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CineNovelas

ASSIM QUE SÃO ELAS • Capítulo 26

escrita e criada por:
JOÃO VITOR PRADO
E ANTÔNIO FERRO

colaboração de:
ANTÔNIO FERRO

supervisão de:
EDGAR OLIVEIRA

direção geral:
DIOGO ITAMAR

abertura:

✨💃✨💃✨💃✨💃✨💃✨💃✨

CENA 01-SALA/COBERTURA/ PRÉDIO/MONTE AMARO-NOITE

Na sala ampla,o clima é de absoluto alívio e melancolia. Sandrinha e Luci-
mara seguram as mãos de Lorena, confortando-a.

LUCIMARA: Me conta direito, minha filha… você se machucou? Sente alguma dor?

LORENA: Não,vó. Graças a Deus, não. Mas senti um medo enorme de cair lá de cima e nunca mais voltar. Foi horrível.

SANDRINHA: Você tem que tomar muito cuidado! Aquela sacada é alta, perigosa. Qualquer deslize ali é fatal. Nunca mais chegue perto daquela beira.

LORENA: Desculpa preocupar vocês. Eu juro que vou tomar todo o cuidado do mundo.

As três se unem num abraço coletivo apertado. Por cima dos ombros de Lorena, Lucimara e Sandrinha desvi-
am o olhar para o grande quadro de Verônica na parede, com os olhos marejados. Lorena,contudo,permane-
ce de olhar baixo,perdida em seus pró-
prios pensamentos.

CENA 02-MONTE AMARO-MANHÃ

Amanhece na Monte Amaro dos anos 2000. Carros da época passam pelas ruas e o comércio abre as portas. Na cozinha simples de Chloé,ela toma café com a tia.

CHLOÉ: Às vezes acho que não vou aguentar de ansiedade, tia. Fico conta-
ndo as horas para o casamento.

TIA LISA: Eu também,minha sobrinha. Não vejo a hora de ver você de noiva. Vai ser o dia mais lindo de todos.

Eduardo entra na cozinha e beija a testa de Chloé carinhosamente.

EDUARDO: Bom dia,mulheres. Dormiram bem?

TIA LISA: Graças a Deus.

CHLOÉ: Bom dia,meu amor… Estranhei você ontem. Não te vi de noite nem de madrugada. Onde esteve?

EDUARDO: Fiquei esperando você chegar,mas demorou muito. Acabei saindo para tomar algo num bar ali perto para espairecer. Quando voltei, você já dormia.

CHLOÉ: Me perdoa, acabei me atrasa-
ndo. Fui àquele encontro misterioso que comentei, lembra? Era uma senh-
ora que disse que me conhecia do tempo da banda musical. E o melhor: ela fez com que eu me reencontrasse com todas as outras meninas do grupo!

Eduardo e Tia Lisa se olham, surpresos.

TIA LISA: Nossa, isso faz tanto tempo… Achei que aquelas meninas nem mora-
vam mais em Monte Amaro.

EDUARDO: E você gostou de revê-las, meu bem?

CHLOÉ: Muito! Pareceu até que tính-
amos voltado no tempo, que éramos todas meninas novamente.

Eduardo e Tia Lisa trocam olhares curiosos, achando a história intrigante.

CENA 03-SALA/CASA DE PENÉL-
OPE/MONTE AMARO-DIA

Mesa farta de café da manhã. Penélo-
pe, João,os filhos e Dona Fátima conv-
ersam animados.

JOÃO: Meu amor,agora me conta: quem era a pessoa daquele bilhete misterioso?

PENÉLOPE: Uma velha amiga da épo-
ca em que eu cantava e fazia shows, João. Alguém que eu não via há anos.

DONA FÁTIMA: Como eu lembro dis-
so… Minha filha fazendo sucesso,cheia de gente aplaudindo. Pena que não deu continuidade.

JOÃO: Mas você canta como ninguém, meu amor. Quem sabe um dia você não pensa em voltar? Ainda dá tempo.

PENÉLOPE: Não sei não… Hoje em dia prefiro mil vezes ficar aqui com vocês, cuidando da minha sorveteria e da no-
ssa vida simples. Isso me faz feliz.

JOÃO: E eu prefiro assim, ter você sempre pertinho. Não troco nossa paz por nada.

Eles se beijam. Dona Fátima concorda, pegando um pedaço de bolo. Penélope, porém, fica em silêncio. A voz da ciga-
na, alertando que entre elas havia uma que traria preocupação, não sai de sua cabeça.

PENÉLOPE (sussurrando para si mes-
ma): Meu Deus… será que aquele sonho que tive com a Zara faz sentido agora?

CENA 04-CASA DE ZARA/MONTE AMARO-DIA

Thiago passa manteiga no pão enquan-
to Zara toma seu café, pensativa.

ZARA: E a Helena? Já saiu?

THIAGO: Sim, foi visitar uma amiga e só volta mais tarde.

ZARA: Entendi. Bom, preciso me orga-
nizar,as aulas já vão voltar. Rotina de professora é puxada.

THIAGO: Já vou sentir saudade de ter você aqui comigo o dia todo. Aliás, hoje é meu último dia de férias. Pensei em passarmos no shopping para eu comp-
rar umas camisas novas da seleção. Quero me preparar para a Copa.

ZARA: Amor,a Copa do Mundo de 2002 ainda está longe! Mas tudo bem, eu vou com você. Só que também quero passar no cinema.

THIAGO: Combinado,senhora. O que você quiser.

Os dois se beijam, felizes.

CENA 05-CASA DE MARLENE/MO-
RRO DO SOL/MONTE AMARO-DIA

Marlene se levanta para ir trabalhar quando Selma entra carregando saco-
las pesadas da feira. Marlene corre para ajudá-la e as duas vão para a cozinha.

SELMA: Agora que estamos só nós du-
as… como foi esse tal encontro no casa-
rão ontem? Fiquei curiosa.

MARLENE: Foi estranho,mãe. Muito esquisito. Saí de lá com uma sensação ruim que não passa.

SELMA: Mas por quê? Se você quiser desabafar, sabe que estou aqui.

MARLENE: Na verdade… eu vou con-
tar sim. Não vou aguentar guardar tudo o que ouvi sozinha. Realmente foi bem pesado e eu preciso falar.

As duas se sentam à mesa. Selma serve o café e ouve a filha com total atenção.

CENA 06-SALA DE JANTAR/MAN-
SÃO/MONTE AMARO-DIA

Isabelita toma café sozinha na mesa luxuosa. Dirce, a empregada, termina de arrumar as louças.

ISABELITA: Dirce, onde está todo mu-
ndo? Alfredo e meus filhos sumiram?

DIRCE: Saíram logo cedinho, Dona Isabelita. Com licença… preciso dar um pulo rápido na minha casa para pegar umas coisas, já volto.

ISABELITA: Vai logo então,criatura! Não fica aqui me enrolando, anda.

Dirce sai apressada. Isabelita toma um gole de café quando a campainha toca alto repetidas vezes. Irritada, ela mes-
ma vai abrir a porta ao perceber que a mansão está vazia. Ao abrir,dá de cara com Chloé, que entra decidida.

CHLOÉ: Bom dia. Tem mais alguém aqui dentro com a senhora?

ISABELITA: Estamos só nós duas. O que você quer aqui, professorinha?

CHLOÉ: Só vim deixar bem claro: que-
ro a Camila bem longe do meu noivo. O Eduardo me ama e é um homem de car-
áter. Ela ligou para ele ontem de mad-
rugada,bem tarde. Ele estava dormi-
ndo e fui eu quem atendi. A senhora faça o favor de aconselhar sua filha.

ISABELITA (ri,debochada): Minha filha nem lembra que esse Eduardo existe. E saiba que eu também nunca quis você perto da minha família. Você é ousada demais para o meu gosto.

CHLOÉ: Se é assim, já vou indo. Mas se eu esbarrar com a Camila por aí,vou falar tudo diretamente com ela,olho no olho.

ISABELITA: Espere um pouco… Você esqueceu uma coisa importante aqui na última vez. Venha comigo até lá em cima buscar,para não dizer depois que foi roubada.

Isabelita vira as costas e começa a su-
bir as escadas. Desconfiada, Chloé a segue. No topo da escada, Isabelita para bruscamente,bloqueando o cami-
nho. Ela encara Chloé com um sorriso cruel.

ISABELITA: Adeus, querida… Num movimento rápido, Isabelita dá um empurrão violento em Chloé para jo-
gá-la escada abaixo. Chloé perde o equilíbrio,mas,na fração de segundo seguinte,a voz de Dirce ecoa da porta de entrada:

DIRCE (gritando lá de baixo): Dona Isabelita! Preciso da senhora aqui na sala, agora! É urgente!

O susto faz Isabelita hesitar, cortando a força do impacto. Chloé tropeça no degrau e quase despenca, mas conse-
gue se agarrar desesperadamente ao corrimão de ferro. Suas mãos apertam o metal até ficarem brancas.

Ofegante,com o coração disparado, Chloé se equilibra e levanta o rosto, encarando Isabelita nos olhos. O cho-
que e o horror tomam conta de suas feições ao perceber a verdade: a mul-
her tentou matá-la. Isabelita tenta disfarçar a fúria pelo plano frustrado, virando o rosto.

A câmera fecha no rosto de Chloé, com os olhos arregalados de medo e a cer-
teza de que Isabelita é um monstro capaz de qualquer coisa.

FIM DO CAPÍTULO

25 minutes ago | [YT] | 2

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GRAÇA PROFANA • Capítulo 03

Escrita e criada por:
AMIZAEL HONORATTO

supervisão de texto:
EDGAR OLIVEIRA
VANESSA COUTO

direção geral:
DIOGO ITAMAR

abertura:

⛪🕯️⛪🕯️⛪🕯️⛪🕯️⛪🕯️⛪🕯️⛪

CENA 01-INT/CASA DE DONA ADÉLIA/QUARTO-NOITE

O quarto é sóbrio, quase monástico. Uma cama impecável, um crucifixo acima da cabeceira e um criado-mudo com um abajur de luz amarelada. A caixinha de prata agora está aberta sobre a cama. Irmã Adélia entra e fecha a porta com cuidado, como quem esconde um pecado. Tranca-a. Silêncio. Ela se aproxima da cama. Olha para a fita de maternidade. Suas mãos tremem.

IRMÃ ADÉLIA(baixo, para si mesma):
Eu fiz o que era certo… fiz o que precisava ser feito…

Ela pega a fita e passa o dedo sobre o nome bordado:
“ANA CLARA – 02/10/2000”.

Seus olhos marejam, mas ela engole o choro com violência.

IRMÃ ADÉLIA (mais firme, tentando se convencer): Aquela criança não podia existir. Não daquela forma… não naquele pecado…

Uma batida leve na porta. Adélia congela.

VOZ: Irmã Adélia? Está tudo bem?

Ela fecha rapidamente a caixinha e a esconde debaixo do travesseiro. Respira fundo, recompondo a postura.

IRMÃ ADÉLIA (voz controlada):
Entre.

A porta se abre. Padre Augusto, com um olhar calculista, entra. Fecha a porta atrás de si sem fazer barulho.

PADRE AUGUSTO (observando): Ouvi dizer que Madalena voltou.

Adélia não responde de imediato. Apenas o encara.

IRMÃ ADÉLIA (seca): Cidade pequena. As notícias correm rápido demais.

PADRE AUGUSTO (aproxima-se, baixo): E perigosamente. (pausa) Ela sabe?

IRMÃ ADÉLIA (dura): Sabe o suficie-
nte para causar estrago.

PADRE AUGUSTO: Isso não é resposta.

Adélia se levanta devagar e o enfrenta.

IRMÃ ADÉLIA: Ela sabe que a filha não morreu.

Silêncio pesado.

PADRE AUGUSTO (olhar tenso): Isso é impossível.

IRMÃ ADÉLIA: Não para ela. (pausa) Aquela menina sempre teve uma obs-
tinação… quase doentia.

PADRE AUGUSTO: E você deixou isso acontecer?

IRMÃ ADÉLIA (ferina): Eu não deixei nada. Eu resolvi.

