Mesmo que você não concorde com as conclusões de Nietzsche, devemos reconhecer uma coisa neste filósofo: ele explorou como ninguém as fraquezas humanas, expondo-as a exaustão. Ninguém mostrou tão bem a miséria e a baixeza humana como Nietzsche, julgo que nem mesmo a filosofia cristã conseguiu chegar a esse nível. Para mim aqui está o centro da filosofia nietzschiana. O homem é fraco, poucos são aqueles que ao menos tentam superar a fraqueza e o vício. O cristianismo, segundo Nietzsche, ao tentar salvar o homem, o transporta para um poço ainda maior. O homem se encerra no pecado, na fraqueza, tendo que apelar a Deus para salvá-lo num além-mundo. Como Nietzsche não acreditava nos deuses, ele precisava de alguma salvação humana, algo que tirasse o ser humano do lodo em que se encontra. Claro, ele culpa demasiadamente o cristianismo pela fraqueza humana (nisso, acho a pior parte de sua filosofia, como irei argumentar adiante). A moral vigente, principalmente a moral cristã, é o que de mais baixo se produziu, segundo Nietzsche. Então ele acredita que superando a moral cristã, mais do que isso, transvaloração de todos os valores, conseguiremos uma nova aurora, superaremos o homem e nos transformaremos numa coisa superior -- esse “algo superior” Nietzsche não diz bem o que é, aliás julgo que ele não sabia muito bem o que seria esse “homem superior” – Então a partir daí temos a teoria do além do homem (Übermensch), pois apenas ele pode nos levar para uma nova aurora. Apenas esse Übermensch pode superar verdadeiramente todos os valores e criar novos a partir de sua força. Nietzsche diz que não deveremos julgar o Übermensch, pois apenas conseguimos julgá-lo a partir de nossa moral (moral fraca cristã), então vamos julgá-lo com critérios de bem e mal que não fazem sentido para um além do homem forte e superior.
Claro, absolutamente tudo isso pode ser contestado, uma vez que um psicopata, imbuído de nietzschianismo, pode dizer que está matando pessoas porque é um além do homem e não pode ser julgado por isso, julgado através de uma moral cristã fraca (claro que esse argumento não funcionará no tribunal, mas tudo bem). O próprio Hitler acreditava ser uma espécie de Übermensch, que conduziria a humanidade a um novo patamar. No entanto, independente da crítica se é ou não possível colocar em prática a filosofia nietzschiana, o fato é que Nietzsche acredita que apenas o homem, através de suas forças (sem Deus, portanto), pode superar o homem, pode evoluir. Aqui vemos que Nietzsche parte do niilismo e vai na direção de superação do niilismo (que está na figura do Übermensch). Aqui há também uma diferença brutal entre a abordagem de Nietzsche e a de Cioran. Emil Cioran como Nietzsche acredita na decadência humana. Mas Cioran é mais maduro por assim dizer, pois não coloca na conta do cristianismo todas as mazelas humanas. Ele acredita que com cristianismo ou sem cristianismo, o homem não tem solução, sempre seremos ruins e decadentes. Para Cioran, e aqui está o ponto principal, não há solução para o homem. Não há Deus e nem Übermensch. O homem deve ruminar esse vazio e falta de sentido, essa decadência interior. Se vai se suicidar ou não, isso pouco importa. Cioran é trágico e Nietzsche tragicômico.
O mais curioso é que esse tipo de filosofia niilista se parece com a filosofia cristã, principalmente com a doutrina do pecado. O Cristianismo acredita que o homem é decadente e que essa vida não tem jeito. Contudo, a diferença crucial está na esperança. O Cristianismo deposita suas esperanças em Deus (mais especificamente no sacrifício de Jesus Cristo), Nietzsche deposita sua esperança no além do homem, já Cioran, não deposita esperança em lugar nenhum. Mas todos se parecem se observarmos apenas da natureza humana. Todos enxergam decadência e miséria, mas as conclusões e as possíveis soluções para esse problema são diferentes.
