: A gente não conhece metade da vida dele, Maya. Sério. A gente mal se conhecia entre si até poucas semanas atrás. Como você pode ter certeza absoluta do que ele fazia ou deixava de fazer quinze anos atrás?
Maya ficou em silêncio. As palavras da irmã a atingiram em cheio. O olhar dela baixou por um segundo, e pela primeira vez a certeza absoluta pareceu rachar. Ela se mexeu, inquieta, o peito apertado.
CENA 04-QUARTO DE BENÍCIO- MANHÃ.
O quarto de Benício, a luz da manhã entrava suavemente pelas cortinas semiabertas. Valentina estava ajoelhada no chão, ajudando o jovem a organizar algumas partituras espalhadas sobre a cama. As folhas estavam um pouco amassadas, algumas com anotações antigas à lápis. Benício ainda fazia caretas de dor sempre que se inclinava demais.
VALENTINA: Você devia descansar mais. O médico falou pra não forçar. Seu corpo ainda está se recuperando.
Benício suspirou, passando a mão pelo cabelo bagunçado.
BENÍCIO: Se eu parar pra pensar muito, eu enlouqueço. Fico lembrando do hospital, do barulho da porta sendo arrombada, daquele símbolo no carro… Eu preciso de alguma coisa pra ocupar a cabeça. Qualquer coisa.
Valentina observou o rosto dele por um momento. Depois se sentou ao lado dele na beira da cama, o ombro quase tocando o dele.
VALENTINA: Então canta pra mim. Qualquer coisa. Uma música antiga, uma que você gostava quando era criança… só canta.
Benício sorriu sem jeito, o rosto corando levemente. Pegou o violão que estava encostado na parede e passou os dedos pelas cordas com carinho.
CENA 05-EMPRESA MONTEIRO-TARDE
Na sede da empresa Monteiro, a sala de reuniões estava lotada. Funcioná-
rios antigos, novos diretores e investidores sentavam-se ao redor da longa mesa de vidro, os rostos tensos. O ar-condicionado trabalhava no máximo, mas o clima ainda assim era abafado.
Rogério estava de pé na cabeceira da mesa, as mãos apoiadas sobre a madeira, o olhar firme e calculado.
ROGÉRIO: Enquanto Otávio não for encontrado, eu assumo oficialmente a presidência da empresa. Não podemos deixar a companhia à deriva. Os merc-
ados estão inquietos, os investidores estão ligando o tempo todo e a imprensa não para de especular. A partir de hoje, todas as decisões estratégicas passam por mim.
Alguns assentiram. Outros apenas baixaram o olhar. Do lado de fora da sala, parcialmente escondido atrás de uma coluna no corredor, Edu Bastos fotografava tudo com o celular, o zoom apertado, o rosto sério. Cada gesto de Rogério, cada reação dos presentes… tudo era registrado.
CENA 06-MANSÃO MONTEIRO-TARDE
No escritório antigo de Otávio, Lívia revirava caixas de papelão empilhadas no canto. Entre papéis velhos, pastas e objetos esquecidos, ela encontrou uma caixa de madeira escura, pequena e empoeirada. Abriu com cuidado.
Dentro havia fotos. Dezenas delas. Os quatro filhos ainda crianças. Lívia sorrindo de forma rebeldemente aos sete anos. Caio de óculos e uniforme escolar. Maya de vestidinho colorido fazendo pose. Benício com um violão maior do que ele. Algumas fotos eram de aniversários, outras de momentos simples, como um dia no parque.
Lívia segurou uma das imagens com as duas mãos. Os olhos marejaram, mas ela tentou disfarçar. Foi então que Caio apareceu na porta.
CAIO: Você tá chorando?
Lívia limpou o canto do olho com o dorso da mão, irritada consigo mesma.
LÍVIA: Cala a boca.
Caio sorriu de leve, sem insistir. Apro-
ximou-se e observou as fotos espalha-
das sobre a mesa. O olhar dele também amoleceu.
CAIO: Então ele acompanhava a gente… mesmo de longe. Guardava essas coisas.
Lívia passou o dedo pela borda de uma das fotos e percebeu algo estranho. Havia um papel fino colado atrás da imagem. Ela puxou com cuidado. Era uma anotação escrita à mão, com a letra firme e conhecida de Otávio:
“Confie em Clara.”
Os dois se entreolharam em silêncio.
CENA 07-APARTAMENTO DE CLARA- NOITE
O apartamento de Clara Monteiro ficava em um prédio elegante da Zona Sul. Os quatro irmãos chegaram juntos, ainda processando a descobe-
rta da anotação. Caio tocou a campainha.
Clara abriu a porta vestida com eleg-
ância impecável, como sempre. O cabelo branco impecavelmente penteado, o colar discreto, o olhar afiado. Ela observou os quatro netos parados no corredor e logo percebeu a tensão nos rostos.
CLARA Então finalmente resolveram aparecer juntos. Eu estava começando a achar que vocês só iriam me procu-
rar quando precisassem de dinheiro ou de um favor.
Caio estendeu a foto com a anotação atrás.
CAIO: Meu pai disse pra confiar na senhora. Achamos isso escondido entre as coisas dele. “Confie em Clara.” Escrito com a letra dele.
O sorriso educado de Clara desapare-
ceu pela primeira vez. O rosto dela endureceu, e por um segundo ela pareceu muito mais velha e cansada.
Clara fechou a porta com cuidado e, antes de dizer qualquer coisa, foi até as janelas e fechou todas as cortinas. O apartamento ficou mais escuro, mais fechado. Só então ela se virou para os netos.
CLARA: O Projeto Ônix começou como um acordo empresarial. Algo aparent-
emente legítimo. Investimentos, parc-
erias internacionais, uma estrutura complexa… mas virou algo muito maior. E muito mais sujo.
Maya deu um passo à frente, o rosto pálido.
MAYA: O papai tava envolvido?
Clara hesitou. Os olhos dela percorr-
eram os quatro rostos jovens na frente dela.
CLARA: Seu pai tentou sair disso quando percebeu no que tinha se tornado. Ele passou anos tentando se afastar, tentando proteger vocês. Mas algumas coisas… algumas coisas não deixam a gente ir embora tão facilmente.
Lívia cruzou os braços, o olhar afiado.
LÍVIA: E quem criou isso? Quem está por trás de tudo?
Clara encarou os quatro netos por um longo momento. A voz dela saiu baixa, mas clara:
CLARA: Rogério não é o verdadeiro chefe.
O silêncio que tomou conta da sala foi absoluto. Nenhum dos irmãos conseg-
uiu falar. A revelação pairava no ar, pesada e irreversível.
FIM DO CAPÍTULO
17 hours ago | [YT] | 5
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CENA 06-INT/MANSÃO VALENTE/SALA DE ESTAR-MANHÃ
O som estridente da rádio comunitária ecoa pelos corredores da mansão. Artur Valente, que tomava café com o banqueiro Bernardo e a esposa, para-
lisa com a xícara na mão. Heloísa deixa escapar um grito de horror ao ouvir a voz de Tiago transmitida em rede nacional.
ARTUR (esmurrando a mesa de vidro, que trinca com o impacto): Filha da puta! Aquele caipira maldito sobreviveu!
BERNARDO (levantando-se da mesa, visivelmente constrangido e irritado): Artur, o que significa isso?! Você me garantiu que a situação estava sob controle e que este projeto não tinha nenhum passivo jurídico ou ambiental! Minha empresa não vai associar o nome a um escândalo de corrupção e violência na imprensa!
