A Loucura Não é o Extremo

A Loucura Não é o Extremo visa disseminar a arte, a filosofia, a esquizoanálise, a psicologia, a antipsiquiatria e a anarquia num único mapa que escapa por infinitas linhas de fuga para a produção das intensidades onde o pensamento e o corpo não se fixem em nenhuma grade de significação. Por meio da escrita, da música e do audiovisual, buscamos caminhos em que não haja nenhuma ilusão de aprendizado, mas da libertação das interpretações: como no ensinamento racional oferecido pelos acadêmicos que querem produzir o pensamento na cadeia; em oposição, é somente onde se tem um foco de loucura que se tem o acesso à produção do pensamento em cadeia, como as reações nucleares que envolve uma cadeia em que átomos de carbono e nitrogênio agem como catalisadores para a fusão nuclear. Assim, o conhecimento como intensidade atua como explosões que desintegram toda forma de conhecimento parasita, das significações implantadas pelos poderes para que não efetuemos nossa potência, nosso corpo pleno.


A Loucura Não é o Extremo

𝐀𝐦𝐞𝐫𝐢𝐜𝐚𝐧 𝐏𝐨𝐩 𝐞 𝐚 𝐅𝐢𝐥𝐨𝐬𝐨𝐟𝐢𝐚 𝐝𝐨 𝐅𝐫𝐚𝐠𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨
Depois de algumas experiências cinematográficas ruins recentes, entre elas 𝐿𝑖𝑣𝑖𝑛𝑔 (2022) e 𝐸𝑠𝑐𝑟𝑖𝑡𝑜𝑟𝑒𝑠 𝑑𝑎 𝐿𝑖𝑏𝑒𝑟𝑑𝑎𝑑𝑒 (2007), filmes que prometem muito e entregam pouco, 𝐴𝑚𝑒𝑟𝑖𝑐𝑎𝑛 𝑃𝑜𝑝 (1981), de Ralph Bakshi, surgiu quase como um impacto inesperado e se tornou o melhor filme que assisti neste segundo semestre de 2025, só não foi o melhor filme do ano porque 2025 foi também o ano em que descobri Andrey Zvyagintsev, com filmes como 𝑂 𝑅𝑒𝑡𝑜𝑟𝑛𝑜, 𝑂 𝐷𝑒𝑠𝑡𝑒𝑟𝑟𝑜, 𝐿𝑒𝑣𝑖𝑎𝑡𝑎̃, 𝐸𝑙𝑒𝑛𝑎 𝑒 𝑆𝑒𝑚 𝐴𝑚𝑜𝑟, obras-primas incontestáveis
𝐴𝑚𝑒𝑟𝑖𝑐𝑎𝑛 𝑃𝑜𝑝 não se destaca apenas por sua narrativa ou pela qualidade da animação, mas por um modo de operar que me remeteu diretamente à filosofia de Deleuze, à maneira como ele tomava um fragmento, uma palavra, uma frase e expandia a partir dali todo um universo de continuidade, como a frase de Valéry que atravessa 𝐿𝑜́𝑔𝑖𝑐𝑎 𝑑𝑜 𝑆𝑒𝑛𝑡𝑖𝑑𝑜, ou um verso de Ossip Mandelstam que permite