Uma das “provas” da existência de Deus é a oração, onde o fiel fala diretamente com o criador (ou com alguém que está ao lado dele, ou seja lá o que for) e o próprio Deus escuta e responde as orações. Contudo, a própria oração traz uma contradição em si mesma, mesmo supondo a existência de um Deus pessoal. Em primeiro lugar, se Deus é soberano e onisciente, Ele pode tudo e sabe de tudo. Se Ele pode tudo, Ele faz as coisas independentemente de você pedir ou não, pois como Ele também sabe de tudo, Ele já sabe o que você quer de antemão. Então para quê pedir? Para ter uma relação com Deus? Que tipo de relação o infinitesimal (nós) poderíamos ter com o Absoluto? Isso faz algum sentido? Há obviamente uma pretensão e uma vaidade velada nisso, pois o crente que se diz “íntimo de Deus”, se encontra no mais alto grau na escala cosmogônica: ele é íntimo do supremo absoluto, não simplesmente de um rei humano qualquer. Com isso, as pessoas sentem-se muito mais importantes, porque fracassando em vida, ao menos elas garantem um sucesso post mortem.
Aliás, se a oração realmente funciona, por que diabo as pessoas não ficam apenas orando ao invés de agirem na vida? Isso é blasfêmia? Mas se precisamos agir e Deus vai apenas nos “ajudar”, então Deus precisa de nós de alguma forma para Ele agir após pedirmos. Então onde fica a soberania de Deus se nós precisamos orar para ele agir sobre nossas vidas? Ninguém, absolutamente ninguém (a não ser fanáticos e doidos de pedra) ficam apenas orando e não agem. Diante da doença grave, diante do desemprego, por que não pedem simplesmente a Deus, para que Ele resolva o problema? “Ah, mas Deus não faz assim, pois se não nos tornaremos filhos mimados que não vão fazer nada e só esperar que Deus faça”, certo, mas na escala macro, nós realmente não podemos fazer nada e se simplesmente a oração não funciona por si só, mas necessita da ação humana, esse parece muito mais um deus criado por nós mesmo, onde dados o crédito a Ele a posteriori. Se der certo, o crédito é d’Ele que nos ajudou, se der errado são os “mistérios de Deus”, a culpa é nossa ou do Diabo.
A oração e a dita “intimidade com Deus” não provam absolutamente nada, apenas contam menos para a existência desse Deus pessoal, pois o ato de orar é cheio de contradições e você tem que simplesmente fechar os olhos e confiar; ter fé que tudo dará certo (se não der certo, já sabe né? A culpa é sua, do Diabo etc). Aliás, por que a oração e os pedidos a Deus não fazem algo realmente fantástico, como ressuscitar mortos por exemplo? Dizer que meras coincidências fortuitas (um dinheiro que entrou inesperado, um pneu que furou, um projeto que deu certo etc) são obras de Deus, ou do Diabo, é apenas uma invocação da magia para explicar algo que você não sabe. Aliás, ignora-se todo esforço humano e coloca-se todos os créditos em Deus, que só aparece nos momentos bons (como é o supremo bem, obviamente que só vai aparecer quando tudo der certo).
As pessoas obviamente nunca deixaram de orar, mesmo que se prove a inexistência de Deus. A oração tem um efeito psicoterapêutico, as pessoas se sentem melhor após a oração, assim como se sentem melhor após falar sobre seus problemas para um psicólogo. Por isso, as igrejas nunca deixaram de existir e nunca deixará de haver fé no mundo, mesmo que esse Deus pessoal nunca venha a se revelar realmente.
Hoje, dia 23 de Abril, é o dia mundial do livro. Data que é simplesmente esquecida e menosprezada, até mesmo pelo Google, que sempre traz mensagens especiais em datas comemorativas. Hoje, silêncio total.
O livro para mim é sinônimo de busca pelo conhecimento e uma oportunidade de diálogo com homens e mulheres de todos os tempos, com sábios de todas as eras. É muito diferente você assistir uma aula e ler diretamente, por exemplo, Dostoiévski. Então o livro e a leitura é um tipo de tecnologia fundamental, que age na transformação da consciência e inteligência das pessoas. Claro que o livro por si só não vai transformar a pessoa em mais ou menos inteligente, mas sim a assimilação profunda do conteúdo que está ali; assimilação profunda através da leitura.
A leitura transforma a vida as pessoas. Não que vamos ficar mais ricos ou mais populares (às vezes, acontece o oposto), mas ganharemos um aprofundamento da consciência que seria impossível sem o contato com os vários sábios que a história humana já produziram. Quem não lê, simplesmente fica preso ao seu tempo história, quem lê se abre para o diálogo universal supra-histórico.