PADRE AUGUSTO: Resolveu?
(irônico) Porque, pelo que vejo, o seu “problema” acabou de bater na porta outra vez.

Adélia fecha o semblante.

IRMÃ ADÉLIA: Cuidado com o tom, padre.

PADRE AUGUSTO (aproxima-se mais, ameaçador): Cuidado você. Se ela abrir a boca… não é só o seu nome que cai. (pausa) É o meu também, e o de outros mais.

Adélia sustenta o olhar. Não recua.

IRMÃ ADÉLIA: Então trate de manter a sua fé firme… e a sua língua mais firme ainda.

PADRE AUGUSTO (baixo,incisivo):
Onde está a criança?

Adélia hesita por um segundo mínimo, mas perceptível.

PADRE AUGUSTO (percebe): Você não me disse que tinha resolvido tudo?

IRMÃ ADÉLIA: E resolvi.

PADRE AUGUSTO: Então onde ela está?

Silêncio. Adélia caminha até a janela e afasta levemente a cortina. A noite lá fora parece observar.

IRMÃ ADÉLIA (sem se virar): Longe.

PADRE AUGUSTO (irritado): “Longe” não é lugar.

IRMÃ ADÉLIA: É o suficiente.

PADRE AUGUSTO: Não é, se Mada-
lena começar a cavar. (pausa) E ela vai.

Adélia fecha os olhos por um segundo. Toma uma decisão.

IRMÃ ADÉLIA: Então a gente enterra tudo e todos de vez.

PADRE AUGUSTO (olhar frio): Está sugerindo que…?

IRMÃ ADÉLIA (vira-se, firme, sombria): Estou dizendo que, desta vez, não pode haver erros.

Silêncio. O pacto se forma no ar.

PADRE AUGUSTO: E também chegou um advogado novo na cidade…

IRMÃ ADÉLIA: Otávio Alcântara é o nome dele.

O nome pesa no ambiente.

PADRE AUGUSTO: O filho do Haroldo?

IRMÃ ADÉLIA: O mesmo.

PADRE AUGUSTO (sorri de lado, perigoso): Então o passado inteiro resolveu voltar para São Miguel das Pedras para nos assombrar.

IRMÃ ADÉLIA: Não. (pausa, fria) O passado voltou para ser eliminado.

PADRE AUGUSTO: Eu cuido do advogado.

IRMÃ ADÉLIA: E eu cuido da minha filha. (pausa, carregada) Como deve-
ria ter feito desde o início.

Um trovão ecoa ao fundo. A chuva começa a cair com força.

CORTE PARA:

CENA 02-EXT/RUA DESERTA/EM FRENTE À CASA-NOITE

Madalena caminha sob a chuva, sem se proteger. A água escorre pelo seu rosto, mas não apaga o fogo em seus olhos. Seus passos são firmes, quase violentos contra o chão molhado. A respiração é pesada. A dor ainda pulsa… mas agora virou combustível. Ela para e olha para trás. A casa de Adélia está iluminada, imponente e ameaçadora.

MADALENA (baixo, como um juram-
ento): Eu vou voltar… e vou descobrir tudo o que você esconde, mamãe. (pausa, amarga) Cada mentira… cada pecado… cada vida que você destruiu.

Um trovão corta o céu. Madalena aperta a bolsa contra o corpo.

MADALENA (mais firme): Você vai pagar por tudo o que fez comigo. (a voz embarga, mas ela endurece) Por cada noite que eu implorei por ajuda… e você me virou as costas.

Ela dá um passo à frente, depois outro, mas para novamente, tomada pela lembrança.

MADALENA (olhando para a casa, mais intensa): Você pode enganar essa cidade inteira… (pausa) mas não me engana mais.

A chuva aumenta, pesada e agressiva.

MADALENA (grita,liberando a dor):
Eu sinto que a minha filha está viva!

Silêncio após o grito. Ouve-se apenas o som da chuva.

MADALENA (baixo, determinada):
Eu vou encontrar a minha filha… (pausa) nem que para isso eu precise derrubar cada um de vocês.

Ela enxuga o rosto não se sabe se é chuva ou lágrima.

MADALENA: E quando eu encontrar… (olhar sombrio) eu volto para terminar o que você começou.

Um carro passa ao longe. Os faróis cortam a escuridão. Por um instante, a luz ilumina completamente o rosto dela: transformado, decidido, quase irreconhecível.

MADALENA (sussurra, fria): Chega de ser vítima. (pausa) Agora é acerto de contas.

O carro desaparece. A escuridão volta a dominar. Madalena segue caminh-
ando e desaparece na noite.

CORTE SECO.

CENA 03-INT/CONVENTO SANTA CECÍLIA/CORREDOR-NOITE

O corredor é estreito, iluminado por luzes amareladas e fracas. O som de passos ecoa sobre o chão de pedra antiga. Advogado Otávio caminha firme, com o olhar alerta. Cada qua-
dro de santo e cada crucifixo nas pare-
des parecem observar sua chegada. Ele diminui o passo. Escuta algo ao longe. Silêncio.

ADV. OTÁVIO (baixo, para si):
Lugar perfeito para esconder peca-
dos… e chamar de fé.

CORTE PARA

CENA 04-INT/CONVENTO/SALA DE RECEPÇÃO-NOITE

A sala é simples. Há uma mesa com toalha rendada, um crucifixo de madeira e um cheiro de lavanda antiga. A Freira Bernadete, já idosa, entra lentamente, demonstrando insegura-
nça. Suas mãos estão trêmulas, mas seus olhos ainda guardam segredos.

ADV. OTÁVIO: Irmã Bernadete, qua-
nto tempo, não? Sou o advogado Otávio Alcântara.

FREIRA BERNADETE (desconfiada, sussurrando): Dr. Otávio? Eu o conh-
eço? Pelo sobrenome Alcântara, deve ser parente do falecido Doutor Harol-
do Alcântara.

ADV. OTÁVIO (sério): Sim, sou filho de Haroldo Alcântara.

FREIRA BERNADETE: Hum! Há anos ninguém me chama por esse nome, Bernadete. Pensei que o mundo tivesse se esquecido de mim. (pausa) Ou que eu tivesse conseguido me esquecer.

ADV. OTÁVIO (seriedade no olhar):
A justiça de Deus nunca se esquece de quem mente com a fé na boca. (inclina
-se) E muito menos de quem ajudou a enterrar a verdade.

Bernadete se assusta, mas não recua. Ela se senta com dificuldade.

FREIRA BERNADETE (séria): A que devo a visita, doutor? (olhar atento) Ou devo perguntar… a quem devo temer?

Otávio tira a foto amarelada de dentro do paletó e a coloca sobre a mesa.

ADV. OTÁVIO (frio): Lembra-se de Madalena?

FREIRA BERNADETE (tentando recor-
dar): Esse nome não me é estranho…
(toca a cabeça, inquieta) Ele… me persegue.

ADV. OTÁVIO: Pois é. Ela voltou para São Miguel das Pedras em busca de justiça. (pausa) E quer saber toda a verdade sobre a filha que você ajudou a desaparecer naquela noite fatídica.

A freira toca a foto com os dedos enve-
lhecidos. Sua expressão endurece.

FREIRA BERNADETE: Essa criança… era uma maldição, doutor. Precisá-
vamos dar um fim nela. (pausa, mais baixa) Foi o que nos mandaram acreditar.

ADV. OTÁVIO (aproxima-se): Ou uma ameaça? (encara-a firme) Quem mandou esconder a menina?

Freira Bernadete olha para os lados, assustada. Sussurra:

FREIRA BERNADETE: Eu… não pode-
ria dizer… (pausa) Mas foi um acor-
dão. (engole em seco) Madalena é uma pecadora… e a criança precisava desaparecer juntamente com a mãe. (mais baixo) Era o plano deles.

ADV. OTÁVIO: Deles quem? Quem fez esse “acordão”? Diga nomes, irmã. (pressiona)

FREIRA BERNADETE (sussurrando, cedendo): A própria mãe de Madalena, a irmã Adélia… (pausa) o prefeito Raul… o padre Augusto… e o delegado Joaquim. (respira fundo/pausa dramática) E seu pai, o doutor Haro-
ldo, descobriu tudo na época… e pagou com a própria vida.

ADV. OTÁVIO: Isso eu já sei. E não vem ao caso agora. (inclina-se mais) Quero saber sobre o fim que a criança levou.

FREIRA BERNADETE: A menina foi entregue, mas… (baixa o tom) não sei para quem. (pausa) Só lembro do nome escrito na manta: Ana Clara. (olhar distante) Eu mesma bordei… achando que estava fazendo o certo.

Otávio empalidece. Aquilo confirma mais do que ele gostaria.

ADV. OTÁVIO (irônico, amargo):
“Achando”? Então a culpa pesa agora?

FREIRA BERNADETE (olhos mareja-
dos) A culpa nunca saiu daqui. (ba-
te levemente no peito) Só ficou em silê-
ncio… esperando alguém vir cobrar.

ADV. OTÁVIO (duro): Pois eu vim. E você vai falar. Vai depor perante um juiz.

CONTINUA NO PRÓXIMO PÔSTER

1 hour ago | [YT] | 3

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A freira treme. Fecha os olhos como se fizesse uma prece.

FREIRA BERNADETE (sussurrando, como uma profecia): Se eu falar demais, doutor… ou for exposta em público… tem gente grande que vai querer me calar de novo.

ADV. OTÁVIO (sem entender): Como assim, “de novo”?

FREIRA BERNADETE (sussurrando):
Para eles,eu estou morta. (pausa) Ten-
taram me envenenar… porém sobre-
vivi, não sei como. (olha nos olhos dele) Mas eles não sabem que estou viva.

ADV. OTÁVIO (incrédulo, anota tudo em sua agenda): Meu Deus… que absu-
rdo. (pausa) Essa gente é muito mais perigosa do que eu imaginava. (enca-
ra-a) Quem fez isso com a senhora?

FREIRA BERNADETE (baixa o olhar):
Mãos diferentes… mas a mesma ordem. (pausa) Quando a verdade ameaça sair… alguém sempre some misterios-
amente.

ADV. OTÁVIO (mais próximo, firme):
Pode ficar tranquila, a senhora não vai sumir. Não mais. (pausa) Eu não vou deixar que isso aconteça.

FREIRA BERNADETE (encara-o, com medo e esperança): O senhor fala como seu pai, Haroldo… aquele era um hom-
em justo. (sussurra) E foi por isso que o mataram.

ADV. OTÁVIO: Irmã Bernadete, gostaria que a senhora me falasse mais sobre tudo o que aconteceu até o seu possível envenenamento.

FREIRA BERNADETE: Sim, doutor. Irei te contar tudo.

Silêncio pesado. Freira Bernadete encara Otávio com um olhar sombrio.

A CÂMERA DÁ UM CLOSE NO OLHAR DELA.

CORTE PARA:

CENA 05-FLASHBACK/ANO 2000/ INT/SALA ESCURA-NOITE CHUVOSA

Uma tempestade ruge do lado de fora. Trovões ecoam. Raios iluminam brevemente os rostos tensos de seis pessoas reunidas em uma sala mal iluminada. Estão sentados à mesa: Freira Bernadete, Dona Lourdes, Prefeito Raul, Irmã Adélia, Padre Augusto E Delegado Joaquim.

O silêncio é pesado. Ouve-se apenas a chuva lá fora e a culpa que ninguém admite.

DONA LOURDES: Senhores, o serviço está feito. Agora é só comemorar… e vocês vão pagar o que foi combinado. Não é mesmo, irmã Bernadete?
(olha ao redor, firme) Ou alguém aqui pretende voltar atrás?

FREIRA BERNADETE (baixa, descon-
fortável): Sim, senhora… embora eu não concorde com isso. (pausa) Ainda dá tempo de… corrigir.

IRMÃ ADÉLIA (desconfiada,cortante):
A sua opinião não faz diferença, irmã Bernadete. (pausa) E essa criança… foi entregue para quem exatamente?

DONA LOURDES: Para uma família de roceiros. Analfabetos, gente simples… invisíveis. (dá de ombros) Nunca mais terão notícias da criança. Nem ela de vocês.