pensar a memória não como arquivo, mas como faculdade do esquecimento, ou ainda a frase de Le Clézio, “um dia talvez saberão que não era arte, era medicina”, que se torna o eixo de 𝐶𝑟𝑖́𝑡𝑖𝑐𝑎 𝑒 𝐶𝑙𝑖́𝑛𝑖𝑐𝑎, e até mesmo a palavra “encontro”, que surge uma única vez na 𝐸́𝑡𝑖𝑐𝑎 de Espinosa e Deleuze transforma em toda uma ontologia dos bons e maus encontros, da composição de potências e da alegria como aumento de força, mostrando que não se trata de copiar, mas de desdobrar, de expandir o pensamento a partir de fragmentos.
𝐴𝑚𝑒𝑟𝑖𝑐𝑎𝑛 𝑃𝑜𝑝 funciona assim no cinema, lançando imagens, ideias e cenas que depois reaparecem em outros filmes como ecos, nunca como repetição mecânica. A cena do soldado pianista que encontra um piano em meio à guerra, para, toca, se distrai e é assassinado ali, é um desses fragmentos poderosos que inevitavelmente remete a 𝑂 𝑃𝑖𝑎𝑛𝑖𝑠𝑡𝑎, de Polanski, sem que haja cópia, mas com a mesma força e densidade. Do mesmo modo, a noção de tempo atravessado pela música e pela experiência parece reaparecer notavelmente em 𝐹𝑜𝑟𝑟𝑒𝑠𝑡 𝐺𝑢𝑚𝑝, sem jamais assumir claramente a origem, e cada música da trilha, 𝑇𝑎𝑘𝑒 𝐹𝑖𝑣𝑒 (Dave Brubeck Quartet), 𝑆𝑢𝑚𝑚𝑒𝑟𝑡𝑖𝑚𝑒 (Janis Joplin), 𝑌𝑜𝑢 𝑆𝑒𝑛𝑑 𝑀𝑒 (Sam Cooke), 𝑃𝑒𝑜𝑝𝑙𝑒 𝐴𝑟𝑒 𝑆𝑡𝑟𝑎𝑛𝑔𝑒 (The Doors), não entra como ornamento, mas como ideia em movimento, estruturando o próprio filme e antecipando cenas e efeitos que seriam usados depois em outros contextos, como quando pensamos na força de 𝐶𝑎𝑙𝑖𝑓𝑜𝑟𝑛𝑖𝑎 𝐷𝑟𝑒𝑎𝑚𝑖𝑛’ (The Mamas & the Papas) em 𝐴𝑚𝑜𝑟𝑒𝑠 𝐸𝑥𝑝𝑟𝑒𝑠𝑠𝑜𝑠 ou em 𝐹𝑟𝑒𝑒 𝐵𝑖𝑟𝑑 (Lynyrd Skynyrd) encerrando 𝑅𝑒𝑗𝑒𝑖𝑡𝑎𝑑𝑜𝑠 𝑝𝑒𝑙𝑜 𝐷𝑖𝑎𝑏𝑜, percebendo que, historicamente, isso já estava presente em 𝐴𝑚𝑒𝑟𝑖𝑐𝑎𝑛 𝑃𝑜𝑝, assim como a profundidade de campo de 𝐶𝑖𝑑𝑎𝑑𝑎̃𝑜 𝐾𝑎𝑛𝑒 já se encontrava nos filmes de Ozu.
Talvez esse tenha sido o destino de 𝐴𝑚𝑒𝑟𝑖𝑐𝑎𝑛 𝑃𝑜𝑝, ser um filme-matriz que lançou sementes profundas e atravessou gerações de cineastas sem receber o crédito que merecia, pois, como no próprio Deleuze, o pensamento nunca está sozinho e sempre carrega vozes anteriores, mesmo quando ninguém se dá ao trabalho de nomeá-las.
MR