Que nosso pobre país (em todos os sentidos, pobre) interesse-se mais pela leitura. Somente valorizando a inteligência poderemos sair do buraco que estamos.
A existência é um absurdo. Existir antes o ser, e não o nada, é um absurdo. Então qual o propósito e o significado disso tudo? Absolutamente nenhum. Essa é a conclusão que chegamos após lermos “O mito de Sísifo” de Albert Camus.
O problema do absurdo não está em nós, em particular, nem na realidade, em geral. Está tudo muito bem organizado e estruturado. Alguns dirão que divinamente organizado e estruturado, dada a perfeição de cada detalhe (é isso que a metafísica tradicional irá dizer, que o Ser de Deus, ou o Ser do divino, é a base sob a qual se estrutura toda a realidade). O absurdo começa na interação da nossa subjetividade com o mundo que nos rodeia. Pois enquanto humano, demasiado humano, temos a necessidade de dar sentido às coisas. O problema central começa aí. Nossa existência é muito pequena e fugaz, e a realidade muito grande e, se comparada conosco, perene, que qualquer sentido que dermos a existência parecerá infinitamente artificioso.
"Não sei se esse mundo tem um sentido que o ultrapasse. Mas sei que não conheço esse sentido e que, por ora, me é impossível conhecê-lo." (p. 54)
Mas é Deus? Ele não é o sentido de tudo? Aristóteles chega à essa conclusão (ignorando aqui as particularidades do deus aristotélico). Contudo, a noção de Deus parece infinitamente mais do que possamos conceber. Sendo a substância de Deus perfeita e diferente da humana, Ele não poderia se mover apenas nas categorias da racionalidade humana. Esta é a única forma que temos de conhecer as coisas. Dessa forma, Deus se torna um estranho, pois é muito pouco conhecido pelas criaturas humanas, que em geral entendem errado as vontades de Deus. Então mesmo que Deus seja o sentido último da existência, este se torna um sentido nebuloso e de impossível acesso à racionalidade humana. Não o conheceríamos de fato, mas apenas poderíamos especular sobre (é o que faz, basicamente, a teologia).
Então mesmo que Deus exista, o sentido da vida não nos aparece de forma clara. Necessitamos de uma fé, de um salto, para chegamos até Ele, sem obviamente entendermos direito Seus desígnios e Suas vontades. Agora e se Deus não existe? Neste cenário, tudo fica mais simples. Se Deus não existe, a vida não faz sentido mesmo. Se torna estúpido e inútil perguntar qual o sentido da vida, do universo e tudo o mais. Porque as coisas simplesmente estarão aí. Elas simplesmente existem, independentemente da vontade ou projeção humana sobre a realidade. Perguntar sobre o sentido da vida, ou o sentido da existência, é o antropomorfismo mais infantil que podemos conceber.
Se Deus não existe e a vida não faz sentido, então caímos num absurdo. O que faremos? Vamos meter uma bala na cabeça? Essa é a pergunta filosófica fundamental, segundo Camus. É aqui que começa a filosofia, pois esse é o fundamente de tudo? Viver ou não viver, eis a questão. Mas quem escolhe o suicídio não o escolhe por uma profunda reflexão filosófica (a não ser Kirilov, personagens de “Os demônios” de Dostoiévski), mas sim por questões existenciais e emocionais (às vezes patológicas) muito sérias. O absurdo, quando desabado na vida de alguém na forma de tragédia, pode levar o sujeito ao suicídio. Mas quando refletimos sobre o absurdo, a imensa maioria de nós decide viver. Por quê? Porque a vida vale a pena ser vivida, mesmo não tendo sentido nenhum.
"O sentido, como dissemos, é apenas a nossa relação com o mundo e com as coisas (dentre essas “coisas”, está nossa subjetividade). Então o sentido que damos a vida é o sentido que construímos para nossa existência. "Sim, o homem é seu próprio fim. E é seu único fim. Se quer ser alguma coisa, é nesta vida. Agora eu o sei de sobra." (p 87)
Não haverá um grande sentido da vida, mas sim um sentido para nossa vida. Viktor Frankl falava a mesma coisa, apesar de acreditar na transcendência. Porque qualquer salto que dermos, seja religioso, seja político, seja de transcendência histórica, será uma fuga dessa vida, da nossa vida presente e concreta. Fugir dessa vida é o mesmo que os suicidas fazem, então o salto é uma forma de suicídio.