SÍLVIA (esposa de Bernardo, pegando a bolsa): Vamos embora daqui, Bernar-
do. Este lugar é um antro de bandidos!
ENZO (tentando conter a situação, pálido): Seu Bernardo, por favor, não acredite nesses boatos de radialista...
ARTUR (com o rosto vermelho de ódio, perdendo totalmente o controle): Siqueira! Chame os seguranças particulares! Traga o Tiago aqui nem que seja arrastado pelos cabelos! Grotas é minha, e ninguém vai me derrubar na minha própria terra!
Aurora observa a cena com um sorriso discreto de vitória, enquanto sua mãe chora de desespero no sofá, vendo o império de luxo desabar diante de seus olhos.
CENA 07-INT/DELEGACIA DE GROTAS/SALA DE INTERROGATÓRIO-NOITE
Artur Valente está sentado de um lado da mesa, algemado, com a gravata desalinhada e a expressão transtor-
nada. Doutor Siqueira está ao seu lado, enquanto o Delegado Gabriel e dois Agentes Federais ocupam o outro lado.
DOUTOR SIQUEIRA: Meu cliente não vai responder a nenhuma pergunta sem que a liminar de soltura seja apreciada pelo tribunal da capital, Delegado. Isso é um abuso!
DELEGADO GABRIEL (tranquilo, abrin-
do a pasta): O abuso, Doutor Siqueira, foi jogar toneladas de mercúrio no afl-
uente do São Francisco e forjar licen-
ças ambientais. As provas trazidas pela perícia e o depoimento dos trabalha-
dores do garimpo são irrefutáveis.
ARTUR (esmurrando a mesa com as mãos algemadas): Isso é uma conspi-
ração do pessoal da cooperativa! Aquele Tiago armou tudo com a minha filha! Eu exijo falar com o Deputado Otávio Vianna agora!
AGENTE FEDERAL: O Deputado Otávio Vianna está sendo notificado neste momento pela Polícia Federal na capital, Senhor Artur. O seu esquema de desapropriação ilegal acabou.
Artur empalidece e se encosta na cadeira, caindo na real da sua situação.
CENA 08-INT/MANSÃO VALENTE/ SALA DE ESTAR-NOITE
A casa está em absoluto caos. Heloísa Valente anda em círculos pela sala, jogando almofadas para o lado e chorando de desespero. Enzo Castelo arruma uma mala no corredor.
HELOÍSA (gritando): Enzo! Você não pode ir embora agora! Quem vai me ajudar a resolver esse absurdo?! Os jornalistas da capital estão me ligando sem parar!
ENZO (fechando o zíper da mala, frio e pragmático): Eu não tenho nada a ver com as tramoias do seu marido, Heloísa. Meu pai já mandou cancelar todas as contas do projeto e o meu advogado mandou eu voltar pra capital imediatamente.
HELOÍSA: Mas e a marina?! E o seu evento de lançamento?! E o seu noiva-
do com a Aurora?!
ENZO (debochado): Que noivado, Heloísa? A sua filha tá nos braços do caipira do café e o seu marido tá preso por crime ambiental. O nome dos Valente agora é lama. Passar bem!
Enzo sai puxando a mala e bate a porta principal com força, deixando Heloísa sozinha no meio do luxo arruinado.
CENA 09-INT/FAZENDA DE SEU TONHO/SALA DE JANTAR-NOITE
A mesa está farta com broas, café fresco e queijo do sertão. Tiago, Aurora, Seu Tonho, Dona Dorinha, Seu Reginaldo e Marlene celebram em um clima de paz e alívio.
DONA DORINHA (servindo café para Aurora): Come um pedaço de bolo, minha filha. Você tá muito pálida depois de tudo o que passou naquela mansão.
AURORA (sorrindo docemente): Obrig-
ada, Dona Dorinha. Aqui com vocês eu me sinto em casa de verdade. É a primeira vez em anos que eu sinto paz no coração.
SEU REGINALDO: A paz voltou pro nosso vale, Aurora. O rio tá limpo e o povo do café pode trabalhar sem medo das ameaças do Artur.
TIAGO (segurando a mão de Aurora por cima da mesa): A nossa luta valeu a pena, pai. Mas agora a gente precisa cuidar de reconstruir a cooperativa e garantir que o café das Grotas chegue forte no mercado.
SEU TONHO: É isso mesmo, Tiago! Amanhã cedo a gente reúne todo mu-
ndo na associação pra organizar o mutirão da colheita!
CENA 10-INT/POSTO DE SAÚDE COMUNITÁRIO-NOITE
Dra. Helena examina a última criança da fila com um estetoscópio. Isabel e Perito Lineu estão ao lado de Tinha, organizando os medicamentos doados pela cidade vizinha.
DRA. HELENA (sorrindo de alívio): A febre da meninada cedeu totalmente, Tinha. A água limpa que o pessoal da aldeia trouxe fez toda a diferença.
ISABEL: Os laudos da água do riacho já mostram queda nos níveis de contami-
nação. O rio tá se limpando sozinho agora que as bombas do garimpo foram desligadas.
PERITO LINEU: A força de regeneração do São Francisco é impressionante. Isabel, amanhã eu preciso enviar o relatório final pra Brasília, mas... Eu queria conversar com você antes.
ISABEL (olhando para Lineu com cari-
nho): Sobre o quê, Lineu?
PERITO LINEU: Sobre o meu futuro. Eu pedi transferência pra ficar responsá-
vel pela fiscalização permanente da bacia do São Francisco. Eu não quero mais ir embora de Grotas.
Isabel sorri emocionada e os dois se abraçam apaixonadamente.
CENA 11-INT-MANSÃO VALENTE/ COZINHA-MADRUGADA
A mansão está silenciosa e na penum-
bra. Heloísa entra na cozinha descabe-
lada, vestindo um seda amassado, e encontra Ester guardando a louça.
HELOÍSA (com a voz trêmula e arroga-
nte): Ester! Por que a casa tá toda escura?! Vá preparar um chá de camo-
mila pra mim imediatamente e chame o motorista! Preciso ir à capital ver o Artur!
ESTER (virando-se devagar, com extre-
ma dignidade): O motorista foi embora logo depois do Seu Enzo,Dona Heloísa. E os outros empregados também pedi-
ram demissão porque os pagamentos do mês atrasaram.
HELOÍSA (chocada, levando as mãos à cabeça): Como assim pediram demis-
são?! Quem vai cuidar da minha casa?! Quem vai passar as minhas roupas?!
ESTER (tirando o avental de trabalho e colocando sobre a mesa): A senhora vai ter que aprender a fazer isso sozinha, Dona Heloísa. Eu também tô saindo. Vou trabalhar onde o meu esforço é respeitado. Tenha uma boa noite.
Ester pega sua bolsa e sai pela porta dos fundos, deixando Heloísa olhando para o avental com a cara da derrota.
CENA 12-EXT/ALDEIA ANCESTRAL/ MATA CILIAR-AMANHECER
O sol desponta no horizonte, lançando raios dourados sobre as copas das árvores seculares da mata ciliar. Pajé Moacir e Yara fazem uma oração de agradecimento à beira da água.
PAJÉ MOACIR (jogando pétalas de flores brancas na correnteza): A mãe água lavou a sujeira dos homens de ganância. A terra ancestral tá forte de novo.
YARA (olhando para o rio com um sorriso sereno): As máquinas se calaram, Pajé. O vento do rio voltou a soprar limpo nas folhas.
Tiago surge caminhando pela trilha e se junta a eles na margem.
