Ela levanta o olhar. Miguel está ali. Dessa vez, não pela janela. Não escon- dido. De verdade. Clara se levanta rápido, o coração acelerado.
CLARA: Você veio…
O sorriso dela é puro. Miguel se aproxima.
MIGUEL: Eu disse que vinha.
Os dois ficam frente a frente. Um silê- ncio leve,mas carregado de significado.
CLARA: Sua mãe não vai gostar…
Miguel dá de ombros, irredutível. Clara ri baixinho, sentindo o peito aquecer.
CLARA: Eu senti sua falta.
A frase sai natural, sem medo. Miguel se surpreende por um instante, mas responde com total franqueza:
MIGUEL: Eu também.
Eles começam a caminhar pelo jardim, devagar, lado a lado.
MIGUEL: Você sempre fica aqui?
CLARA: Quando quero pensar…
MIGUEL: E no que você pensa?
Clara olha para ele, os olhos brilhando.
CLARA: Em coisas boas. (Uma pausa breve) Hoje… em você.
Miguel sorri. Pela primeira vez, um sorriso genuinamente leve. Ali, sem pressões e sem julgamentos,um sen- timento verdadeiro começa a florescer entre eles.
Trilha Sonora off.
CENA 02-INT/CASA DE CRISTIAN- NOITE
Letícia chega à casa de Cristian. Direta,sem rodeios e visivelmente tensa.
LETÍCIA: A gente precisa conversar.
Cristian percebe o tom firme e se sobressalta.
CRISTIAN: O que foi?
Letícia o encara, cruzando os braços.
LETÍCIA: Você não tá me contando tudo.
Silêncio pesado. Cristian desvia o olhar.
CRISTIAN: Eu já falei...
LETÍCIA: Não falou. (Ela dá um passo à frente, invadindo o espaço dele) O médico deixou claro… teve uma decisão naquele hospital.
O clima pesa instantaneamente no ambiente.
LETÍCIA: Que decisão foi essa, Cristian?
Cristian trava. Fica em silêncio, com a respiração pesada.
LETÍCIA: Você tava lá. (Pausa dramá- tica) E você sabe o que aconteceu.
Os olhos de Cristian se enchem de lágrimas. A culpa é evidente no seu rosto. Letícia vê tudo.
LETÍCIA: Você tá mentindo pra mim. A frase é firme, mas carregada de decepção, não de crueldade. Cristian não aguento mais e explode, perdendo o controle:
CRISTIAN: Eu tô tentando te ajudar! EU TÔ TENTANDO SOBREVIVER! (Silêncio absoluto. Pesado. Doloroso) Você não entende o que eu vivi lá…
A voz dele falha e quebra.
LETÍCIA: Então me faz entender.
Cristian fecha os olhos com força. Quase fala. Quase revela o segredo. Mas trava na última hora.
CRISTIAN: Eu não posso…
Letícia recua um passo, a expressão endurecendo, tornando-se fria.
LETÍCIA: Se você não me contar a verdade… (Pausa glacial) Eu não posso te defender.
A frase ecoa na sala como uma sente- nça,pairando entre a ameaça e o ultimato final.
CENA 03-INT/HOSPITAL/CORREDOR- NOITE
Letícia caminha pelo corredor do hos- pital, perdida em seus pensamentos densos.
DR. MARCELO: Doutora.
Ela se vira rapidamente. É o Doutor Marcelo, que se aproxima com um sorriso controlado.
DR. MARCELO: Eu estava pensando… A gente podia continuar aquela conversa.
Letícia arqueia a sobrancelha,compre- endendo o subtexto.
LETÍCIA: Sobre o caso?
DR. MARCELO: Também. (Pausa curta) O olhar dele se aprofunda. Que tal jantar?
Silêncio. Ela o observa minuciosame- nte,analisando cada detalhe da proposta.
LETÍCIA: Isso é profissional?
Marcelo mantém o sorriso enigmático.
DR. MARCELO: Pode ser.
Letícia hesita por alguns segundos, avaliando os riscos,antes de responder:
LETÍCIA: Eu só aceito se for pra falar do caso.
Marcelo inclina a cabeça,aceitando os termos, embora haja algo mais em sua postura.
DR. MARCELO: Claro.
Mas o brilho em seu olhar diz exatamente o oposto.
Um ambiente sofisticado,aconchega- nte. Agora,o clima entre Karina e Leo- nas está mais próximo,íntimo e pesso- al. Eles erguem as taças e brindam.
LEONAS: Aos interesses em comum.
Karina sorri, cúmplice.
KARINA: E às soluções rápidas.
Eles bebem, mantendo contato visual direto. Um clima totalmente diferente de antes.
LEONAS: Você é uma mulher impressionante.
KARINA: E você… perigoso.
Leonas sorri de canto.
LEONAS: Isso te assusta?
KARINA: Me interessa.
Silêncio eletrizante. Leonas inclina o tronco, aproximando-se ainda mais dela.
LEONAS: A gente pode se ajudar muito.
Karina não desvia o olhar nem por um segundo.
KARINA: Ou se destruir.
LEONAS: Prefiro a primeira opção.
Eles riem baixinho. Contudo, a tensão é palpável: há química, interesse e algo perigosamente magnético entre eles.
Leonas estende a mão e toca levem- ente os dedos de Karina. Ela não recua. Pelo contrário,permite o toque. Ali,naquele instante,deixa de ser ape- nas uma aliança estratégica. Transfor- ma-se em atração pura. Perigosa.
O sol já se pôs de vez,deixando o céu tingido de tons escuros. Clara e Miguel continuam conversando perto das flores.
CLARA: Você é diferente…
Miguel sorri, curioso.
MIGUEL: Diferente como?
CLARA: Você não me olha estranho. Miguel responde com simplicidade e doçura:
MIGUEL: Porque não tem nada de estranho em você.
Clara sorri, visivelmente emocionada com as palavras.
CLARA: Ninguém fala assim comigo.
Silêncio terno. Miguel dá mais um passo, diminuindo de vez a distância entre os dois.
MIGUEL: Então deviam.
Os olhos de ambos se cruzam. Mais perto agora. Mais conectados do que nunca.
E, pela primeira vez em sua vida, Clara se permite sentir algo revolucionário: ela se sente escolhida.
Instrumental off.
CENA 06-INT/SALA DE ESTAR/APARTAMENTO DE CRISTIAN-NOITE
O silêncio na sala de Cristian é ensur- decedor. Ele está sentado no sofá, com as mãos cobrindo o rosto, visivelmente consumido pelo peso da culpa e divi- dido diante da verdade que carrega. De pé, a poucos passos dele, Letícia é a imagem da determinação. Irredutível, ela cruza os braços e o encara com firmeza.
LETÍCIA: Você acha que vai conseguir carregar isso sozinho para sempre?
Cristian ergue o olhar lentamente, os olhos vermelhos e cansados.
CRISTIAN: Você não entende o risco... Se eu falar, tudo desmorona.
LETÍCIA: Já está desmoronando, Cristian!
Ela dá um passo à frente, exigindo as respostas que ele reluta em dar.
LETÍCIA: Ou você me diz agora o que aconteceu naquele hospital, ou eu mesma descubro do meu jeito. E aí não vai ter defesa que te salve.
Cristian trava o maxilar, sufocado pelo próprio segredo, sem saber para onde correr.
Em outro ponto da cidade, num ambiente sofisticado e com pouca luz, Dr. Marcelo observa de longe. Calma- mente, ele bebe o seu drink, avançan- do seus peões de forma calculista. Ele se levanta,ajusta o paletó e se apro- xima de Letícia que acabou de chegar ao local, distraída.
MARCELO: Pensei que você não viesse, Doutora.
Letícia se vira, surpresa por vê-lo ali, mas mantém a guarda alta. Marcelo sorri,aproximando-se perigosamente do espaço pessoal dela, com um charme que mistura profissionalismo e segundas intenções.
LETÍCIA: Eu disse que só viria para falar do caso.
MARCELO: E nós vamos falar... Mas garanto que a noite reserva surpresas muito mais interessantes do que pa- péis de processo.
Ele a olha com intensidade,testando os limites dela. E Letícia,mesmo perce- bendo o perigo, não se afasta.
Trilha Sonora off.
CENA 08-INT/ESCRITÓRIO DE LEONAS-NOITE
As luzes da cidade brilham através da fachada de vidro. Karina está encosta- da na mesa de Leonas. A linha tênue da prudência foi ultrapassada há muito tempo.
Ela ri de um comentário dele, a proxi- midade física evidente. Karina está se envolvendo profundamente com o homem errado, e ela sabe disso. Mas a adrenalina parece falar mais alto.
LEONAS: Você gosta de andar na corda bamba, não é?
KARINA: Só quando a vista vale a pena.
Leonas segura a mão dela, selando uma cumplicidade perigosa. Nenhuma palavra a mais é necessária; o acordo de interesses já virou jogo de sedução.
CENA 09-INT/CASA DE CLARA/ JARDIM-NOITE
A brisa da noite balança as folhas no jardim. Clara está sozinha,mas seu ro- sto brilha com um sorriso suave. Pe- la primeira vez na vida, ela está vive- ndo a pureza de um sentimento genuíno, longe das amarras e do con- trole familiar. Ela toca a própria boche- cha, lembrando-se de cada palavra de Miguel, sentindo o peito aquecido.
A câmera se afasta lentamente, abra- çando o silêncio da noite, enquanto a narração em off pontua o destino cruzado de todos:
NARRADOR (A): Enquanto alguns escolhem esconder a verdade para se proteger...
O corte seco alterna rapidamente entre o olhar culpado de Cristian, a ousadia de Marcelo, o erro fascinante de Karina e a paz inédita no rosto de Clara.
NARRADOR (A): Outros, finalmente, começam a sentir.
escrita e criada por: LEONARDO DE PAULA JOÃO VITOR PRADO
Supervisão de: VANESSA COUTO
direção geral: DIOGO ITAMAR
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CENA 01-APARTAMENTO- MADRUGADA
O primeiro tiro silenciado estilhaçou o vidro da porta de emergência. Os poli- ciais gritaram ordens baixas, empurra- ndo o grupo de volta para o patamar da escada de serviço. Caio ainda segurava o celular com a mensagem de Otávio acesa na tela: “Agora. Usem o segundo pendrive".
CAIO: Ele mandou. É agora.
A Delegada Regina puxou o rádio.
DELEGADA REGINA: Protejam os civis e abram caminho até o carro blindado. Agora!
Os tiros continuavam vindos do térreo. Os homens de Rogério haviam chega- do antes da hora marcada para a extração.
CENA 02-ESCADA DE SERVIÇO- CONTINUAÇÃO
O grupo desceu sob cobertura policial. Maya ia no meio,protegida por Lívia e Helena. Benício segurava a mão de Nina com força,enquanto Diego e Hen- rique fechavam a retaguarda com dois policiais.
Um capanga apareceu no corredor do segundo andar. Antes que pudesse atirar, um dos agentes o derrubou. O caminho até o térreo ficou livre por segundos preciosos.
DELEGADA REGINA: Corre! Para o carro da frente!
Eles atravessaram a calçada sob fogo cruzado leve. O carro blindado já estava com as portas abertas.
CENA 03-CARRO BLINDADO- MADRUGADA
Dentro do veículo, o clima era de adrenalina contida. Caio entregou o segundo pendrive para a delegada, que o conectou imediatamente a um tablet preparado. Arquivos começaram a carregar. Gravações. Planilhas. Nomes. Até que surgiu uma pasta marcada como “Rogério – Provas finais”.
DELEGADA REGINA: Seu pai esperou o momento exato. Aqui tem tudo: transferências, áudios de Rogério ordenando o sequestro da Maya, o incêndio da mansão e a ordem de morte contra vocês.
Lívia olhou pela janela blindada, ainda ofegante.
LÍVIA: Então acaba com eles.
CENA 04-RUA-CONTINUAÇÃO
Os carros de Rogério tentaram seguir o blindado,mas uma viatura policial fechou o cruzamento. Houve uma troca rápida de tiros. Um dos veículos dos bandidos bateu no meio-fio e parou,com dois homens sendo detidos na hora.
Rogério, que vinha no carro de trás, ordenou a retirada.
ROGÉRIO: Dispersa! Agora!
Ele conseguiu escapar por uma rua lateral, mas a operação dele havia começado a desmoronar.
CENA 05-DELEGACIA-AMANHECER
O grupo chegou sob escolta reforçada. Assim que entraram, a delegada enca- minhou o conteúdo do pendrive para a equipe de análise e para o plantão do Ministério Público.
DELEGADA REGINA: Com esse material,eu consigo o mandado de prisão do Rogério e de vários dos homens dele ainda hoje. As gravações são claras.
Caio, ainda com o casaco cheio de cacos de vidro, perguntou:
CAIO: E o César?
DELEGADA REGINA: O César continua mais protegido. Mas Rogério é a porta de entrada. Se a gente o prender com essas provas, o círculo começa a se fechar.
CENA 06-ESCONDERIJO DE ROGÉRIO –MANHÃ
Rogério estava furioso. Dos oito hom- ens que levou na operação, três esta- vam presos e dois feridos. O pendrive que César tanto queria agora estava nas mãos da polícia. Ele ligou para o chefe.
ROGÉRIO: A operação falhou. Eles tinham reforço. E o segundo material do Otávio já está com a delegada.
Do outro lado, a voz de César soou gelada e lenta.
CÉSAR: Você é um incompetente. Eu te dei tempo, homens e dinheiro, e você só me deu fracasso. Não me ligue de novo até ter uma solução... ou até estar morto.
A linha caiu. Rogério ficou olhando para o celular. Pela primeira vez, o medo era maior do que a ambição.
CENA 07-DELEGACIA-MANHÃ
As primeiras prisões começaram a acontecer. Dois capangas que partici- param do sequestro de Maya e do incêndio da mansão foram pegos em endereços cruzados a partir dos arqui- vos. Um deles, ao ser interrogado, começou a falar.
CAPANGA: Foi o Rogério quem man- dou. Tudo. O sequestro,o fogo, a ordem de matar os irmãos. Ele recebia ordens de cima, mas quem executava era ele.
A delegada ouviu o depoimento com o gravador ligado. O cerco legal em torno de Rogério fechava-se rápido.
CENA 08-APARTAMENTO DE SEGUR- ANÇA TEMPORÁRIO-TARDE
Os irmãos foram levados para um novo local, ainda mais discreto. O cansaço era absoluto, mas havia uma sensação diferente no ar: a de que o lado dos bandidos estava sangrando.
Maya estava sentada no sofá, coberta por um casaco.
MAYA: Eles estão caindo. Um por um.
Benício, ao lado de Nina, falou baixo:
BENÍCIO: Só falta o Rogério. E o outro … o César.
Caio olhou para a delegada, que acompanhava o grupo.
CAIO: Quando vocês forem atrás do Rogério, eu quero estar por perto. Não para atrapalhar. Só para ver com os meus próprios olhos.
A delegada estudou o rosto dele por um instante e acabou assentindo.
DELEGADA REGINA: Você fica no carro de comando. Só isso.
CENA 09-OPERAÇÃO DE PRISÃO- NOITE
Com base nas informações do pen- drive e nas delações, a polícia localizou Rogério em um apartamento de alto padrão na Barra. A operação foi rápida e silenciosa.
Rogério tentou fugir pela garagem, mas foi interceptado antes de entrar no carro. Quando os policiais o imobi- lizaram contra o veículo, ele ainda gritou:
ROGÉRIO: Vocês não sabem com quem estão mexendo! Eu não sou o problema!
A Delegada Regina se aproximou, com as algemas na mão.
DELEGADA REGINA: A gente sabe. Mas você vai servir de caminho até ele.
As algemas fecharam-se nos pulsos de Rogério. O homem que aterrorizou a família Monteiro durante semanas finalmente estava preso.
CENA 10-DELEGACIA-NOITE
Rogério foi colocado em uma sala de interrogatório. Do outro lado do vidro, Caio, Lívia, Maya e Benício observavam em silêncio. A Delegada Regina entrou na sala com uma pasta.
DELEGADA REGINA. Você tem duas opções: colabora e conta tudo sobre César Brandão, ou enfrenta sozinho cada uma das acusações que já temos contra você. Sequestro,tentativa de homicídio,incêndio,associação criminosa. O jogo virou.
Rogério ficou calado por um longo tempo. O suor escorria pelo seu rosto. Por fim, sua voz saiu rouca e derrotada:
ROGÉRIO: Eu falo. Mas vocês não sabem do que esse homem é capaz.
Do lado de fora do vidro, os quatro irmãos se entreolharam.
O rádio de pilhas na sala comunal toca baixinho uma valsa melancólica de Orlando Silva, abafada pelo barulho da chaleira que apita no fogão a carvão. Dona Alzira bate com os nós dos de- dos na porta de madeira compensada do quarto de Rosinha, segurando uma xícara de café ralo e fumegante.
DONA ALZIRA: Vamos acordando, mocinha! A vida dura da capital não espera o sol subir de todo, e o aluguel desta semana já está vencendo no relógio da minha paciência!
Rosinha desperta sobressaltada,ajei- tando apressada a camisola de algo- dão cru. Sobre a mesinha de pinho,ao lado de um exemplar amassado do jornal A Noite,o velho medalhão de prata reluz sob o facho pálido de luz que rasga a vidraça empoeirada. Ela respira fundo,ajeitando os cabelos presos num coque simples.
ROSINHA (Do lado de dentro, com voz trêmula): Já vou descendo,Dona Alzira! Muito obrigada pelo aviso.
Ela veste sua única blusa decente pas- sada a ferro com todo o esmero na véspera, esconde o medalhão junto ao peito,bem colado ao coração,e apanha a bolsa de mão desbotada.
💐
CENA 02-CALÇADA DO TEATRO MUNICIPAL-MANHÃ
O calçadão de pedra portuguesa reluz com a neblina matinal de São Paulo. Juca ensaia versos de uma peça dra- mática apoiado à coluna nobre da fa- chada do teatro, mas seus olhos distraídos vagam constantemente para a esquina, vigiando o ponto onde os bondes elétricos freiam com estrides metálicos. Seu Arnaldo surge de súbito por trás, abotoando o colete do terno de linho amassado, a expressão fechada como o tempo cinzento.
ARNALDO: É nessa vidinha de saltim- banco e versos ao vento que gastas a tua juventude,Juca? Em vez de decla- mar para as paredes, devias estar a ajudar no balcão da mercearia, carre- gando sacas de açúcar.
JUCA: Meu pai,o mundo não se resume a feijão,querosene e balanças enferru- jadas. A arte também sustenta o espí- rito de um homem nesta época tão incerta.
ARNALDO (Rispidamente): O espírito não paga o alugueiro ao fim do mês! E acautela-te com essa rapariga do inte- rior que andas a rondar pelas esqui- nas. Quem chega à capital sem eira nem beira só traz o engodo herdado de outros.
JUCA (Firme,erguendo o queixo): A Rosinha não é má criatura, pai. Ela tem alma limpa e procura pelos próprios pais. O senhor julga demais sem conhecer o tamanho da cruz que os outros carregam.
Arnaldo morde o lábio inferior, engole um muxoxo de descontentamento e afasta-se resmungando passo a passo, batendo a ponta da bengala no chão.
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CENA 03-MANSÃO DE FRANCISCO E ADRIANA-SALA DE JANTAR-MANHÃ
Nos amplos salões de pé-direito alto, decorados ao estilo art déco,o silêncio da manhã é cortado apenas pelo tilin- tar da louça de porcelana fina. Adriana toma seu chá de hortelã sem tocar nas fatias de bolo de fubá, com o olhar perdido nas cortinas de veludo pesado. Francisco entra com passos medidos, ajustando os punhos da camisa branca engomada,a testa vincada de preocupação.
ADRIANA (Sem erguer os olhos): Dor- miste bem, Francisco? Ou a imagem daquela rapariga com o medalhão prateado tirou-te o sono esta noite, tal como tirou o meu?