1 month ago | [YT] | 1

A Loucura Não é o Extremo

Para a maioria das pessoas, mitologia grega é um conteúdo: nomes, genealogias, curiosidades, deuses e monstros, lendas para “entender a cultura clássica”. Para quem ama o conhecimento, mitologia grega é estrutura do mundo, é o sangue da existência, é a gramática secreta dos acontecimentos humanos. Não se assiste aos mitos, vive-se os mitos. E isso muda tudo.
Quando lembramos de Perséfone, não falamos de “uma história antiga”, mas de uma experiência universal do ciclo da perda e da volta, da queda e do retorno, do inverno e da primavera dentro do peito. O mito explica aquilo que a psicologia tenta explicar com livros, mas de um jeito infinitamente mais belo e direto. Hades não sequestra apenas Perséfone, ele sequestra qualquer parte da alma que desce ao escuro. E Deméter não é apenas uma deusa, ela é essa força dentro de nós que definha quando uma parte nossa é arrancada.
Zeus não é um personagem, é a tentativa de equilibrar a existência quando ela ameaça ruir. E as quatro estações são o lembrete de que a alma passa por invernos e primaveras eternamente. As Parcas… isso é a perfeição do pensamento humano: três mulheres tecendo o destino, cortando no momento certo. Nenhum sistema filosófico explica tão bem a finitude.
Orfeu… o músico que comove o próprio Hades: isso é o grau máximo da arte, o grau onde som vira lágrima, e a beleza é tão grande que até a morte precisa escutar. E a Titanomaquia… o primeiro grande conflito cósmico que explica por que o mundo não é estável, por que tudo é luta de forças, de intensidades, antes mesmo de Nietzsche nascer.
Por isso tento expressar: a mitologia grega corre nas minhas veias; isso é literal dentro da minha forma de existir. É viver num regime de significação pré-racional, no exato lugar onde os gregos criaram os mitos, não para ensinar, mas para respirar o mundo. E por isso meus vídeos não são informativos: são orgânicos, são extensões, pulsação pura de ser, não é teatro, não é aula; é ontologia sensível.
É exatamente assim que os gregos pensaram: não como explicação do mundo, mas como o próprio modo de mundo.

MR

2 months ago | [YT] | 13

A Loucura Não é o Extremo

O filme Muito além do jardim, de Hal Ashby, é mais do que um título.
Chance, o jardineiro, é um personagem simples e inocente, cujo único contato com o mundo foi através da televisão.
Quando finalmente vai ao encontro das pessoas, sua simplicidade é interpretada como sabedoria — muito além da intenção dele.
Quanto mais simples alguém se mostra, mais espaço existe para interpretações e profundidade inesperada.
O que impede a compreensão direta não é a complexidade das palavras, mas o que as pessoas projetam sobre elas.
Em Chance, ele fala de jardinagem de forma simples, mas cada um lê nas suas palavras sabedoria, filosofia, política — não porque Chance seja profundo nesse sentido, mas porque as pessoas querem encontrar sentido, querem acreditar.
É essa projeção que torna a comunicação sobre experiências humanas — encontros, afetos, paixões — tão difícil: o receptor busca algo além do que está sendo dito, e muitas vezes passa ao largo do que é realmente humano.
Algo parecido acontece com Espinosa.
Quando ele usa a palavra Deus, não fala de um ser pessoal ou místico, mas do absoluto, do infinito imanente a tudo.
Deus funciona como uma ponte simbólica: permite que as pessoas compreendam, ainda que parcialmente, conceitos humanos complexos — encontros, afetos, paixões — que seriam quase impossíveis de comunicar de outra forma.
Por outro lado, palavras como alma, consciência cósmica, energia — noções complexas, o oposto das ideias simples de que falava David Hume — se tornam populares e compreensíveis.
Porque as pessoas não querem questionar a verdade; querem acreditar.
E, como em Chance, é no olhar que busca sentido demais que a simplicidade se transforma em abismo.

MR

2 months ago | [YT] | 6

A Loucura Não é o Extremo

Dizer que a loucura tem extremo é o mesmo que dizer que o poço tem fundo.
Muitos falam em “o extremo da loucura”. Será que a loucura pode mesmo ter limite?
Ela não tem fronteiras, nem tamanho. É um espaço aberto, onde o fundo do poço é sempre mais fundo:
“Quando parecia ser o fundo do poço, era apenas o início.”
A loucura é isso: a travessia entre o que pensamos conhecer e o que ainda não suportamos ver. É não temer o desconhecido.
Não é o extremo. É o fio que atravessa a arte, a filosofia, o pensamento.
Como disse Schopenhauer:
“Talento é acertar um alvo que ninguém acerta. Genialidade é acertar um alvo que ninguém vê.”
Há sempre um quê de loucura na genialidade — os normais enxergam o que já existe; o louco percebe o invisível.
A loucura não é caos. É o compasso secreto do mundo, a medida oculta que sustenta tudo que ousa existir.
A loucura não é o extremo; a normalidade que é, a loucura vai além…