"Eu tomo a liberdade de chamar agora de suicídio filosófico a atitude existencial. Mas isso não implica um julgamento. É uma maneira cômoda de designar o movimento pelo qual um pensamento se nega a si mesmo e tende a se ultrapassar naquilo que constitui sua negação. Para os existenciais, a negação é seu Deus. Exatamente: esse deus só se sustenta com a negação da razão humana. Mas, como os suicidas, os deuses mudam junto com os homens. Há diversas maneiras de saltar, mas o essencial é saltar. Essas negações redentoras, essas contradições finais que negam o obstáculo ainda não vencido, podem nascer tanto (é o paradoxo o alvo deste raciocínio) de uma inspiração religiosa como da ordem racional. Elas aspiram sempre ao eterno, é apenas nisso que dão o salto." (p. 46)
Como só temos essa vida, essa situação concreta, tal como falava Ortega y Gasset, devemos criar um sentido para ela. Claro que a tentação da transcendência história estará sempre à porta, porque sempre desejamos perpetuar nossa existência após a morte, mesmo que seja apenas para ficar “para a história”. Mas, como bem fala Fernando Pessoa, o que será de nossa era daqui cem, duzentos, mil anos? Nada! Seremos completamente esquecidos e varridos para a lata do lixo da história humana. E, pior ainda, um dia a história humana pode acabar e sermos extintos. O universo permanecerá, impávido colosso, como se nunca tivesse existido seres humanos num pequeno ponto azul do espaço.
"Nós não o ignoramos: todas as Igrejas estão contra nós. Um coração tão aplicado se esquiva ao eterno e todas as Igrejas, divinas ou políticas, aspiram ao eterno. A felicidade e a coragem, o salário ou a justiça são, para elas, fins secundários. É uma doutrina que trazem e nos impõem subscrever. Mas eu não tenho nada a fazer com as ideias ou com o eterno. As verdades que estão na minha escala podem ser tocadas com a mão. Não posso me separar delas. Eis por que você não pode basear nada em mim: nada do conquistador dura muito, sequer suas doutrinas". (p 88)
Dessa maneira, a única forma de viver é viver no absurdo da existência. Aceitá-lo e criar seu próprio destino, sem nenhum tipo de mito transcendente, mesmo que a transcendência ou até mesmo Deus exista. Pois se não conseguimos encontrar a transcendência nesse mundo, torna-se inútil procurá-la. Mais vale encontrar nosso próprio destino em vida, construir nosso próprio sentido, seja lá qual você quiser que ele seja.
"Trata-se, anteriormente, de saber se a vida devia ter um sentido para ser vivida. Aqui fica parecendo, ao contrário, que ela será vivida melhor ainda se não tiver sentido. Viver uma experiência, um destino, é aceitá-la plenamente. Ora, não se viverá esse destino, sabendo-o absurdo, se não se faz tudo para manter diante de si esse absurdo aclarado pela consciência. Negar um dos termos da oposição de que ele vive é escapar-lhe. Abolir a revolta consciente é esquivar-se ao problema. O tema da revolução permanente se transporta assim para a experiência individual. Viver é fazer viver o absurdo. Fazê-lo viver é, antes de tudo, encará-lo." (p. 56-57)
Tudo isso se torna inútil? A vida se torna inútil numa escala mais geral? Obviamente. É nesse sentido que que somos todos Sísifo. Estamos condenados a viver uma vida que não tem um sentido último, mas tem apenas o sentido que empregamos ao trabalho árduo que fazemos de rolar a pedra todos os dias morro acima. Somos todos Sísifo e, pior ainda, para alguns de nós, somos o Sísifo feliz. Imaginar Sísifo feliz é olhar todos os dias para o sentido da vida que criamos para nós mesmos. É olhar para o trabalho inútil de rolar uma pedra montanha acima, para ela descer de novo montanha abaixo e pensar no sentido que Sísifo inventava para essa empreitada sem propósito. Esse somos nós todos os dias. Sísifo é absurdo, assim como nós o somos.