FREIRA BERNADETE (olhar baixo):
Exatamente isso, senhores. Sou prova viva disso. Fiz o que me mandaram.

PREFEITO RAUL (aliviado,mas tenso):
Melhor assim. Quanto menos gente souber,melhor para todos nós. (pausa) Esse assunto morre aqui.

IRMÃ ADÉLIA (encarando Dona Lourdes, ameaçadora): É bom que isso seja a verdade absoluta. Ou terão problemas… e dos grandes, comigo.

DONA LOURDES (sorri de lado):
Problema é o que eu resolvo, irmã. (pausa) Não o que eu crio.

DELEGADO JOAQUIM (abrindo uma maleta): Chega de conversa. Aqui está a grana de vocês duas pelo serviço prestado. (empurra a maleta) E que isso nunca mais volte à tona.

Dona Lourdes pega a maleta. Berna-
dete hesita antes de tocar no dinheiro.

FREIRA BERNADETE (baixo, pertur-
bada): Esse dinheiro… não vai comprar o silêncio da consciência.

DELEGADO JOAQUIM (irônico):
Consciência não paga conta, irmã.

PREFEITO RAUL (aliviado, quase sor-
rindo): Aleluia! Agora nossa reputação está salva. Graças a essas duas mulh-
eres incríveis. (pausa, mais sério) A cidade nunca pode saber disso. Nunca.

PADRE AUGUSTO (calmo,mas firme):
A nossa fé,a nossa igreja, a nossa cidade, enfim… (pausa) Estamos livres dessa maldição. (olhar duro para Bernadete) Ou pelo menos deveríamos estar.

FREIRA BERNADETE (encara-o,com culpa): E se não estivermos? (pausa) E se isso voltar?

IRMÃ ADÉLIA (seca, troca olhares com Padre Augusto): Não vai voltar. (pausa,fria) Porque eu não vou permitir.

PADRE AUGUSTO (sério): Quero ter uma palavrinha em particular com a nossa irmã Bernadete.

FREIRA BERNADETE (tensa): Sobre o quê, padre?

PADRE AUGUSTO (encara-a fixame:
nte): Sobre garantir… que esse segredo continue enterrado.

O trovão explode, iluminando os rostos cúmplices de todos. Bernadete engole em seco.

CORTE PARA:

CENA 06-FLASHBACK/SALA ANEXA-INSTANTES DEPOIS

Freira Bernadete, mesmo com medo, entra primeiro. O padre fecha a porta atrás de si com cuidado. O som do trinco ecoa mais alto do que deveria. Silêncio.

FREIRA BERNADETE (tensa): Então, padre Augusto… o que é tão importante que precisava ser em particular? (pausa, desconfiada) Já não basta o que fizemos?

PADRE AUGUSTO (calmo demais):
Você vai saber agora. (aproxima-se lentamente) Mas antes… me diga, irmã… você acredita mesmo que Deus perdoa tudo?

FREIRA BERNADETE (confusa,assust-
ada): Eu… eu sempre acreditei. (pausa) Mas o que fizemos hoje… (a voz falha)
isso não tem perdão.

PADRE AUGUSTO (olhar frio): Tem, sim. (pausa) Quando ninguém fica vivo para contar.

Bernadete dá um passo para trás. O medo cresce.

FREIRA BERNADETE: Padre… o que o senhor está dizendo? (pânico surgi-
ndo) Nós fizemos um acordo! Eu obedeci!

PADRE AUGUSTO: E justamente por isso… você sabe demais.

De repente, quatro homens mascara-
dos entram na sala. Eles a imobilizam com brutalidade. Bernadete tenta gri-
tar, mas é amordaçada.

PADRE AUGUSTO (frio,observando):
Não dificultem. Resolvam o problema. Ela é fraca.

Um dos homens aplica uma substância nela. Bernadete tenta resistir… seus olhos se arregalam… depois começam a apagar.

FREIRA BERNADETE (voz fraca, quase inaudível): Deus… está vendo…

Ela desaba. Os homens a seguram e a enrolam em uma lona preta.

PADRE AUGUSTO: Verifiquem os pul-
sos. O veneno tem que ter feito efeito. (pausa) Levem-na direto para o cemi-
tério. O coveiro já foi avisado.

UM DOS MASCARADOS: Sim, senhor.

Eles erguem o corpo e saem. A porta se fecha. Silêncio absoluto. Padre Augu-
sto observa o vazio deixado no chão. Por um instante,algo como a culpa atravessa seu rosto… mas desaparece rápido. Ele se benze lentamente.

PADRE AUGUSTO (fazendo o sinal da cruz): Que Deus te receba de braços abertos, irmã Bernadete. (pausa) Esse sacrifício… é por uma boa causa. (baixo) Amém.

Ele apaga a luz.

CORTE PARA:

CENA 07-EXT/CEMITÉRIO-NOITE CHUVOSA

A chuva cai forte. Relâmpagos ilum-
inam o cemitério vazio. Os homens mascarados carregam o corpo enrol-
ado na lona. Um Coveiro os espera ao lado de uma cova aberta.

COVEIRO (baixo, nervoso): Isso não estava no combinado…

UM DOS MASCARADOS: Cala a boca, velhote, e termina o serviço.

Eles jogam o corpo na cova. A mão de Bernadete está frouxa… mas um dedo se mexe, quase imperceptivelmente. Ninguém percebe. A terra começa a cair sobre o corpo.

CORTE PARA:

CENA 08-INT/CASA DE DONA ADÉLIA/QUARTO-NOITE

Adélia dorme inquieta. Sua respiração é ofegante, como a de alguém que está sufocando. Ela abre os olhos de repe-
nte e se senta na cama.

IRMÃ ADÉLIA (assustada,sussurra):
Não… isso é impossível…

CORTE RÁPIDO PARA:

A fita de maternidade:
“ANA CLARA – 02/10/2000”.

Um trovão explode.

CORTE SECO.

FIM DO CAPÍTULO

1 hour ago | [YT] | 2

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TERRA DA GAROA • Capítulo 16 #edicaoespecial

escrita e criada por:
GUSTAVO BIANCK

Supervisão de:
EDGAR OLIVEIRA
FELIPE EMANUEL

direção geral:
DIOGO ITAMAR


abertura:
https://youtu.be/e6hU7lwusd4?si=oHjyp...

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CENA 01-CASA DE MARIA VITÓRIA |SALA-TARDE

CLEIDE: Está assustada, querida?

RITA: O que você está fazendo aqui? Sua praga!

CLEIDE: Praga, eu? (Ri) Perto de você eu não sou nem uma cobra cega!

Cleide empurra Rita e entra.

CLEIDE: Que casarão bonito! Chique... Ganhou muito bem fazendo os seus trabalhinhos, né?

RITA: Eu suei para conseguir isso!

CLEIDE (Ri): Sei bem como você suou!

RITA: O que você quer comigo?

CLEIDE: Eu poderia pedir tanta coisa, mas eu sou boazinha! Só estou aqui a passeio mesmo.

RITA: Você pensa que me engana? Eu sei o tipo de cobra que você é!

CLEIDE: E você? O seu tipo de cobra é o pior que existe!

RITA: Sai da minha casa, agora!

CLEIDE: Não, eu não vou sair! Eu vou ficar na sua casa e ordeno ser tratada com o máximo de luxo!

RITA: Por que eu faria isso?

CLEIDE: Se você não fizer, eu revelo o seu segredo para todos!

RITA: Você não é louca de fazer isso!

CLEIDE: Sou! Sou bem louca, mais louca que você! Eu não sou santinha, fiz tanta coisa errada... Já até cortei o pênis de um cliente que não quis me pagar! E eu faço coisas muito piores para ter o que eu quero!

RITA: Você não me conhece...

CLEIDE: Conheço sim, e sei que você é bem mais forte que eu, mas eu não ten-
ho medo de você, Rita.

RITA: Hoje eu estou com muita paciê-
ncia, muito sorridente, então eu vou permitir que você fique aqui em casa. Fique à vontade, querida!

CLEIDE: Agradeço.

Cleide se deita no sofá. Rita revira os olhos.

CENA 02-FAZENDA DE AMÉRICO/CASA/SALA-TARDE

Hermelinda está fazendo massagem nos pés de Américo.

AMÉRICO: Eu não entendo. Por que o Samuel não gosta de mim?

HERMELINDA: O senhor sabe muito bem o motivo.

AMÉRICO: Eu? Eu não faço a mínima ideia!

HERMELINDA: Ele estranha as coisas que eu faço para o senhor. Ele diz que eu pareço sua escrava.

AMÉRICO: Mas você é a minha empre-
gada, faz coisas que uma empregada faz, ora!

HERMELINDA: A nossa relação vai além de empregada e patrão. O senhor me despreza, mas no passado usou e abusou de mim!

AMÉRICO: Foi uma relação besta!

HERMELINDA (Chorando): Não! Não foi besta! Eu te amo,Américo,eu nunca deixei de te amar!

AMÉRICO: Isso só pode ser loucura!

HERMELINDA: Eu engravidei do senhor no passado!

AMÉRICO: O quê?

HERMELINDA: O Samuel é o seu filho
... Ele é seu filho, o Samuel...

AMÉRICO: Eu não posso acreditar nesse absurdo!

HERMELINDA (Chorando): Eu errei, eu errei em não ter te contado no pass-
ado! Desculpa, desculpa!

AMÉRICO: Você é louca! Você deixou o seu filho viver como empregado aqui na fazenda. Você não teve amor ao seu filho e nem a mim!

HERMELINDA (Chorando): Desculpa, me desculpa, por favor!

AMÉRICO: Eu nem sei o que falar...
Américo se levanta e vai para o quar-
to.

Hermelinda se desespera e chora sem parar.

CENA 03-APARTAMENTO DE DANILO/SALA-NOITE

A câmera filma Danilo e Maria Vitória se beijando.

MARIA VITÓRIA: Eu preciso ir...

DANILO: Não sei como vou aguentar essa noite sem você!

MARIA VITÓRIA: Eu vou voltar lá só hoje. Eu vou me separar do Arthur e vou sair daquela casa.

DANILO: Isso é sério?

MARIA VITÓRIA: É! Nós vamos ficar juntos, meu amor!

Os dois se abraçam e se beijam.

MARIA VITÓRIA: Eu preciso ir. Eu te amo!

DANILO: Eu amo mais!

MARIA VITÓRIA: Ah não, esse clichê não! Mas eu te amo!

Maria Vitória manda um beijo para Danilo e sai. Ele fica todo risonho e bobo de amor por ela.

CENA 04-CASA DE RUAN/ SALA-NOITE

Josina está deitada no sofá, muito triste.

RUAN: Mãe...

JOSINA: Oi, filho.

RUAN: A senhora está bem?

JOSINA: Estou sim, filho...

RUAN: Amanhã vamos passear. Vou levar você e o pai para visitar o bosque.

JOSINA: Eu quero morrer logo...

RUAN: Não fala assim, mãe! Eu te amo e não estou preparado para te perder!

Ruan começa a chorar. Josina o abraça.

JOSINA: Deus quis isso, nós não podemos fazer nada!

Gerson chega.

GERSON: O que houve?

JOSINA: Vem, Gerson, participa deste abraço!

Gerson entra no abraço. Os três estão emocionados e chorando.

CENA 05-CASA DE GIOVANNA/ SALA-NOITE

Elisa está sentada na cadeira.

GIOVANNA: Você é um lixo, mãe.

ELISA: ...

MICHEL: Ei, você não pode falar assim com a sua mãe!

GIOVANNA: Cala a sua boca! Você sumiu no mundo quando eu era criança e agora volta, e ainda por cima pobre! Eu quero ser rica, milionária! Eu ia conseguir isso, mas o Rodrigo descobriu que sou filha de uma mulher negra e pobre e acabou tudo!

MICHEL: A culpa disso é sua! Onde já se viu, mentir a identidade da própria mãe?

ELISA: Deixa, deixa ela, Michel. Deixa ela falar, ignore-a.

GIOVANNA: Você está pedindo para ele me ignorar como você faz?

Elisa se levanta da cadeira, nervosa e irritada.