MR

2 months ago (edited) | [YT] | 5

A Loucura Não é o Extremo

Há momentos em que a arte, seja cinema ou música, não fala com palavras, mas com consciência e sentimento. Como dizia Tolstói, um diálogo que vem da arte só pode ser transmitido não pela racionalidade das palavras, mas pelo sentimento das consciências. É nesse território que se revelam cenas que nos atravessam, que nos marcam, que nos conectam ao outro sem que haja necessidade de explicação.
Penso em Bom Trabalho, quando The Rhythm of the Night, da cantora Corona, toca. A música canta, celebra, e ao mesmo tempo carrega uma melancolia impossível de ignorar, quase como se anunciasse que a alegria pode ser efêmera, uma melhora que alguém muito doente sente antes de partir. É uma alegria triste, cheia de consciência, que atravessa o espectador.
Ou penso em O Apicultor (The Beekeeper), de Theo Angelopoulos, quando Marcello Mastroianni vê a garota dançando, e I’ll Hit the Road ecoa. A cena é alegre e triste ao mesmo tempo; a música ilumina e revela a consciência da passagem do tempo, da impermanência, do que se perde e do que se sente profundamente.
Há também Ilha do Medo, com Max Richter e Dinah Washington; Radiohead, Motion Picture em Orígenes; Apenas o Fim do Mundo com Moby; trilhas que são personagens, que carregam narrativas inteiras, e que atingem o coração de forma devastadora. E ainda Amor à Flor da Pel, Lilya 4-Ever, Perfume - A História de um Assassino, Expresso da Meia-Noite, Betty Blue, O Amante, Once, Bagdá Café, Desprezo… todas conectadas pela música que não apenas acompanha, mas inunda e transforma o filme.
Há registros clínicos de um fenômeno semelhante em pessoas em risco de vida: o chamado “rally terminal”, quando pacientes próximos da morte experimentam um aumento súbito de energia, lucidez ou interação emocional. É como se houvesse um último instante de reconexão com a vida, uma elevação breve, intensa e muitas vezes poética, logo antes do fim. Assim como essas cenas de cinema e música, é um momento em que a alegria do ritmo, como The Rhythm of the Night e I’ll Hit the Road, que são músicas alegres, aparece como um prenúncio da morte metafórica de quem assiste.
O que sinto é uma experiência transcendental, quase impossível de compartilhar. Porque aquilo que escrevo ou falo não são palavras; são sentimentos, é um ato mágico que só seria compreendido por quem teve a mesma experiência.

MR

2 months ago (edited) | [YT] | 5

A Loucura Não é o Extremo

No filme Stalker de Tarkovsky, o Stalker conhece a Zona. Ele a atravessa, sente cada cheiro, cada sombra, cada promessa que parece sussurrar segredos que só ele pode ouvir. Leva outros até a porta. Eles param. Não entram. O medo os prende. A dúvida os paralisa. O impossível os intimida. Ele volta para casa e chora. Não pela Zona que existe, mas pelo mundo que não ousa atravessá-la, pelo coração que recusa a beleza que pede entrega. Criar é como levar alguém até a Zona: o artista abre a porta, mostra o caminho, aponta a luz e a sombra, mas a maioria não entra, não vê, não sente. E ainda assim, atravessar sozinho vale cada passo, porque a travessia é do criador, e do criador é a força de permanecer, mesmo que ninguém mais entre. E há beleza nisso, no silêncio do que se oferece sem garantia de ser recebido, na solidão que pulsa de vida, no risco de mostrar a porta e saber que talvez ninguém se atreva a atravessá-la.