FRANCISCO (Seco,ajeitando o jornal sobre a mesa): Tive uma noite perfei- tamente normal, Adriana. Estás a criar fantasmas onde só existem tristes coincidências da vida moderna.
ADRIANA: Coincidências? Um meda- lhão idêntico ao que perdemos no dia em que... (A voz embarga-se, os olhos marejados) ...no dia em que nos disse- ram no hospital que a nossa filhinha tinha falecido no berço? Isso não é coincidência, Francisco. Isso é um grito do passado que nos bate à porta.
Filomena desce a escada caracol vagarosamente,vestindo um tailleur impecável e um chapéu cloche discr- eto. Ela ouve a discussão com um sorriso felino dissimulado sob os lábios pintados de vermelho-carmim.
FILOMENA: Bom dia, família querida. Estão outra vez a remoer essa velha história de luto? Aquela criança já se foi há mais de vinte anos. Deixem os mortos descansarem em paz nos seus túmulos.
ADRIANA (Olhando fixamente,com so- berania) Ninguém te pediu pitaco no meu sofrimento, Filomena. Há culpas que o tempo não apaga, por mais que alguns desejem sepultá-las debaixo do tapete da sala.
Filomena disfarça o veneno com uma risada curta e polida, mas seus olhos faiscam com a urgência de agir antes que Francisco ceda à fraqueza diante da esposa.
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CENA 04-PRAÇA DA SÉ-TARDE
Rosinha senta-se num banco de praça sob a sombra generosa de uma pai- neira,organizando algumas margaridas num jornal velho. O movimento de transeuntes de chapéu e sobretudo é intenso, mas ela parece alheia ao burburinho da metrópole. De súbito,uma silhueta cobre a luz do sol sobre o seu rosto. É Juca, que sur- ge sorridente,segurando dois saquin- hos de papel com pipoca doce fumegante.
JUCA: Uma flor para a vendedora mais melancólica da Praça da Sé. Aceitas permuta por um cartucho de pipoca? Rosinha solta um riso franco, o prim- eiro leve em muitos dias, ajeitando uma mecha de cabelo que escapara do grampo.
ROSINHA: Tens o dom infalível de aparecer exatamente nos minutos em que estou prestes a desfalecer de angústia, Juca.
JUCA (Sentando-se bem perto, no banco de madeira): É o meu encanto de homem do teatro. E então, pensa- ste no que conversamos ontem? Sobre não baixar os braços perante o destino?
ROSINHA (Olhando para as torres da Catedral ao longe): Pensei... Mas hoje recebi um bilhete misterioso, deixado por baixo da minha porta, a exigir que eu volte àquela mansão da zona alta. O dono de lá, o senhor Francisco... ele olhou para mim como se visse um fantasma do além. Tenho medo do que posso descobrir.
JUCA (Segurando com firmeza e cari- nho a mão calejada de Rosinha): O medo é conselheiro ruim, Rosinha. Se precisares de companhia até aos portões daquela casa, eu vou contigo. Ninguém te há de fazer mal enquanto eu estiver por perto para te defender.
Os olhos de ambos se cruzam num silêncio profundo, embalados ao longe pelo apito de um guarda-trânsito de capacete branco.
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CENA 05-ESCRITÓRIO DA MANSÃO- NOITE
Na penumbra do escritório de mogno escuro, iluminado apenas por uma luminária de mesa verde, Francisco destrava com uma pequena chave dourada uma gaveta secreta. De lá, ele retira uma caderneta de capa preta e um velho termo de adoção com selos fiscais desbotados da época. Ele abre na página amarelada onde constam anotações de punho próprio. Seus olhos umedecem e os dedos rugosos tremem segurando os papéis.
FRANCISCO (Num sussurro sufocado): Onde andas tu,minha filha... Que os céus me perdoem por ter sido um covarde.
A porta range de leve. Romeu entra sorrateiramente, trancando a tranca com um clique seco.
ROMEU: Precisamos de falar com fra- nqueza, Francisco. A Filomena desco- briu onde escondes a papelada antiga. Se ela usar isso para chantagear-te perante a alta sociedade, o nome da nossa família vai parar na lama dos jornais de fofoca.
FRANCISCO (Guardando os papéis apressadamente): A Filomena não ousa tocar nos meus segredos enqua- nto eu tiver forças para impedi-la!
ROMEU: Ela já tocou, Francisco. E a rapariga, a tal Rosinha... ela está mais perto do que imaginas. Ou agimos com pulso firme agora, ou perderemos o controle de tudo o que construímos.
Francisco fita Romeu com pavor nos olhos, compreendendo que o cerco do destino finalmente se fechou ao seu redor.
💐
CENA 06-PORTÃO DA MANSÃO- ANOITECER
Uma garoa fina e gelada começa a cair sobre as ruas asfaltadas de São Paulo. Rosinha caminha apressada pela calç- ada arborizada da zona nobre, abrigando-se sob um guarda-chuva preto remendado. O bilhete anônimo ecoa em sua mente: “Venha imediatamente. A verdade sobre o seu sangue aguarda-a.” Ela para diante do portão de ferro tra- balhado. A poucos metros, Juca observa tudo escondido sob o toldo de uma chapelaria,acenando discretame- nte para lhe dar coragem. Rosinha respira fundo, empurra o pesado portão que se abre com um rangido prolongado.
Nas sombras da varanda superior, Filomena observa a chegada da jovem com um sorriso gélido e triunfante, enquanto, na janela do escritório da biblioteca, Francisco vê a silhueta solitária de Rosinha aproximar-se da entrada principal.
A câmara aproxima-se lentamente do medalhão de prata que Rosinha aperta com força na palma da mão, enquanto a imagem se fecha num corte seco e definitivo.
A luz vermelha e azul da viatura policial gira, cortando a escuridão da rua. Bernardo é empurrado para o banco de trás do carro da polícia. Ele não protesta, mas mantém o maxilar travado. Fernanda corre até a porta da viatura, antes que o policial a feche.
FERNANDA (com a voz embargada): Bernardo, por favor! Me escuta!
Bernardo vira o rosto lentamente para ela, o olhar frio escondendo uma dor profunda.
BERNARDO: Vai pra casa, Fernanda. É melhor assim.
O Policial bate a porta da viatura com força. Os pneus cantam no asfalto enquanto o carro arranca, deixando Fernanda sozinha sob a luz fria dos postes.
O silêncio no escritório é denso, cortante. Miguel e Leonas continuam na mesma posição, a poucos metros de distância, medindo forças. Leonas cruza os braços, tentando retomar o controle da situação com um sorriso cínico.
LEONAS: Você acha que essa sua rebeldia vai te levar a algum lugar, Miguel? Você não tem provas reais. É só um garoto brincando de detetive.
Miguel dá um passo à frente, sem desviar os olhos do pai.
MIGUEL: Brincando? O carro que atropelou a Júlia está no nome de uma empresa de fachada sua, pai. Não é brincadeira. É crime.
LEONAS (voz cortante): Cuidado com o tom. Eu construí tudo o que você tem, tudo o que você usa. Você acha mes- mo que alguém vai acreditar em você contra mim?
MIGUEL (firme, sem piscar): A justiça talvez demore. Mas eu não vou parar até descobrir o que você escondeu.
Leonas aperta os punhos sobre a mesa de mogno, a fúria finalmente escapan- do pela fresta da pose intocável.
Letícia caminha apressada sob a nebli- na fina. O celular vibra no bolso, mas ela nem olha. Sua mente está a mil por hora, conectando as palavras trunca- das do médico com as atitudes recen- tes. Ela para de andar de repente na calçada deserta.
LETÍCIA (falando sozinha, em choque): Não foi acidente… O médico falou em suporte, em interrupção… E o Cristian estava lá. O Cristian sabe.
Ela aperta o aparelho nas mãos, decidida.
LETÍCIA: Ele está escondendo isso de mim. Por quê?
CENA 11-INT/CASA DE CRISTIAN/ QUARTO-NOITE
Cristian está sentado na beira da cama ,puxando os cabelos com as duas mãos. Ele respira de forma curta e acelerada, quase hiperventilando. O peso da mentira está esmagando seu peito.
CRISTIAN (sussurrando, à beira das lágrimas): Eu não aguento mais… Se a Letícia descobrir, vai acabar tudo…
Ele levanta o olhar fixo na parede em frente, sentindo que o cerco está se fechando ao seu redor.
CRISTIAN: Eu preciso falar… mas tenho medo.
Na penumbra da cozinha, Lurdes está encostada na pia. Ela segura uma xícara de café frio entre as mãos, mas não bebe. De longe, abafados pela porta fechada, vêm os murmúrios da aflição de Cristian. Lurdes fecha os olhos, balançando a cabeça lentamen- te, com o semblante pesado de quem carrega uma premonição sombria.
LURDES (em um sussurro rouco): Meu Deus… Protege esse menino. O pior ainda tá vindo aí… e nenhum de nós vai conseguir segurar.
O reflexo dela na janela escura mostra um rosto marcado pela angústia.
escrita e criada por: LEONARDO DE PAULA JOÃO VITOR PRADO
Supervisão de: VANESSA COUTO
direção geral: DIOGO ITAMAR
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CENA 01-APARTAMENTO-MANHÃ
A foto antiga repousa no centro da mesa. Otávio sorri no meio dos quatro filhos ainda crianças. No verso, a letra firme e conhecida: “Ainda não é hora. Protejam-se.”Ninguém fala há vários minutos. Maya segura a foto com as duas mãos,os olhos marejados. Caio está de pé,os braços cruzados com força. Lívia fuma perto da janela aber- ta,mesmo sabendo que não deve. Benício olha para a imagem como se pudesse atravessá-la e alcançar o pai.
MAYA: Ele está vivo. E está por perto o suficiente para deixar isso.
CAIO: Ou alguém que trabalha com ele. Mas a letra é dele. Eu reconhec- eria em qualquer lugar.
Lívia solta a fumaça devagar.
LÍVIA: “Ainda não é hora.” Então ele sabe de alguma coisa que a gente não sabe. E prefere continuar escondido.
Benício fala baixo, a voz embargada:
BENÍCIO: Eu só queria ouvir a voz dele de novo. Só uma vez.
O silêncio volta,mais pesado do que antes.
CENA 02-APARTAMENTO- CONTINUAÇÃO
A Delegada Regina chega pouco depo- is, acompanhada de Helena,que ainda se recupera do ombro machucado. A delegada observa a foto sem surpresa já a conhecia desde a madrugada.
DELEGADA REGINA: A equipe em An- gra confirmou que o recado foi deixado de propósito. Não há sinais de luta no local. Alguém queria que a gente enc- ontrasse isso. E que vocês vissem.
Caio ergue o olhar.
CAIO: Então ele está controlando o jogo. Do jeito dele.
DELEGADA REGINA: Parece que sim. O problema é que Rogério e os homens dele também estão se mexendo. Com mais cuidado desta vez. A gente inter- ceptou movimentação de gente pergu- ntando sobre hotéis e apartamentos alugados na região.
Lívia apaga o cigarro com força.
LÍVIA: Eles estão chegando perto.
DELEGADA REGINA: Por isso a segu- rança vai ser reforçada de novo. E eu preciso que vocês entendam: qualquer contato com o Otávio,qualquer mens- agem,qualquer impulso de ir atrás dele... passa primeiro por mim. A gen- te não pode estragar o que ele está construindo no escuro.
CENA 03-COZINHA-DIA
Maya e Helena preparavam algo leve para comer. O clima entre as duas é de respeito silencioso. Maya ainda manca um pouco.
MAYA: Eu não te agradeci direito. Você arriscou a vida por uma desconhecida.
Helena dá de ombros, ajeitando o braço na tipoia.
HELENA: Eu aceitei o trabalho. Mas, quando te vi amarrada daquele jeito... deixou de ser só trabalho. Eu tenho irmã. Más nova. Não consegui olhar para você e fingir que era só mais uma operação.
Maya sorri fraco pela primeira vez em dias.
MAYA: Quando isso acabar,eu te devo um jantar. Um de verdade. Sem corda e sem arma apontada.
HELENA: Combinado. E sem cachaça dopada também.
As duas riram baixo. Um som estranho e bem-vindo naquele apartamento.
Caio e Henrique estão sozinhos no quarto dos fundos. O cansaço de Caio é visível. Henrique fecha a porta e se senta na beira da cama.
HENRIQUE: Você não dorme direito desde que a Maya voltou.
CAIO: Eu fico pensando no que o papai está fazendo. Sozinho. Ferido,talvez. E a gente aqui,esperando.
Henrique puxa Caio para perto,sem pressa.
HENRIQUE: Ele deixou um recado pedi- ndo para vocês se protegerem. Então o melhor que a gente pode fazer agora é exatamente isso. Ficar vivo. Ficar junto. Deixar ele trabalhar no tempo dele.
Caio encosta a cabeça no ombro de Henrique. Fica ali por um longo mome- nto, só respirando.
CAIO: Eu não sei o que eu faria sem você nesses dias.
HENRIQUE: Você não vai precisar descobrir.
Trilha Sonora off.
CENA 05-LOCAL DOS BANDIDOS-DIA
Rogério recebe informações de um contato na rua. O homem fala baixo, olhando para os lados.
CONTATO: Tem movimento de polícia em um prédio na Tijuca. Carros troca- ndo de turno. Gente que não parece morador. Pode ser o lugar.
Rogério anota o endereço com calma.
ROGÉRIO: Confirma antes de qualquer coisa. Eu não quero outro fiasco. Se forem eles,a gente espera a hora certa. De madrugada. Pouca gente na rua. Limpo.
O contato assente e sai. Rogério fica sozinho,girando o celular na mão. César já tinha cobrado de novo. A paciência está no fim.
CENA 06-APARTAMENTO-DIA
Benício conseguiu um violão empres- tado de um dos policiais que gostava de música. Senta-se na sala e começa a tocar baixo,quase só para si. Nina se aproxima e senta no chão, encostada na perna dele. Maya fecha os olhos, ouvindo. Lívia para de caminhar. Até Caio levanta a vista do computador.
A melodia é simples, antiga. Uma que Otávio costumava cantarolar quando os filhos ainda eram pequenos Benício tinha descoberto isso em uma das cai- xas que sobraram antes do incêndio. Ninguém pede para ele parar. A música preenche o apartamento como um fio invisível ligando o passado ao presen- te. Quando termina, Benício fala sem olhar para ninguém:
BENÍCIO: Eu toquei isso para ele ouvir. Onde ele estiver.
CENA 07-ANGRA DOS REIS-NOITE
A equipe da polícia mantém vigilância discreta na região da marina e da casa de veraneio. Às vinte e três horas, um barco pequeno,sem luzes,se aproxima do píer. Um homem desce, deixa um volume embrulhado em plástico perto do mesmo lugar onde a foto tinha sido encontrada,e parte em silêncio.
Os policiais esperam até o barco sumir na escuridão antes de se aproximar. Dentro do volume há um pendrive novo e um bilhete curto: “Usem só quando eu mandar. Não antes. "O.”
O investigador liga imediatamente para a delegada.
CENA 08-APARTAMENTO-NOITE
A Delegada Regina recebe a informa- ção e vai até o apartamento pessoal- mente,mesmo sendo madrugada. Acorda apenas Caio e Lívia primeiro.
DELEGADA REGINA: Seu pai mandou outro material. Um pendrive. Com um bilhete claro: só usem quando ele autorizar.
Caio passa a mão pelo rosto,exausto e ao mesmo tempo alerta.
CAIO: Ele está montando alguma coi- sa. Peça por peça.
Lívia olha para a delegada.
LÍVIA: E a gente só espera?
DELEGADA REGINA: Por enquanto, sim. Mas eu vou reforçar a segurança de novo. Porque se o Rogério desco- brir onde vocês estão antes do seu pai terminar o que está fazendo... a gente pode perder tudo.
Do lado de fora,um carro sem identi- ficação passa duas vezes pela rua. Devagar. Observando. O cerco dos bandidos se aperta. E Otávio,em algum lugar,continua movendo as peças no escuro.
Numa rua pacata de bairro tradicional, Rosinha bate à porta de uma fachada modesta ostentando uma tabuleta de quartos alugados. Dona Alzira, uma senhora de avental e cabelos presos em coque, atende com desconfiança polida.
DONA ALZIRA: Pois não? O que deseja a moça?
ROSINHA: Dizia-me a tabuleta que há quartos para alugar nesta casa.
DONA ALZIRA: Há um quartinho nos fundos. Custa modesto, mas exige pontualidade no pagamento ao fim de cada semana.
Rosinha faz as contas mentais com o troco que lhe resta.
ROSINHA: Sim, eu consigo saldar essa quantia.
DONA ALZIRA: Veio de longe, presumo pelo sotaque. Tem parentes na capital?
Rosinha hesita, engolindo em seco.
ROSINHA: Estou à procura deles… Cheguei hoje do interior.
Dona Alzira balança a cabeça, com um sorriso cético.
DONA ALZIRA: Boa sorte, criatura. Nesta cidade imensa, há quem passe a vida inteira sem achar nem a própria sombra. Entra,o quarto é o último do corredor.
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CENA 02-A BUSCA POR UM SUSTEN- TO-DIA SEGUINTE
O sol mal raiava quando Rosinha inicia a peregrinação pelo comércio local em busca de ocupação. Entra numa chap- elaria elegante.
ROSINHA: Bom dia,senhor. Precisam de uma criada para o balcão ou arrumações?
GERENTE: Traz recomendações por escrito de antigos patrões?
ROSINHA: Bem… trabalhava na terra com meu pai,não tenho registros formais.
GERENTE: Compreenda,senhorita, aqui só admitimos profissionais com carta de idoneidade da capital.
Rosinha retira-se cabisbaixa. Tenta uma modesta casa de secos e molha- dos logo adiante.
EMPREGADOR: Já tiveste lida com serviços pesados de faxina em mansões?
ROSINHA: Sim, senhor. Limpo, lavo e cozinho com desvelo.
EMPREGADOR: Tenho uma vaga de ajudante diarista. O ordenado é esca- sso, mas o trabalho é honesto.
Rosinha abre um sorriso de alívio.
ROSINHA: Eu aceito prontamente, muito obrigada! Começo quando o senhor mandar.
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CENA 03-MANSÃO DE FRANCISCO E ADRIANA-MESMO DIA
Nos salões opulentos da residência principal,Adriana discute os afazeres domésticos com a governanta.
ADRIANA: A casa é demasiado vasta para o pessoal que temos. Precisamos de reforçar o serviço de limpeza com urgência.
GOVERNANTA: A senhora deseja que eu publique um anúncio nos jornais da tarde?
Filomena, que escutava tudo dissimu- lada atrás de uma cortina de veludo, adianta-se com um sorriso dissimulado.
FILOMENA: Não se incomode com jornais,Adriana. Eu própria encarre- go-me de arranjar uma rapariga de confiança e trabalhadora.
Adriana acolhe a sugestão com simpa- tia ingénua.
ADRIANA: Oh,seria uma gentileza enorme da tua parte, Filomena. Faz isso por nós.
FILOMENA: Com todo o gosto do mundo, querida.
Filomena afasta-se pelos corredores. O sorriso amável evapora-se do seu rosto,substituído por um rictus de pura malícia.
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CENA 04-AGÊNCIA DE EMPREGOS- TARDE
Rosinha aguarda pacientemente na pequena repartição de empregos populares do bairro.
ATENDENTE: Próxima! Diga lá, menina, qual é a sua aptidão?
ROSINHA: Faço de tudo um pouco: limpo, cozinho, sirvo à mesa… O que aparecer para honestamente ganhar o pão.
A mulher folheia fichas amareladas num fichário de metal.
ATENDENTE: Tenho uma vaga aberta para serviçal interna numa residência de grande prestígio na zona alta.
ROSINHA: Uma residência de prestígio? E aceitam alguém sem carta da capital?
ATENDENTE: A patroa pediu alguém simples e despachada do interior. O endereço está aqui anotado. Apresen- ta-te amanhã bem cedo.