ELISA: Eu nunca te ignorei! Sempre te dei do bom e do melhor e você me trata que nem um lixo!

GIOVANNA (Gritando): Cansei! Vou sair, vou sair para beber, para transar, para dar! Vou chupar todos que eu vir na minha frente, bem longe desse muquifo! Vou virar puta!

Giovanna sai.

ELISA (Chorando): Meu Deus... Meu Deus, guie a minha filha...

Michel abraça Elisa.

CENA 06-CASA DE MARIA VITÓRIA |SALA DE JANTAR-NOITE

Eles estão jantando. Cleide desce as escadas.

CLEIDE: Não ia me chamar para o jantar, Ritinha?

Todos se assustam.

ANTENOR: Quem é essa mulher?

ARTHUR: Meu Jesus amado, de onde saiu essa coisa?

CLEIDE: De Uauá, Bahia.

RITA: Essa é minha hóspede, minha querida amiga.

CLEIDE: Isso mesmo, a melhor amiga da Rita!

ISABELLE: Seja bem-vinda!

CLEIDE: Obrigada, querida! E esse bonitão aí não fala?

RODRIGO: Tá falando comigo?

CLEIDE: Sim, meninão!

RODRIGO: Seja bem-vinda...

CLEIDE: Obrigada!

Cleide morde os lábios.

ARTHUR: A Maria Vitória não vai chegar nunca?

RITA: Deve estar com o negro!

ARTHUR: O pai do Rodrigo?

RODRIGO: Cala a boca! Chega de falar desse assunto, já me irritou!

Maria Vitória chega.

ANTENOR: Filha!

MARIA VITÓRIA: Boa noite!

CLEIDE: Então essa é que é a filha da Rita?

RITA: É, minha única filha!

CLEIDE (Ri): Única?

MARIA VITÓRIA: Quem é você?

RITA: É uma amiga minha!

MARIA VITÓRIA: Tá.

ARTHUR: Onde estava? Com o pai do Rodrigo?

MARIA VITÓRIA: Sim, eu estava com o amor da minha vida! E eu voltei aqui para pegar as minhas coisas e para anunciar o divórcio!

Rita engasga com a comida. Arthur tosse com o vinho.

ARTHUR: Como?

MARIA VITÓRIA: Eu estou cansada de apanhar, cansada de ser humilhada. Quero tomar um rumo na vida, e ao seu lado eu sinto que vou estacionar até morrer! Ou ser morta por você!

RITA: Que pesadelo, meu Deus!
A campainha toca.

RITA: Eu vou respirar lá fora!
Rita vai atender a campainha.

RODRIGO: Você vai se separar do Arthur para ficar com o preto?

MARIA VITÓRIA: Vou. E ele não é só preto, ele é o seu pai!

RODRIGO: Nem me lembre disso!

MARIA VITÓRIA: Você vai ter que se encontrar com ele, vocês precisam conversar!

RODRIGO: Só falo com negro quando o negro é a empregada!

CLEIDE: O que é isso, menino? Que frase racista! Racismo é crime, e você pode ser preso por isso!

RODRIGO: Eu não estou nem aí!

CLEIDE: Que coisa ultrapassada! Além de ser crime, é uma coisa do século passado!

A câmera foca em Rita atendendo a porta.

RITA: Oi?

TATINA: Meu nome é Tatina. Você é a Rita?

RITA: Sou. O que deseja?

TATINA: Você é a sequestradora de crianças, a traficante de bebês, a compradora de nenéns, a mulher que matou uma mãe para roubar a filha, a mulher que roubou uma criança da avó no meio da rua... Você é a famosa Rita?

A câmera foca em Rita: surpresa, desesperada e assustada.

FIM DO CAPÍTULO

22 hours ago | [YT] | 9

CineNovelas

ASSIM QUE SÃO ELAS • Capítulo 25

escrita e criada por:
JOÃO VITOR PRADO
E ANTÔNIO FERRO

colaboração de:
ANTÔNIO FERRO

supervisão de:
EDGAR OLIVEIRA

direção geral:
DIOGO ITAMAR

abertura:

✨💃✨💃✨💃✨💃✨💃✨💃✨

CENA 01-PRÉDIO/MONTE AMARO- NOITE

Vista da rua,Lorena balança no vento, pendurada na sacada. Seus dedos escorregam pelo concreto. O perigo é iminente.

LORENA: Eu não vou aguentar… min-
has mãos estão escorregando!

Silas surge correndo com Marcos, um bombeiro que assume o controle da situação.

MARCOS: Segura firme! Não solta de jeito nenhum! Eu vou te tirar daí!

Marcos estende a escada de resgate e sobe com precisão,enquanto Silas cor-
re para dentro do prédio para abrir caminho.

CENA 02-SALA/COBERTURA/ PRÉDIO/MONTE AMARO-NOITE

Lucimara arruma roupas no sofá qua-
ndo a campainha toca. Ela abre a porta e dá de cara com Silas, tenso.

SILAS: Dona Lucimara, é a Lorena! Ela está pendurada na sacada da cober-
tura, quase caiu!

Desesperada,Lucimara corre escada acima. Enquanto isso, na cobertura, Marcos finaliza o resgate e puxa Lore-
na para dentro da sacada. Ela cai no chão, viva.

MARCOS: Está tudo bem? Se machu-
cou?

LORENA: Só estou com muito medo... e minhas mãos doem, mas estou bem.

Lucimara invade o local chorando e corre para abraçar a neta com força, segurando seu rosto.

LUCIMARA: Você está bem? O que aconteceu, meu amor?

LORENA: Estou bem, Vó... foi só um susto.

Lucimara a aperta contra o peito. Ao notar o uniforme de Marcos, ela olha para ele com os olhos cheios de lágrimas.

LUCIMARA: O senhor é um anjo... Muito obrigada por salvar a vida dela. Se não fosse o senhor, eu nem quero pensar. Obrigada mesmo.

CENA 03-BAR/MONTE AMARO- NOITE.

O garçom serve os cafés e se afasta. Alfredo toma um gole, observando o amigo. Eduardo mexe a bebida, pensa-
tivo, e toma a iniciativa.

EDUARDO: Queria conversar,Alfredo. Depois que a Camila me beijou à força na frente da minha noiva, fui obrigado a repensar a nossa aproximação.

ALFREDO: Eu soube. Lamento profun-
damente pelo erro e pela falta de res-
peito da minha filha. Vim te pedir desc-
ulpas e te fazer uma proposta. Você não quer ser dono de uma clínica reno-
mada aqui em Monte Amaro?

EDUARDO: É o meu maior sonho. Mas as barreiras são grandes, e sendo um homem negro, as coisas são ainda mais difíceis de conquistar.

ALFREDO: Seu avô, o Seu Severo, foi um grande médico e me ajudou quando eu não tinha nada. Devo tudo a ele.

EDUARDO: Onde quer chegar? Sei que você não faria isso só por grati-
dão. Sempre quer algo em troca.

ALFREDO: Faça a Camila feliz e case-
se com ela. Em troca, você vira meu sócio na fábrica de tecidos e ganha a clínica dos seus sonhos. Juntos, vamos dominar os negócios da cidade. Você tem o nome e a inteligência; o resto, eu te dou.

Eduardo encara Alfredo, em silêncio e completamente chocado. Alfredo continua firme.

ALFREDO: O amor dela por você é verdadeiro. Pense bem, é uma oportu-
nidade única.

Eduardo continua sem reação, sem conseguir acreditar no que acabou de ouvir.

CENA 04-SALA/CASA DE MARLE-
NE/MORRO DO SOL/MONTE AMARO-NOITE

Marlene entra e senta-se no sofá,exau-
sta. Logo,Gabriela aparece de pijama e senta na sua frente.

GABRIELA: Mãe, tá tudo bem? Você demorou.

MARLENE: Tudo sim, só um dia cansa-
tivo. Sua avó já chegou? E o Rafael?

GABRIELA: A avó está na igreja, mas já volta. O Rafael está dormindo, vai embora amanhã cedo.

MARLENE: Amanhã preciso conver-
sar seriamente com ele, com o Ronaldo e com você. É um assunto importante entre nós quatro.

GABRIELA: Sobre o que, mãe? Acont-
eceu alguma coisa?

MARLENE: Fica tranquila. Não vai ter briga nem gritaria. É só para organiz-
armos a nossa vida e resolver o que ficou pendente.

GABRIELA: Ah, bom... Por mim, tudo bem.

MARLENE: Vou tomar um banho e já desço para jantar.

Marlene dá um beijo na testa da filha e vai para o banheiro. Gabriela continua sentada, imóvel, intrigada com o que a mãe quer conversar.

CENA 05-BAR/MONTE AMARO- NOITE

Eduardo mexe o café, respira fundo e levanta-se,olhando firme para o empresário.

EDUARDO: Dinheiro nenhum no mun-
do compra a minha honestidade ou o amor que sinto pela Chloé. Eu não ven-
do a minha dignidade.

ALFREDO: Você está jogando fora a maior oportunidade da sua vida. Uma proposta dessas não volta mais.

EDUARDO: Você se enganou muito so-
bre o meu caráter. Se soubesse que o assunto era esse,nem teria saído de casa. Que decepção.

Eduardo deixa o dinheiro do café na mesa,encara Alfredo com desprezo e sai do bar sem olhar para trás. Alfredo fica sozinho,respira fundo e solta um sorriso de canto,misto de irritação e admiração.

ALFREDO: Você é bem diferente do seu avô, Severo... Ele sabia aproveitar as oportunidades. Você é só orgulho. Vamos ver até onde essa postura te leva.

Ele se levanta, ajeita o paletó e sai do bar, pensativo.

CENA 06-SUÍTE/MANSÃO/MONTE AMARO-NOITE

Na suíte, Isabelita ajuda Alfredo a tir-
ar o casaco,demonstrando sua desap-
rovação.

ISABELITA: Você errou em ir atrás dele com essa história,Alfredo. Tudo vai dar errado.

ALFREDO: Faço isso pela Camila. Além do mais,metade de tudo o que temos pertencia à família do Eduardo. Se ele se casar com a nossa filha,entra para a família como aliado,e não como um inimigo querendo reaver as terras e a fábrica.

ISABELITA: Isso é loucura... Mas faço qualquer coisa pelos meus filhos. E se mandássemos matar aquela professo-
rinha?

Alfredo vira-se para a esposa, chocado.

ALFREDO: Matar? Ficou louca?

ISABELITA: Se ela desaparecer,o ca-
minho fica livre para a Camila. E ainda culpamos o Eduardo por crime passi-
onal. Depois, a gente tira ele da cadeia e ele vira nosso refém, grato pelo resto da vida. Se ele complicar... mandar mais um para a glória é fácil.

Alfredo caminha pelo quarto, pensa-
tivo. Seu olhar surpreso torna-se som-
brio e calculista.

ALFREDO: Tudo bem... Se ele recusar minha proposta,pensarei seriamente no seu plano. Aquela professora pode virar uma pedra no sapato.

Os dois se selam um acordo com um beijo. Alfredo se afasta e olha para o nada,com o plano mortal crescendo em sua mente.

FIM DO CAPÍTULO

1 day ago | [YT] | 12

CineNovelas

CENA 04-INT/SÃO MIGUEL DAS PEDRAS/ESCRITÓRIO DE ADVOCA-
CIA DE OTÁVIO-DIA

Otávio encara a foto como se ela tive-
sse vida. Madalena se inclina, com os olhos fixos nele.

MADALENA (ameaçadora,com veneno na voz): Elas me enganaram,dizendo que minha filha estava morta. Elas ro-
ubaram minha filha. Tiraram ela de mim... e você sabe muito bem quem mandou fazer isso.

Otávio pisca,tentando disfarçar o impacto. Seus dedos apertam a borda da mesa.

ADV.OTÁVIO (tenso,defensivo): Vo-
cê está jogando pesado demais para alguém que acabou de entrar na minha sala.

MADALENA (aproxima-se mais, fir-
me): Eu não tenho mais tempo para joguinhos, doutor. Meu tempo é preci-
oso e eu só quero a verdade.

Otávio se levanta bruscamente. A cad-
eira tomba atrás dele. A raiva borbulha.