TIAGO: Bom dia, Pajé. Bom dia, Yara. Vim agradecer por tudo o que vocês fizeram na estrada do cânion. Sem vocês, o dossiê não tinha chegado na Justiça.
PAJÉ MOACIR: O rio uniu a nossa gente, Tiago. Enquanto o café da terra for cultivado com respeito, o São Francisco vai proteger o povo de Grotas.
CENA 13-EXT/SEDE DA COOPERATIVA DOS CAFEICULTORES-MANHÃ
A praça central de Grotas está lotada de trabalhadores, ribeirinhos, artesãs e moradores. Tiago, Aurora, Seu Tonho, Isabel, Cláudio e Dra. Helena sobem no coreto improvisado sob aplausos calorosos.
CLÁUDIO (no microfone da rádio): Povo de Grotas do Destino! Hoje começa um novo tempo pra nossa terra! O garimpo acabou, o rio tá livre e a nossa cooperativa tá mais forte do que nunca!
O povo comemora com vivas e aplausos efusivos. Tiago pega a mão de Aurora e a ergue diante de todos.
TIAGO: A nossa união provou que o dinheiro e a ganância não podem comprar a nossa dignidade nem destruir as nossas águas! A partir de hoje, a gente colhe o nosso café com orgulho e de cabeça erguida!
Aurora olha para Tiago com amor radiante. De repente, uma tontura leve faz Aurora vacilar por um segundo no coreto. Tiago a segura com carinho e preocupação.
TIAGO (em voz baixa, amparando-a): Aurora?! O que foi, meu amor? Você tá bem?!
AURORA (colocando a mão sobre o ventre,sorrindo com os olhos mareja-
dos de emoção): Eu tô bem, Tiago... Mais do que bem. Eu tô sentindo uma alegria imensa... A nossa vida tá só começando.
Aurora e Tiago se olham profundam-
ente,enquanto o povo da praça continua a celebrar em festa.
CONGELA NO ROSTO EMOCIONADO DE AURORA E TIAGO SE ABRAÇANDO NO CORETO.
FIM DO CAPÍTULO
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GROTAS DO DESTINO • Capítulo 19
Escrita e criada por:
GUILHERME SILVA
Supervisão de:
VANESSA COUTO
Direção geral:
DIOGO ITAMAR
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CENA 01-EXT/ESTRADA DE RAGEM/CURVA DO CÂNYON-MADRUGADA
As rodas dianteiras da picape de Tiago giram em falso no ar, balançando peri-
gosamente sobre o abismo do São Francisco. Corta-Vento e o capanga se aproximam a passos lentos, com as barras de ferro erguidas e sorrisos sádicos no rosto.
CORTA-VENTO (rindo,com desprezo): Deixa de ser teimoso,moleque! O teu destino é o mesmo daquela draga de ferro lá no fundo do rio!
Tiago, preso pelo cinto de segurança e com a pasta de documentos apertada contra o peito,avalia o espaço redu-
zido da cabine. Ele solta o cinto de um puxão só e chuta a porta do motorista com toda a força. A porta se abre bru-
scamente,atingindo o joelho do capan-
ga, que cambaleia para trás na beira do precipício.
Aproveitando o instante de desequilí-
brio, Tiago pula para fora da cabine antes que a picape ceda de vez ao peso e despenca morro abaixo, espati-
fando-se nas pedras da margem com um estrondo ensurdecedor.
CORTA-VENTO (furioso,apontando a barra de ferro): Pega ele! Não deixa esse caipira escapar com a pasta!
Tiago rola pela poeira da estrada e corre em direção à mata fechada, enquanto os capangas disparam atrás dele, desferindo golpes cegos na escuridão.
CENA 02-INT/MANSÃO VALENTE/ESCRITÓRIO DE ARTUR-MANHÃ
O sol começa a dourar os cumes das montanhas de Grotas do Destino. Artur Valente fuma um charuto caro na polt-
rona de couro, enquanto o Deputado Otávio Vianna anda de um lado para o outro,impaciente. Doutor Siqueira en-
tra na sala com uma maleta diplomá-
tica.
DOUTOR SIQUEIRA: A liminar de soltu-
ra do Trovoada já está assinada por um juiz plantonista da capital,Artur. O problema é que o delegado Gabriel se recusou a cumprir o despacho de pro-
nto, alegando resistência técnica.
ARTUR (batendo o punho na mesa, os olhos injetados de raiva): Aquele dele-
gado de meia-pataca pensa que man-
da em alguma coisa! Otávio, use a sua influência na Secretaria de Segurança Pública. Eu quero o Gabriel exonerado até o meio-dia!
DEPUTADO OTÁVIO: Calma, Artur. Não podemos agir com tanta sede ao pote. A imprensa da capital já começou a farejar esse escândalo do mercúrio. Se a gente afastar o delegado agora, vai parecer que estamos acuados. Deixe que o Siqueira resolva a burocracia na base da lei.
HELOÍSA (entrando na sala com uma xícara de café prateada, entediada): Queridos, por favor, parem de gritar com essa política de aldeia.
O banqueiro Bernardo e a Sílvia que-
rem tomar o café da manhã na varanda com vista para o rio. Não estrangulem o clima com papelada policial.
AURORA (entrando logo atrás da mãe, com o semblante firme): O único clima que vai ser estrangulado aqui, mãe, é a farsa desse condomínio construído com sangue e veneno!
Todos se viram, surpresos com a ousa-
dia de Aurora. Artur levanta-se deva-
gar,com uma expressão fria e ameaçadora.
CENA 03-INT/DELEGACIA DE GROTAS/CARCERAGEM-MANHÃ
Delegado Gabriel caminha pelo corre-
dor da carceragem com o jornal do dia debaixo do braço. Valdor "Trovoada" está sentado no banco de cimento, sorrindo de orelha a orelha,enquanto o advogado substituto agita documentos na porta da cela.
ADVOGADO DO VALENTE: Aqui está a ordem de soltura,Delegado! O manda-
do de prisão preventiva foi revogado pela instância superior. Libere o meu cliente imediatamente,ou entrarei com uma representação por abuso de aut-
oridade.
DELEGADO GABRIEL (olhando friame-
nte para o papel,sem se abalar): A or-
dem veio rápida mesmo... Mas o inqu-
érito principal sobre crime ambiental e tentativa de homicídio na estrada do cânion continua aberto.
TROVOADA (levantando-se, ajeitando a camisa com pose de valentão): A rua é minha de novo,Delegado. E avisa que aquele teu amiguinho da picape, o Tiago, teve uma surpresinha desagra-
dável agora de madrugada. O mundo dá voltas,e quem mexe com o Dr. Artur não tem paz.
Gabriel aperta os dentes,mas é obrig-
ado a abrir o portão da cela. Trovoada sai rindo,acompanhado pelo advogado, deixando o clima pesado na delegacia.
CENA 04-INT/TRILHA DA MATA/MARGEM DO RIO SÃO FRANCISCO- MANHÃ
Tiago caminha apressado por entre as raízes e a folhagem úmida,com arran-
hões nos braços e a roupa empoeirada, mas segurando firme a pasta com o dossiê. Ele avista a silhueta de Isabel e Perito Lineu, que o esperam perto da ponte de madeira com rostos aflitos.
ISABEL (correndo ao encontro dele,ali-
viada): Tiago! Graças a Deus! O Cláu-
dio recebeu um rádio de um camin-
honeiro dizendo que uma picape preta bateu no teu carro na curva do cânion! A gente achou que...
TIAGO (respirando fundo,enxugando o suor): Eu tive que pular antes que o carro despencasse no precipício. Os capangas do Valente tentaram me matar,Isabel. Eles queriam roubar o dossiê a todo custo.