Rosinha segura o papel com o endere- ço, o coração batendo disparado de esperança.
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CENA 05-MANSÃO-NOITE
Pelos corredores mal iluminados da mansão, Filomena cruza-se com Romeu nas sombras da escadaria.
ROMEU: Soube que foste encarregada de recrutar a nova criada. Que maquinação tens em mente desta vez?
FILOMENA: Nenhuma de relevo, Romeu. Apenas uma rapariga humilde que veio diretinha do interior à procura de emprego.
ROMEU: E que nos importa a origem de uma simples criada?
FILOMENA: Quem sabe? Talvez venha a calhar no momento oportuno para os nossos planos.
ROMEU: Estás a jogar um jogo perigoso demais, Filomena.
FILOMENA: Deixa comigo e guarda as tuas opiniões para ti.
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CENA 06-PENSÃO-NOITE
No silêncio do seu quartinho modesta, Rosinha passa a ferro a única blusa decente que lhe restou para a grande entrevista do dia seguinte.
Ela pousa o velho medalhão de prata sobre a mesinha de pinho e fita-o longamente.
ROSINHA: Amanhã será o primeiro dia da nossa nova vida, papai. Onde quer que o senhor esteja a olhar por mim. Guarda o objeto no bolso do casaco, apaga o lampião a óleo e deita-se.
Poucos minutos depois, um som discreto de pancadas secas ecoa na porta de madeira do quarto. Rosinha sobressalta-se na penumbra.
ROSINHA: Quem bate a esta hora da noite?
O silêncio é a única resposta. Com o coração aos saltos, ela ergue-se e destranca a porta lentamente. Não há alma viva no corredor escuro. Contudo, repousa no chão de tábuas corridas um envelope pardo fechado com lacre.
Rosinha inclina-se, apanha o papel e rasga-o com as mãos trêmulas. De dentro desliza uma fotografia antiga, amarelada pelo tempo, retratando um casal distinto de feições nobres — Francisco e Adriana em sua juventude. Um calafrio percorre a espinha da jovem. Seus olhos arregalam-se de espanto.
No verso da fotografia, traçado com uma caligrafia elegante e enigmática, lê-se:
“ESTÁS MUITO MAIS PERTO DOS TEUS VERDADEIROS PAIS DO QUE A TUA SUTILEZA IMAGINA.”
As lágrimas escapam sem controle pelos olhos de Rosinha, que leva as mãos trêmulas à boca.
ROSINHA: Meu Deus do céu… Não pode ser…
Ela aproxima a fotografia da luz frouxa da janela,fitando os traços de Francisco e em seguida os de Adriana. Com os dedos trêmulos, puxa o medalhão do bolso e compara-o com a imagem.
ROSINHA: Serão… serão eles? O meu próprio sangue?
A câmara desliza lentamente sobre o rosto estupefacto de Rosinha enqua- nto a imagem se fecha num corte seco.
CENA 06-RUA/QUARTO DE CLARA (EXTERIOR /INTERIOR)-NOITE
De volta à calçada,o mundo lá fora pa- rece girar em torno do caos e da urgê- ncia. Mas sob aquela janela, o tempo desacelera.
MIGUEL: Sua mãe deixou claro que eu sou um perigo. Por que você não tem medo de mim?
Clara reflete por um instante,o olhar curioso fixo no dele.
CLARA: Porque o medo depende de mentiras. E você é a única pessoa que olha para mim sem tentar me inventar uma máscara.
As palavras atingem Miguel com a for- ça de um soco no estômago. Ele abso- rve o peso da frase.
MIGUEL: Eu tenho medo de muita coi- sa,Clara. De errar,de perder o contro- le... (Uma pausa curta) Mas de você? De você, eu não tenho medo nenhum.
Eles se encaram em um silêncio abso- luto. Ali,na vulnerabilidade daquela troca,duas vidas solitárias começam a alterar irreversivelmente o curso uma da outra.
CENA 07-ESCRITÓRIO DE LETÍCIA- NOITE
A penumbra do escritório é quebrada apenas pela luz fria da luminária de mesa. Documentos,prontuários rasur- ados e cópias de laudos formam uma verdadeira trincheira ao redor de Letícia. Ela fixa os olhos em um trecho específico do relatório de Júlia, onde a assinatura do Dr. Marcelo aparece borrada.
Com um movimento decidido, ela pega o celular, digita um número com firme- za mecânica e encosta o aparelho no ouvido.
LETÍCIA (Voz baixa,cortante): Eu sei que você está acobertando alguma coisa grave, Marcelo... Mas pode ter certeza de que eu vou puxar esse fio até o final.
Ela desliga a chamada antes de dar margem para resposta. Solta um longo suspiro,erguendo o olhar para o refle- xo da janela escura sabendo que está perigosamente perto de uma verdade que muita gente poderosa prefere enterrar.
CENA 08-QUARTO DE CRISTIAN- NOITE
O quarto está mergulhado em uma penumbra densa. Cristian está sentado na beirada da cama,com as palmas das mãos firmemente cravadas no rosto, abafando os próprios gemidos de exa- ustão. Cada respiração sua é trêmula, custosa.
Lentamente,ele afasta as mãos e levanta o olhar em direção ao espelho do armário. Encarar o próprio reflexo parece insuportável,o espelho refle- tindo um estranho esmagado pelo remorso.
CRISTIAN (Sussurrando, a voz quebra- ndo em um choro contido): Eu tentei... juro que tentei. Por que as coisas sim- plesmente fogem do meu controle?
As lágrimas finalmente rompem a barreira,escorrendo em silêncio pelo seu rosto enquanto ele desaba de joelhos na beirada da cama, à beira de um colapso emocional definitivo.
CENA 09-ESTÚDIO DE FERNANDA- NOITE
O estúdio está um verdadeiro campo de batalha de desordem: latas amass- adas, copos quebrados e móveis fora do lugar. Bernardo desfere um soco violento contra a parede de drywall, abrindo um rasgo na estrutura. Ele puxa o ar com força,os nós dos dedos ensanguentados e a fúria pulsando nas veias.
Da porta, Fernanda o observa, mante- ndo uma distância prudente, o rosto marcado pela apreensão.
FERNANDA: Bernardo, chega! Desse jeito você vai se destruir e levar todo mundo junto!
Bernardo vira o rosto bruscamente para ela, os olhos injetados cuspindo um rancor desesperado.
BERNARDO: Você não entende nada, Fernanda! Eu passei do ponto... eu perdi o controle de vez, e não tem mais caminho de volta!
Ele enterra os dedos nos cabelos, pu- xando-os com força, totalmente à deriva na beira do abismo.
CENA 10-CALÇADA EM FRENTE À CASA DE CLARA-NOITE
Do outro lado da rua deserta,Miguel está encostado no poste de luz, com as mãos enfiadas nos bolsos do casa- co. Ele observa a janela no segundo andar, onde a claridade ainda desenha a silhueta da cortina. Um sorriso discr- eto, quase imperceptível, surge em seus lábios. O peito, antes apertado pela hostilidade de Karina, agora pulsa aquecido. Ele murmura para si mesmo, selando uma promessa silenciosa:
MIGUEL: Eu volto... sempre.
CENA 11-QUARTO DE CLARA-NOITE
Deitada de costas em sua cama, Clara aperta contra o peito o colar que gan- hou, fitando o teto com um olhar com- pletamente transformado. O vazio e o cinza que definiam seus dias parecem ter dado lugar a uma eletricidade nova,um fôlego que ela havia esque- cido como era sentir.
Ela sorri sozinha no escuro,pela prim- eira vez consciente de que, apesar de todas as amarras ao seu redor, ela está começando a ser dona da própria história.
CENA 12-SALA DA CASA DE KARINA- NOITE
Na sala espaçosa e impecavelmente organizada,Karina caminha de um lado para o outro sobre o carpete. Seus passos são rítmicos, controlados, mas os dedos das mãos se torcem nervosa- mente um no outro,denunciando a tempestade interna.
KARINA (Falando em voz alta, como se precisasse convencer a si mesma): Está tudo sob controle. Absolutamente nada fugiu do lugar. Ninguém vai atra- vessar os meus muros...
Ela estaca diante da porta de entrada principal, sentindo um calafrio gélido subir pela espinha. Por mais que tente blindar a mansão,o vislumbre de que as rédeas da sua vida e da vida de Clara estão escapando por entre seus dedos finalmente começa a se impor.
Miguel permanece diante da fachada imponente da casa. O portão de ferro parece uma barreira deliberada. Ele respira fundo,controlando o ritmo car- díaco,e pressiona a campainha. Segun- dos depois, Karina abre. A fração de segundo de surpresa em seu rosto lo- go se converte em uma couraça impenetrável.
KARINA: Miguel?
Ele mantém a postura erguida, evitan- do qualquer tom defensivo.
MIGUEL: Eu vim falar com a Clara.
O maxilar de Karina trava. O olhar se estreita.
KARINA: Ela não está disponível.
MIGUEL: Eu não vim criar conflito, Karina. Só quero conversar...
KARINA (Interrompendo, gélida): Eu disse que não. A frase é a mesma em qualquer tom.
Miguel firma o olhar no dela, sem recuar.
MIGUEL: Ela não é uma criança que você pode trancar no quarto para evitar o mundo.
Karina dá um passo à frente, a rigidez do seu corpo assumindo o controle total da situação.
KARINA: E eu sou a mãe dela. O que significa que eu decido o que entra e o que sai desta casa, inclusive você.
Um silêncio denso e cortante se estab- elece entre os dois. Karina não pisca.
KARINA: Boa noite, Miguel.
A porta se fecha com um baque seco, definitivo. Miguel fica diante da made- ira fechada. Há frustração ali, mas há, sobretudo, uma certeza inabalável. Ele não vai desistir tão fácil.
CENA 02-RUA/QUARTO DE CLARA- NOITE
A casa está mergulhada em um silên- cio pesado. Na rua escura, Miguel observa a fachada de longe, até notar a nesga de luz amarelada que escapa pela fresta da cortina do quarto de Clara. Ele caminha com cautela redo- brada até a lateral da casa, parando sob a janela entreaberta.
MIGUEL (Voz baixa,contida): Clara…
A cortina se afasta devagar. Clara aparece no batente. O choque inicial rapidamente se desmancha em um sorriso involuntário, sincero.
CLARA: Miguel?
Ele sorri de canto,aliviado por encontrá-la.
MIGUEL: Tentei entrar pela porta da frente. Sua mãe parece ter uma alergia diplomática a mim.
Clara solta uma risada abafada, cobri- ndo a boca com a mão.
CLARA: Ela tem radar para o que não consegue controlar. O que você esperava?
MIGUEL: Eu tinha uma vaga esperança de civilidade. Pelo visto, me enganei.
Um silêncio leve, cúmplice, preenche o espaço entre a calçada e o segundo andar.
MIGUEL: Eu só precisava saber se você está inteira depois de hoje.
Clara reflete por um instante, medindo as próprias emoções antes de responder.
CLARA: Estou... (Uma pausa curta) Melhor agora que te vi aqui.
Miguel a observa, sentindo o peito aquecer.
MIGUEL: Eu também.
Nenhum dos dois tem pressa de que o momento acabe. Não há espaço para o ruído do mundo lá fora.
CLARA: Você vai voltar amanhã?
Ele responde sem hesitar, o olhar firme nos olhos dela:
MIGUEL: Sempre.
E ali, na transitoriedade de uma janela aberta na calada da noite, a certeza de que as regras daquela casa acabaram de deixar de importar.
CENA 03-HOSPITAL/CORREDOR- NOITE
O corredor do hospital é um labirinto frio de luzes fluorescentes e cheiro de antisepto. Letícia caminha com passos firmes, o salto ecoando no piso de linóleo, até interceptar o Dr. Marcelo que sai de um consultório.
LETÍCIA: Doutor Marcelo. Preciso de um minuto da sua atenção.
Ele se vira bruscamente. Por um segundo, a postura profissional vacila; seu olhar percorre o rosto dela com uma intensidade que ultrapassa a mera cordialidade médica.
DR. MARCELO: Claro... Letícia, não é? Em que posso ser útil a uma advogada a essa hora da noite?
LETÍCIA: Sobre o prontuário e as circu- nstâncias da internação da Júlia.
O nome cai como um peso morto no ar. O semblante de Marcelo se fecha instantaneamente.
DR. MARCELO: Esse é um assunto clínico altamente sigiloso. Você sabe tão bem quanto eu.
LETÍCIA: Eu conheço os protocolos. E também sei quando há lacunas inten- cionais neles.
Marcelo dá um passo à frente, invadi- ndo sutilmente o espaço pessoal dela com um sorriso irônico nos lábios.
DR. MARCELO: Você é implacável. Tenho que admitir que admiro a persi- stência, mas a burocracia médica não funciona no improviso.
Letícia mantém a expressão impassí- vel, blindada contra qualquer tentativa de jogo psicológico.
LETÍCIA: Não vim pedir favores, Mar- celo. Eu preciso entender exatamente o que aconteceu naquelas doze horas que antecederam o óbito.
Marcelo inclina a cabeça, avaliando-a com um misto de desafio e fascínio perigoso.
DR. MARCELO: Os relatórios dizem o que a diretoria quer que leiam. Nem tudo o que importa foi parar no papel.
A frase vem carregada de um aviso velado. Letícia pesca a pista no mesmo instante.
LETÍCIA: Então me conte o que ficou de fora.
Marcelo sorri de canto, deixando transparecer um interesse que vai muito além do caso jurídico.
DR. MARCELO: Sabe... podemos discutir isso com mais calma em outro lugar. Um café fora daqui, longe dos corredores...
Letícia firma o olhar, cortando qual- quer margem para gracinhas.
LETÍCIA: Para mim, aqui e agora está perfeito. O que você me diz?
O sorriso de Marcelo se retrai, dando lugar a um respeito cauteloso. A partida de xadrez apenas começou.
CENA 04-CASA DE LURDES/SALA- NOITE
A penumbra da sala é cortada apenas pela luz amarela do abajur. Cristian está sentado na poltrona, os olhos fixos no chão, evitando a todo custo encarar a avó. Lurdes o observa com a calma de quem conhece cada cicatriz invisível do neto.
LURDES: Senta aqui perto, Cristian. Ele obedece em silêncio, o corpo rígido como uma mola prestes a estourar.
LURDES: Você não está me contando tudo. (Pausa) Eu não preciso que você diga uma palavra para saber que o seu peito está rasgado.
Cristian leva as mãos ao rosto, mass- ageando as têmporas em um gesto de exaustão profunda.
CRISTIAN: Vó, por favor... não insiste.
LURDES: Eu te criei, menino. Eu con- heço o som da sua respiração quando você está carregando um peso que não te pertence. (A voz dela suaviza, carregada de uma autoridade materna inquestionável) O que aconteceu de verdade naquele hospital?
O coração de Cristian dá um salto no peito. As defesas começam a ruir.
CRISTIAN: Eu... eu só queria ter feito diferente. Eu tentei ajudar...
LURDES: Foi só isso?
O silêncio que se segue é denso, pesa- do o bastante para sufocar. Cristian abre a boca para falar, mas a garganta trava. Os olhos se enchem de lágrimas quentes que ele tenta conter à força.
CRISTIAN: Eu... (Sua voz falha) Eu não consegui salvar ela, vó. A culpa é minha.
Ele desvia o rosto, derrotado pela própria confissão. Lurdes o observa em silêncio, absorvendo o impacto daquela dor. Ela sabe que ele guarda um segredo perigoso, e que a verdade vai cobrar um preço altíssimo.
CENA 05-BAR/SALÃ O-NOITE
O bar pulsa com uma frequência ens- urdecedora: luzes vermelhas e azuis cortam o ar esfumaçado, enquanto a música eletrônica bate no peito. Em uma mesa de canto, Bernardo bebe em silêncio, esvaziando o copo atrás do copo com uma urgência autodes- trutiva. Fernanda tenta arrancar o copo da mão dele.
FERNANDA: Chega, Bernardo! Você já passou de qualquer limite aceitável hoje!
BERNARDO (Com a voz alterada pelo álcool, cuspindo as palavras): Não enche o saco, Fernanda! Você não manda em mim!
Nesse instante, um homem corpulento esbarra com força no ombro de Bernardo ao passar cambaleando pelo corredor estreito.
HOMEM: Quer parar de ficar no meio do caminho, seu idiota? Olha por onde anda!
Bernardo levanta a cabeça de supetão, os olhos injetados de fúria reprimida.
BERNARDO: O problema é meu ou da sua falta de educação? Tá olhando o quê?
A discussão escala em segundos, transformada em pólvora pura.
HOMEM: Tá querendo arrumar confu- são, moleque?
BERNARDO: Eu não tô procurando nada... mas já achei o que faltava!
Um empurrão violento serve de rasti- lho. No segundo seguinte, Bernardo parte para cima do homem com uma fúria cega, desferindo socos em meio ao caos que se forma ao redor.
FERNANDA (Gritando, desesperada): CHEGA! PARA COM ISSO!
Ele não ouve. Não há racionalidade ali; é apenas a válvula de escape para uma dor e uma culpa que ele não consegue processar de outra forma. Seguranças surgem rapidamente, separando os dois com força. Bernardo é jogado para trás, respirando com dificuldade, o peito arfando, os nós dos dedos sangrando e os olhos faiscando de puro ódio de si mesmo.
escrita e criada por: LEONARDO DE PAULA JOÃO VITOR PRADO
Supervisão de: VANESSA COUTO
direção geral: DIOGO ITAMAR
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CENA 01-APARTAMENTO-MANHÃ
O apartamento funcional cheirava a café passado e roupa lavada às pressas. Maya dormia no sofá desde que tinham chegado, coberta por um cobertor fino. De vez em quando, soltava um gemido baixo, como se ainda estivesse no cativeiro. Lívia não se afastava dela. Ficava sentada no chão, de costas para o sofá, vigiando cada movimento da irmã. Caio observava as duas de longe, o notebook aberto no colo, mas sem conseguir se concentrar nos arquivos do pendrive. Benício e Nina prepara- vam algo simples na cozinha impro- visada. Diego e Henrique conversavam baixo perto da janela, observando a rua.
LÍVIA: Eu ainda não acredito que ela está aqui.
A frase saiu quase num sussurro. Maya mexeu os dedos, mas não acordou.
CAIO: Eu também não. Toda vez que eu fecho os olhos, eu vejo o momento em que eles a arrancaram do carro.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era só o peso de dias demais sem descanso.
CENA 02:APARTAMENTO- CONTINUAÇÃO
A Delegada Regina chegou no meio da manhã, acompanhada de um investi- gador. O rosto dela denunciava noites mal dormidas. Sentou-se na única cadeira disponível e falou sem rodeios.
DELEGADA REGINA: A equipe que mandei para Angra dos Reis já está no local. A imagem da lancha é a última pista concreta que temos do Otávio. O homem que o acompanhava estava armado, e a embarcação saiu sem registro formal. Estamos cruzando com marinas particulares e casas de veraneio da região.
Maya, que tinha acordado com a voz da delegada, sentou-se devagar no sofá.
MAYA: E se ele não estiver mais lá?
DELEGADA REGINA: Então a gente continua procurando. Mas agora, com você de volta, a prioridade também é manter todos vivos. Rogério não vai parar só porque vocês mudaram de endereço.
Caio fechou o notebook.
CAIO: Quanto tempo a gente tem até eles descobrirem onde estamos? A delegada não mentiu.
DELEGADA REGINA: Eu não sei. Por isso a segurança vai ficar reforçada. E vocês não saem daqui sem escolta.
CENA 03-QUARTO IMPROVISADO-DIA
Benício e Nina tinham se isolado no quarto menor. Ele estava sentado na beira da cama,o violão apoiado no joelho,mas sem tocar. Nina penteava o cabelo molhado depois de um banho rápido.
BENÍCIO: Eu fiquei com tanto medo de não te ver mais… e de não ver a Maya. E o papai. Parece que a gente só perde gente.