ADV.OTÁVIO (entre dentes,raivoso):
Foi a sua mãe que mandou matar meu pai há exatamente vinte e oito anos... quando ele decidiu investigar as falca-
truas da igreja desta cidade e desco-
briu toda a verdade, não foi?

MADALENA (sustenta o olhar,sem recuar): Não sei exatamente quem foi. Eu só sei que tem uma quadrilha muito bem organizada nesta cidade e nós va-
mos investigar. (Ela faz uma pausa dramática) E não foi só o seu pai que pagou o preço por saber demais.

ADV. OTÁVIO (aponta para a foto):
E você espera que eu acredite que isso aqui... (Ele pega a foto) ...é a mesma história?

MADALENA: Não é a mesma história, Otávio. É o mesmo crime... repetido.

Silêncio pesado. Só o ventilador gira, rangendo.

ADV.OTÁVIO (mais baixo, descon-
fiado): Você tem provas... ou só dor?

MADALENA (com um leve sorriso frio): Dor não sustenta uma guerra, doutor. Provas, sim.

Otávio a encara, tentando medir até onde ela está blefando.

ADV. OTÁVIO: E por que você me es-
colheu? Tem advogado muito melhor, mais poderoso... mais seguro por aí.

MADALENA (direta): Pelo óbvio! Po-
rque você ainda sangra quando fala do seu pai. Isso significa que você não se vendeu para o sistema corrupto daqui de São Miguel das Pedras.

Otávio engole em seco. O golpe acerta em cheio.

ADV. OTÁVIO (mais contido,mas fir-
me): Cuidado com o que você acha que sabe sobre mim.

MADALENA: Eu sei o suficiente.

Madalena abre lentamente a mala. Entre roupas dobradas,o metal enferr-
ujado de uma pistola antiga brilha sob a luz do abajur. Otávio arregala os olhos e dá meio passo para trás.

ADV. OTÁVIO (duro): Você perdeu o juízo? Isso aqui é um escritório de ad-
vocacia sério,não um campo de guerra!

MADALENA (seca,olhando nos olhos dele): Para mim, já estou nas trinch-
eiras da guerra há muito tempo.

ADV. OTÁVIO: Guardar isso aí não te faz mais forte. Só te coloca na cadeia se a polícia pegar isso com você.

MADALENA (inabalável): Errado. Isso manteve a chama da justiça acesa em mim. (Uma pausa. A tensão cresce)
Então vamos fazer um trato, Doutor Otávio. Você me ajuda a encontrar a minha filha, viva ou morta... e eu te dou o verdadeiro assassino do seu pai.

Otávio respira fundo. Olha para a ar-
ma. Depois,para a foto. Por fim, encara Madalena.

ADV.OTÁVIO (baixo,decidido): Se vo-
cê estiver mentindo...

MADALENA (interrompe,firme): Eu não voltei para mentir,doutor. Voltei para destruir quem mentiu.

Silêncio. Um acordo nasce ali,em busca da verdade e da justiça.

ADV.OTÁVIO (quase um sussurro):
Então a gente começa agora.

MADALENA: Já começou.

FADE OUT.

O som da chuva começa suave, tocando as janelas como dedos impacientes do destino.

CORTA PARA:

CENA 05-INT/CASA DE DONA ADÉLIA/SALA-FIM DE TARDE

A casa é antiga, de paredes impreg-
nadas de silêncio. Tudo tem cheiro de passado. Irmã Adélia está sentada em sua poltrona de veludo. Austera,de gestos precisos. Serve o chá como se fosse um ritual. O tiquetaquear do rel-
ógio é o único som,como uma contagem regressiva para o confronto.

A porta se abre lentamente. Madalena entra com passos firmes. Cabelos pre-
sos, olhos de aço. O silêncio entre as duas é quase sagrado. Mas é o silêncio antes da guerra.

IRMÃ ADÉLIA (sem se virar, fria): Eu sabia que um dia você voltaria, Mada-
lena. O mal sempre retorna à sua origem.

MADALENA (sem hesitar,atravessa-
ndo a sala,sarcástica): E você, Irmã Adélia... quanto tempo. Ainda está do mesmo jeito... envenenando esta casa e esta cidade com as mesmas palavras de sempre. (Ela ri com escárnio) Quantos pai-nossos foram necessários para abafar o grito da minha alma, mamãe?
(Ela faz uma pausa e a encara) Ou você parou de rezar quando percebeu que Deus não te escuta?

IRMÃ ADÉLIA (vira-se, impecável como sempre): Alma? Você nunca teve uma. Veio ao mundo como maldição.
(Uma pausa) Devia ter morrido no pa-
rto. (Ela a olha de cima a baixo) Mas sempre teve vocação para voltar do inferno.

MADALENA (aproximando-se): Pois é, mamãe. Morri mesmo. Naquela noite em que você me fez ajoelhar diante do altar,me chamando de pecadora... Sua voz baixa,vibrando de ódio... saben-
do que eu tinha sido violentada. E mes-
mo assim... (Ela engasga com a própria dor) ...você escolheu me enxotar daqui. Escolheu a sua reputação, a batina, os cochichos da sacristia. Escolheu se salvar... e me sacrificar.

IRMÃ ADÉLIA (ereta como um monu-
mento): Eu escolhi proteger esta famí-
lia com unhas e dentes. A minha comu-
nidade e a igreja. Alguém precisava ter pulso firme.

MADALENA (explode): À custa da mi-
nha vida?! À custa de um recém- nascido?! (Ela bate na mesa) Você chama isso de proteção?!

IRMÃ ADÉLIA: Chamo de ordem. O que você chama de recém-nascido... foi consequência do seu pecado. E eu lim-
pei o que você sujou.

MADALENA (olhos em brasa, avan-
ça): Eu sei que ela não está morta! Eu vi o rostinho dela antes de tudo aconte-
cer! (Ela grita) Você a tirou de mim! (Pausa dramática. Firme) Onde ela est-
á, Adélia? Onde?! (Mais baixa, vene-
nosa) Ou a vendeu também... como ve-
ndeu a própria consciência?

Adélia aperta a xícara com tanta força que ela treme no pires. Mas tenta ma-
nter o rosto de pedra.

IRMÃ ADÉLIA (gelada): Você não sa-
be de nada. Nunca foi mãe. Foi um receptáculo da desgraça. Eu fiz o que era necessário. Ela se foi. E você devia me agradecer. (Ela endurece o tom)
Evitei que aquela criança crescesse carregando o meu sangue e a marca do seu pecado.

MADALENA (voz baixa,cruel): Agra-
decer por qual crime?Sequestrar mi-
nha filha? Apagar meu sangue?
(Seus olhos estão marejados de fúria)
Você não me quebrou, Adélia. Você me forjou. (Ela se inclina e sussurra) E eu voltei melhor do que você imagina.

IRMÃ ADÉLIA (seca): Você devia ter morrido junto com ela. Teria poupado esta casa de mais uma vergonha.

MADALENA: Mas não morri. E agora estou aqui. (Em tom ameaçador) Eu vou descobrir onde está minha filha. Nem que eu tenha que virar cada cova desta cidade. Nem que eu arranque a verdade das suas entranhas. Olha ao redor, Inclusive as que você esconde atrás dessas paredes.

IRMÃ ADÉLIA (abalada por dentro, tenta manter o controle): Cuidado com o que procura. Quem cava demais... desenterra demônios. E alguns... ainda têm fome de você. Você não faz ideia do que está enfrentando.

MADALENA (séria, feroz): Eu faço, sim. Estou enfrentando você. E isso se-
mpre foi o pior. A diferença é que ago-
ra eu não tenho medo.

IRMÃ ADÉLIA (frágil por um segun-
do, depois dura): Então reze. Porque vai precisar.

MADALENA: Eu não rezo mais. Eu cobro. Eu faço justiça.

Madalena se vira e sai. A porta range e, depois, bate com força. Adélia conti-
nua sentada. Mas sua alma não. Seu corpo começa a tremer. A máscara de ferro escorrega. Ela leva a mão à boca
,tentando conter o que escapa: um ch-
oro seco,de culpa,de pavor,de algo que nem a fé dela pode mais salvar.

A câmera foca em uma prateleira com livros de santos. Atrás deles, há uma caixinha de prata. A tampa range ao ser sugerida. Dentro,revela-se uma fita antiga de maternidade. O bordado está desbotado: “ANA CLARA – 02/10/2000”.

FADE OUT.

FIM DO CAPÍTULO

1 day ago | [YT] | 11

CineNovelas

GRAÇA PROFANA • Capítulo 02

Escrita e criada por:
AMIZAEL HONORATTO

supervisão de texto:
EDGAR OLIVEIRA
VANESSA COUTO

direção geral:
DIOGO ITAMAR

Abertura:
https://youtu.be/3z9cv3FFBLY?si=NrDVr...

⛪🕯️⛪🕯️⛪🕯️⛪🕯️⛪🕯️⛪🕯️⛪

CENA 01-EXT/ENTRADA DE SÃO MIGUEL DAS PEDRAS-DIA

Uma placa com o letreiro indicando "São Miguel das Pedras", com as letras um pouco apagadas entre a vegetação. Um ônibus estaciona, parecendo deslo-
cado no tempo. A câmera se aproxima da porta enferrujada,que se abre com um gemido metálico. O som do vento é seco. As cigarras cantam ao longe.

MADALENA (Juliana Paes) desce com passos firmes. Usa um vestido simples e carrega uma mala gasta nas mãos. Mas nada apaga a imponência do seu olhar. É uma mulher feita que voltou do exílio. E voltou decidida.

NARRADOR (Voz grave,marcante):
Vinte e seis anos se passaram desde que Madalena foi expulsa de sua casa e da sua cidade como uma praga. Hoje, ela retorna. Não em busca de perdão... Mas de justiça.

Madalena encara a cidade como quem encara um inimigo antigo. Cada telha-
do, cada parede descascada, cada som-
bra guarda um fantasma. A câmera gira em 180°,revelando a cidade par-
ada no tempo.

MADALENA (baixo,para si mesma, com veneno contido): São Miguel das Pedras... Voltei. E agora,quem me fer-
iu,quem me enxotou daqui como uma cachorra sem dono... vai engasgar com a própria mentira. A justiça será feita, custe o que custar.

Ela caminha lentamente,observando cada canto.

MADALENA (com sangue nos olhos):
Agora vocês vão conhecer de verdade quem é Madalena das Graças Vaz de Albertino,a filha renegada pela pró-
pria mãe.

CORTA PARA:

Moradores a observam em silêncio. São vultos vivos da memória dela.

VELHA NO BATENTE (Bete Mendes) (rosnando para a vizinha,sem tirar os olhos dela): É ela... a filha da Irmã Ad-
élia. A Graça que embuchou e quase envergonhou a família inteira.

ZÉ RIBAS (Paulo Betti) (no boteco,cus-
pindo no chão): Graça Profana. Maldi-
ta. Deveria ter ficado enterrada para sempre no passado.

ALICE (Vanessa Gerbelli) (com o ave-
ntal sujo,cochicha com o padeiro):
Olha o jeito que ela anda... como se fosse dona do mundo. Sem um pingo de vergonha na cara.

JOÃO DO RÁDIO (Victor Fasano) (tirando os óculos escuros): Isso não vai prestar. Essa Graça Profana voltou com sangue nos olhos. O chão parece tremer por onde ela passa.

Madalena segue em frente. Não baixa os olhos. A música sobe num arranjo tenso, carregado de tambores graves e cordas lentas.

A câmera acompanha suas costas. A postura é reta, firme, como quem mar-
cha para um acerto de contas com o destino.

NARRADOR: Ela não quer piedade. Ela quer a verdade, ela quer justiça. E em São Miguel das Pedras... a verdade é o que mais apavora.

A câmera sobe em grua. Madalena ca-
minha solitária pela rua de terra, cer-
cada de olhares que julgam, temem e lembram. A poeira se levanta com o vento como um véu de guerra.

FADE OUT.

CENA 02-INT/SÃO MIGUEL DAS PEDRAS/ESCRITÓRIO DE ADVOCA-
CIA DE OTÁVIO-DIA

O ambiente é pequeno,abafado,marc-
ado pelo cheiro de papel velho e café requentado. Paredes com infiltrações, ventilador de teto girando preguiçoso.