MR

2 months ago | [YT] | 17

A Loucura Não é o Extremo

CORRA LOLA, CORRA! ANIMAIS NOTURNOS, REJEITADOS PELO DIABO, saem do O TÚMULO DOS VAGALUMES.
Vá! RUMO AO PARAÍSO ou para CIDADE DOS SONHOS, pegue O EXPRESSO DA MEIA-NOITE ou O TREM DA VIDA, vá para MUITO ALÉM DO JARDIM.
Escape, mesmo que tenha AMNÉSIA, se não puder correr, vá MAR ADENTRO; se não conseguir nadar, seja como os LADRÕES DE BICICLETA, tenha SEDE DE VIVER.

Vá, mas SEM RASTROS, para onde quer que haja A PALAVRA.
Vista seu VELUDO AZUL, encontre alguém para te ajudar, nem que seja O IDIOTA ou algum vagabundo, escondido nas LUZES DA CIDADE.
Se for possível, mude de nome, talvez LILYA, mas que seja PARA SEMPRE LILYA.

Procure alguém que te diga JE T’AIME, JE T’AIME; esqueça os AMORES BRUTOS, não deixe que descubram O SEGREDO DOS SEUS OLHOS, se desprenda dos GRILHÕES DO PASSADO, ou O DESPREZO, ou O ÓDIO, mas nunca a NOSTALGIA.
Nunca se esqueça que TAMBÉM FOMOS FELIZES, que também tivemos CORAÇÕES LIVRES.

Ouça-me, O SOL POR TESTEMUNHA, APENAS UMA VEZ; por mais que eu não seja O CIDADÃO ILUSTRE, tu sempre serás… MINHA AMADA IMORTAL.

DO SEU SENHOR NINGUÉM
Marcos Ribeiro

3 months ago (edited) | [YT] | 10

A Loucura Não é o Extremo

Alguns dizem que Philip Glass "não faz música", mas negar Glass é fechar os olhos para toda uma estética moderna que ele abriu. No vídeo Philip Glass joue Mad Rush, a orquestra inteira permanece em silêncio, observando cada movimento de Glass como se fosse único e sagrado, em total reverência. Cada nota e cada pausa revelam controle absoluto de ritmo, dinâmica e fluidez. Padrões repetitivos que jamais soam mecânicos exigem conduzir a música como se se respirasse, mantendo tensão e emoção. É aí que se percebe o verdadeiro poder da música minimalista: uma virtuose disfarçada de simplicidade, capaz de criar fluxo, emoção e transformação, inspirando compositores como Yann Tiersen, Max Richter e Michael Nyman.
Agora, se o minimalismo de Glass provoca reflexão e contemplação, o Helikopter-Streichquartett de Stockhausen leva tudo a outro nível: quatro quartetos de cordas tocando em helicópteros voando simultaneamente, com o público tentando decifrar sons que mudam com o movimento do ar e da paisagem. Se Glass exige atenção plena, Stockhausen exige uma suspensão completa da realidade auditiva. Um é meditação; o outro, desafio físico e sensorial. Ambos são música — mas cada um explode a experiência sonora de forma radicalmente diferente.