Nina parou o pente e se aproximou.
NINA: Você não perdeu a Maya. Ela está do outro lado da porta. E eu estou aqui. O seu pai… a gente ainda não sabe. Mas você não está sozinho nessa.
Benício ergueu o rosto. Os dois se olh- aram por um tempo longo. Não houve declaração grandiosa. Só um beijo calmo, cansado, necessário. Quando se separaram, ele encostou a testa na dela.
BENÍCIO: Obrigado por não ter sumido.
NINA: Eu não sumo fácil.
CENA 04-SALA-DIA
Lívia e Diego estavam na varanda peq- uena do apartamento. O vento batia no rosto dela, ainda marcado pela fuligem e pelo cansaço. Diego ofereceu um copo de água. Ela aceitou em silêncio.
DIEGO: Você chorou ontem. Eu nunca tinha te visto chorar de verdade.
Lívia deu uma risada curta, sem humor.
LÍVIA: Não se acostuma. Foi só o exce- sso de tudo. A casa queimando,a Maya sumida, o papai… eu estou no limite.
Diego se apoiou no parapeito ao lado dela.
DIEGO: Eu também estou. Mas eu continuo aqui. Mesmo se você gritar, mesmo se você mandar eu embora de novo.
Ela olhou para ele de lado. Pela prime- ira vez em dias, o olhar não carregava só raiva ou medo.
LÍVIA: Eu sei. E isso me assusta um pouco.
CENA 05-LOCAL DOS BANDIDOS-DIA
Rogério estava reunido com os home- ns que ainda restavam. O clima era de contenção. César tinha cobrado resul- tados, e a fuga de Maya pesava.
ROGÉRIO: Eles mudaram de lugar. A polícia está em cima. A gente não vai atacar no escuro de novo. Eu quero localização certa, rotina, horários. Quando soubermos exatamente onde os irmãos estão, a gente age limpo. Sem testemunhas.
Um dos capangas perguntou:
CAPANGA: E a menina e a mulher que fugiram?
ROGÉRIO: Depois. Primeiro os irmãos. César quer o pendrive e o silêncio. O resto a gente resolve.
Eles começaram a trabalhar em conta- tos e vigilância, com mais cuidado do que nas vezes anteriores.
CENA 06-ANGRA DOS REIS-DIA
A equipe enviada pela delegada perco- rreu marinas e casas de veraneio. Em uma propriedade isolada, próxima a um píer particular, encontraram sinais recentes de uso: comida pela metade, um casaco masculino largado sobre uma cadeira, e marcas de pneu de um veículo que não pertencia aos morado- res habituais da região. O investigador responsável ligou para Regina.
INVESTIGADOR: Tem movimento rece- nte,delegada. Mas ninguém no local agora. A lancha que aparece na câmera foi vista saindo de novo ontem à noite. Destino incerto.
Regina ouviu em silêncio do outro lado da linha.
DELEGADA REGINA: Continua no enc- alço. Qualquer coisa, me avisa na hora.
A pista existia. Mas Otávio continuava um passo à frente… ou um passo atrás de alguém.
CENA 07-APARTAMENTO-NOITE
Os irmãos estavam reunidos na sala. Maya,já mais presente,contava aos poucos o que lembrava do cativeiro. Não entrava em detalhes demais. Nin- guém pedia.
MAYA: A Helena salvou minha vida. Se não fosse ela,eu acho que eu não estaria aqui.
Helena,que estava em outro cômodo descansando sob proteção, foi menc- ionada com respeito. Caio olhou para os irmãos.
CAIO: A gente tem a Maya de volta. Tem o pendrive. Tem a polícia do nosso lado. Mas o papai continua sumido. E os homens do Rogério não vão parar.
Lívia cruzou os braços.
LÍVIA: Então a gente não baixa a guar- da. Nem por um segundo.
Benício falou baixo,quase para si:
BENÍCIO: Eu só queria que ele soube- sse que a gente está junto. De verdade.
Ninguém respondeu. Mas todos pens- aram a mesma coisa.
CENA 08-APARTAMENTO-NOITE
A maior parte do grupo finalmente tinha conseguido dormir. Caio ainda estava acordado quando o celular da Delegada Regina tocou no silêncio do apartamento. Ela atendeu no corredor, com a voz baixa. Do outro lado, o investigador de Angra falava com urgência controlada.
INVESTIGADOR: Delegada… encontra- mos algo. Não é o Otávio. Mas é um recado. Deixado de propósito no píer. Regina endireitou o corpo.
DELEGADA REGINA: Que tipo de recado?
Houve uma pausa.
INVESTIGADOR: Uma foto antiga dele com os quatro filhos. E uma frase escrita no verso: “Ainda não é hora. Protejam-se.”
A delegada ficou em silêncio por alg- uns segundos. Depois, olhou na dire- ção da sala onde os irmãos dormiam.
O pai estava vivo. E, de alguma forma, ainda os observava de longe.
A concorrente ri do outro lado da cal- çada e pendura um letreiro ainda maior:
“A GOSTOSA DE VERDADE NÃO PRE- CISA DE GRITARIA!”
Kassandra balança a cabeça, prevendo o pior.
KASSANDRA: Isto vai terminar em tri- bunal ou na delegacia,anoto o que lhe digo.
Marocas enfia-lhe uma torta compacta nas mãos.
MAROCAS: Vai distribuir amostras à freguesia imediatamente!
KASSANDRA: Onde quer que eu vá com isto?
MAROCAS: Ao povo, mulher! Mostra- lhes o que é bom!
A concorrente,vendo o movimento,faz o mesmo. Um freguês indeciso prova a fatia de Marocas e,em seguida,a da rival.
CLIENTE: Francamente,ambas são divinas!
Marocas enfurece-se com a neutra- lidade.
MAROCAS: Como ousa comparar a minha obra-prima com aquela sola de sapato?!
KASSANDRA: Ora,ele foi apenas hone- sto, dona Marocas!
A discussão degenera rapidamente. Numa fração de segundo de pura irre- verência, Marocas atira uma colherada de creme chantilly na direção da rival. O creme erra o alvo e espatifa-se na montra alheia. A concorrente retalia de imediato atirando um punhado de coco ralado.
Kassandra horroriza-se,cobrindo o rosto com as mãos.
KASSANDRA: Virgem Santíssima! Marocas, perdeu o juízo?!
MAROCAS: Foi aquela desavergonhada que começou as hostilidades!
KASSANDRA: A senhora é que atirou o primeiro tiro de creme!
MAROCAS: Detalhes da contenda, miúda!
A rival,enfurecida,agarra uma torta inteira de prato e brande-a no ar.
CONCORRENTE: Toma lá para apren- deres a respeitar a concorrência!
A torta voa pelos ares,mas Marocas esquiva-se a tempo. O petisco avelu- dado acerta em cheio o peito de um pacato cidadão de terno que passava distraidamente pela calçada.
CIDADÃ DE TERNO: Ora essa! Minha casaca nova de linho inglês!
A rua inteira silencia por um instante. Kassandra leva a mão à boca, sufocan- do o riso,mas acaba por irromper numa gargalhada sonora.
KASSANDRA: Oh,céus,mil perdões ao senhor!
Marocas,com um sorriso travesso nos lábios pintados de vermelho, agarra outra torta.
MAROCAS: Já que a dança começou, que se toque a valsa! É guerra aberta!
Em segundos,o passeio público transf- orma-se num campo de batalha gastr- onômico. Fatias de massa e recheio voam de um lado para o outro.
Kassandra abriga-se debaixo de uma mesa de ferro,rindo à bandeira desfral- dada.
KASSANDRA: Eu recuso-me a perecer soterrada em creme de coco!
💐
CENA 05-CASA DE FILOMENA-NOITE
Filomena estuda minuciosamente os papéis e a planta detalhada da mansão sobre o tampo de mogno. Romeu cruza os braços ao lado da lâmpada de querosene.
ROMEU: Consegui o mapa exato da ala oeste. O escritório é acessível pelos fundos.
FILOMENA: E o cofre de ferro? Desco- briu a combinação?
ROMEU: Ainda não tive oportunidade de forçar a fechadura. Tenha paciên- cia.
Filomena morde os lábios com impa- ciência venenosa.
FILOMENA: Prometeste resultados imediatos, Romeu! És de uma inutili- dade confrangedora.
ROMEU: Modera o tom das tuas pala- vras,Filomena. Não me ponhas à prova.
A mulher ergue-se com altivez felina, colando-se a ele.
FILOMENA: Estás a ameaçar-me por acaso?
ROMEU: Estou apenas a avisar-te para não confiares demasiado na tua sorte.
FILOMENA: Não estás em posição de ditar regras a quem quer que seja neste jogo.
Romeu agarra-lhe o pulso com força brutal.
ROMEU: Sem os meus préstimos, con- tinuas a ser uma pobretana qualquer.
Filomena fita a mão dele sobre o seu braço com desprezo gélido.
FILOMENA: Larga-me imediatamente.
ROMEU: E se eu recusar?
Com a rapidez de um chicote,Filomena desfer-lhe uma bofetada estalada no rosto. O som ecoa seco pela sala vazia. Romeu recua,estupefacto, levando a mão à face ruborizada.
FILOMENA: Nunca mais ouses tocar- me com essa grosseria de capanga.
ROMEU: Enlouqueceste de vez?!
FILOMENA: Posso ter mil defeitos, meu caro,mas a loucura não me assiste.
ROMEU: Hás de arrepender-te amar- gamente desta insolência, Filomena.
FILOMENA: E tu continuarás a obede- cer-me como o cão fiel que sempre foste.
Romeu range os dentes,os olhos fais- cando de ódio contido.
ROMEU: A fortuna daquela família é demasiado vasta para pensares em surrupiá-la sozinha.
Filomena abre um sorriso cortante como gilete.
FILOMENA: E quem te disse que tenci- ono repartir o espólio contigo?
Romeu dá meia-volta,furioso, e bate a porta com tamanha força que a vidraça vibra. Filomena recosta-se na poltrona, fitando a planta arquitetónica com um brilho ambicioso nos olhos.
FILOMENA: Pobre tolo…
💐
CENA 06-CASA DE ROSINHA-DIA
As cinzas ainda fumegam nas vigas carbonizadas da antiga casa. Rosinha recolhe os poucos vestígios que esca- param ao fogo entre eles,uma fotogra- fia desbotada dela com o pai. Joel entra com cuidado pelo vão da porta destruída.
JOEL: Rosinha… Vim ver como estavas.
Rosinha enxuga o rosto com as costas da mão, disfarçando o desalento.
ROSINHA: Não sobrou nada, Joel. Nem as paredes resistiram.
JOEL: Eu sei, meu bem. É desolador.
ROSINHA: Preciso de partir. Não posso ficar um dia mais nesta terra de cinzas.
JOEL: Partir para onde, santo Deus? Rosinha aperta o medalhão prateado contra o peito.
ROSINHA: Para São Paulo. A metrópole.
Joel sobressalta-se, alarmado.
JOEL: Tens plena consciência do que dizes? É uma selva de pedra para uma rapariga sozinha.
ROSINHA: É lá que jaz a resposta sobre as minhas origens. Sinto-me impelida.
JOEL: E se não encontrares nada além de desilusão?
ROSINHA: Mesmo assim, saberei quem sou. Já chega de viver na penumbra.
Joel suspira fundo, derrotado pela firmeza nos olhos da jovem.
JOEL: Não irás sozinha nesta jornada. Eu…
ROSINHA: Agradeço de coração, Joel. Mas esta travessia pertence-me por inteiro. Preciso de caminhar com as minhas próprias pernas.
💐
CENA 07-RODOVIÁRIA-DIA
O coletivo poeirento aguarda com o motor a roncar pesado na gare.
Rosinha aperta a alça da mala de cou- ro envelhecido. Joel permanece ao seu lado,o semblante carregado de melancolia.
JOEL: Levas dinheiro suficiente para as despesas iniciais?
ROSINHA: O pouco que guardei há de bastar por um tempo.
JOEL: E onde pretendes hospedar-te ao chegar à capital?
Rosinha hesita por um segundo, sorri- ndo levemente.
ROSINHA: Hei de encontrar um teto decente, não te preocupes tanto.
Joel retira do bolso do casaco um peq- ueno envelope dobrado e estende-lho.
ROSINHA: O que é isto, Joel?
JOEL: Uma pequena ajuda de amigo. Aceita, por caridade.
ROSINHA: Não posso aceitar tal quan- tia,tu bem sabes…
JOEL: Podes e deves. É para o teu recomeço.
Rosinha abraça-o comovida, afundan- do o rosto no seu ombro.
ROSINHA: És o melhor amigo que alguém poderia ter na vida. Prometo dar notícias assim que me instalar.
O motorista buzina estridentemente, chamando os passageiros. Rosinha sobe os degraus do autocarro e olha pela janela empoeirada.
ROSINHA: Adeus,Vale das Hortênsias…
O veículo arranca lentamente, ergue- ndo uma nuvem de poeira enquanto as paisagens familiares desaparecem no horizonte.
💐
CENA 08-SÃO PAULO-DIA
O autocarro estanca na grandiosa e movimentada rodoviária central. Ro- sinha desce para a plataforma, atur- dida pelo formigueiro humano, pelo ronco ensurdecedor dos automóveis e pela imensidão dos arranha-céus que rasgam o céu cinzento.
ROSINHA: Meu Deus do céu… É um mundo sem fim.
Ela respira fundo,ajustando o xale aos ombros e firmando a pega da mala. Caminha até à praça de táxis adjacente à gare para tentar contratar um auto- móvel de aluguel que a conduza até ao centro, mas depara-se com uma cauda interminável de passageiros aflitos e um total desespero: nem um único veículo livre à vista.
Enquanto Rosinha hesita,indecisa so- bre que rumo tomar, um elegante automóvel de luxo lustroso desfaz-se da fila e para suavemente junto ao passeio. O condutor desce com galan- tearia. É Felipe, um homem de traços finos e olhar penetrante, que a observa fixamente desde o preciso instante em que ela pusera os pés no terminal. Enfeitiçado pela beleza recatada e pela postura altiva daquela forasteira no meio do caos urbano, o vilão sente nascer em si uma curiosidade mórbida que depressa se transformará numa perseguição obsessiva.
FELIPE: Perdão pela intromissão, sen- horita, mas noto que aguarda em vão.
Os táxis esgotaram-se por esta hora. Permita-me oferecer-lhe uma carona para salvá-la deste formigueiro. Rosinha recua um passo, desconfiada com a abordagem tão pronta.
ROSINHA: Agradeço penhoradamente a gentileza,senhor, mas prefiro não incomodar um estranho. Sei cuidar de mim.
FELIPE: Nonsense. Um anjo perdido nesta selva de pedra não pode cami- nhar desamparado. Chamo-me Felipe, e será uma honra ser o seu guia nesta imensidão.
A insistência de Felipe carrega um timbre magnético e simuladamente cortês,embora os seus olhos devorem cada detalhe de Rosinha com um ape- tite possessivo que passa desperce- bido à inocência da moça. Sem alter- nativas viáveis naquelas circunstân- cias, ela acaba por ceder e aceita entrar no possante veículo. O motor ruge com suavidade, engolindo o asfalto. Pelos espelhos retrovisores, Felipe observa-a de soslaio, sorrindo de um modo enigmático, enquanto a viagem marca o primeiro passo de uma vigilância apertada e sombria sobre a vida da jovem.
ROSINHA: É aqui… É nesta imensidão que a minha verdadeira história começa.
Ela aperta o medalhão contra o peito, ignorando por completo que o homem ao volante acaba de se tornar a sua sombra mais perigosa.
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CONFLITO • Capítulo 17
escrita e criada por:
JOÃO GABRIEL FERNANDES
Supervisão de:
EDGAR OLIVEIRA
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
abertura: https://youtu.be/5ZqTP2gLy28?is=FlRUn...
⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️
CENA 01-EXT/CASA DE CLARA/ JARDIM-FIM DE TARDE
A casa está silenciosa. Clara está no jardim, sentada perto dos canteiros, mexendo distraidamente nas flores numa tentativa de amenizar a saudade.
MIGUEL (Baixinho): Clara…
Trilha Sonora On:
https://youtu.be/j-Z9IJAgvxs?is=2f6hA...
Ela levanta o olhar. Miguel está ali.
Dessa vez, não pela janela. Não escon-
dido. De verdade. Clara se levanta rápido, o coração acelerado.
CLARA: Você veio…
O sorriso dela é puro. Miguel se aproxima.
MIGUEL: Eu disse que vinha.
Os dois ficam frente a frente. Um silê-
ncio leve,mas carregado de significado.
CLARA: Sua mãe não vai gostar…
Miguel dá de ombros, irredutível. Clara ri baixinho, sentindo o peito aquecer.
CLARA: Eu senti sua falta.
A frase sai natural, sem medo. Miguel se surpreende por um instante, mas responde com total franqueza:
MIGUEL: Eu também.
Eles começam a caminhar pelo jardim, devagar, lado a lado.
MIGUEL: Você sempre fica aqui?
CLARA: Quando quero pensar…
MIGUEL: E no que você pensa?
Clara olha para ele, os olhos brilhando.
CLARA: Em coisas boas. (Uma pausa breve) Hoje… em você.
Miguel sorri. Pela primeira vez, um sorriso genuinamente leve. Ali, sem pressões e sem julgamentos,um sen-
timento verdadeiro começa a florescer entre eles.
Trilha Sonora off.
CENA 02-INT/CASA DE CRISTIAN-
NOITE
Letícia chega à casa de Cristian. Direta,sem rodeios e visivelmente tensa.
LETÍCIA: A gente precisa conversar.
Cristian percebe o tom firme e se sobressalta.
CRISTIAN: O que foi?
Letícia o encara, cruzando os braços.
LETÍCIA: Você não tá me contando tudo.
Silêncio pesado. Cristian desvia o olhar.
CRISTIAN: Eu já falei...
LETÍCIA: Não falou. (Ela dá um passo à frente, invadindo o espaço dele) O médico deixou claro… teve uma decisão naquele hospital.
O clima pesa instantaneamente no ambiente.
LETÍCIA: Que decisão foi essa, Cristian?
Cristian trava. Fica em silêncio, com a respiração pesada.
LETÍCIA: Você tava lá. (Pausa dramá-
tica) E você sabe o que aconteceu.
Os olhos de Cristian se enchem de lágrimas. A culpa é evidente no seu rosto. Letícia vê tudo.
LETÍCIA: Você tá mentindo pra mim.
A frase é firme, mas carregada de decepção, não de crueldade. Cristian não aguento mais e explode, perdendo o controle:
CRISTIAN: Eu tô tentando te ajudar! EU TÔ TENTANDO SOBREVIVER! (Silêncio absoluto. Pesado. Doloroso) Você não entende o que eu vivi lá…
A voz dele falha e quebra.
LETÍCIA: Então me faz entender.
Cristian fecha os olhos com força. Quase fala. Quase revela o segredo. Mas trava na última hora.
CRISTIAN: Eu não posso…
Letícia recua um passo, a expressão endurecendo, tornando-se fria.
LETÍCIA: Se você não me contar a verdade… (Pausa glacial) Eu não posso te defender.
A frase ecoa na sala como uma sente-
nça,pairando entre a ameaça e o ultimato final.
CENA 03-INT/HOSPITAL/CORREDOR- NOITE
Letícia caminha pelo corredor do hos-
pital, perdida em seus pensamentos densos.
DR. MARCELO: Doutora.
Ela se vira rapidamente. É o Doutor Marcelo, que se aproxima com um sorriso controlado.
DR. MARCELO: Eu estava pensando… A gente podia continuar aquela conversa.
Letícia arqueia a sobrancelha,compre-
endendo o subtexto.
LETÍCIA: Sobre o caso?
DR. MARCELO: Também. (Pausa curta) O olhar dele se aprofunda. Que tal jantar?
Silêncio. Ela o observa minuciosame-
nte,analisando cada detalhe da proposta.