Advogado Otávio Alcântara (Sérgio Guizé), de camisa amarrotada e óculos na ponta do nariz, revisa um calhama-
ço de documentos. O ranger da porta interrompe o silêncio. Ele levanta os olhos e congela por um instante.

Madalena está ali,de pé,como um fant-
asma do passado que exige respostas. Seus olhos não vacilam.

ADV. OTÁVIO (surpreso,disfarçando mal): Bom dia! No que posso... ajudar a senhora?

Madalena fecha a porta com firmeza. O clique seco ressoa como uma senten-
ça. Ela dá um passo à frente.

MADALENA (firme,incisiva): Bom dia! Vamos tirar o "senhora"?

ADV.OTÁVIO (sério): Sim, claro! Me desculpe,mas é a minha forma educa-
da de abordar mulheres do seu porte.

MADALENA (fria): Dispenso. Deixe-
me apresentar: meu nome é Madalena das Graças Vaz de Albertino.

ADV.OTÁVIO (aproxima-se): Prazer em conhecê-la! Eu sou o Doutor Otávio Alcântara. Em que posso te ajudar?

MADALENA (séria,olhar hipnotiza-
nte): Eu preciso de um advogado que não tenha medo desta cidade. Alguém que ainda não se vendeu para o sistema corrupto daqui de São Miguel das Pedras.

Otávio tira os óculos devagar,analisa-
ndo-a. Há algo nela uma fúria fria,um tipo raro de coragem.

ADV.OTÁVIO (cauteloso): E por que eu me arriscaria tanto assim?

Madalena abre a bolsa e retira uma fotografia antiga. Coloca-a sobre a mesa com precisão cirúrgica. A ima-
gem está gasta: um bebê envolto num manto branco. Manchas escurecidas borram os cantos.

MADALENA (voz baixa,cortante):
Porque você sabe que mentiram sobre essa criança. Assim como mentiram sobre a morte do seu pai.

A expressão de Otávio muda. Ele emp-
alidece. A mão treme sobre a fotog-
rafia.

ADV.OTÁVIO (desconfiado): Agora o papo ficou sério. Afinal,quem é você e o que sabe sobre o meu pai?

MADALENA (sarcástica): Sou uma renegada que voltou para São Miguel das Pedras em busca da verdade e da justiça e que sabe muito sobre seu pai, Haroldo Alcântara.

ADV.OTÁVIO (respira fundo): Sinto que estamos em sintonia e em busca dos mesmos ideais: justiça e verdade. Pensando bem, decidi que estou fecha-
do com você, Madalena.

MADALENA (caminha de um lado pa-
ra o outro, pensativa): Ótimo, Doutor Otávio! Lembro como se fosse hoje da-
quela noite chuvosa e cruel. Foi exata-
mente naquele dia que arrancaram um pedaço de mim e me enxotaram daqui.

CORTE BRUSCO PARA:

CENA 03-INT/CASA DA PARTEIRA DONA LOURDES (ANO 2000) [FLA-
SHBACK]-NOITE

Raios cortam o céu,trovões rugem à distância. A chuva castiga o telhado de uma casa simples, perdida no meio de uma vegetação densa. No interior, o ambiente é iluminado apenas por lam-
parinas tremulantes. O cheiro de ervas medicinais se mistura ao suor e ao san-
gue do parto.

MADALENA (grita,contorcendo-se na cama, agarrando os lençóis): AHHH!

É um meio grito,meio soluço. Ela está exausta, no limite de suas forças.

DONA LOURDES (segurando a mão da jovem, firme mas terna): Vai passar, menina... Respira fundo. Já está quase no fim...

FREIRA BERNADETE (Jussara Freire) (enxugando o suor da testa de Mada-
lena,com compaixão): Força, Mada-
lena... A criança já está vindo!

Um trovão ensurdecedor corta o ar. Madalena reúne o último fôlego e solta um grito rasgado,primitivo. A dor, o medo,o abandono tudo num som só. Silêncio depois. Mas não se ouve o ch-
oro do bebê.

DONA LOURDES (pega o bebê com cuidado,com o rosto tenso): A crian-
ça... Irmã Bernadete... (Ela lança um olhar aflito para a freira) Parece que nasceu morta.

Madalena,suada e exausta,olha para o pequeno corpo vulnerável nos braços de Dona Lourdes. Seus olhos se enchem de lágrimas. Uma expressão de amor e desespero se mistura.

MADALENA (sussurrando,quebra-
da): Meu amor... Me perdoa...

Ela toca suavemente o rostinho do bebê. Um gesto breve,eterno. Depois, abaixa a mão. Lágrimas silenciosas escorrem por seu rosto.

Freira Bernadete e Dona Lourdes tro-
cam um olhar sombrio. Ambas sabem que um pacto está sendo selado ali. Algo que já foi imposto antes mesmo daquela noite.

FREIRA BERNADETE (baixo,quase como se confirmasse uma sentença):
A criança nasceu morta. Não há nada que possamos fazer... As ordens são claras.

DONA LOURDES (com a voz falha, engolindo em seco): Esta criança... Está morta, minha filha...

Madalena fecha os olhos com força. Um grito abafado escapa por entre os dentes um lamento ancestral. Um tro-
vão ribomba como resposta dos céus.

EM CÂMERA LENTA:

Madalena curva o corpo para o lado, abraçando o próprio ventre vazio. Do-
na Lourdes segura o bebê com cuidado e o envolve num pano branco. A Freira Bernadete se aproxima do crucifixo na parede e faz o sinal da cruz.

FIM DO FLASHBACK.

CONTINUA NO PRÓXIMO PÔSTER

1 day ago | [YT] | 6

CineNovelas

TERRA DA GAROA • Capítulo 15 #edicaoespecial

escrita e criada por:
GUSTAVO BIANCK

Supervisão de:
EDGAR OLIVEIRA
FELIPE EMANUEL

direção geral:
DIOGO ITAMAR


abertura:
https://youtu.be/e6hU7lwusd4?si=oHjyp...

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CENA 01-PRAÇA DA CIDADE-
NOITE

RODRIGO: Eu não estou acreditando no que eu estou vendo...

ISABELLE: Ela te enganou,irmão. Você caiu feito um patinho!

RODRIGO: Eu vou matar essa pobre!

ISABELLE: Calma,Rodrigo! Não parte para a violência!

RODRIGO: Eu só quero ouvir o que ela tem para falar!

A câmera foca em Giovanna e seus pais.

ELISA: Não acredito que você tem a cara de pau de chamar a Giovanna pa-
ra ir ao cinema, eu não estou acredit-
ando!

GIOVANNA: Eu aceito ir, pai! A sen-
hora cala a boca, nunca me levou a um shopping!

MICHEL: Não precisa falar assim com a sua mãe, filha.

ELISA: Não precisa me defender, eu sei muito bem fazer isso!

Rodrigo puxa o braço de Giovanna.

RODRIGO: Sua vagabunda!

GIOVANNA: Rodrigo?!

RODRIGO: Sua golpista, queria me dar o golpe!

GIOVANNA: Eu nunca quis fazer isso, eu te amo!

RODRIGO: Você mentiu falando que era rica, filha de pais ricos, pais bran-
cos, mas na verdade é pobre e filha de uma empregada negra!

MICHEL: Que absurdo! Para com isso! Isso é racismo!

RODRIGO: Eu não estou nem aí para racismo! Você vai ver, eu vou acabar com você!

Rodrigo joga Giovanna no chão e vai embora. Isabelle tenta ajudar.

ISABELLE: Meu Deus,ele está descontrolado!

Michel levanta Giovanna. Elisa fica em choque.

MICHEL: É verdade o que ele falou?

GIOVANNA: É! Eu queria namorar uma pessoa rica, ser vista como rica, então menti. Eu sou pobre e tenho uma mãe negra! Nunca acharia um bom partido, pois negros são nojentos, negros são sujos e negros só servem para ser escravos!

Michel dá um tapa no rosto de Giovanna.

ELISA: Não bate na minha filha!

MICHEL: Olha o que ela falou, ela foi racista com você, a mãe dela!!

ISABELLE: Eu vou indo, espero que tudo fique bem.

Isabelle vai embora.

ELISA: Ela não sabe o que fala!

GIOVANNA: Eu odeio vocês!

Giovanna vai para a sua casa. Elisa começa a chorar, Michel aos poucos a abraça.

CENA 02-CASA DE MARIA VITÓRIA/SALA-NOITE

Rodrigo chega bufando de bravo. Isabelle chega atrás.

RITA: O que aconteceu?

MARIA VITÓRIA: Vocês estavam aonde?

RODRIGO: Na puta que pariu!

Rodrigo sobe as escadas e vai para o quarto. Ele tromba com Arthur, que desce para a sala.

ARTHUR: O que esse menino tem? Ele é descontrolado, é claro que não é meu filho! Não acredito que eu transei com uma mulher que já foi comida por um negro!

Maria Vitória não diz nada.

ANTENOR: Por que esse menino está assim?

ISABELLE: Ele descobriu que a Giov-
anna não é rica. Ela mentia para cons-
eguir ser da família.

RITA: Que horror!

ISABELLE: Ela é filha da Elisa, a nossa empregada.

Todos ficam em choque.

ARTHUR: Essa família está em decad-
ência! Os negros vão invadi-la por completo!

MARIA VITÓRIA: Chega, já cansei das suas falas racistas!

Arthur dá um tapa em Maria Vitória.

ISABELLE: Não bate nela!

Isabelle protege Maria Vitória.
ARTHUR: Vocês são todos do mesmo saco!

Arthur sai.

ANTENOR: O meu neto namorou uma golpista!

RITA: Uma golpista filha de uma negra! Onde esse mundo vai parar?

ISABELLE: O que a cor importa? A cor não diz nada! Ela podia ser filha de negro, branco, pardo, asiático, que não ia fazer diferença!

RITA: Credo, imagina um neto de olho puxado?!

Rita imita um asiático puxando os olhos.

MARIA VITÓRIA: Vocês nunca vão mudar, nunca... Só vão sossegar quando forem presos por racismo!

Maria Vitória vai se deitar no seu quarto. Isabelle vai para a cozinha.

CENA 03-APART. DE NADIR/ QUARTO DE NADIR-NOITE

Nadir e Otto estão deitados na cama.

OTTO: Nadir, você está me ajudando tanto nesses últimos tempos...

NADIR: Eu faço isso porque eu gosto muito de você!

OTTO: Eu nem sei como agradecer por tudo que você está fazendo por mim!

NADIR: Não quero nada em troca, só o seu sorriso já está bom!

OTTO: Só o sorriso?

Nadir e Otto se olham. Eles enfim se beijam.

Os dois começam a tirar as roupas. Os dois transam apaixonadamente na cama.

CENA 04-APART. DE DANILO/ SALA-DIA

Danilo está sozinho em casa, trabalh-
ando no notebook. A campainha toca. Ele atende, é Maria Vitória.

DANILO: Maria?

MARIA VITÓRIA: Eu tenho uma coisa para te contar, Danilo.

DANILO: O quê?

MARIA VITÓRIA: Posso entrar?

DANILO: Claro!

Maria Vitória e Danilo se sentam no sofá.

DANILO: O que tem para me contar?

MARIA VITÓRIA: Danilo, quando você foi preso, eu me desesperei. Eu não contei para ninguém, mas me casei grávida.

DANILO: Como assim?

MARIA VITÓRIA: Eu me casei com o Arthur grávida de você.

DANILO: O quê?

MARIA VITÓRIA: O Rodrigo é seu filho.

DANILO: Peraí, o seu filho com o Arthur na verdade é meu filho?

MARIA VITÓRIA: Isso...

DANILO: Eu perdi 22 anos da minha vida! Perdi 22 anos ao seu lado, 22 anos ao lado do meu filho, perdi minha vida! E é tudo culpa da Rita!

MARIA VITÓRIA: Eu sinto muito...

DANILO: A sua mãe tirou a minha vida! Agora você entende o porquê de eu querer me vingar dela?