PERITO LINEU (abrindo a pasta e che-
cando os arquivos intocados): Os documentos estão salvos, Tiago. Mas se eles tentaram te eliminar na estra-
da,significa que o despacho do Minis-
tério Público Federal precisa ser proto-
colado agora mesmo,antes que o Artur tente queimar o resto das provas no garimpo.
SEU TONHO (aproximando-se com seu cavalo,trazendo notícias): Rapazes, a coisa tá feia na vila. A polícia de patru-
lha acabou de soltar o Trovoada por ordem de um juiz da capital, e o povo tá revoltado na praça!
TIAGO (olhando para o horizonte,com o olhar decidido): Eles soltaram o cap-
anga,mas não conseguiram calar a gente. Vamos pra rádio agora trans-
mitir a denúncia ao vivo para todo o estado!
CENA 05-INT/RÁDIO COMUNITÁRIA DE GROTAS-MANHÃ
O estúdio da rádio está lotado. Cláudio ajeita os fones de ouvido enquanto Tiago entra às pressas,colocando a pasta de documentos sobre a mesa. Lucas opera a mesa de som e Isabel faz anotações rápidas.
CLÁUDIO (no microfone,com voz fir-
me): Povo de Grotas do Destino e de toda a região do São Francisco! Aten-
ção máxima! Tentaram calar a nossa voz e destruir as nossas provas na madrugada,mas a verdade não tem freio!
TIAGO (tomando o microfone das mãos de Cláudio,olhando fixamente para a lente da câmera de transmissão que o Perito Lineu acionou para as re-
des sociais): Aqui está o dossiê compl-
eto da contaminação do nosso rio, assinado pelo perito federal e respald-
ado pela comunidade! O garimpo clandestino do senhor Artur Valente e seus protetores políticos não vai ficar impune! O Velho Chico é nosso, e a justiça vai ser feita!
Fora do estúdio, na praça central,deze-
nas de moradores param para ouvir os alto-falantes da rádio, aplaudindo e erguendo cartazes em sinal de apoio.
CONTINUA NO PRÓXIMO PÔSTER
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Instrumental On:
https://youtu.be/uCrhgy0sqjw?is=EFZ2L...
Ele desaba por dentro, a garganta travada de dor.
CRISTIAN: Eu te amo… eu te amo tanto…
Ela tenta mover os lábios para esboçar um sorriso, mas o corpo inteiro falha. A cabeça pende frouxa para o lado.
CRISTIAN: NÃO! NÃO, NÃO, NÃO!
Uma mão firme agarra o ombro de Cristian. É um paramédico, que che-
ga abrindo caminho com autoridade.
PARAMÉDICO: Afastem-se! A gente precisa de espaço,abre o cerco!
Cristian agarra a mão fria de Júlia com uma força descomunal.
CRISTIAN: Eu não vou soltar!
PARAMÉDICO: Senhor, por favor, afaste-se!
CRISTIAN: EU NÃO VOU SOLTAR!
O olhar de Cristian é o de um animal ferido encurralado. Até que o paramé-
dico o encara de frente, com firmeza e urgência:
PARAMÉDICO: Se você ama ela… dei-
xa a gente salvar.
O cérebro de Cristian trava. O som ao redor cessa. Ele processa a frase, solta a mão dela lentamente,centímetro por centímetro,como se estivesse entrega-
ndo a própria alma.
CENA 08-INT/CARRO DE BERNARDO -CONTINUAÇÃO
A quarteirões dali, dentro de um carro parado na transversal. As mãos de BERNARDO (Pedro Novaes) estão cravadas no volante com tanta força que os nós dos dedos estão brancos. Sua respiração é um estertor acele-
rado. Os olhos arregalados fitam o retrovisor e o caos instaurado na rua.
BERNARDO: Não… não… não…
Ele olha pelo retrovisor. Vê Cristian ajoelhado no asfalto. Vê o corpo de Júlia sendo atendido. Vê o horror.
No assoalho do carona, uma garrafa de bebida alcoólica rola e bate na porta. Bernardo treme dos pés à cabeça, tomado pelo pânico.
BERNARDO: Eu não quis… eu não quis…
Mas ele não tem coragem de sair do carro. Não presta socorro. Não assume o que fez. Tomado pela covardia, ele engata a marcha a trancos e barran-
cos, pisa fundo no acelerador e desaparece na esquina.
CENA 09-EXT/AVENIDA/ AMBULÂN-
CIA-MOMENTO SEGUINTE
A ambulância rasga a cidade com a sirene uivando em tom de emergência máxima. Lá dentro, o clima é de guerra cirúrgica.
MÉDICO DA AMBULÂNCIA: Pressão caindo vertiginosamente!
ENFERMEIRA: Hemorragia interna grave!
MÉDICO DA AMBULÂNCIA: Prepara o acesso venoso central, rápido!
Logo atrás da viatura médica, Cristian pilota sua moto desgovernado pelo trânsito,arriscando a própria vida para acompanhar a ambulância. As lágrimas misturam-se ao suor dentro do capa-
cete. Ele grita sozinho, rezando alto em prantos.
CRISTIAN: Fica comigo, Júlia… por favor, fica comigo…
CENA 10-INT/HOSPITAL-ENTRADA DE URGÊNCIA
Instrumental On:
As portas duplas de vidro abrem estalando. Uma maca entra empurrada em disparada por uma equipe de prontidão.
MÉDICO DE PLANTÃO: Centro cirúrgico, AGORA!
Cristian entra correndo logo atrás, tentando invadir o corredor restrito.
CRISTIAN: Eu sou o noivo! Eu preciso ir com ela!
SEGURANÇA: O senhor não pode entrar, espaço restrito!
CRISTIAN: EU PRECISO! ELA É A MINHA VIDA!
Dois seguranças o interceptam e o seguram à força. Cristian luta, esper-
neia, tenta avançar, mas o desespero drena o resto de sua energia física. Suas pernas fraquejam. Ele desmorona de joelhos bem no meio do piso frio do corredor do hospital. Pela primeira vez na vida, o monstro gélido do medo o consome por inteiro.
CENA 11-INT/HOSPITAL/CORREDOR- MINUTOS DEPOIS
O som seco de salto alto ecoa pelo corredor estéril. Karina vança a passos firmes,o olhar duro, a respiração mili-
metricamente controlada para não transparecer o caos que a consome por dentro.
KARINA: Onde está minha filha?! Nin-
guém ousa responder de imediato. Até que o olhar implacável de Karina encontra Cristian.
Ele está sentado no chão,encolhido, com as roupas e as mãos sujas com o sangue de Júlia, completamente destroçado. O semblante de Karina se retorce em confusão e pavor.
KARINA: O que aconteceu aqui?
Cristian abre a boca, tenta articular as palavras, mas só o que sai é um soluço engasgado. Ele não consegue falar. Só chora. Karina dá mais um passo à fren-
te, a voz gélida cortando o ar como lâmina.
KARINA: O que você fez com a minha filha?!
Cristian levanta o rosto,os olhos verm-
elhos e chocados pela violência da acusação.
CRISTIAN: Eu… não…
KARINA: Você estava com ela!
CRISTIAN: Foi um acidente, eu juro..
KARINA (berrando): ACIDENTE?!
O grito de Karina ecoa pelas paredes brancas do hospital, atraindo olhares assustados.
KARINA: Minha filha estava indo se arrumar para o dia mais feliz da vida dela… e me aparece assim?!