LETÍCIA: Isso é profissional?
Marcelo mantém o sorriso enigmático.
DR. MARCELO: Pode ser.
Letícia hesita por alguns segundos, avaliando os riscos,antes de responder:
LETÍCIA: Eu só aceito se for pra falar do caso.
Marcelo inclina a cabeça,aceitando os termos, embora haja algo mais em sua postura.
DR. MARCELO: Claro.
Mas o brilho em seu olhar diz exatamente o oposto.
CENA 04-INT/RESTAURANTE-NOITE
Trilha Sonora On:
https://youtu.be/uen86DGY79E?is=4Z-r0...
Um ambiente sofisticado,aconchega-
nte. Agora,o clima entre Karina e Leo-
nas está mais próximo,íntimo e pesso-
al. Eles erguem as taças e brindam.
LEONAS: Aos interesses em comum.
Karina sorri, cúmplice.
KARINA: E às soluções rápidas.
Eles bebem, mantendo contato visual direto. Um clima totalmente diferente de antes.
LEONAS: Você é uma mulher impressionante.
KARINA: E você… perigoso.
Leonas sorri de canto.
LEONAS: Isso te assusta?
KARINA: Me interessa.
Silêncio eletrizante. Leonas inclina o tronco, aproximando-se ainda mais dela.
LEONAS: A gente pode se ajudar muito.
Karina não desvia o olhar nem por um segundo.
KARINA: Ou se destruir.
LEONAS: Prefiro a primeira opção.
Eles riem baixinho. Contudo, a tensão é palpável: há química, interesse e algo perigosamente magnético entre eles.
Leonas estende a mão e toca levem-
ente os dedos de Karina. Ela não recua. Pelo contrário,permite o toque.
Ali,naquele instante,deixa de ser ape-
nas uma aliança estratégica. Transfor-
ma-se em atração pura. Perigosa.
Trilha Sonora off.
CENA 05-INT/CASA DE CLARA/JARDIM-NOITE
Instrumental On:
https://youtu.be/xdtXmC_aRNI?is=0-UtL...
O sol já se pôs de vez,deixando o céu tingido de tons escuros. Clara e Miguel continuam conversando perto das flores.
CLARA: Você é diferente…
Miguel sorri, curioso.
MIGUEL: Diferente como?
CLARA: Você não me olha estranho.
Miguel responde com simplicidade e doçura:
MIGUEL: Porque não tem nada de estranho em você.
Clara sorri, visivelmente emocionada com as palavras.
CLARA: Ninguém fala assim comigo.
Silêncio terno. Miguel dá mais um passo, diminuindo de vez a distância entre os dois.
MIGUEL: Então deviam.
Os olhos de ambos se cruzam. Mais perto agora. Mais conectados do que nunca.
E, pela primeira vez em sua vida, Clara se permite sentir algo revolucionário: ela se sente escolhida.
Instrumental off.
CENA 06-INT/SALA DE ESTAR/APARTAMENTO DE CRISTIAN-NOITE
O silêncio na sala de Cristian é ensur-
decedor. Ele está sentado no sofá, com as mãos cobrindo o rosto, visivelmente consumido pelo peso da culpa e divi-
dido diante da verdade que carrega. De pé, a poucos passos dele, Letícia é a imagem da determinação. Irredutível, ela cruza os braços e o encara com firmeza.
LETÍCIA: Você acha que vai conseguir carregar isso sozinho para sempre?
Cristian ergue o olhar lentamente, os olhos vermelhos e cansados.
CRISTIAN: Você não entende o risco... Se eu falar, tudo desmorona.
LETÍCIA: Já está desmoronando, Cristian!
Ela dá um passo à frente, exigindo as respostas que ele reluta em dar.
LETÍCIA: Ou você me diz agora o que aconteceu naquele hospital, ou eu mesma descubro do meu jeito. E aí não vai ter defesa que te salve.
Cristian trava o maxilar, sufocado pelo próprio segredo, sem saber para onde correr.
CENA 07-INT/RESTAURANTE/LOUNGE
-NOITE
Trilha Sonora On:
https://youtu.be/4t33F5R2Er0?is=A8tRU...
Em outro ponto da cidade, num ambiente sofisticado e com pouca luz, Dr. Marcelo observa de longe. Calma-
mente, ele bebe o seu drink, avançan-
do seus peões de forma calculista. Ele se levanta,ajusta o paletó e se apro-
xima de Letícia que acabou de chegar ao local, distraída.
MARCELO: Pensei que você não viesse, Doutora.
Letícia se vira, surpresa por vê-lo ali, mas mantém a guarda alta. Marcelo sorri,aproximando-se perigosamente do espaço pessoal dela, com um charme que mistura profissionalismo e segundas intenções.
LETÍCIA: Eu disse que só viria para falar do caso.
MARCELO: E nós vamos falar... Mas garanto que a noite reserva surpresas muito mais interessantes do que pa-
péis de processo.
Ele a olha com intensidade,testando os limites dela. E Letícia,mesmo perce-
bendo o perigo, não se afasta.
Trilha Sonora off.
CENA 08-INT/ESCRITÓRIO DE LEONAS-NOITE
As luzes da cidade brilham através da fachada de vidro. Karina está encosta-
da na mesa de Leonas. A linha tênue da prudência foi ultrapassada há muito tempo.
Ela ri de um comentário dele, a proxi-
midade física evidente. Karina está se envolvendo profundamente com o homem errado, e ela sabe disso. Mas a adrenalina parece falar mais alto.
LEONAS: Você gosta de andar na corda bamba, não é?
KARINA: Só quando a vista vale a pena.
Leonas segura a mão dela, selando uma cumplicidade perigosa. Nenhuma palavra a mais é necessária; o acordo de interesses já virou jogo de sedução.
CENA 09-INT/CASA DE CLARA/ JARDIM-NOITE
A brisa da noite balança as folhas no jardim. Clara está sozinha,mas seu ro-
sto brilha com um sorriso suave. Pe-
la primeira vez na vida, ela está vive-
ndo a pureza de um sentimento genuíno, longe das amarras e do con-
trole familiar. Ela toca a própria boche-
cha, lembrando-se de cada palavra de Miguel, sentindo o peito aquecido.
A câmera se afasta lentamente, abra-
çando o silêncio da noite, enquanto a narração em off pontua o destino cruzado de todos:
NARRADOR (A): Enquanto alguns escolhem esconder a verdade para se proteger...
O corte seco alterna rapidamente entre o olhar culpado de Cristian, a ousadia de Marcelo, o erro fascinante de Karina e a paz inédita no rosto de Clara.
NARRADOR (A): Outros, finalmente, começam a sentir.
FIM DO CAPÍTULO
48 minutes ago | [YT] | 2
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O PAPAI SUMIU! Capítulo 29
#PenúltimoCapítulo
escrita e criada por:
LEONARDO DE PAULA
JOÃO VITOR PRADO
Supervisão de:
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔
CENA 01-APARTAMENTO- MADRUGADA
O primeiro tiro silenciado estilhaçou o vidro da porta de emergência. Os poli-
ciais gritaram ordens baixas, empurra-
ndo o grupo de volta para o patamar da escada de serviço. Caio ainda segurava o celular com a mensagem de Otávio acesa na tela: “Agora. Usem o segundo pendrive".
CAIO: Ele mandou. É agora.
A Delegada Regina puxou o rádio.
DELEGADA REGINA: Protejam os civis e abram caminho até o carro blindado. Agora!
Os tiros continuavam vindos do térreo. Os homens de Rogério haviam chega-
do antes da hora marcada para a extração.
CENA 02-ESCADA DE SERVIÇO- CONTINUAÇÃO
O grupo desceu sob cobertura policial. Maya ia no meio,protegida por Lívia e Helena. Benício segurava a mão de Nina com força,enquanto Diego e Hen-
rique fechavam a retaguarda com dois policiais.
Um capanga apareceu no corredor do segundo andar. Antes que pudesse atirar, um dos agentes o derrubou. O caminho até o térreo ficou livre por segundos preciosos.
DELEGADA REGINA: Corre! Para o carro da frente!
Eles atravessaram a calçada sob fogo cruzado leve. O carro blindado já estava com as portas abertas.
CENA 03-CARRO BLINDADO- MADRUGADA
Dentro do veículo, o clima era de adrenalina contida. Caio entregou o segundo pendrive para a delegada, que o conectou imediatamente a um tablet preparado. Arquivos começaram a carregar. Gravações. Planilhas. Nomes. Até que surgiu uma pasta marcada como “Rogério – Provas finais”.
DELEGADA REGINA: Seu pai esperou o momento exato. Aqui tem tudo: transferências, áudios de Rogério ordenando o sequestro da Maya, o incêndio da mansão e a ordem de morte contra vocês.
Lívia olhou pela janela blindada, ainda ofegante.
LÍVIA: Então acaba com eles.
CENA 04-RUA-CONTINUAÇÃO
Os carros de Rogério tentaram seguir o blindado,mas uma viatura policial fechou o cruzamento. Houve uma troca rápida de tiros. Um dos veículos dos bandidos bateu no meio-fio e parou,com dois homens sendo detidos na hora.
Rogério, que vinha no carro de trás, ordenou a retirada.
ROGÉRIO: Dispersa! Agora!
Ele conseguiu escapar por uma rua lateral, mas a operação dele havia começado a desmoronar.
CENA 05-DELEGACIA-AMANHECER
O grupo chegou sob escolta reforçada. Assim que entraram, a delegada enca-
minhou o conteúdo do pendrive para a equipe de análise e para o plantão do Ministério Público.
DELEGADA REGINA: Com esse material,eu consigo o mandado de prisão do Rogério e de vários dos homens dele ainda hoje. As gravações são claras.
Caio, ainda com o casaco cheio de cacos de vidro, perguntou:
CAIO: E o César?
DELEGADA REGINA: O César continua mais protegido. Mas Rogério é a porta de entrada. Se a gente o prender com essas provas, o círculo começa a se fechar.
CENA 06-ESCONDERIJO DE ROGÉRIO –MANHÃ
Rogério estava furioso. Dos oito hom-
ens que levou na operação, três esta-
vam presos e dois feridos. O pendrive que César tanto queria agora estava nas mãos da polícia. Ele ligou para o chefe.
ROGÉRIO: A operação falhou. Eles tinham reforço. E o segundo material do Otávio já está com a delegada.
Do outro lado, a voz de César soou gelada e lenta.
CÉSAR: Você é um incompetente. Eu te dei tempo, homens e dinheiro, e você só me deu fracasso. Não me ligue de novo até ter uma solução... ou até estar morto.
A linha caiu. Rogério ficou olhando para o celular. Pela primeira vez, o medo era maior do que a ambição.
CENA 07-DELEGACIA-MANHÃ
As primeiras prisões começaram a acontecer. Dois capangas que partici-
param do sequestro de Maya e do incêndio da mansão foram pegos em endereços cruzados a partir dos arqui-
vos. Um deles, ao ser interrogado, começou a falar.
CAPANGA: Foi o Rogério quem man-
dou. Tudo. O sequestro,o fogo, a ordem de matar os irmãos. Ele recebia ordens de cima, mas quem executava era ele.
A delegada ouviu o depoimento com o gravador ligado. O cerco legal em torno de Rogério fechava-se rápido.
CENA 08-APARTAMENTO DE SEGUR-
ANÇA TEMPORÁRIO-TARDE
Os irmãos foram levados para um novo local, ainda mais discreto. O cansaço era absoluto, mas havia uma sensação diferente no ar: a de que o lado dos bandidos estava sangrando.
Maya estava sentada no sofá, coberta por um casaco.
MAYA: Eles estão caindo. Um por um.
Benício, ao lado de Nina, falou baixo:
BENÍCIO: Só falta o Rogério. E o outro
… o César.
Caio olhou para a delegada, que acompanhava o grupo.
CAIO: Quando vocês forem atrás do Rogério, eu quero estar por perto. Não para atrapalhar. Só para ver com os meus próprios olhos.
A delegada estudou o rosto dele por um instante e acabou assentindo.
DELEGADA REGINA: Você fica no carro de comando. Só isso.
CENA 09-OPERAÇÃO DE PRISÃO- NOITE
Com base nas informações do pen-
drive e nas delações, a polícia localizou Rogério em um apartamento de alto padrão na Barra. A operação foi rápida e silenciosa.
Rogério tentou fugir pela garagem, mas foi interceptado antes de entrar no carro. Quando os policiais o imobi-
lizaram contra o veículo, ele ainda gritou:
ROGÉRIO: Vocês não sabem com quem estão mexendo! Eu não sou o problema!
A Delegada Regina se aproximou, com as algemas na mão.
DELEGADA REGINA: A gente sabe. Mas você vai servir de caminho até ele.
As algemas fecharam-se nos pulsos de Rogério. O homem que aterrorizou a família Monteiro durante semanas finalmente estava preso.
CENA 10-DELEGACIA-NOITE
Rogério foi colocado em uma sala de interrogatório. Do outro lado do vidro, Caio, Lívia, Maya e Benício observavam em silêncio. A Delegada Regina entrou na sala com uma pasta.
DELEGADA REGINA. Você tem duas opções: colabora e conta tudo sobre César Brandão, ou enfrenta sozinho cada uma das acusações que já temos contra você. Sequestro,tentativa de homicídio,incêndio,associação criminosa. O jogo virou.
Rogério ficou calado por um longo tempo. O suor escorria pelo seu rosto. Por fim, sua voz saiu rouca e derrotada:
ROGÉRIO: Eu falo. Mas vocês não sabem do que esse homem é capaz.
Do lado de fora do vidro, os quatro irmãos se entreolharam.
FIM DO CAPÍTULO
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DOIS AMORES • Capítulo 04
escrita e criada por:
CALEBE TEIXEIRA
supervisão de:
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
Abertura: https://youtu.be/MOHUTX8M590?si=j6K82...
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CENA 01-PENSÃO DA DONA ALZIRA- MANHÃ
O rádio de pilhas na sala comunal toca baixinho uma valsa melancólica de Orlando Silva, abafada pelo barulho da chaleira que apita no fogão a carvão. Dona Alzira bate com os nós dos de-
dos na porta de madeira compensada do quarto de Rosinha, segurando uma xícara de café ralo e fumegante.
DONA ALZIRA: Vamos acordando, mocinha! A vida dura da capital não espera o sol subir de todo, e o aluguel desta semana já está vencendo no relógio da minha paciência!
Rosinha desperta sobressaltada,ajei-
tando apressada a camisola de algo-
dão cru. Sobre a mesinha de pinho,ao lado de um exemplar amassado do jornal A Noite,o velho medalhão de prata reluz sob o facho pálido de luz que rasga a vidraça empoeirada. Ela respira fundo,ajeitando os cabelos presos num coque simples.
ROSINHA (Do lado de dentro, com voz trêmula): Já vou descendo,Dona Alzira! Muito obrigada pelo aviso.
Ela veste sua única blusa decente pas-
sada a ferro com todo o esmero na véspera, esconde o medalhão junto ao peito,bem colado ao coração,e apanha a bolsa de mão desbotada.
💐
CENA 02-CALÇADA DO TEATRO MUNICIPAL-MANHÃ
O calçadão de pedra portuguesa reluz com a neblina matinal de São Paulo. Juca ensaia versos de uma peça dra-
mática apoiado à coluna nobre da fa-
chada do teatro, mas seus olhos distraídos vagam constantemente para a esquina, vigiando o ponto onde os bondes elétricos freiam com estrides metálicos.
Seu Arnaldo surge de súbito por trás, abotoando o colete do terno de linho amassado, a expressão fechada como o tempo cinzento.
ARNALDO: É nessa vidinha de saltim-
banco e versos ao vento que gastas a tua juventude,Juca? Em vez de decla-
mar para as paredes, devias estar a ajudar no balcão da mercearia, carre-
gando sacas de açúcar.
JUCA: Meu pai,o mundo não se resume a feijão,querosene e balanças enferru-
jadas. A arte também sustenta o espí-
rito de um homem nesta época tão incerta.
ARNALDO (Rispidamente): O espírito não paga o alugueiro ao fim do mês! E acautela-te com essa rapariga do inte-
rior que andas a rondar pelas esqui-
nas. Quem chega à capital sem eira nem beira só traz o engodo herdado de outros.
JUCA (Firme,erguendo o queixo): A Rosinha não é má criatura, pai. Ela tem alma limpa e procura pelos próprios pais. O senhor julga demais sem conhecer o tamanho da cruz que os outros carregam.
Arnaldo morde o lábio inferior, engole um muxoxo de descontentamento e afasta-se resmungando passo a passo, batendo a ponta da bengala no chão.
💐
CENA 03-MANSÃO DE FRANCISCO E ADRIANA-SALA DE JANTAR-MANHÃ
Nos amplos salões de pé-direito alto, decorados ao estilo art déco,o silêncio da manhã é cortado apenas pelo tilin-
tar da louça de porcelana fina. Adriana toma seu chá de hortelã sem tocar nas fatias de bolo de fubá, com o olhar perdido nas cortinas de veludo pesado. Francisco entra com passos medidos,
ajustando os punhos da camisa branca engomada,a testa vincada de preocupação.
ADRIANA (Sem erguer os olhos): Dor-
miste bem, Francisco? Ou a imagem daquela rapariga com o medalhão prateado tirou-te o sono esta noite, tal como tirou o meu?
FRANCISCO (Seco,ajeitando o jornal sobre a mesa): Tive uma noite perfei-
tamente normal, Adriana. Estás a criar fantasmas onde só existem tristes coincidências da vida moderna.
ADRIANA: Coincidências? Um meda-
lhão idêntico ao que perdemos no dia em que... (A voz embarga-se, os olhos marejados) ...no dia em que nos disse-
ram no hospital que a nossa filhinha tinha falecido no berço? Isso não é coincidência, Francisco. Isso é um grito do passado que nos bate à porta.
Filomena desce a escada caracol vagarosamente,vestindo um tailleur impecável e um chapéu cloche discr-
eto. Ela ouve a discussão com um sorriso felino dissimulado sob os lábios pintados de vermelho-carmim.
FILOMENA: Bom dia, família querida. Estão outra vez a remoer essa velha história de luto? Aquela criança já se foi há mais de vinte anos. Deixem os mortos descansarem em paz nos seus túmulos.
ADRIANA (Olhando fixamente,com so-
berania) Ninguém te pediu pitaco no meu sofrimento, Filomena. Há culpas que o tempo não apaga, por mais que alguns desejem sepultá-las debaixo do tapete da sala.
Filomena disfarça o veneno com uma risada curta e polida, mas seus olhos faiscam com a urgência de agir antes que Francisco ceda à fraqueza diante da esposa.
💐
CENA 04-PRAÇA DA SÉ-TARDE
Rosinha senta-se num banco de praça sob a sombra generosa de uma pai-
neira,organizando algumas margaridas num jornal velho. O movimento de transeuntes de chapéu e sobretudo é intenso, mas ela parece alheia ao burburinho da metrópole.
De súbito,uma silhueta cobre a luz do sol sobre o seu rosto. É Juca, que sur-
ge sorridente,segurando dois saquin-
hos de papel com pipoca doce fumegante.
JUCA: Uma flor para a vendedora mais melancólica da Praça da Sé. Aceitas permuta por um cartucho de pipoca?
Rosinha solta um riso franco, o prim-
eiro leve em muitos dias, ajeitando uma mecha de cabelo que escapara do grampo.
ROSINHA: Tens o dom infalível de aparecer exatamente nos minutos em que estou prestes a desfalecer de angústia, Juca.
JUCA (Sentando-se bem perto, no banco de madeira): É o meu encanto de homem do teatro. E então, pensa-
ste no que conversamos ontem? Sobre não baixar os braços perante o destino?
ROSINHA (Olhando para as torres da Catedral ao longe): Pensei... Mas hoje recebi um bilhete misterioso, deixado por baixo da minha porta, a exigir que eu volte àquela mansão da zona alta.