3 months ago (edited) | [YT] | 5

A Loucura Não é o Extremo

O Ballet Silencioso do Cinema

Há muito tempo venho pensando sobre o que realmente nos toca quando assistimos a um filme, não apenas a narrativa ou a imagem que se desenrola diante de nossos olhos, mas algo mais sutil, quase invisível, que se infiltra silenciosamente na mente e no corpo, um toque que não se percebe enquanto se percebe, que se instala entre a memória e o presente, nos fazendo sentir sem que saibamos exatamente o que sentimos, e é curioso perceber como, em meio a tantas conversas sobre atuações, direções ou fotografia, raramente alguém menciona a música, talvez porque a música seja o elemento mais traiçoeiro, mais capaz de nos manipular sem pedir licença, pois ela nos atravessa antes mesmo que percebamos, e quando nos damos conta, já fomos modificados por ela, hipnotizados por algo que não podemos nomear; lembro-me de um amigo que, encantado, contava sobre O Pianista, falando com detalhes de Adrien Brody, da direção de Polanski, da dor do personagem, da solidão filmada com tanta precisão, mas sem jamais mencionar Chopin, e foi justamente a música — invisível e quase imperceptível — que nos feriu, que nos atravessou, que nos fez sentir a vulnerabilidade de nossa própria humanidade, e nesse instante compreendi que o cinema não é apenas o que se vê, mas sobretudo o que se ouve, aquilo que nos penetra sem que possamos detê-lo, uma manipulação que é ao mesmo tempo antiga e divina, que Schopenhauer já havia nomeado: a arte — e entre todas, a música — como o único meio de suspender a Vontade, essa força cega que nos move, nos atormenta, nos mantém reféns de um desejo incessante, e por um instante faz com que o sofrimento deixe de ser protagonista para se tornar espectador, testemunha silenciosa da própria vida, suspendendo o peso da existência e nos permitindo sentir, ainda que por breves segundos, um alívio inexplicável e absoluto, uma sensação de suspensão do tempo e da dor que nos transforma, nos abre a percepção do sagrado escondido nas notas que parecem pairar no ar sem precisar de corpo.
Martin Scorsese, comentando uma cena de sedução em Barry Lyndon, de Kubrick, falou do bailado das emoções, da tensão delicada entre os movimentos de câmera e a linguagem corporal das personagens, como se cada ação fosse orquestrado pela música, e de fato, Schubert, com seu Piano Trio in E-Flat, narra aquilo que nenhuma palavra poderia expressar, contando com a mesma precisão do diretor, e Godard, em O Desprezo, compreendeu que se um filme causa dor, a música deve ser cruel, e não meramente dolorosa, mas ativamente cruel, enquanto Eleni Karaindrou, nas neblinas de Paisagem na Neblina, mostrou que a melancolia pode irradiar luz, que mesmo a tristeza mais profunda pode se tornar quase visível, e Angelo Badalamenti, com suas composições que parecem suspender o tempo, prova que o encantamento se manifesta inclusive no silêncio e na sombra, naquilo que não é dito, mas que sentimos com toda a intensidade do corpo.
Em Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-Wai, Shigeru Umebayashi revela que o silêncio é o grito mais alto, uma presença que preenche o espaço da ausência de palavras, e em Rejeitados pelo Diabo, o peso de Free Bird, do Lynyrd Skynyrd, não é apenas trilha sonora, mas sentença emocional, o inferno cantando liberdade, a música tornando-se corpo e alma simultaneamente; e penso no meu próprio vídeo, Quando as Artes Plásticas Inspiram o Cinema, e percebo que o que toca o público não é somente a beleza das imagens, mas o enfeitiçamento, a magia silenciosa que a música promove, o Concerto em Ré menor, BWV 974, atuando de maneira invisível, penetrando na atenção consciente, criando uma ponte entre o olhar que se prende ao quadro e o ouvido que é hipnotizado sem perceber, estabelecendo uma relação entre percepção, emoção e espírito que não se traduz em palavras, mas em sensação pura.
A música, portanto, não é mera decoração ou secundária; é a própria substância do encantamento, é o disfarce do sagrado que nos atravessa, transformando o cinema na mais poderosa das religiões modernas, na qual, por alguns minutos, a Vontade adormece, o sofrimento recua e o espírito desperta, e é nesse instante, nesta suspensão, que podemos experimentar aquilo que Schopenhauer chamou de única salvação possível: a suspensão da dor pela contemplação estética, pela música, pelo encantamento que atravessa e transforma silenciosamente cada fibra do nosso ser, cada emoção que julgávamos nossa, cada lembrança que acreditávamos consciente, porque a música, afinal, nos mostra que o humano é mais transparente do que pensa, e que a arte, quando é verdadeira, não apenas observa a vida: ela a encarna, a dirige, a transforma e nos faz sentir, finalmente, que estamos vivos.

Marcos Ribeiro

3 months ago (edited) | [YT] | 5

A Loucura Não é o Extremo

“Eu sou vários! Há multidões em mim. Na mesa de minha alma sentam-se muitos, e eu sou todos eles.”

Nietzsche, A Gaia Ciência

2 years ago | [YT] | 16