Silêncio. Um silêncio pesado,asfixiante e acusador cai sobre eles. E ali, em meio à tragédia e à dor insuportável, nasce oficialmente a primeira e profu-
nda semente do ódio.
Clara chega correndo pelo corredor, escoltada de perto por uma enfermeira do abrigo ou da família. O rostinho infantil está pálido de pavor. Os olhos grandes buscam freneticamente por Júlia. Mas encontram apenas Cristian.
A menina caminha devagar, pisando em falso.
CLARA: Cadê a Júlia? Ninguém tem coragem de pronunciar uma única sílaba. Clara fixa os olhos aterrorizados no sangue seco espalhado pela roupa de Cristian.
CLARA: Ela se machucou muito?
Cristian morde o lábio com tanta força que chega a sangrar, tentando conter o pranto para não assustá-la ainda mais. Mas falha miseravelmente. Cla-
ra se aproxima e segura a mão trêmula dele.
CLARA: Ela vai voltar pra casa com a gente, né?
Cristian aperta os olhos com força, es-
magando as pálpebras como se pude-
sse apagar a realidade. E naquele instante,o último resquício de inocên-
cia e sanidade que restava nele se quebra em cacos irrecuperáveis.
Instrumental off.
CENA 12-CENTRO CIRÚRGICO- SIMULTÂNEO
Instrumental On:
https://youtu.be/jTfelceHV40?is=sGvEK...
Luzes cirúrgicas estouram claridade sobre a mesa de operação. Cirurgiões suam sob o gorro, trabalhando em ritmo frenético.
CIRURGIÃO 1: Hemorragia abdominal controlada?
CIRURGIÃO 2: Ainda não cem por cento, doutor!
CIRURGIÃO 1: A pressão está despenc-
ando de novo! Perfusão periférica ruim!
CIRURGIÃO 2: Vamos lá,garota, aguen-
ta! Não podemos perdê-la!
O monitor cardíaco dispara um apito intermitente,tenso,insistente. Cada se-
gundo na sala é uma linha tênue sepa-
rando a vida da morte.
HORAS DEPOIS
O tempo perdeu completamente o sentido. Cristian continua sentado no mesmo canto, o olhar completamente vazio fixo em um ponto invisível no chão. Karina está em pé, imóvel como uma estátua de mármore perto da janela. Fria por fora, mas triturada em pedaços microscópicos por dentro.
Clara está encolhida em uma cadeira de plástico,abraçando os próprios joelhos,com o rosto enterrado nos braços.
É um silêncio absoluto. Um silêncio que grita e corrói a alma.
MOMENTO SEGUINTE
As portas corta-fogo do centro cirúrgi-
co se abrem com um baque suave. O Cirurgião Chefe sai pelo vão. Seu rosto está exausto,marcado pelo suor e pela tensão extrema da maratona médica.
Imediatamente,todos se levantam num só ímpeto.
KARINA: E então?! Como ela está?! Exijo saber agora!
O médico suspira fundo,tirando a touca cirúrgica e passando a mão pelo cabelo.
MÉDICO: A Júlia… sobreviveu à cirurgia.
Uma lufada de ar vira o peito de todos. O oxigênio volta ao aposento,mas a tensão continua densa.
MÉDICO: Mas…
A conjunção cai como uma bigorna de chumbo.
MÉDICO: Ela sofreu múltiplas lesões ortopédicas graves. O impacto foi viol-
entíssimo,concentrando o dano princi-
pal na região da coluna vertebral.
Cristian trava o maxilar, sentindo o ar sumir dos pulmões. Karina empalidece a ponto de parecer translúcida.
KARINA: O que… o que o senhor quer dizer com isso? O que significa?
O médico hesita por um segundo, sab-
endo que a notícia que vai dar mudará para sempre a rota daquelas vidas. Mas ele não tem como fugir da verdade.
MÉDICO: Existe um risco clínico graví-
ssimo e extremamente alto de que ela… não volte a andar.
Silêncio absoluto. O mundo parece parar de girar no eixo. Clara levanta a cabeça, sem conseguir processar a brutalidade do termo.
CLARA: Mas… ela dança… balbucia a menina,com a inocência dilacerada.
Ninguém responde. Ninguém tem voz para confortá-la.
Cristian deixa o corpo ceder,curvando-
se para a frente enquanto as lágrimas começam a jorrar descontroladamen-
te,sem som,sem força, consumido por uma culpa infinita. Karina fecha os olhos com toda a força. E,pela prime-
ira vez desde que pisou naquele hos-
pital,uma única lágrima pesada escapa de seus olhos e desce por seu rosto vincado pela dor.
A câmera se afasta lentamente, subin-
do pelo teto do hospital, enquadrando a estrutura pequena e frágil do edifício diante da imensidão impiedosa do mundo lá fora. E ali, naquele instante de dor intransponível sem que nenhum deles saiba ou perceba ainda,o destino de todos começa a ser impiedosamen-
te redesenhado. Não apenas pelas marcas da tragédia que os atropelou. Mas pelas escolhas definitivas e som-
brias que ainda virão.
FIM DO CAPÍTULO
1 day ago (edited) | [YT] | 21
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CONFLITO • Capítulo 01 #estreia
escrita e criada por:
JOÃO GABRIEL FERNANDES
Supervisão de:
EDGAR OLIVEIRA
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
abertura: https://youtu.be/5ZqTP2gLy28?is=FlRUn...
⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️
CENA 01-EXT/RUA DE SÃO PAULO -MANHÃ
Instrumental On:
https://youtu.be/i0oVjVxxX10?is=mhSqX...
O sol ainda nem nasceu direito. CRIS-
TIAN (Matheus Abreu) corta o vento frio da manhã a bordo de sua moto. Ele não reclama do frio. Pelo contrá-
rio… sorri sozinho por dentro do capacete, com aquela expressão típica de quem está nas nuvens. Ele para no semáforo vermelho. Tira o celular do bolso rapidamente. Na tela, uma foto: ele e JÚLIA (Vitória Bohn). Ela ri, joga-
ndo a cabeça para trás. Ele a olha como se o resto do mundo nem existisse.
CRISTIAN (murmura para si mesmo):
Hoje você vira minha esposa…
O semáforo abre. Cristian acelera e some na curva.
CENA 02-INT/QUARTO DE JÚLIA- MANHÃ
A luz do dia invade o espaço com uma suavidade quase irreal.
Júlia está no centro do quarto,descal-
ça. Ela fecha os olhos. E começa a dançar. Não é um ensaio coreografado, não há técnica rígida é puro sentime-
nto. Cada movimento é leve,solto e cheio de vida, como se o corpo dela não obedecesse a regras, apenas ao ritmo do próprio coração. Ela gira,para, respira fundo… e abre um sorriso puro.
CLARA (voz suave): Você dança como se estivesse apaixonada.
Instrumental off.
Júlia abre os olhos.
CLARA (Samantha Quadrado) está se-
ntada na cama,observando a cena com um brilho encantado nos olhos.
JÚLIA (rindo, indo na direção dela): E eu tô.
Clara bate palminhas, empolgada.
CLARA: O Cristian te faz feliz, né?
Júlia senta na beirada da cama e seg-
ura o rosto da menina com todo o cari-
nho do mundo.
JÚLIA: Muito.
Clara pensa por um segundinho, avali-
ando a resposta.
CLARA: Então ele é bom.
JÚLIA (sorri,com os olhos brilhando):
É o melhor.
As duas se abraçam apertado. Na por-
ta do quarto,KARINA (Débora Falabella) observa tudo em silêncio. Sem interromper. Mas também… sem esboçar nenhum sorriso. Apenas obs-
erva com um olhar indecifrável.