O dono de lá, o senhor Francisco... ele olhou para mim como se visse um fantasma do além. Tenho medo do que posso descobrir.
JUCA (Segurando com firmeza e cari-
nho a mão calejada de Rosinha): O medo é conselheiro ruim, Rosinha. Se precisares de companhia até aos portões daquela casa, eu vou contigo. Ninguém te há de fazer mal enquanto eu estiver por perto para te defender.
Os olhos de ambos se cruzam num silêncio profundo, embalados ao longe pelo apito de um guarda-trânsito de capacete branco.
💐
CENA 05-ESCRITÓRIO DA MANSÃO- NOITE
Na penumbra do escritório de mogno escuro, iluminado apenas por uma luminária de mesa verde, Francisco destrava com uma pequena chave dourada uma gaveta secreta. De lá, ele retira uma caderneta de capa preta e um velho termo de adoção com selos fiscais desbotados da época.
Ele abre na página amarelada onde constam anotações de punho próprio. Seus olhos umedecem e os dedos rugosos tremem segurando os papéis.
FRANCISCO (Num sussurro sufocado): Onde andas tu,minha filha... Que os céus me perdoem por ter sido um covarde.
A porta range de leve. Romeu entra sorrateiramente, trancando a tranca com um clique seco.
ROMEU: Precisamos de falar com fra-
nqueza, Francisco. A Filomena desco-
briu onde escondes a papelada antiga. Se ela usar isso para chantagear-te perante a alta sociedade, o nome da nossa família vai parar na lama dos jornais de fofoca.
FRANCISCO (Guardando os papéis apressadamente): A Filomena não ousa tocar nos meus segredos enqua-
nto eu tiver forças para impedi-la!
ROMEU: Ela já tocou, Francisco. E a rapariga, a tal Rosinha... ela está mais perto do que imaginas. Ou agimos com pulso firme agora, ou perderemos o controle de tudo o que construímos.
Francisco fita Romeu com pavor nos olhos, compreendendo que o cerco do destino finalmente se fechou ao seu redor.
💐
CENA 06-PORTÃO DA MANSÃO- ANOITECER
Uma garoa fina e gelada começa a cair sobre as ruas asfaltadas de São Paulo. Rosinha caminha apressada pela calç-
ada arborizada da zona nobre, abrigando-se sob um guarda-chuva preto remendado. O bilhete anônimo ecoa em sua mente: “Venha imediatamente. A verdade sobre o seu sangue aguarda-a.”
Ela para diante do portão de ferro tra-
balhado. A poucos metros, Juca observa tudo escondido sob o toldo de uma chapelaria,acenando discretame-
nte para lhe dar coragem. Rosinha respira fundo, empurra o pesado portão que se abre com um rangido prolongado.
Nas sombras da varanda superior, Filomena observa a chegada da jovem com um sorriso gélido e triunfante, enquanto, na janela do escritório da biblioteca, Francisco vê a silhueta solitária de Rosinha aproximar-se da entrada principal.
A câmara aproxima-se lentamente do medalhão de prata que Rosinha aperta com força na palma da mão, enquanto a imagem se fecha num corte seco e definitivo.
FIM DO CAPÍTULO
3 hours ago | [YT] | 4
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CONFLITO • Capítulo 16
escrita e criada por:
JOÃO GABRIEL FERNANDES
Supervisão de:
EDGAR OLIVEIRA
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
abertura: https://youtu.be/5ZqTP2gLy28?is=FlRUn...
⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️
CENA 01-EXT-HOSPITAL/CORREDOR-
NOITE
O corredor está vazio. Silencioso.
Letícia aguarda, tensa e determinada.
A porta de uma sala se abre. O Dr. Marcelo sai.
MARCELO: Pensei no que você disse.
Letícia cruza os braços.
LETÍCIA: E?
Marcelo olha ao redor, tenso, como se temesse ser ouvido.
MARCELO: O caso da Júlia… não foi simples.
Silêncio.
LETÍCIA: Eu imaginei.
Marcelo respira fundo.
MARCELO: Houve decisões… delicadas.
LETÍCIA: Que tipo de decisões?
Ele hesita, mas cede:
MARCELO: O estado dela era irrever-
sível… havia discussão sobre prolon-
gar o suporte…
A palavra pesa no ar. Letícia capta o subtexto.
LETÍCIA: Você está falando de interrupção?
MARCELO (evasivo): Nem tudo que acontece aqui… vai para o papel.
Silêncio. Ela absorve o impacto da revelação.
LETÍCIA: E quem decidiu?
Marcelo olha nos olhos dela.
MARCELO: Essa é a pergunta certa.
O clima fica denso. Letícia agora tem certeza: há algo escondido.
CENA 02-INT/CASA DE CRISTIAN/SALA-NOITE
Instrumental On:https://youtu.be/WxwLKKHPROI?is=Ni_yA...
Cristian anda de um lado para o outro, visivelmente inquieto. A conversa recente com a avó ecoa em sua mente.
CRISTIAN (murmurando, tenso): Eu quase falei… Eu não posso…
O peso da culpa aumenta a cada segundo.
CENA 03-INT/CASA DE CRISTIAN- COZINHA
Lurdes observa o neto de longe, atenta aos seus passos e à sua agitação.
LURDES (para si mesma): Você tá se perdendo nisso, meu filho… E isso não vai acabar bem…
Instrumental off.
CENA 04-INT/BAR-NOITE
Instrumental On:
https://youtu.be/jTfelceHV40?is=AYSWV...
A briga acabou, mas o clima continua explosivo.
A polícia entra no estabelecimento.
POLICIAL 1: Encosta na parede!
Bernardo ri de forma descontrolada.
BERNARDO: Pode levar!
Fernanda tenta intervir, desesperada.
FERNANDA: Ele não tá bem!
POLICIAL 1: Ele agrediu um cliente!
Bernardo encara o policial, com um sorriso cínico.
BERNARDO: Eu já fiz coisa pior…
O silêncio pesa. Bernardo é algemado e levado sem oferecer resistência.
Do lado de fora, Fernanda assiste a tudo em choque, as lágrimas descendo pelo rosto.
FERNANDA: Você precisa parar com isso!
BERNARDO (sem olhar para trás):
Eu não sei como!
É a primeira vez que ele admite sua fragilidade de verdade.
Instrumental off.
CENA 05-INT/MANSÃO/ESCRITÓRIO DE LEONAS-NOITE
Instrumental On:
https://youtu.be/Zmsjh64JrIk?is=slAug...
Miguel entra no escritório sem bater.
Leonas levanta o olhar da mesa, irritado.
LEONAS: Perdeu a educação?
Miguel joga uma pasta de documentos com força sobre a mesa.
MIGUEL: Eu achei isso.
Silêncio. Leonas olha para a pasta, mas mantém a compostura.
LEONAS: E?
MIGUEL: Empresa fantasma… desvio… carro registrado… (a voz sobe) Esse carro tá ligado ao acidente!
Silêncio pesado. Leonas se levanta devagar, intimidante.
LEONAS: Cuidado com o que você está insinuando.
MIGUEL (firme, encarando o pai): Eu não tô insinuando. Eu tô descobrindo.
Os olhares se cruzam, faíscas no ar.
LEONAS: Você não sabe com quem está lidando.
MIGUEL: Sei sim. Meu pai.
Nenhum deles recua. Respeito zero. Medo zero.
Instrumental off.
CENA 06-INT/QUARTO-NOITE
Clara olha fixamente pela janela, ansi-
osa. Miguel não aparece. Ela toca o vidro gelado.
CLARA (em um sussurro triste): Você disse que vinha…
A esperança ainda resiste, mas a desolação cresce.
CENA 07-EXT/RUA-NOITE
Letícia caminha a passos firmes, refletindo.
LETÍCIA: Interrupção… decisão… oculto…
Ela para de repente, a respiração alterada.
LETÍCIA: Cristian…
A ficha cai: ele sabe de algo e está acobertando.
CENA 08-EXT/BAR-NOITE
Instrumental On:https://youtu.be/7cXDrCXJBuQ?is=muJPj...
A luz vermelha e azul da viatura policial gira, cortando a escuridão da rua. Bernardo é empurrado para o banco de trás do carro da polícia. Ele não protesta, mas mantém o maxilar travado. Fernanda corre até a porta da viatura, antes que o policial a feche.
FERNANDA (com a voz embargada):
Bernardo, por favor! Me escuta!
Bernardo vira o rosto lentamente para ela, o olhar frio escondendo uma dor profunda.
BERNARDO: Vai pra casa, Fernanda. É melhor assim.
O Policial bate a porta da viatura com força. Os pneus cantam no asfalto enquanto o carro arranca, deixando Fernanda sozinha sob a luz fria dos postes.
Instrumental off.
CENA 09-INT/MANSÃO/ESCRITÓRIO DE LEONAS-NOITE
Instrumental On:
https://youtu.be/Hy0amfzbdL8?is=YkmO7...
O silêncio no escritório é denso, cortante. Miguel e Leonas continuam na mesma posição, a poucos metros de distância, medindo forças. Leonas cruza os braços, tentando retomar o controle da situação com um sorriso cínico.
LEONAS: Você acha que essa sua rebeldia vai te levar a algum lugar, Miguel? Você não tem provas reais. É só um garoto brincando de detetive.
Miguel dá um passo à frente, sem desviar os olhos do pai.
MIGUEL: Brincando? O carro que atropelou a Júlia está no nome de uma empresa de fachada sua, pai. Não é brincadeira. É crime.
LEONAS (voz cortante): Cuidado com o tom. Eu construí tudo o que você tem, tudo o que você usa. Você acha mes-
mo que alguém vai acreditar em você contra mim?
MIGUEL (firme, sem piscar): A justiça talvez demore. Mas eu não vou parar até descobrir o que você escondeu.
Leonas aperta os punhos sobre a mesa de mogno, a fúria finalmente escapan-
do pela fresta da pose intocável.
Instrumental off.
CENA 10-EXT/RUA-NOITE
Instrumental On:
https://youtu.be/MosETWKvqoY?is=Jb6hF...
Letícia caminha apressada sob a nebli-
na fina. O celular vibra no bolso, mas ela nem olha. Sua mente está a mil por hora, conectando as palavras trunca-
das do médico com as atitudes recen-
tes. Ela para de andar de repente na calçada deserta.
LETÍCIA (falando sozinha, em choque):
Não foi acidente… O médico falou em suporte, em interrupção… E o Cristian estava lá. O Cristian sabe.
Ela aperta o aparelho nas mãos, decidida.
LETÍCIA: Ele está escondendo isso de mim. Por quê?
CENA 11-INT/CASA DE CRISTIAN/ QUARTO-NOITE
Cristian está sentado na beira da cama
,puxando os cabelos com as duas mãos. Ele respira de forma curta e acelerada, quase hiperventilando. O peso da mentira está esmagando seu peito.
CRISTIAN (sussurrando, à beira das lágrimas): Eu não aguento mais… Se a Letícia descobrir, vai acabar tudo…
Ele levanta o olhar fixo na parede em frente, sentindo que o cerco está se fechando ao seu redor.
CRISTIAN: Eu preciso falar… mas tenho medo.
Na penumbra da cozinha, Lurdes está encostada na pia. Ela segura uma xícara de café frio entre as mãos, mas não bebe. De longe, abafados pela porta fechada, vêm os murmúrios da aflição de Cristian. Lurdes fecha os olhos, balançando a cabeça lentamen-
te, com o semblante pesado de quem carrega uma premonição sombria.
LURDES (em um sussurro rouco): Meu Deus… Protege esse menino. O pior ainda tá vindo aí… e nenhum de nós vai conseguir segurar.
O reflexo dela na janela escura mostra um rosto marcado pela angústia.
FIM DO CAPÍTULO
1 day ago | [YT] | 7
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O PAPAI SUMIU! Capítulo 28
#PenúltimosCapítulos
escrita e criada por:
LEONARDO DE PAULA
JOÃO VITOR PRADO
Supervisão de:
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔
CENA 01-APARTAMENTO-MANHÃ
A foto antiga repousa no centro da mesa. Otávio sorri no meio dos quatro filhos ainda crianças. No verso, a letra firme e conhecida: “Ainda não é hora. Protejam-se.”Ninguém fala há vários minutos. Maya segura a foto com as duas mãos,os olhos marejados. Caio está de pé,os braços cruzados com força. Lívia fuma perto da janela aber-
ta,mesmo sabendo que não deve. Benício olha para a imagem como se pudesse atravessá-la e alcançar o pai.
MAYA: Ele está vivo. E está por perto o suficiente para deixar isso.
CAIO: Ou alguém que trabalha com ele. Mas a letra é dele. Eu reconhec-
eria em qualquer lugar.
Lívia solta a fumaça devagar.
LÍVIA: “Ainda não é hora.” Então ele sabe de alguma coisa que a gente não sabe. E prefere continuar escondido.
Benício fala baixo, a voz embargada:
BENÍCIO: Eu só queria ouvir a voz dele de novo. Só uma vez.
O silêncio volta,mais pesado do que antes.
CENA 02-APARTAMENTO- CONTINUAÇÃO
A Delegada Regina chega pouco depo-
is, acompanhada de Helena,que ainda se recupera do ombro machucado. A delegada observa a foto sem surpresa já a conhecia desde a madrugada.
DELEGADA REGINA: A equipe em An-
gra confirmou que o recado foi deixado de propósito. Não há sinais de luta no local. Alguém queria que a gente enc-
ontrasse isso. E que vocês vissem.
Caio ergue o olhar.
CAIO: Então ele está controlando o jogo. Do jeito dele.
DELEGADA REGINA: Parece que sim. O problema é que Rogério e os homens dele também estão se mexendo. Com mais cuidado desta vez. A gente inter-
ceptou movimentação de gente pergu-
ntando sobre hotéis e apartamentos alugados na região.
Lívia apaga o cigarro com força.
LÍVIA: Eles estão chegando perto.
DELEGADA REGINA: Por isso a segu-
rança vai ser reforçada de novo. E eu preciso que vocês entendam: qualquer contato com o Otávio,qualquer mens-
agem,qualquer impulso de ir atrás dele... passa primeiro por mim. A gen-
te não pode estragar o que ele está construindo no escuro.
CENA 03-COZINHA-DIA
Maya e Helena preparavam algo leve para comer. O clima entre as duas é de respeito silencioso. Maya ainda manca um pouco.
MAYA: Eu não te agradeci direito. Você arriscou a vida por uma desconhecida.
Helena dá de ombros, ajeitando o braço na tipoia.
HELENA: Eu aceitei o trabalho. Mas, quando te vi amarrada daquele jeito... deixou de ser só trabalho. Eu tenho irmã. Más nova. Não consegui olhar para você e fingir que era só mais uma operação.
Maya sorri fraco pela primeira vez em dias.
MAYA: Quando isso acabar,eu te devo um jantar. Um de verdade. Sem corda e sem arma apontada.
HELENA: Combinado. E sem cachaça dopada também.
As duas riram baixo. Um som estranho e bem-vindo naquele apartamento.
CENA 04-QUARTO-DIA
Trilha Sonora On:https://youtu.be/BdDVumwQtWY?is=oJifv...
Caio e Henrique estão sozinhos no quarto dos fundos. O cansaço de Caio é visível. Henrique fecha a porta e se senta na beira da cama.
HENRIQUE: Você não dorme direito desde que a Maya voltou.
CAIO: Eu fico pensando no que o papai está fazendo. Sozinho. Ferido,talvez. E a gente aqui,esperando.
Henrique puxa Caio para perto,sem pressa.
HENRIQUE: Ele deixou um recado pedi-
ndo para vocês se protegerem. Então o melhor que a gente pode fazer agora é exatamente isso. Ficar vivo. Ficar junto. Deixar ele trabalhar no tempo dele.
Caio encosta a cabeça no ombro de Henrique. Fica ali por um longo mome-
nto, só respirando.
CAIO: Eu não sei o que eu faria sem você nesses dias.
HENRIQUE: Você não vai precisar descobrir.
Trilha Sonora off.
CENA 05-LOCAL DOS BANDIDOS-DIA
Rogério recebe informações de um contato na rua. O homem fala baixo, olhando para os lados.
CONTATO: Tem movimento de polícia em um prédio na Tijuca. Carros troca-
ndo de turno. Gente que não parece morador. Pode ser o lugar.
Rogério anota o endereço com calma.
ROGÉRIO: Confirma antes de qualquer coisa. Eu não quero outro fiasco. Se forem eles,a gente espera a hora certa. De madrugada. Pouca gente na rua. Limpo.
O contato assente e sai. Rogério fica sozinho,girando o celular na mão. César já tinha cobrado de novo. A paciência está no fim.
CENA 06-APARTAMENTO-DIA
Benício conseguiu um violão empres-
tado de um dos policiais que gostava de música. Senta-se na sala e começa a tocar baixo,quase só para si. Nina se aproxima e senta no chão, encostada na perna dele. Maya fecha os olhos, ouvindo. Lívia para de caminhar. Até Caio levanta a vista do computador.
A melodia é simples, antiga. Uma que Otávio costumava cantarolar quando os filhos ainda eram pequenos Benício tinha descoberto isso em uma das cai-
xas que sobraram antes do incêndio. Ninguém pede para ele parar. A música preenche o apartamento como um fio invisível ligando o passado ao presen-
te. Quando termina, Benício fala sem olhar para ninguém:
BENÍCIO: Eu toquei isso para ele ouvir. Onde ele estiver.
CENA 07-ANGRA DOS REIS-NOITE
A equipe da polícia mantém vigilância discreta na região da marina e da casa de veraneio. Às vinte e três horas, um barco pequeno,sem luzes,se aproxima do píer. Um homem desce, deixa um volume embrulhado em plástico perto do mesmo lugar onde a foto tinha sido encontrada,e parte em silêncio.
Os policiais esperam até o barco sumir na escuridão antes de se aproximar. Dentro do volume há um pendrive novo e um bilhete curto: “Usem só quando eu mandar. Não antes. "O.”
O investigador liga imediatamente para a delegada.
CENA 08-APARTAMENTO-NOITE
A Delegada Regina recebe a informa-
ção e vai até o apartamento pessoal-
mente,mesmo sendo madrugada. Acorda apenas Caio e Lívia primeiro.
DELEGADA REGINA: Seu pai mandou outro material. Um pendrive. Com um bilhete claro: só usem quando ele autorizar.
Caio passa a mão pelo rosto,exausto e ao mesmo tempo alerta.
CAIO: Ele está montando alguma coi-
sa. Peça por peça.
Lívia olha para a delegada.
LÍVIA: E a gente só espera?
DELEGADA REGINA: Por enquanto, sim. Mas eu vou reforçar a segurança de novo. Porque se o Rogério desco-
brir onde vocês estão antes do seu pai terminar o que está fazendo... a gente pode perder tudo.
Do lado de fora,um carro sem identi-
ficação passa duas vezes pela rua. Devagar. Observando. O cerco dos bandidos se aperta. E Otávio,em algum lugar,continua movendo as peças no escuro.
FIM DO CAPÍTULO
1 day ago | [YT] | 11
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DOIS AMORES • Capítulo 03
escrita e criada por:
CALEBE TEIXEIRA
supervisão de:
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
Abertura: https://youtu.be/MOHUTX8M590?si=j6K82...
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CENA 01-PENSÃO DA DONA ALZIRA- TARDE
Numa rua pacata de bairro tradicional, Rosinha bate à porta de uma fachada modesta ostentando uma tabuleta de quartos alugados. Dona Alzira, uma senhora de avental e cabelos presos em coque, atende com desconfiança polida.
DONA ALZIRA: Pois não? O que deseja a moça?
ROSINHA: Dizia-me a tabuleta que há quartos para alugar nesta casa.
DONA ALZIRA: Há um quartinho nos fundos. Custa modesto, mas exige pontualidade no pagamento ao fim de cada semana.
Rosinha faz as contas mentais com o troco que lhe resta.
ROSINHA: Sim, eu consigo saldar essa quantia.