MARIA VITÓRIA: Por mais que ela seja a minha mãe, eu te entendo, Danilo! E é por isso que eu vou me separar do Arthur e vou sair daquela casa para viver ao seu lado!

DANILO: É sério?

MARIA VITÓRIA: É sério! Eu te amo e quero viver ao seu lado!

DANILO: Eu também quero, quero muito!

Os dois se beijam. Eles estão apaixona-
dos, os dois se abraçam apaixonad-
amente.

CENA 05-APART. DE TATINA/ QUARTO-DIA

Tatina está limpando o seu quarto.

TATINA: Isso aqui está uma zona! Cheio de poeira!

Tatina limpa debaixo da cama e puxa uma carta.

TATINA: O que é isso?

Tatina pega a carta e lê.

TATINA: "Deixei um recado para você debaixo do balcão do apartamento do Danilo. Assinado: Lucilene."

Tatina acha estranho.

TATINA: Recado? Bem, vou terminar de limpar e vou lá ver.

Tatina continua a limpar o quarto.

CENA 06-RESTAURANTE DE DÉBORA-MEIO-DIA

A câmera filma o restaurante de Débo-
ra, está lotado de gente. O movimento está grande.

DÉBORA: Adoro a felicidade do brasileiro! Olha a agitação! Adoro demais!

JUREMA: Hoje isso vai dar lucro!

DAN: Vai ser o dia mais lucrativo do ano!

Cecília e Santiago entram no restaura-
nte e vão até Débora.

CECÍLIA: Olá!

DÉBORA: Oi, querida!

SANTIAGO: Viemos almoçar, a comida do seu restaurante é maravilhosa!

DÉBORA: Muito obrigada! Vão querer acarajé?

CECÍLIA: Eu sou apaixonada por acarajé! Eu fiquei por um tempo na Bahia, numa cidade do interior, Uauá.

JUREMA: Que coincidência, eu e a Débora moramos lá por muito tempo.

CECÍLIA: Sério? Nossa!

DÉBORA: Acho que é por isso que somos amigas!

CECÍLIA: Sim! Você foi à vidente?

DÉBORA: Fui! Ela disse que uma loira vai aparecer, não entendi muito bem. Vou esperar a tal loira aparecer! (RI)

CECÍLIA: Que loira será essa?

DÉBORA: Não faço a mínima ideia!

JUREMA: Nem eu!

Cecília e Santiago se sentam em uma mesa. Eles pedem um acarajé.

CENA 07-AVENIDA PAULISTA-TARDE

A câmera filma a Avenida Paulista, as pessoas andando, e foca em Rita e Isabelle caminhando por lá.

RITA: Nunca me imaginei andando na Avenida Paulista!

ISABELLE: Vó,aqui é um lugar comum, qualquer pessoa vem aqui, rico e pobre.

RITA: Eu acho um horror, esse monte de gente!

Uma manifestação antirracismo está acontecendo em uma rua, as pessoas pedem direitos às pessoas negras.

RITA: Olha aquilo, uma vergonha!

ISABELLE: Vó, eles estão querendo os direitos deles, eles estão certos! Pessoas negras merecem ter direitos iguais aos brancos!

RITA: Você já sabe a minha opinião!

ISABELLE: Isso não é opinião, é racismo, e racismo é crime!

RITA: Bobagem! Vamos embora logo!
Isabelle e Rita chamam um táxi.

CENA 08-APART.DE DANILO/ COZINHA-TARDE

Tatina toca a campainha. Ninguém atende, ela abre a porta e consegue entrar.

TATINA: Que estranho, não tem ninguém e a porta está aberta...

Tatina vai até a cozinha.

TATINA: Agora é só achar esse recado!

Tatina começa a procurar e acha um gravador de voz debaixo do balcão. Ela o pega.

TATINA: O que será que tem aqui?

A câmera foca em Tatina olhando para o gravador.

CENA 09-CASA DE MARIA VITÓRIA/SALA-TARDE

Rita e Isabelle chegam em casa.

RITA: Não aguentava mais andar!

ISABELLE: Confesso que fiquei surpresa com a senhora, vó.

RITA: Surpresa com o quê?

ISABELLE: De a senhora ir à Avenida Paulista comigo.

RITA: Só fui porque tinha muitos problemas em minha cabeça e queria esquecer deles um por um!

ISABELLE: E esqueceu?

RITA: Mais ou menos!

ISABELLE: Espero que a senhora esqueça. Vou para o quarto!
Isabelle vai para o quarto. A campainha toca.

RITA (GRITA): Elisa!!

Ninguém responde.

RITA: Será que a Elisa não veio hoje? Estranho...

Rita vai atender a porta. É uma mulher loira virada de costas. Rita se assusta.

RITA: Quem é você?

A mulher se vira e assusta Rita.

RITA [ASSUSTADA]: Mas é o capeta vivo em pessoa!

CLEIDE: Você deve ter muitos capetas em sua vida, querida. E também deve ser uma capeta na vida de muitas pessoas, né, Ritinha?

Rita fica desesperada.

A câmera foca em Cleide debochando de Rita.

FIM DO CAPÍTULO

1 day ago | [YT] | 14

CineNovelas

ASSIM QUE SÃO ELAS • Capítulo 24

escrita e criada por:
JOÃO VITOR PRADO
E ANTÔNIO FERRO

colaboração de:
ANTÔNIO FERRO

supervisão de:
EDGAR OLIVEIRA

direção geral:
DIOGO ITAMAR

abertura:

✨💃✨💃✨💃✨💃✨💃✨💃✨

CENA 01-CASARÃO/MONTE AMARO-NOITE

A tensão ainda paira no ar,o clima pe-
sado permanece o mesmo desde o iní-
cio do encontro. As cinco amigas conti-
nuam paradas no mesmo espaço, diante da Cigana, que mantém o olhar firme e cheio de significado para cada uma delas.

CIGANA: A amizade de vocês é mais forte que qualquer coisa que exista. Nem o tempo, que passa e muda tudo ao redor, conseguiu separar o que foi construído entre nós. Isso é algo que ninguém e nada pode apagar.

PENÉLOPE: Isso é… realmente surp-
reendente. Eu nunca imaginaria ouvir algo assim,nem que essas ligações fo-
ssem tão profundas quanto você diz. Mas ao mesmo tempo tudo isso é estranho gente.

SANDRINHA: Olha,acho que já está na hora de nós irmos embora. Eu mes-
ma já estou carregando muitas coisas nos meus ombros, problemas que são meus e que eu preciso resolver, e ficar aqui mais tempo só me deixa ainda mais inquieta.

CIGANA: Entendo. Podem voltar qua-
lquer dia que quiserem, quando senti-
rem que precisam ou que têm alguma pergunta a fazer. As portas deste lu-
gar estarão abertas para vocês sem-
pre. Boa sorte a todas vocês! Amoras..

As cinco trocam olhares rápidos entre si, um misto de confusão, curiosidade e vontade de partir. Sem dizer mais nada
,elas se afastam depressa, caminhando em direção à saída. A Cigana, por sua vez, vira-se e começa a subir as esca-
das lentamente, desaparecendo da visão delas enquanto deixa o ambiente em silêncio novamente.

CENA 02-MONTE AMARO-NOITE

Elas saem do casarão com pressa, e as portas pesadas se fecham atrás delas com um baque seco. Descem os degr-
aus todas juntas, como se quisessem se afastar o mais rápido possível daquele lugar.

MARLENE: Eu não acredito que perdi tempo da minha vida com isso. Era só conversa e nada que realmente valesse a pena saber.

CHLOÉ; Eu também estou decepcio-
nada. Tenho tantas coisas para fazer em casa, tarefas que já devia ter termi-
nado, e perdi horas aqui à toa.

ZARA: Talvez não tenha sido totalm-
ente em vão. Ela falou com tanta convi-
cção… quem sabe ela não esteja dizen-
do a verdade sobre tudo o que contou?

SANDRINHA: Verdade? Isso não exi-
ste nem de longe. Parece mais um rote-
iro de novela,daqueles cheios de histó-
rias inventadas para impressionar e deixar as pessoas confusas. Obrigada, mas prefiro continuar sendo uma Hel-
ena do Manoel Carlos.

Elas param de andar e se posicionam em círculo, como se quisessem trocar uma última ideia antes de seguirem caminhos diferentes.

PENÉLOPE; Eu, por mim, já quero chegar em casa e me benzer. Sinto que não estou com sorte ultimamente, e es-
sa mulher… ela causa arrepios na minha pele, não sei explicar direito.

ZARA: Sinto exatamente a mesma coisa. É uma sensação ruim, que fica grudada na gente mesmo depois de sair de perto dela.

CHLOÉ: Bom,o que importa agora é que já estamos fora daqui. O melhor é cada uma ir para o seu lado e esquecer o que aconteceu hoje.

MARLENE: Pois é,e nessa hora já devo ter perdido o último ônibus que passa perto da minha casa. Agora não sei como vou voltar.

PENÉLOPE: Não se preocupa, eu levo você. Tenho o meu Fusca ali estacion-
ado, e também vou dar carona para a Zara, já que o caminho é quase o mesmo.

SANDRINHA: Eu também vim de car-
ro, caso alguém precisa de carona..

MARLENE: Que bom, muito obrigada, Penélope. E obrigada também, Sandr-
inha, por se dispor a ajudar.

SANDRINHA: De nada.

PENÉLOPE: Então está combinado. Foi um prazer enorme reencontrar vocês, mesmo que o dia não tenha saído como esperávamos. Até mais!

Penélope, Marlene e Zara seguem na mesma direção,conversando baixinho enquanto caminham. Ficam apenas Sa-
ndrinha e Chloé paradas ali.

CHLOÉ: A minha casa é logo ali, pert-
inho, então eu vou seguir a pé mesmo. Aproveito o caminho para respirar um pouco melhor. Até outra hora, Sandri-
nha.

SANDRINHA: Até, Chloé. Boa noite!

Chloé acena e vai embora. Poucos seg-
undos depois, Polly aparece atrave-
ssando a rua, chega perto de Sandr-
inha e para.

POLLY: E aí, como foi tudo lá dentro? Quem era?

SANDRINHA: Entra no carro que eu conto tudo no caminho. Sério, foi uma experiência bem bizarra, não sei nem como explicar direito.

As duas entram no veículo, e ele sai devagar, deixando a frente do casarão para trás.

CENA 03-SALA/CASA DE CHLOÉ/ MONTE AMARO-NOITE

Eduardo está sentado no sofá da sala, com um livro aberto nas mãos, mas mal presta atenção nas palavras. De vez em quando, levanta os olhos e olha o reló-
gio na parede; o tempo passa, e Chloé ainda não chegou. Uma inquietação começa a crescer dentro dele.

EDUARDO: Cadê você, amor? Já está tão tarde, e nada de aparecer. Eu já estou ficando muito preocupado, algo deve ter acontecido. Será?!

Ele se levanta do sofá, anda de um lado para o outro na sala, sem conseguir ficar parado. De repente, a campainha toca alto,ecoando pelo ambiente. Edua-
rdo vai depressa até a porta, abre com pressa esperando ver a namorada,mas se surpreende ao encontrar Alfredo parado ali.

EDUARDO: Alfredo? O que você está fazendo aqui, a essa hora?

ALFREDO: Preciso conversar com você. É um assunto sério, e não podia esperar mais.

EDUARDO: Claro.. Pode entrar. Pode-
mos conversar aqui mesmo na sala.

ALFREDO: Prefiro que seja fora de casa. Tem um bar bem aqui perto, um lugar calmo onde ninguém vai nos incomodar. Lá podemos falar com mais liberdade.

Eduardo concorda, pega a carteira e a chave da porta, fecha tudo direitinho e sai acompanhando Alfredo, rumo ao estabelecimento que ele mencionou.

CENA 04-CASA DE PENÉLOPE/ MONTE AMARO-NOITE

Penélope chega em casa e entra pela porta da sala. Dona Fátima, que estava arrumando algumas coisas, para o que fazia e olha para a filha com curiosi-
dade.

DONA FÁTIMA: E onde é que você estava até essa hora, minha filha? Saiu sem dizer direito o que ia fazer.