CENA 03-EXT/FLORICULTURA-DIA
Cristian estaciona a moto em frente a uma floricultura de bairro, simples e charmosa. Ele tira o capacete.
CRISTIAN: Fala, seu Antônio!
SEU ANTÔNIO (Roberto Bonfim),o florista,limpa as mãos no avental e sorri ao reconhecê-lo.
SEU ANTÔNIO: Vai casar hoje,né, garoto?
Cristian coça a nuca, rindo timidamente.
CRISTIAN: Dá para ver assim na cara?
SEU ANTÔNIO: Dá para ver nos olhos. O que vai ser?
Cristian olha para os baldes de flores.
CRISTIAN: As mais bonitas que o sen-
hor tiver.
SEU ANTÔNIO: Para a noiva mais boni-
ta também?
Cristian abre um sorriso largo, sincero.
CRISTIAN: Para a mulher da minha vida.
CENA 04-EXT/PRAÇA-DIA
Trilha Sonora On:
https://youtu.be/i0oVjVxxX10?is=mhSqX...
Uma praça simples e arborizada. O lugar exato onde tudo começou entre eles. Júlia está sentada em um banco de madeira,ajeitando nervously o teci-
do leve do vestido. Ela olha impaciente para o relógio de pulso.
JÚLIA (murmura sozinha): Ele vai se atrasar justo hoje…
CRISTIAN: Tô aqui.
Júlia levanta o olhar num susto bom.
Cristian está parado a poucos passos dela, segurando o buquê de flores com as duas mãos,olhando fixamente para ela como se estivesse a vendo pela primeira vez na vida.
JÚLIA: Você tá…
Ele trava, sem conseguir terminar a frase diante da imagem dela.
JÚLIA (sorri, em tom de provocação):
O quê?
CRISTIAN: Ainda mais linda do que ontem..
Ela ri, balançando a cabeça.
JÚLIA: Mentiroso.
Ele se aproxima devagar e estende as flores.
CRISTIAN: Eu treino todo dia para te elogiar melhor.
Júlia pega o buquê,sentindo o perfume.
JÚLIA: E hoje você caprichou.
Silêncio entre os dois. Os olhares se grudam. O barulho da rua,das pessoas e do trânsito ao redor simplesmente… some. Cristian estende a mão e segura a dela.
CRISTIAN: Tá com medo?
Júlia respira fundo, encarando o chão por um segundo antes de voltar a olhá-lo.
JÚLIA: Tô.
CRISTIAN: De quê?
JÚLIA: De ser feliz demais… e alguma coisa dar errado.
Cristian aperta a mão dela com firme-
za,transmitindo toda a segurança do mundo.
CRISTIAN: Então a gente erra junto.
Ela sorri, com os olhos marejados de emoção.
JÚLIA: Promete?
CRISTIAN: Prometo.
Ele se inclina e encosta a testa na dela.
CRISTIAN: Eu não tenho muito, Júlia…
JÚLIA: Você tem tudo o que eu preciso.
CRISTIAN: Eu vou ralar,trabalhar,fazer o impossível…
JÚLIA: Eu sei.
CRISTIAN: Mas eu vou te dar uma vida boa.
Júlia balança a cabeça negativamente, com um sorriso terno nos lábios.
JÚLIA: Você já me deu.
Silêncio. Sem mais palavras necessá-
rias. Eles se beijam. Um beijo calmo, profundo,sem pressa e sem nenhuma sombra de dúvida.
Trilha Sonora off.
CENA 05-EXT/PRAÇA-MOMENTO DEPOIS
Clara aparece correndo por entre as árvores da praça, esbaforida.
CLARA: EU ACHEI VOCÊS!
Júlia ri,abrindo os braços.
JÚLIA: Clara!
A menina chega abraçando os dois de uma vez só.
CLARA: Vocês vão casar hoje!
CRISTIAN (sorrindo): Vamos.
Clara se afasta um pouco, erguendo o queixo e olhando bem séria para Cris-
tian,em uma pose quase protetora.
CLARA: Você vai cuidar dela?
Cristian desce do salto,agachando-se para ficar exatamente na altura dos olhos da menina.
CRISTIAN: Vou. Muito.
CLARA: Promete de verdade?
CRISTIAN: Prometo de verdade.
O rosto de Clara se desmancha em um sorriso satisfeito.
CLARA: Então você pode casar.
Os três irrompem em risadas. Mais ao longe, próxima à saída da praça, Karina observa a cena com os braços cruza-
dos,o corpo rígido e a expressão com-
pletamente fechada.
CENA 06-EXT/CALÇADÃO DA PRAÇA-
MINUTOS DEPOIS
Cristian e Júlia caminham de mãos dadas,aproveitando os últimos minutos de calmaria antes da cerimônia.
JÚLIA (provocativa): Lembra quando você caiu da moto tentando me impr-
essionar?
CRISTIAN: Eu não caí.
JÚLIA: Caiu sim,esborrachado.
CRISTIAN: Foi uma descida estraté-
gica.
Ela ri alto, contagiante.
JÚLIA: Você é ridículo.
CRISTIAN: E você me ama.
JÚLIA: Amo mesmo.
Eles param de caminhar de repente. O tom de brincadeira se esvai,dando lu-
gar a uma vulnerabilidade mútua.
JÚLIA: A gente vai ficar bem, né?
CRISTIAN (sem hesitar por um segun-
do sequer): A gente já tá.
CENA 07-EXT/ESQUINA DA RUA-MO-
MENTO SEGUINTE
Hora da despedida temporária. Eles param na calçada,prestes a seguir caminhos opostos rumo ao altar.
CRISTIAN: Vai na frente. Eu ainda tenho uma entrega rápida.
JÚLIA (sobressaltada): No dia do casa-
mento?!
CRISTIAN: Última corrida de solteiro. Prometo que é vapt-vupt.
Júlia revira os olhos, mas acaba sorri-
ndo, incapaz de brigar com ele.
JÚLIA: Te espero lá. Não demora.
Trilha Sonora On:
https://youtu.be/LAsAYoZ0aKs?is=K0Qph...
Ele se inclina e beija a testa dela com carinho.
CRISTIAN: Jajá eu tô lá.
Júlia dá meia-volta e começa a atra-
vessar a rua na faixa de pedestres.
Cristian caminha até sua moto, sobe no banco, ajeita o capacete e liga o motor. O ronco da máquina ecoa. Mas antes de engatar a marcha e sair, um ímpeto inexplicável o faz parar. Ele olha para frente,como se algo invisível exigisse mais um olhar. Júlia já está no meio da rua,caminhando tranquilame-
nte. Ela sente o peso do olhar dele e se vira para trás.
Os olhares se cruzam à distância. O mundo ao redor parece desacelerar bruscamente. O som ambiente diminui, abafado. Cristian solta o guidão com uma das mãos, enche o peito e grita com toda a força do seu amor:
CRISTIAN: EU TE AMO!
Júlia abre aquele sorriso luminoso, o sorriso que pertence exclusivamente a ele. Ela responde,elevando a voz ainda mais alto:
JÚLIA: EU AMO MAIS AINDA!
Instrumental On:
https://youtu.be/MosETWKvqoY?is=xqPXd...
Nesse exato instante,uma melodia sua-
ve,O vento sopra forte, fazendo o tecido leve do vestido de Júlia dançar ao redor de seu corpo. Cristian sorri, apaixonado. Júlia, brincalhona e inte-
iramente entregue ao momento, ergue as mãos e faz o gesto de um coração no ar para ele. Cristian abre um sorriso ainda maior e retribui o gesto, erguen-
do as mãos para formar o coração de volta. E então… De repente, cortando a atmosfera mágica, um carro surge em alta velocidade na rua transversal. Desgovernado. Rápido demais. O sorriso no rosto de Cristian despenca num segundo, dando lugar ao terror absoluto.