DONA ALZIRA: Veio de longe, presumo pelo sotaque. Tem parentes na capital?
Rosinha hesita, engolindo em seco.
ROSINHA: Estou à procura deles… Cheguei hoje do interior.
Dona Alzira balança a cabeça, com um sorriso cético.
DONA ALZIRA: Boa sorte, criatura. Nesta cidade imensa, há quem passe a vida inteira sem achar nem a própria sombra. Entra,o quarto é o último do corredor.
💐
CENA 02-A BUSCA POR UM SUSTEN-
TO-DIA SEGUINTE
O sol mal raiava quando Rosinha inicia a peregrinação pelo comércio local em busca de ocupação. Entra numa chap-
elaria elegante.
ROSINHA: Bom dia,senhor. Precisam de uma criada para o balcão ou arrumações?
GERENTE: Traz recomendações por escrito de antigos patrões?
ROSINHA: Bem… trabalhava na terra com meu pai,não tenho registros formais.
GERENTE: Compreenda,senhorita, aqui só admitimos profissionais com carta de idoneidade da capital.
Rosinha retira-se cabisbaixa. Tenta uma modesta casa de secos e molha-
dos logo adiante.
EMPREGADOR: Já tiveste lida com serviços pesados de faxina em mansões?
ROSINHA: Sim, senhor. Limpo, lavo e cozinho com desvelo.
EMPREGADOR: Tenho uma vaga de ajudante diarista. O ordenado é esca-
sso, mas o trabalho é honesto.
Rosinha abre um sorriso de alívio.
ROSINHA: Eu aceito prontamente, muito obrigada! Começo quando o senhor mandar.
💐
CENA 03-MANSÃO DE FRANCISCO E ADRIANA-MESMO DIA
Nos salões opulentos da residência principal,Adriana discute os afazeres domésticos com a governanta.
ADRIANA: A casa é demasiado vasta para o pessoal que temos. Precisamos de reforçar o serviço de limpeza com urgência.
GOVERNANTA: A senhora deseja que eu publique um anúncio nos jornais da tarde?
Filomena, que escutava tudo dissimu-
lada atrás de uma cortina de veludo, adianta-se com um sorriso dissimulado.
FILOMENA: Não se incomode com jornais,Adriana. Eu própria encarre-
go-me de arranjar uma rapariga de confiança e trabalhadora.
Adriana acolhe a sugestão com simpa-
tia ingénua.
ADRIANA: Oh,seria uma gentileza enorme da tua parte, Filomena. Faz isso por nós.
FILOMENA: Com todo o gosto do mundo, querida.
Filomena afasta-se pelos corredores. O sorriso amável evapora-se do seu rosto,substituído por um rictus de pura malícia.
💐
CENA 04-AGÊNCIA DE EMPREGOS- TARDE
Rosinha aguarda pacientemente na pequena repartição de empregos populares do bairro.
ATENDENTE: Próxima! Diga lá, menina, qual é a sua aptidão?
ROSINHA: Faço de tudo um pouco: limpo, cozinho, sirvo à mesa… O que aparecer para honestamente ganhar o pão.
A mulher folheia fichas amareladas num fichário de metal.
ATENDENTE: Tenho uma vaga aberta para serviçal interna numa residência de grande prestígio na zona alta.
ROSINHA: Uma residência de prestígio? E aceitam alguém sem carta da capital?
ATENDENTE: A patroa pediu alguém simples e despachada do interior. O endereço está aqui anotado. Apresen-
ta-te amanhã bem cedo.
Rosinha segura o papel com o endere-
ço, o coração batendo disparado de esperança.
💐
CENA 05-MANSÃO-NOITE
Pelos corredores mal iluminados da mansão, Filomena cruza-se com Romeu nas sombras da escadaria.
ROMEU: Soube que foste encarregada de recrutar a nova criada. Que maquinação tens em mente desta vez?
FILOMENA: Nenhuma de relevo, Romeu. Apenas uma rapariga humilde que veio diretinha do interior à procura de emprego.
ROMEU: E que nos importa a origem de uma simples criada?
FILOMENA: Quem sabe? Talvez venha a calhar no momento oportuno para os nossos planos.
ROMEU: Estás a jogar um jogo perigoso demais, Filomena.
FILOMENA: Deixa comigo e guarda as tuas opiniões para ti.
💐
CENA 06-PENSÃO-NOITE
No silêncio do seu quartinho modesta, Rosinha passa a ferro a única blusa decente que lhe restou para a grande entrevista do dia seguinte.
Ela pousa o velho medalhão de prata sobre a mesinha de pinho e fita-o longamente.
ROSINHA: Amanhã será o primeiro dia da nossa nova vida, papai. Onde quer que o senhor esteja a olhar por mim.
Guarda o objeto no bolso do casaco, apaga o lampião a óleo e deita-se.
Poucos minutos depois, um som discreto de pancadas secas ecoa na porta de madeira do quarto. Rosinha sobressalta-se na penumbra.
ROSINHA: Quem bate a esta hora da noite?
O silêncio é a única resposta. Com o coração aos saltos, ela ergue-se e destranca a porta lentamente. Não há alma viva no corredor escuro. Contudo, repousa no chão de tábuas corridas um envelope pardo fechado com lacre.
Rosinha inclina-se, apanha o papel e rasga-o com as mãos trêmulas. De dentro desliza uma fotografia antiga, amarelada pelo tempo, retratando um casal distinto de feições nobres — Francisco e Adriana em sua juventude.
Um calafrio percorre a espinha da jovem. Seus olhos arregalam-se de espanto.
No verso da fotografia, traçado com uma caligrafia elegante e enigmática, lê-se:
“ESTÁS MUITO MAIS PERTO DOS TEUS VERDADEIROS PAIS DO QUE A TUA SUTILEZA IMAGINA.”
As lágrimas escapam sem controle pelos olhos de Rosinha, que leva as mãos trêmulas à boca.
ROSINHA: Meu Deus do céu… Não pode ser…
Ela aproxima a fotografia da luz frouxa da janela,fitando os traços de Francisco e em seguida os de Adriana. Com os dedos trêmulos, puxa o medalhão do bolso e compara-o com a imagem.
ROSINHA: Serão… serão eles? O meu próprio sangue?
A câmara desliza lentamente sobre o rosto estupefacto de Rosinha enqua-
nto a imagem se fecha num corte seco.
FIM DO CAPÍTULO
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CENA 06-RUA/QUARTO DE CLARA (EXTERIOR /INTERIOR)-NOITE
De volta à calçada,o mundo lá fora pa-
rece girar em torno do caos e da urgê-
ncia. Mas sob aquela janela, o tempo desacelera.
MIGUEL: Sua mãe deixou claro que eu sou um perigo. Por que você não tem medo de mim?
Clara reflete por um instante,o olhar curioso fixo no dele.
CLARA: Porque o medo depende de mentiras. E você é a única pessoa que olha para mim sem tentar me inventar uma máscara.
As palavras atingem Miguel com a for-
ça de um soco no estômago. Ele abso-
rve o peso da frase.
MIGUEL: Eu tenho medo de muita coi-
sa,Clara. De errar,de perder o contro-
le... (Uma pausa curta) Mas de você? De você, eu não tenho medo nenhum.
Eles se encaram em um silêncio abso-
luto. Ali,na vulnerabilidade daquela troca,duas vidas solitárias começam a alterar irreversivelmente o curso uma da outra.
CENA 07-ESCRITÓRIO DE LETÍCIA- NOITE
A penumbra do escritório é quebrada apenas pela luz fria da luminária de mesa. Documentos,prontuários rasur-
ados e cópias de laudos formam uma verdadeira trincheira ao redor de Letícia. Ela fixa os olhos em um trecho específico do relatório de Júlia, onde a assinatura do Dr. Marcelo aparece borrada.
Com um movimento decidido, ela pega o celular, digita um número com firme-
za mecânica e encosta o aparelho no ouvido.
LETÍCIA (Voz baixa,cortante): Eu sei que você está acobertando alguma coisa grave, Marcelo... Mas pode ter certeza de que eu vou puxar esse fio até o final.
Ela desliga a chamada antes de dar margem para resposta. Solta um longo suspiro,erguendo o olhar para o refle-
xo da janela escura sabendo que está perigosamente perto de uma verdade que muita gente poderosa prefere enterrar.
CENA 08-QUARTO DE CRISTIAN- NOITE
O quarto está mergulhado em uma penumbra densa. Cristian está sentado na beirada da cama,com as palmas das mãos firmemente cravadas no rosto, abafando os próprios gemidos de exa-
ustão. Cada respiração sua é trêmula, custosa.
Lentamente,ele afasta as mãos e levanta o olhar em direção ao espelho do armário. Encarar o próprio reflexo parece insuportável,o espelho refle-
tindo um estranho esmagado pelo remorso.
CRISTIAN (Sussurrando, a voz quebra-
ndo em um choro contido): Eu tentei... juro que tentei. Por que as coisas sim-
plesmente fogem do meu controle?
As lágrimas finalmente rompem a barreira,escorrendo em silêncio pelo seu rosto enquanto ele desaba de joelhos na beirada da cama, à beira de um colapso emocional definitivo.
CENA 09-ESTÚDIO DE FERNANDA- NOITE
O estúdio está um verdadeiro campo de batalha de desordem: latas amass-
adas, copos quebrados e móveis fora do lugar. Bernardo desfere um soco violento contra a parede de drywall, abrindo um rasgo na estrutura. Ele puxa o ar com força,os nós dos dedos ensanguentados e a fúria pulsando nas veias.
Da porta, Fernanda o observa, mante-
ndo uma distância prudente, o rosto marcado pela apreensão.
FERNANDA: Bernardo, chega! Desse jeito você vai se destruir e levar todo mundo junto!
Bernardo vira o rosto bruscamente para ela, os olhos injetados cuspindo um rancor desesperado.
BERNARDO: Você não entende nada, Fernanda! Eu passei do ponto... eu perdi o controle de vez, e não tem mais caminho de volta!
Ele enterra os dedos nos cabelos, pu-
xando-os com força, totalmente à deriva na beira do abismo.
CENA 10-CALÇADA EM FRENTE À CASA DE CLARA-NOITE
Do outro lado da rua deserta,Miguel está encostado no poste de luz, com as mãos enfiadas nos bolsos do casa-
co. Ele observa a janela no segundo andar, onde a claridade ainda desenha a silhueta da cortina. Um sorriso discr-
eto, quase imperceptível, surge em seus lábios. O peito, antes apertado pela hostilidade de Karina, agora pulsa aquecido. Ele murmura para si mesmo,
selando uma promessa silenciosa:
MIGUEL: Eu volto... sempre.
CENA 11-QUARTO DE CLARA-NOITE
Deitada de costas em sua cama, Clara aperta contra o peito o colar que gan-
hou, fitando o teto com um olhar com-
pletamente transformado. O vazio e o cinza que definiam seus dias parecem ter dado lugar a uma eletricidade nova,um fôlego que ela havia esque-
cido como era sentir.
Ela sorri sozinha no escuro,pela prim-
eira vez consciente de que, apesar de todas as amarras ao seu redor, ela está começando a ser dona da própria história.
CENA 12-SALA DA CASA DE KARINA- NOITE
Na sala espaçosa e impecavelmente organizada,Karina caminha de um lado para o outro sobre o carpete. Seus passos são rítmicos, controlados, mas os dedos das mãos se torcem nervosa-
mente um no outro,denunciando a tempestade interna.
KARINA (Falando em voz alta, como se precisasse convencer a si mesma):
Está tudo sob controle. Absolutamente nada fugiu do lugar. Ninguém vai atra-
vessar os meus muros...
Ela estaca diante da porta de entrada principal, sentindo um calafrio gélido subir pela espinha. Por mais que tente blindar a mansão,o vislumbre de que as rédeas da sua vida e da vida de Clara estão escapando por entre seus dedos finalmente começa a se impor.
FIM DO CAPÍTULO
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CONFLITO • Capítulo 15
escrita e criada por:
JOÃO GABRIEL FERNANDES
Supervisão de:
EDGAR OLIVEIRA
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
abertura: https://youtu.be/5ZqTP2gLy28?is=FlRUn...
⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️
CENA 01-CASA DE KARINA/FRENTE - FIM DE TARDE
Miguel permanece diante da fachada imponente da casa. O portão de ferro parece uma barreira deliberada. Ele respira fundo,controlando o ritmo car-
díaco,e pressiona a campainha. Segun-
dos depois, Karina abre. A fração de segundo de surpresa em seu rosto lo-
go se converte em uma couraça impenetrável.
KARINA: Miguel?
Ele mantém a postura erguida, evitan-
do qualquer tom defensivo.
MIGUEL: Eu vim falar com a Clara.
O maxilar de Karina trava. O olhar se estreita.
KARINA: Ela não está disponível.
MIGUEL: Eu não vim criar conflito, Karina. Só quero conversar...
KARINA (Interrompendo, gélida): Eu disse que não. A frase é a mesma em qualquer tom.
Miguel firma o olhar no dela, sem recuar.
MIGUEL: Ela não é uma criança que você pode trancar no quarto para evitar o mundo.
Karina dá um passo à frente, a rigidez do seu corpo assumindo o controle total da situação.
KARINA: E eu sou a mãe dela. O que significa que eu decido o que entra e o que sai desta casa, inclusive você.
Um silêncio denso e cortante se estab-
elece entre os dois. Karina não pisca.
KARINA: Boa noite, Miguel.
A porta se fecha com um baque seco, definitivo. Miguel fica diante da made-
ira fechada. Há frustração ali, mas há, sobretudo, uma certeza inabalável. Ele não vai desistir tão fácil.
CENA 02-RUA/QUARTO DE CLARA- NOITE
A casa está mergulhada em um silên-
cio pesado. Na rua escura, Miguel observa a fachada de longe, até notar a nesga de luz amarelada que escapa pela fresta da cortina do quarto de Clara. Ele caminha com cautela redo-
brada até a lateral da casa, parando sob a janela entreaberta.
MIGUEL (Voz baixa,contida): Clara…
A cortina se afasta devagar. Clara aparece no batente. O choque inicial rapidamente se desmancha em um sorriso involuntário, sincero.
CLARA: Miguel?
Ele sorri de canto,aliviado por encontrá-la.
MIGUEL: Tentei entrar pela porta da frente. Sua mãe parece ter uma alergia diplomática a mim.
Clara solta uma risada abafada, cobri-
ndo a boca com a mão.
CLARA: Ela tem radar para o que não consegue controlar. O que você esperava?
MIGUEL: Eu tinha uma vaga esperança de civilidade. Pelo visto, me enganei.
Um silêncio leve, cúmplice, preenche o espaço entre a calçada e o segundo andar.
MIGUEL: Eu só precisava saber se você está inteira depois de hoje.
Clara reflete por um instante, medindo as próprias emoções antes de responder.
CLARA: Estou... (Uma pausa curta) Melhor agora que te vi aqui.
Miguel a observa, sentindo o peito aquecer.
MIGUEL: Eu também.
Nenhum dos dois tem pressa de que o momento acabe. Não há espaço para o ruído do mundo lá fora.
CLARA: Você vai voltar amanhã?
Ele responde sem hesitar, o olhar firme nos olhos dela:
MIGUEL: Sempre.
E ali, na transitoriedade de uma janela aberta na calada da noite, a certeza de que as regras daquela casa acabaram de deixar de importar.
CENA 03-HOSPITAL/CORREDOR- NOITE
O corredor do hospital é um labirinto frio de luzes fluorescentes e cheiro de antisepto. Letícia caminha com passos firmes, o salto ecoando no piso de linóleo, até interceptar o Dr. Marcelo que sai de um consultório.
LETÍCIA: Doutor Marcelo. Preciso de um minuto da sua atenção.
Ele se vira bruscamente. Por um segundo, a postura profissional vacila; seu olhar percorre o rosto dela com uma intensidade que ultrapassa a mera cordialidade médica.
DR. MARCELO: Claro... Letícia, não é? Em que posso ser útil a uma advogada a essa hora da noite?
LETÍCIA: Sobre o prontuário e as circu-
nstâncias da internação da Júlia.
O nome cai como um peso morto no ar. O semblante de Marcelo se fecha instantaneamente.
DR. MARCELO: Esse é um assunto clínico altamente sigiloso. Você sabe tão bem quanto eu.
LETÍCIA: Eu conheço os protocolos. E também sei quando há lacunas inten-
cionais neles.
Marcelo dá um passo à frente, invadi-
ndo sutilmente o espaço pessoal dela com um sorriso irônico nos lábios.
DR. MARCELO: Você é implacável. Tenho que admitir que admiro a persi-
stência, mas a burocracia médica não funciona no improviso.
Letícia mantém a expressão impassí-
vel, blindada contra qualquer tentativa de jogo psicológico.
LETÍCIA: Não vim pedir favores, Mar-
celo. Eu preciso entender exatamente o que aconteceu naquelas doze horas que antecederam o óbito.
Marcelo inclina a cabeça, avaliando-a com um misto de desafio e fascínio perigoso.
DR. MARCELO: Os relatórios dizem o que a diretoria quer que leiam. Nem tudo o que importa foi parar no papel.
A frase vem carregada de um aviso velado. Letícia pesca a pista no mesmo instante.
LETÍCIA: Então me conte o que ficou de fora.
Marcelo sorri de canto, deixando transparecer um interesse que vai muito além do caso jurídico.
DR. MARCELO: Sabe... podemos discutir isso com mais calma em outro lugar. Um café fora daqui, longe dos corredores...
Letícia firma o olhar, cortando qual-
quer margem para gracinhas.
LETÍCIA: Para mim, aqui e agora está perfeito. O que você me diz?
O sorriso de Marcelo se retrai, dando lugar a um respeito cauteloso. A partida de xadrez apenas começou.
CENA 04-CASA DE LURDES/SALA- NOITE
A penumbra da sala é cortada apenas pela luz amarela do abajur. Cristian está sentado na poltrona, os olhos fixos no chão, evitando a todo custo encarar a avó. Lurdes o observa com a calma de quem conhece cada cicatriz invisível do neto.
LURDES: Senta aqui perto, Cristian.
Ele obedece em silêncio, o corpo rígido como uma mola prestes a estourar.
LURDES: Você não está me contando tudo. (Pausa) Eu não preciso que você diga uma palavra para saber que o seu peito está rasgado.
Cristian leva as mãos ao rosto, mass-
ageando as têmporas em um gesto de exaustão profunda.
CRISTIAN: Vó, por favor... não insiste.
LURDES: Eu te criei, menino. Eu con-
heço o som da sua respiração quando você está carregando um peso que não te pertence. (A voz dela suaviza, carregada de uma autoridade materna inquestionável) O que aconteceu de verdade naquele hospital?
O coração de Cristian dá um salto no peito. As defesas começam a ruir.
CRISTIAN: Eu... eu só queria ter feito diferente. Eu tentei ajudar...
LURDES: Foi só isso?
O silêncio que se segue é denso, pesa-
do o bastante para sufocar. Cristian abre a boca para falar, mas a garganta trava. Os olhos se enchem de lágrimas quentes que ele tenta conter à força.
CRISTIAN: Eu... (Sua voz falha) Eu não consegui salvar ela, vó. A culpa é minha.
Ele desvia o rosto, derrotado pela própria confissão. Lurdes o observa em silêncio, absorvendo o impacto daquela dor. Ela sabe que ele guarda um segredo perigoso, e que a verdade vai cobrar um preço altíssimo.
CENA 05-BAR/SALÃ O-NOITE
O bar pulsa com uma frequência ens-
urdecedora: luzes vermelhas e azuis cortam o ar esfumaçado, enquanto a música eletrônica bate no peito. Em uma mesa de canto, Bernardo bebe em silêncio, esvaziando o copo atrás do copo com uma urgência autodes-
trutiva. Fernanda tenta arrancar o copo da mão dele.
FERNANDA: Chega, Bernardo! Você já passou de qualquer limite aceitável hoje!