PENÉLOPE: Fui ao tal encontro miste-
rioso que eu comentei com você. Aque-
le que algumas amigas minhas também foram.

DONA FÁTIMA: Encontro misterioso… será que não é desculpa para outra coisa? Você não tem nenhum amante, não é? Porque se tiver,é melhor contar logo agora.

Penélope começa a rir, achando graça da ideia da mãe.

PENÉLOPE: Claro que não, mãe! Eu, com amante? Que ideia mais absurda! Eu amo o João, e só ele me interessa. Nunca faria algo assim.

DONA FÁTIMA: Ah, mas nada impe-
de, não é mesmo? Você é muito miste-
riosa às vezes, sai, chega, e não conta tudo o que acontece. Fico sempre pensando o que está acontecendo com você.

As duas se sentam lado a lado no sofá, e Penélope se ajeita melhor para conversar.

PENÉLOPE: E os meninos? E o João, onde eles estão?

DONA FÁTIMA: Foram até o mercado comprar algumas coisas, querem fazer um jantar especial hoje à noite. Devem chegar daqui a pouco.

PENÉLOPE: Então, sobre o encontro… foi tudo muito estranho, mãe. Tão esquisito que até agora eu não entendo direito o que aconteceu.

Ela começa a contar cada detalhe do que viveu, desde a entrada no casarão até a conversa com a Cigana, enquanto Dona Fátima escuta com atenção, sem perder uma palavra.

CENA 05-QUARTO/COBERTURA/ MONTE AMARO-NOITE

Na cobertura do prédio, Lorena está sentada na borda da cama do seu qua-
rto. Tem nas mãos um álbum de foto-
grafias, e folha as páginas devagar, parando nas imagens da mãe. As lág-
rimas descem pelo seu rosto sem bar-
ulho, sem soluços, apenas uma tristeza profunda que transborda. Ela chora em silêncio, como se todo o peso da saudade estivesse caindo sobre os seus ombros naquele momento.

Depois de algum tempo, ela fecha o álb-
um, levanta-se e fica parada olhando na direção da sacada. As cortinas de tecido leve balançam suavemente, em-
purradas pelo vento que entra de fora. Lorena caminha devagar até lá, chega à grade e olha para o céu: a lua brilha forte,cheia,iluminando toda a cidade abaixo.

Ela pega um banco que estava ali perto, coloca bem na frente da sacada e sobe em cima. Fica de pé, de frente para o lado de fora, e abre os braços devagar, como se quisesse abraçar o vento ou se entregar ao que sentia. Num movime-
nto rápido, ela passa para o lado de fora do vidro, ficando apenas apoiada na grade, com todo o vão lá embaixo. Olha para baixo e respira fundo, o coração disparado, com uma vontade enorme de deixar-se cair.

De repente, um pé escorrega. Lorena perde o equilíbrio e cai, mas consegue segurar-se com as duas mãos na parte superior da sacada, pendurada no vão. Ela grita alto, cheia de medo. Olha pa-
ra baixo e vê a altura imensa, um abi-
smo que parece não ter fim.

LORENA: Socorro! Alguém me ajuda, por favor!

O grito ecoa pelo ar, e Silas, o síndico do prédio, que estava fazendo a ronda externa, ouve e olha para cima. Ao ver a cena, fica desesperado.

SILAS: Lorena! Segura firme, não solta! Eu já vou ajudar!

LORENA: Silas! Por favor, me salva! Eu vou morrer se cair daqui!

O desespero toma conta dos dois. Lo-
rena tenta segurar o máximo que pode, os dedos já doem e começam a escorre-
gar um pouco, mas ela faz força para não deixar as mãos saírem do lugar.

SILAS: Aguenta só mais um pouco! Já estou chamando ajuda, já vêm aí pessoas para te tirar daí!

LORENA: Eu não vou aguentar muito mais… minhas mãos estão escorreg-
ando…

Ela fecha os olhos com força, respira fundo novamente e reúne toda a força que ainda tem, tentando se manter seg-
ura, lutando contra o medo e contra o cansaço, enquanto o perigo de cair está cada vez mais perto. O capítulo termi-
na com ela ali, pendurada, fazendo força para sobreviver.

FIM DO CAPÍTULO

2 days ago | [YT] | 17

CineNovelas

O silêncio que se segue é absoluto. Um silêncio que condena e sela o pacto de hipocrisia. O Padre Augusto faz o sinal da cruz de forma mecânica. O Delega-
do acena levemente. O Prefeito ajeita a gravata, limpando o suor da testa.

Dona Adélia levanta-se devagar, ajus-
tando o xale escuro nos ombros. Não há lágrimas, não há hesitação.

NARRADOR : Em São Miguel das Ped-
ras,pecar em silêncio é melhor do que viver na verdade. E quando a fé se curva ao julgamento dos homens… A justiça divina se cala. Mas nunca… Por muito tempo.

CORTE PARA:

CENA 04-EXT/IGREJA-NOITE

Instrumental On:
https://youtu.be/Q8FSTRXdtBg?si=nYe26...

Uma garoa fina desce sobre a cidade deserta. As luzes das casas tremem ao longe. Um trovão ecoa entre os montes, sugerindo que o próprio céu chora.

LETREIRO:
NOVE MÊSES DEPOIS....

CENA 05-INT/CASA DA PARTEIRA DONA LOURDES (ANO 2000)-
NOITE

Uma noite de tempestade violenta. Rai-
os cortam o céu e a chuva castiga o telhado da casa simples, isolada por uma vegetação densa. No interior,o ambiente é precário, iluminado por lamparinas de querosene. O cheiro de ervas cozidas se mistura ao ambiente tenso do parto. Madalena está na ca-
ma, pálida, ensopada de suor, agara-
ndo os lençóis com os dedos cravados.

MADALENA (grita,contorcendo-se de dor): AHHH! (o grito falha,virando um soluço de exaustão)

A parteira, Dona Lourdes (FERNAN-
DA MONTENEGRO), segura a mão de Madalena com firmeza e ternura, enq-
uanto a Freira Bernadete (JUSSARA FREIRE) ajuda no amparo.

DONA LOURDES: Vai passar, meni-
na... Respira fundo. Já está quase no fim...

FREIRA BERNADETE (enxuga o suor da testa de Madalena, penalizada): Força, Madalena... A criança já está vindo!

Um trovão ensurdecedor estremece as paredes da casa. Madalena reúne suas últimas forças e solta um grito rasga-
do, primitivo um som que carrega toda a dor do abandono. Em seguida, um silêncio angustiante toma o quarto. Não se ouve o choro de um recém-
nascido. Dona Lourdes limpa o bebê rapidamente, com o semblante tenso.

DONA LOURDES (voz trêmula, olha-
ndo para a freira): A criança... Irmã Bernadete... Parece que nasceu morta.

Madalena, sem forças, gira a cabeça lentamente na almofada. Ela foca as pupilas no pequeno corpo vulnerável nos braços de Lourdes. Seus olhos transbordam.

MADALENA (sussurrando,com o cor-
ação partido): Meu amor... Me perd-
oa...

Instrumental On:
https://youtu.be/smWDooFVi_Q?si=61Tlh...

Com a ponta dos dedos trêmulos, Ma-
dalena toca suavemente a bochecha do bebê. Um gesto rápido, porém eterno. Sua mão cai, desfalecida. A Freira Bernadete e Dona Lourdes trocam um olhar sombrio, carregado de culpa coletiva. O destino daquela criança já havia sido selado por forças maiores antes mesmo do parto.

FREIRA BERNADETE (em voz baixa, executando o protocolo combinado):
A criança nasceu morta. Não há nada que possamos fazer...

DONA LOURDES (engole em seco, de-
sviando o olhar): Esta criança... Está morta, minha filha...

Madalena fecha os olhos com força. Um gemido abafado escapa por seus dentes um lamento de alma. O trovão lá fora ribomba como uma resposta viol-
enta da natureza.

CÂMERA LENTA:

Madalena encolhe as pernas, abraça-
ndo o próprio ventre agora vazio. Do-
na Lourdes envolve o bebê silencios-
amente em um pano branco. A Freira Bernadete caminha até o crucifixo na parede e faz o sinal da cruz, de costas para a mãe.

NARRADOR: Naquela noite, o mundo acreditou que a criança havia morrido. Mas a verdade... Jamais se enterra por completo.

CORTE PARA:

Instrumental On:
https://youtu.be/gl08IhYazlA?si=5hVu_...

A tempestade ruge do lado de fora. A casa cai em um silêncio sepulcral. Mas, nos olhos semiabertos de Madalena, uma faísca de dor se transforma em algo perigoso.

FADE OUT.

CENA 06-EXT/ENTRADA DE SÃO MIGUEL DAS PEDRAS (ANO 2000) -MADRUGADA

A madrugada é densa e fria. Mada-
lena é empurrada para o chão batido por dois capangas civis. Ela está páli-
da, exausta, segurando uma mala de papelão velha contra o peito. A poucos metros dali, parado no acostamento, está o carro preto do Prefeito. Através do vidro fumê traseiro, vemos a silhu-
eta de Dona Adélia. Seus olhos brilham na escuridão, assistindo a tudo friame-
nte, como um predador que garante a execução do serviço. O Delegado Joaquim desce do banco do carona e para diante de Madalena, com as mãos na cintura.

DELEGADO JOAQUIM (ríspido, ame-
açador): A partir de agora... Você está morta para esta cidade. Se colocar os pés em São Miguel de novo, vai pagar muito caro. Homem avisado não morre em guerra.

Joaquim dá as costas, entra no cambu-
rão e as portas batem. O veículo dá marcha à ré e desaparece na neblina, deixando apenas o rastro de fumaça e o som do motor sumindo no horizonte. Silêncio total. Apenas o assobio do vento cortante.

Instrumental On:
https://youtu.be/mCFjndBkwM8?si=dbUol...

Madalena permanece de joelhos na terra úmida. Sozinha. Ela se levanta devagar, limpando a poeira da saia. Seus olhos vermelhos miram os conto-
rnos da cidadezinha ao longe. O choro cessa. A fragilidade desaparece; suas feições se endurecem.

MADALENA (voz firme, cortante co-
mo navalha): Custe o tempo que cus-
tar… Eu vou voltar,São Miguel das Pedras. Vocês não vão me apagar. Não vão apagar a minha história. Vocês não perdem por esperar...

Ela aperta a alça da mala com força, ergue o queixo e dá o primeiro passo em direção à estrada escura.
A câmera se afasta em plano geral aéreo; a figura de Madalena vai sendo engolida pela névoa densa.

Trilha Sonora On:
https://youtu.be/v8DOybU8eEM?si=wNjIR...

FADE OUT.

LETREIRO: VINTE E SEIS ANOS DEPOIS (ANO 2026)

CENA 07-INT/CASA DE DONA AD-
ÉLIA/QUARTO (ANO 2026)- MADRUGADA

O quarto está mergulhado na penum-
bra. Um abajur de cabeçote antigo projeta uma luz fraca sobre um altar pessoal modesto. Sobre ele: uma Bíblia aberta, um terço de madrepérola e uma foto analógica, já amarelada pelas décadas, de Madalena (JULIANA PAES), sorrindo. Dona Adélia está sentada na cadeira de balanço diante do altar. O tempo foi cruel com suas feições; rugas profundas marcam sua expressão de amargura. Seus dedos, severamente castigados pela artrose, passam lentos pelas contas do terço. Seus olhos velhos e cansados estão fixos na foto da filha expulsa.

DONA ADÉLIA (sussurrando,voz trê-
mula e embargada): O que eu fiz… Foi para proteger a reputação da nossa família… Da nossa fé… Desta cidade. Você nunca vai entender, Madalena… O que uma mãe de verdade é capaz de fazer para manter o nome de seus ant-
epassados limpo...

A sombra projetada de Dona Adélia cresce na parede do quarto, assemel-
hando-se a um espectro que carrega o peso de seus próprios pecados.

A câmera inicia um lento zoom in no rosto congelado da jovem Madalena na fotografia amarelada,até que o enqua-
dramento se perca no preto total.

~ FIM DO CAPÍTULO ~

2 days ago | [YT] | 17