CRISTIAN: Júlia…!
O som estridente e metálico de um Freio Brusco rasga o ar, cortando a música. O som do impacto ainda ecoa pelas paredes dos prédios ao redor.
Mas o mundo… simplesmente silen-
ciou. Por um único e agonizante segu-
ndo, tudo parece congelado no tempo. O corpo de Júlia estendido no asfalto. O vestido de noiva manchado. O buquê de flores espalhado e pisoteado pela pista.
VOZ: SOCORRO!
A realidade despenca como um soco no estômago. A moto de Cristian tomba pesada no chão antes mesmo que ele perceba que a soltou.
CRISTIAN: JÚLIA!!!
Ele corre enlouquecido. Tropeça no próprio desespero, quase cai,levanta
-se num pulo. Empurra pessoas que tentam se aproximar. Nada mais impo-
rta no universo. Nada existe. Só ela. Ele chega rasgando espaço e cai de joelhos no asfalto duro. Suas mãos tremem violentamente ao tocar o rosto dela.
CRISTIAN: Júlia… olha pra mim… por favor… por favor…
O sangue quente e rubro mancha seus dedos. A respiração dela é um sopro fraco,irregular,dolorosamente escasso.
CRISTIAN: Fica comigo… eu tô aqui… eu tô aqui…
Os olhos de Júlia pestanejam e se abrem por uma fração de segundo. Estão perdidos, turvos, sem foco.
JÚLIA (um fio de voz quase impercep-
tível): Cris…?
CONTINUA NO PRÓXIMO PÔSTER
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1 day ago | [YT] | 11
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CENA 06-COZINHA DA MANSÃO-DIA
A cozinha estava iluminada apenas pelas luzes sob os armários. Docume-
ntos espalhados sobre a grande mesa de madeira. Impressões, anotações, capturas de tela. Edu Bastos estava sentado, as mangas da camisa arrega-
çadas, analisando cada página relacio-
nada ao Projeto Ônix com atenção de quem já tinha visto muita coisa suja na vida.
EDU: Tem muita gente poderosa envo-
lvida nisso, nomes que não costumam aparecer em noticiários. Empresas de fachada. Transferências internacionais. E um padrão de silêncio que só existe quando alguém muito bem posiciona-
do decide que certas coisas não devem ser investigadas.
Maya, encostada na bancada com os braços cruzados, o encarava com desconfiança aberta.
MAYA: E por que você tá ajudando a gente?Jornalistas não costumam se meter tanto assim sem ter algum ângulo. Ou alguma recompensa.
Edu hesitou. Os dedos pararam sobre uma das folhas. Por um segundo, o rosto dele perdeu a confiança habitual.
EDU: Porque eu comecei a investigar o desaparecimento do Otávio. Logo depois que a notícia estourou. Achei algumas coisas estranhas. Mandei uma pauta. E quase fui demitido por isso. Recebi um aviso claro: “esse assunto não é pra você”. Desde então… eu não consegui largar. E agora que vocês apareceram no meio disso tudo, eu acho que finalmente encontrei quem pode me ajudar a chegar no fundo.
O clima na cozinha ficou sério. Ningu-
ém falou por alguns segundos. O peso das palavras de Edu pairava sobre a mesa junto com os documentos.
CENA 07-JARDIM DA MANSÃO-DIA
O jardim estava quieto. As luzes da piscina criavam reflexos dançantes na água. O vento balançava levemente as folhas das árvores. Lívia saiu pela porta dos fundos carregando um copo de água e encontrou Diego sentado na beira da piscina, as pernas balançando, o olhar perdido no escuro.
Ele ergueu o rosto quando a viu se aproximar.
DIEGO: Então agora vocês têm jornalista, ex-policial e sistema de segurança. Está ficando profissional.
Lívia ri fraco, o som quase sem força.
LÍVIA: Ainda parece insuficiente. Cada vez que a gente acha que está um passo à frente, acontece alguma coisa pior.
Diego se levantou devagar e se aproximou dela. A distância entre os dois diminuiu. O olhar dele era sério, mas carregado de uma ternura que Lívia já não tentava mais negar.
DIEGO: Você não precisa carregar tudo sozinha. Eu sei que você se acostumou a resolver as coisas no grito e na raiva. Mas agora… agora você tem gente do lado. Tem os seus irmãos. Tem o Augusto. E me tem. Se você deixar.
Lívia ficou em silêncio, olhando para ele. O vento mexeu o cabelo dela. Pela primeira vez em muito tempo, a expressão de resistência no rosto dela amoleceu. Os olhos se suavizaram.
Pela primeira vez, ela pareceu realmente acreditar naquelas palavras.
CENA 08-LUGAR DESCONHECIDO
A sala continuava escura e fria. O cheiro de umidade e metal era ainda mais forte naquela hora. Otávio, depois de horas de trabalho silencioso e doloroso, finalmente conseguiu soltar uma das mãos. A corda cedeu com um estalo quase inaudível. Ele massageou o pulso dolorido, sentindo o sangue voltar a circular.
Com movimentos lentos e calculados, ele tentou alcançar a porta. Cada centímetro era uma negociação com o próprio corpo exausto. Do lado de fora, vozes baixas ecoavam.
Dois capangas discutiam perto da entrada.
CAPANGA: Rogério quer acabar logo com isso. Disse que a gente está demorando demais. Que os filhos estão bagunçando o plano.
Otávio prendeu a respiração. Forçou o peito a se mover o mínimo possível. Os dedos da mão livre tocaram finalmente a maçaneta fria.
Quando ele começou a girá-la com extremo cuidado…
A porta começou a abrir do outro lado.
Otávio congelou completamente. O corpo inteiro ficou imóvel. O coração disparou, mas ele não fez o menor ruído.
Do outro lado da porta, alguém estava prestes a entrar.
FIM DO CAPÍTULO
1 day ago | [YT] | 12
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O PAPAI SUMIU! Capítulo 12
escrita e criada por:
LEONARDO DE PAULA
JOÃO VITOR PRADO
Supervisão de:
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
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CENA 01-HOSPITAL-MANHÃ
A manhã chegou cinzenta e úmida sobre o hospital. O sol tentava furar as nuvens sem muito sucesso, jogando uma luz pálida pelos corredores ainda cheios de movimento. No quarto, o clima era de alívio contido misturado a uma inquietação que ninguém conseguia disfarçar.
Benício recebeu a alta oficial. O mé-
dico assinou os papéis com um sorriso profissional e algumas recomendações que Rosana anotou com atenção quase obsessiva. O jovem se levantou deva-
gar, apoiado no braço da mãe. Cada movimento ainda doía um pouco, mas ele tentava disfarçar. Rosana passava a mão pelas costas dele com carinho protetor, ajustando a jaqueta leve sobre os ombros estreitos.
ROSANA: Devagar, meu amor. Não precisa ter pressa. A gente espera o tempo que for necessário.
Maya,do outro lado do quarto, organi-
zava as bolsas com eficiência nervosa. Separava roupas, carregadores, documentos, empurrando tudo para dentro das sacolas de forma quase mecânica. O cabelo preso num coque bagunçado e o rosto sem maquiagem revelavam o cansaço dos últimos dias.
MAYA: Finalmente saindo desse lugar.
Comentou ela, tentando soar mais leve do que realmente se sentia.