BERNARDO (Com a voz alterada pelo álcool, cuspindo as palavras): Não enche o saco, Fernanda! Você não manda em mim!
Nesse instante, um homem corpulento esbarra com força no ombro de Bernardo ao passar cambaleando pelo corredor estreito.
HOMEM: Quer parar de ficar no meio do caminho, seu idiota? Olha por onde anda!
Bernardo levanta a cabeça de supetão, os olhos injetados de fúria reprimida.
BERNARDO: O problema é meu ou da sua falta de educação? Tá olhando o quê?
A discussão escala em segundos, transformada em pólvora pura.
HOMEM: Tá querendo arrumar confu-
são, moleque?
BERNARDO: Eu não tô procurando nada... mas já achei o que faltava!
Um empurrão violento serve de rasti-
lho. No segundo seguinte, Bernardo parte para cima do homem com uma fúria cega, desferindo socos em meio ao caos que se forma ao redor.
FERNANDA (Gritando, desesperada):
CHEGA! PARA COM ISSO!
Ele não ouve. Não há racionalidade ali; é apenas a válvula de escape para uma dor e uma culpa que ele não consegue processar de outra forma. Seguranças surgem rapidamente, separando os dois com força. Bernardo é jogado para trás, respirando com dificuldade, o peito arfando, os nós dos dedos sangrando e os olhos faiscando de puro ódio de si mesmo.
CONTINUA NO PRÓXIMO PÔSTER
2 days ago | [YT] | 9
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O PAPAI SUMIU! Capítulo 27
#PenúltimosCapítulos
escrita e criada por:
LEONARDO DE PAULA
JOÃO VITOR PRADO
Supervisão de:
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔🕵️♂️👔
CENA 01-APARTAMENTO-MANHÃ
O apartamento funcional cheirava a café passado e roupa lavada às pressas. Maya dormia no sofá desde que tinham chegado, coberta por um cobertor fino. De vez em quando, soltava um gemido baixo, como se ainda estivesse no cativeiro. Lívia não se afastava dela. Ficava sentada no chão, de costas para o sofá, vigiando cada movimento da irmã.
Caio observava as duas de longe, o notebook aberto no colo, mas sem conseguir se concentrar nos arquivos do pendrive. Benício e Nina prepara-
vam algo simples na cozinha impro-
visada. Diego e Henrique conversavam baixo perto da janela, observando a rua.
LÍVIA: Eu ainda não acredito que ela está aqui.
A frase saiu quase num sussurro. Maya mexeu os dedos, mas não acordou.
CAIO: Eu também não. Toda vez que eu fecho os olhos, eu vejo o momento em que eles a arrancaram do carro.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era só o peso de dias demais sem descanso.
CENA 02:APARTAMENTO- CONTINUAÇÃO
A Delegada Regina chegou no meio da manhã, acompanhada de um investi-
gador. O rosto dela denunciava noites mal dormidas. Sentou-se na única cadeira disponível e falou sem rodeios.
DELEGADA REGINA: A equipe que mandei para Angra dos Reis já está no local. A imagem da lancha é a última pista concreta que temos do Otávio. O homem que o acompanhava estava armado, e a embarcação saiu sem registro formal. Estamos cruzando com marinas particulares e casas de veraneio da região.
Maya, que tinha acordado com a voz da delegada, sentou-se devagar no sofá.
MAYA: E se ele não estiver mais lá?
DELEGADA REGINA: Então a gente continua procurando. Mas agora, com você de volta, a prioridade também é manter todos vivos. Rogério não vai parar só porque vocês mudaram de endereço.
Caio fechou o notebook.
CAIO: Quanto tempo a gente tem até eles descobrirem onde estamos?
A delegada não mentiu.
DELEGADA REGINA: Eu não sei. Por isso a segurança vai ficar reforçada. E vocês não saem daqui sem escolta.
CENA 03-QUARTO IMPROVISADO-DIA
Benício e Nina tinham se isolado no quarto menor. Ele estava sentado na beira da cama,o violão apoiado no joelho,mas sem tocar. Nina penteava o cabelo molhado depois de um banho rápido.
BENÍCIO: Eu fiquei com tanto medo de não te ver mais… e de não ver a Maya. E o papai. Parece que a gente só perde gente.
Nina parou o pente e se aproximou.
NINA: Você não perdeu a Maya. Ela está do outro lado da porta. E eu estou aqui. O seu pai… a gente ainda não sabe. Mas você não está sozinho nessa.
Benício ergueu o rosto. Os dois se olh-
aram por um tempo longo. Não houve declaração grandiosa. Só um beijo calmo, cansado, necessário. Quando se separaram, ele encostou a testa na dela.
BENÍCIO: Obrigado por não ter sumido.
NINA: Eu não sumo fácil.
CENA 04-SALA-DIA
Lívia e Diego estavam na varanda peq-
uena do apartamento. O vento batia no rosto dela, ainda marcado pela fuligem e pelo cansaço. Diego ofereceu um copo de água. Ela aceitou em silêncio.
DIEGO: Você chorou ontem. Eu nunca tinha te visto chorar de verdade.
Lívia deu uma risada curta, sem humor.
LÍVIA: Não se acostuma. Foi só o exce-
sso de tudo. A casa queimando,a Maya sumida, o papai… eu estou no limite.
Diego se apoiou no parapeito ao lado dela.
DIEGO: Eu também estou. Mas eu continuo aqui. Mesmo se você gritar, mesmo se você mandar eu embora de novo.
Ela olhou para ele de lado. Pela prime-
ira vez em dias, o olhar não carregava só raiva ou medo.
LÍVIA: Eu sei. E isso me assusta um pouco.
CENA 05-LOCAL DOS BANDIDOS-DIA
Rogério estava reunido com os home-
ns que ainda restavam. O clima era de contenção. César tinha cobrado resul-
tados, e a fuga de Maya pesava.
ROGÉRIO: Eles mudaram de lugar. A polícia está em cima. A gente não vai atacar no escuro de novo. Eu quero localização certa, rotina, horários. Quando soubermos exatamente onde os irmãos estão, a gente age limpo. Sem testemunhas.
Um dos capangas perguntou:
CAPANGA: E a menina e a mulher que fugiram?
ROGÉRIO: Depois. Primeiro os irmãos. César quer o pendrive e o silêncio. O resto a gente resolve.
Eles começaram a trabalhar em conta-
tos e vigilância, com mais cuidado do que nas vezes anteriores.
CENA 06-ANGRA DOS REIS-DIA
A equipe enviada pela delegada perco-
rreu marinas e casas de veraneio. Em uma propriedade isolada, próxima a um píer particular, encontraram sinais recentes de uso: comida pela metade, um casaco masculino largado sobre uma cadeira, e marcas de pneu de um veículo que não pertencia aos morado-
res habituais da região.
O investigador responsável ligou para Regina.
INVESTIGADOR: Tem movimento rece-
nte,delegada. Mas ninguém no local agora. A lancha que aparece na câmera foi vista saindo de novo ontem à noite. Destino incerto.
Regina ouviu em silêncio do outro lado da linha.
DELEGADA REGINA: Continua no enc-
alço. Qualquer coisa, me avisa na hora.
A pista existia. Mas Otávio continuava um passo à frente… ou um passo atrás de alguém.
CENA 07-APARTAMENTO-NOITE
Os irmãos estavam reunidos na sala. Maya,já mais presente,contava aos poucos o que lembrava do cativeiro. Não entrava em detalhes demais. Nin-
guém pedia.
MAYA: A Helena salvou minha vida. Se não fosse ela,eu acho que eu não estaria aqui.
Helena,que estava em outro cômodo descansando sob proteção, foi menc-
ionada com respeito. Caio olhou para os irmãos.
CAIO: A gente tem a Maya de volta. Tem o pendrive. Tem a polícia do nosso lado. Mas o papai continua sumido. E os homens do Rogério não vão parar.
Lívia cruzou os braços.
LÍVIA: Então a gente não baixa a guar-
da. Nem por um segundo.
Benício falou baixo,quase para si:
BENÍCIO: Eu só queria que ele soube-
sse que a gente está junto. De verdade.
Ninguém respondeu. Mas todos pens-
aram a mesma coisa.
CENA 08-APARTAMENTO-NOITE
A maior parte do grupo finalmente tinha conseguido dormir. Caio ainda estava acordado quando o celular da Delegada Regina tocou no silêncio do apartamento. Ela atendeu no corredor, com a voz baixa.
Do outro lado, o investigador de Angra falava com urgência controlada.
INVESTIGADOR: Delegada… encontra-
mos algo. Não é o Otávio. Mas é um recado. Deixado de propósito no píer.
Regina endireitou o corpo.
DELEGADA REGINA: Que tipo de recado?
Houve uma pausa.
INVESTIGADOR: Uma foto antiga dele com os quatro filhos. E uma frase escrita no verso: “Ainda não é hora. Protejam-se.”
A delegada ficou em silêncio por alg-
uns segundos. Depois, olhou na dire-
ção da sala onde os irmãos dormiam.
O pai estava vivo. E, de alguma forma, ainda os observava de longe.
FIM DO CAPÍTULO
2 days ago | [YT] | 10
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A concorrente ri do outro lado da cal-
çada e pendura um letreiro ainda maior:
“A GOSTOSA DE VERDADE NÃO PRE-
CISA DE GRITARIA!”
Kassandra balança a cabeça, prevendo o pior.
KASSANDRA: Isto vai terminar em tri-
bunal ou na delegacia,anoto o que lhe digo.
Marocas enfia-lhe uma torta compacta nas mãos.
MAROCAS: Vai distribuir amostras à freguesia imediatamente!
KASSANDRA: Onde quer que eu vá com isto?
MAROCAS: Ao povo, mulher! Mostra-
lhes o que é bom!
A concorrente,vendo o movimento,faz o mesmo. Um freguês indeciso prova a fatia de Marocas e,em seguida,a da rival.
CLIENTE: Francamente,ambas são divinas!
Marocas enfurece-se com a neutra-
lidade.
MAROCAS: Como ousa comparar a minha obra-prima com aquela sola de sapato?!
KASSANDRA: Ora,ele foi apenas hone-
sto, dona Marocas!
A discussão degenera rapidamente. Numa fração de segundo de pura irre-
verência, Marocas atira uma colherada de creme chantilly na direção da rival. O creme erra o alvo e espatifa-se na montra alheia. A concorrente retalia de imediato atirando um punhado de coco ralado.
Kassandra horroriza-se,cobrindo o rosto com as mãos.
KASSANDRA: Virgem Santíssima! Marocas, perdeu o juízo?!
MAROCAS: Foi aquela desavergonhada que começou as hostilidades!
KASSANDRA: A senhora é que atirou o primeiro tiro de creme!
MAROCAS: Detalhes da contenda,
miúda!
A rival,enfurecida,agarra uma torta inteira de prato e brande-a no ar.
CONCORRENTE: Toma lá para apren-
deres a respeitar a concorrência!
A torta voa pelos ares,mas Marocas esquiva-se a tempo. O petisco avelu-
dado acerta em cheio o peito de um pacato cidadão de terno que passava distraidamente pela calçada.
CIDADÃ DE TERNO: Ora essa! Minha casaca nova de linho inglês!
A rua inteira silencia por um instante. Kassandra leva a mão à boca, sufocan-
do o riso,mas acaba por irromper numa gargalhada sonora.
KASSANDRA: Oh,céus,mil perdões ao senhor!
Marocas,com um sorriso travesso nos lábios pintados de vermelho, agarra outra torta.
MAROCAS: Já que a dança começou, que se toque a valsa! É guerra aberta!
Em segundos,o passeio público transf-
orma-se num campo de batalha gastr-
onômico. Fatias de massa e recheio voam de um lado para o outro.
Kassandra abriga-se debaixo de uma mesa de ferro,rindo à bandeira desfral-
dada.
KASSANDRA: Eu recuso-me a perecer soterrada em creme de coco!
💐
CENA 05-CASA DE FILOMENA-NOITE
Filomena estuda minuciosamente os papéis e a planta detalhada da mansão sobre o tampo de mogno. Romeu cruza os braços ao lado da lâmpada de querosene.
ROMEU: Consegui o mapa exato da ala oeste. O escritório é acessível pelos fundos.
FILOMENA: E o cofre de ferro? Desco-
briu a combinação?
ROMEU: Ainda não tive oportunidade de forçar a fechadura. Tenha paciên-
cia.
Filomena morde os lábios com impa-
ciência venenosa.
FILOMENA: Prometeste resultados imediatos, Romeu! És de uma inutili-
dade confrangedora.
ROMEU: Modera o tom das tuas pala-
vras,Filomena. Não me ponhas à prova.
A mulher ergue-se com altivez felina, colando-se a ele.
FILOMENA: Estás a ameaçar-me por acaso?
ROMEU: Estou apenas a avisar-te para não confiares demasiado na tua sorte.
FILOMENA: Não estás em posição de ditar regras a quem quer que seja neste jogo.
Romeu agarra-lhe o pulso com força brutal.
ROMEU: Sem os meus préstimos, con-
tinuas a ser uma pobretana qualquer.
Filomena fita a mão dele sobre o seu braço com desprezo gélido.
FILOMENA: Larga-me imediatamente.
ROMEU: E se eu recusar?
Com a rapidez de um chicote,Filomena desfer-lhe uma bofetada estalada no rosto. O som ecoa seco pela sala vazia. Romeu recua,estupefacto, levando a mão à face ruborizada.
FILOMENA: Nunca mais ouses tocar-
me com essa grosseria de capanga.
ROMEU: Enlouqueceste de vez?!
FILOMENA: Posso ter mil defeitos, meu caro,mas a loucura não me assiste.
ROMEU: Hás de arrepender-te amar-
gamente desta insolência, Filomena.
FILOMENA: E tu continuarás a obede-
cer-me como o cão fiel que sempre foste.
Romeu range os dentes,os olhos fais-
cando de ódio contido.
ROMEU: A fortuna daquela família é demasiado vasta para pensares em surrupiá-la sozinha.
Filomena abre um sorriso cortante como gilete.
FILOMENA: E quem te disse que tenci-
ono repartir o espólio contigo?
Romeu dá meia-volta,furioso, e bate a porta com tamanha força que a vidraça vibra. Filomena recosta-se na poltrona, fitando a planta arquitetónica com um brilho ambicioso nos olhos.
FILOMENA: Pobre tolo…
💐
CENA 06-CASA DE ROSINHA-DIA
As cinzas ainda fumegam nas vigas carbonizadas da antiga casa. Rosinha recolhe os poucos vestígios que esca-
param ao fogo entre eles,uma fotogra-
fia desbotada dela com o pai. Joel entra com cuidado pelo vão da porta destruída.
JOEL: Rosinha… Vim ver como estavas.
Rosinha enxuga o rosto com as costas da mão, disfarçando o desalento.
ROSINHA: Não sobrou nada, Joel. Nem as paredes resistiram.
JOEL: Eu sei, meu bem. É desolador.
ROSINHA: Preciso de partir. Não posso ficar um dia mais nesta terra de cinzas.
JOEL: Partir para onde, santo Deus?
Rosinha aperta o medalhão prateado contra o peito.
ROSINHA: Para São Paulo. A metrópole.
Joel sobressalta-se, alarmado.
JOEL: Tens plena consciência do que dizes? É uma selva de pedra para uma rapariga sozinha.
ROSINHA: É lá que jaz a resposta sobre as minhas origens. Sinto-me impelida.
JOEL: E se não encontrares nada além de desilusão?
ROSINHA: Mesmo assim, saberei quem sou. Já chega de viver na penumbra.
Joel suspira fundo, derrotado pela firmeza nos olhos da jovem.
JOEL: Não irás sozinha nesta jornada. Eu…
ROSINHA: Agradeço de coração, Joel. Mas esta travessia pertence-me por inteiro. Preciso de caminhar com as minhas próprias pernas.
💐
CENA 07-RODOVIÁRIA-DIA
O coletivo poeirento aguarda com o motor a roncar pesado na gare.
Rosinha aperta a alça da mala de cou-
ro envelhecido. Joel permanece ao seu lado,o semblante carregado de melancolia.
JOEL: Levas dinheiro suficiente para as despesas iniciais?
ROSINHA: O pouco que guardei há de bastar por um tempo.
JOEL: E onde pretendes hospedar-te ao chegar à capital?
Rosinha hesita por um segundo, sorri-
ndo levemente.
ROSINHA: Hei de encontrar um teto decente, não te preocupes tanto.
Joel retira do bolso do casaco um peq-
ueno envelope dobrado e estende-lho.
ROSINHA: O que é isto, Joel?
JOEL: Uma pequena ajuda de amigo. Aceita, por caridade.
ROSINHA: Não posso aceitar tal quan-
tia,tu bem sabes…
JOEL: Podes e deves. É para o teu recomeço.
Rosinha abraça-o comovida, afundan-
do o rosto no seu ombro.
ROSINHA: És o melhor amigo que alguém poderia ter na vida. Prometo dar notícias assim que me instalar.
O motorista buzina estridentemente, chamando os passageiros. Rosinha sobe os degraus do autocarro e olha pela janela empoeirada.
ROSINHA: Adeus,Vale das Hortênsias…
O veículo arranca lentamente, ergue-
ndo uma nuvem de poeira enquanto as paisagens familiares desaparecem no horizonte.
💐
CENA 08-SÃO PAULO-DIA
O autocarro estanca na grandiosa e movimentada rodoviária central. Ro-
sinha desce para a plataforma, atur-
dida pelo formigueiro humano, pelo ronco ensurdecedor dos automóveis e pela imensidão dos arranha-céus que rasgam o céu cinzento.
ROSINHA: Meu Deus do céu… É um mundo sem fim.
Ela respira fundo,ajustando o xale aos ombros e firmando a pega da mala. Caminha até à praça de táxis adjacente à gare para tentar contratar um auto-
móvel de aluguel que a conduza até ao centro, mas depara-se com uma cauda interminável de passageiros aflitos e um total desespero: nem um único veículo livre à vista.
Enquanto Rosinha hesita,indecisa so-
bre que rumo tomar, um elegante automóvel de luxo lustroso desfaz-se da fila e para suavemente junto ao passeio. O condutor desce com galan-
tearia. É Felipe, um homem de traços finos e olhar penetrante, que a observa fixamente desde o preciso instante em que ela pusera os pés no terminal. Enfeitiçado pela beleza recatada e pela postura altiva daquela forasteira no meio do caos urbano, o vilão sente nascer em si uma curiosidade mórbida que depressa se transformará numa perseguição obsessiva.
FELIPE: Perdão pela intromissão, sen-
horita, mas noto que aguarda em vão.
Os táxis esgotaram-se por esta hora. Permita-me oferecer-lhe uma carona para salvá-la deste formigueiro. Rosinha recua um passo, desconfiada com a abordagem tão pronta.
ROSINHA: Agradeço penhoradamente a gentileza,senhor, mas prefiro não incomodar um estranho. Sei cuidar de mim.
FELIPE: Nonsense. Um anjo perdido nesta selva de pedra não pode cami-
nhar desamparado. Chamo-me Felipe, e será uma honra ser o seu guia nesta imensidão.
A insistência de Felipe carrega um timbre magnético e simuladamente cortês,embora os seus olhos devorem cada detalhe de Rosinha com um ape-
tite possessivo que passa desperce-
bido à inocência da moça. Sem alter-
nativas viáveis naquelas circunstân-
cias, ela acaba por ceder e aceita entrar no possante veículo. O motor ruge com suavidade, engolindo o asfalto. Pelos espelhos retrovisores, Felipe observa-a de soslaio, sorrindo de um modo enigmático, enquanto a viagem marca o primeiro passo de uma vigilância apertada e sombria sobre a vida da jovem.
ROSINHA: É aqui… É nesta imensidão que a minha verdadeira história começa.
Ela aperta o medalhão contra o peito, ignorando por completo que o homem ao volante acaba de se tornar a sua sombra mais perigosa.
💐FIM DO CAPÍTULO💐
2 days ago | [YT] | 5
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