MAYA: Eu juro que se eu tivesse que ouvir mais um bip de máquina ou cheiro de desinfetante, ia pirar de vez.
Lívia estava parada perto da porta, os braços cruzados,o olhar varendo o corredor com desconfiança aberta. Cada enfermeiro que passava, cada macarrão de oxigênio sendo empu-
rrado, cada passo de segurança… tudo merecia sua atenção. O maxilar trava-
do denunciava a tensão.
LÍVIA: E voltando direto pro caos. Porque a gente sabe que lá fora não vai ser exatamente um retiro de paz.
Caio terminava de assinar os últimos papéis da alta junto à mesa da enfer-
meira. A caneta deslizava com firmeza sobre o papel quando o som de passos firmes ecoou pelo corredor. Alguém se aproximava com determinação.
Era Henrique Valença.
Elegante como sempre,o terno impe-
cável apesar da hora, o cabelo pente-
ado com precisão, o olhar sério e claramente preocupado. Ele parou por um segundo na entrada do corredor, como se precisasse confirmar com os próprios olhos que Caio estava ali, de pé, vivo.
CENA 02-CORREDOR DO HOSPITAL- MANHÃ
Caio ergueu o rosto e se surpreendeu. A caneta parou no ar por um instante.
CAIO: Henrique?
Henrique se aproximou em passos rápidos, sem se importar com os olhares curiosos dos funcionários ao redor. Quando chegou perto o suficiente, a preocupação no rosto dele ficou ainda mais evidente.
HENRIQUE: Eu tentei te ligar desde ontem. Você não atendeu. Mandei mensagem. Nada. Eu fiquei… preocu-
pado. Soube do que aconteceu aqui. Do ataque.
Lívia e Maya trocaram um olhar rápido, carregado de compreensão imediata. O clima entre os dois homens era impossível de ignorar. Havia história ali. E preocupação genuína.
Henrique deu mais um passo, os olhos fixos em Caio.
HENRIQUE: Você tá bem?
Caio demorou alguns segundos para responder. O peito subiu e desceu numa respiração funda. Pela primeira vez em dias, alguém perguntava aquilo de um jeito que parecia realmente querer a verdade.
CAIO: Não muito. A gente quase perdeu o Benício. E agora… tudo parece estar piorando. Eu não sei mais quem confiar.
Henrique observou o rosto dele com atenção. Viu as olheiras profundas, a tensão nos ombros, o jeito como Caio apertava o envelope dos documentos com força demais. Percebeu o quanto ele estava abalado e como tentava esconder isso atrás da postura contro-
lada de sempre.
HENRIQUE: Eu estou aqui agora, se você precisar de qualquer coisa…
Caio apenas assentiu, sem conseguir dizer mais nada naquele momento.
CENA 03-ENTRADA DO HOSPITAL- MANHÃ
A saída do hospital foi feita com cau-
tela. Dois seguranças caminhavam à frente, outros dois atrás. Rosana segu-
rava o braço de Benício com firmeza protetora. Maya puxava a mala maior. Lívia e Caio fechavam o grupo, os olhos sempre alertas.
Do outro lado da rua, parcialmente escondido atrás de um carro estacio-
nado, um homem com uma câmera profissional tirava fotos discretas. O clique era quase inaudível, mas o enquadramento era preciso: os quatro irmãos, a mãe de Benício, a tensão nos rostos.
Edu Bastos, que observava a cena de uma distância maior, notou o movim-
ento. O jornalista atravessou a rua em passos largos e decididos. Chegou perto do fotógrafo antes que o homem percebesse e segurou o braço dele com firmeza.
EDU: Acho que você esqueceu de pedir autorização.
O homem se debatiu, soltou a câmera por um segundo, deu um empurrão e saiu correndo rua abaixo, sumindo entre os carros. Edu não tentou perse-
guir. Apenas observou a fuga com um olhar calculista.
Os irmãos, que tinham parado ao perceber a movimentação, olhavam assustados. Benício apertou a mão da mãe. Maya deu um passo para trás.
Edu se aproximou do grupo, guardan-
do o celular no bolso.
EDU: Vocês precisam começar a pres-
tar mais atenção em quem tá seguindo vocês. Esse tipo de gente não aparece por acaso.
Lívia franziu a testa, reconhecendo o rosto.
LÍVIA: Você é o jornalista da televisão. Aquele que fica aparecendo em reportagens de crime.
Edu sorriu de canto, rápido, quase imperceptível.
EDU: E vocês são a família mais procu-
rada do Rio no momento. Pelo menos nos bastidores. Todo mundo quer saber o que aconteceu com Otávio Monteiro. E agora, pelo jeito, alguém está disposto a ir bem longe para impedir que vocês descubram.
CENA 04-MANSÃO MONTEIRO-DIA
A mansão Monteiro recebeu os irmãos sob um silêncio pesado. Os portões se abriram com o som metálico habitual, mas agora havia mais seguranças do lado de fora. Câmeras adicionais tinham sido instaladas. O clima de casa, que um dia fora apenas luxuoso e distante, agora parecia militarizado.
Augusto conversava em tom baixo com o chefe da equipe de segurança, troca-
ndo informações rápidas, apontando para plantas da casa e pontos cegos. Caio observava tudo de perto, os braços cruzados, o olhar analítico varendo cada detalhe.
AUGUSTO: Ninguém entra sem autori-
zação agora. Nem prestadores de ser-
viço, nem entregadores, nem conhe-
cidos. Qualquer pessoa precisa de confirmação prévia. E os portões vão ficar trancados o tempo todo.
Lívia pegou o molho de chaves da casa que estava sobre a mesa de entrada. As chaves tilintaram entre os dedos dela.
LÍVIA: Troquem tudo, senhas, fechadu-
ras, códigos de alarme, acesso remoto. Tudo. Se alguém tinha cópia de qual-
quer coisa, agora não tem mais.
Augusto assentiu.
AUGUSTO: Já está em andamento.
CENA 05-SALA DA MANSÃO-DIA
Na sala principal, funcionários técnicos trabalhavam com eficiência. Trocavam senhas dos portões eletrônicos,reconf-
iguravam câmeras, testavam alarmes. O som de teclas sendo digitadas e de rádios crepitando preenchia o ambiente.
Maya observava as várias telas de segurança agora montadas sobre uma mesa improvisada. Imagens de todos os ângulos da propriedade apareciam em preto e branco, nítidas demais.
MAYA: Isso aqui virou prisão de luxo. A gente tem piscina, jardim, cinema… e agora também tem cercas invisíveis e olho eletrônico em cada canto.
Benício se sentou no sofá grande, o corpo ainda cansado. Fechou os olhos por um segundo, tentando respirar fundo.
Henrique se aproximou discretamente de Caio, que observava a movimenta-
ção perto da janela.
HENRIQUE: Você devia descansar. Sério. Você está no limite.
Caio finalmente baixou um pouco a guarda. Os ombros cederam alguns centímetros. O olhar cansado encontrou o de Henrique.
CAIO: Eu não consigo. Toda vez que eu fecho os olhos, eu penso no que quase aconteceu com o Benício. Ou no que pode acontecer com qualquer um de nós.
Henrique, sem se importar com quem pudesse estar olhando, segurou a mão de Caio rapidamente. O toque foi breve, firme, reconfortante.
Do outro lado da sala, Lívia percebeu o gesto. Não disse nada. Apenas sorriu de canto, um sorriso pequeno, quase imperceptível, e desviou o olhar, dando privacidade aos dois.
CONTINUA NO PRÓXIMO PÔSTER
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