Leonardo Padura Fuentes, escreveu um dos maiores e mais incríveis romances históricos do século XXI: O homem que amava os cachorros (El hombre que amaba a los perros). Por que esse romance é tão incrível? Pelo simples motivo de que Padura nos mostra as entranhas do maior sonho utópico que o século XX já teve: o comunismo, personificado pela revolução bolchevique de 1917 e refletido nas inúmeras revoluções ao redor do mundo, dentre elas, Cuba.
Padura é um escritor cubano e infelizmente é impossível desassociá-lo da ilha. Primeiro, porque ele é um escritor cubano, que vive em Cuba e ele se orgulha disso (como já disse em entrevistas). Segundo porque ele é um escritor cubano, que vive em cuba e, apesar de tudo isso, escreveu “O homem que amava os Cachorros”, que não contêm apenas críticas ao modus operandi da União Soviética, mas também a algumas questões sociais em Cuba (ele não chega a criticar o regime em si).
Mas “O Homem que Amava os Cachorros” é um romance histórico e como tal tem doses de verdades e doses de ficção. E do que trata esse livro? Do assassinato de Leon Trotski, encomendada por Joseph Stálin e realizada pelo militante espanhol (depois agente da URSS) Ramón Mercader. O livro conta toda a história, desde o início do exílio de Trotski e sua família, saindo da União Soviética e perambulando pelo mundo, até chegar no México, bem como a história de Ramón Mercader, que teve uma infância burguesa, passou por uma separação dos pais, a mãe virou revolucionária (o que o influenciou decisivamente), ele lutou na guerra espanhola e depois se tornou agente secreto soviético, treinado e incumbido de matar Trotski. Somente isso nos dá um frio na espinha do tamanho que é essa história. É gigantesca desproporção entre um homem isolado e acossado com todos os tipos de humilhações e cada vez mais enfraquecido, que era Trotski, com um dos homens mais poderosos do mundo, que era Stálin, que mobilizou parte de seus agentes secretos para matar Trotski, que mais se parecia com uma vingança pessoal. Trotski foi um dentre os milhares de russos mortos pela revolução bolchevique de 1917.
Mercader foi apenas um peão dentro dessa história toda. Alimentaram nele, assim como em toda militância comunista da época, um ódio por Trotski desproporcional (para vermos o tamanho e o poder da propaganda soviética). Trotski tornou-se o pior inimigo da revolução e ficou no imaginário de todos que era alguém capaz de tramar uma conspiração anti-revolucionária (ou contra-revolucionária) capaz de destruir a União Soviética, quando na verdade ele era um homem completamente isolado, humilhado e desiludido por ter visto que a revolução bolchevique tinha se transformado numa tirania stalinista.
No meio do caminho, o livro ainda traz a presença de Iván, um cubano que encontra Ramón Mercader numa praia em Cuba (claro que ele não fala quem realmente é) e conta a história para ele. É aí que Iván, um escritor que se sente oprimido dentro de Cuba, que se autocensura, resolve escrever essa história. Os capítulos que contam com Iván são uma forma de mostrar a vida cubana e também de fazer críticas sociais à ilha.
Todos esses elementos tornam esse livro extremamente interessante. Mesmo nós sabendo, de antemão, como Trotski morreu, quando, onde morreu, quem o matou e quem mandou matá-lo, a história é simplesmente deliciosa e há uma tensão no ar.
Apesar de tudo, vemos uma tristeza imensa e um desencanto com tudo com este livro. O último grande sonho humano, de construir uma sociedade perfeita, morreu com o comunismo de fato praticado nos diversos países. O sonho só permanece no olhar ingênuo de quem acredita saber o que é melhor para a vida de todos os outros. A organizações social rígida, vinda de um comando central, não poderia acabar diferente do que milhões de mortos dentro do próprio país, dentro da própria revolução. Apenas quem conhece muito pouco do gênero humano acredita que possamos fazer realmente alguma cosia boa, partindo desses pressupostos autoritários.
Não acredito ter uma solução para a maldade e necessidade de poder que nós, seres humanos, temos. O livro deixa margem para esse tipo de pensamento niilista: não há solução para o homem. Porém, ele deixa brecha para uma interpretação, quando diz:
“Lendo e escrevendo sobre como se havia pervertido a maior Utopia que uma vez os jovens tiveram em suas mãos, mergulhando nas catacumbas de uma história que mais parecia um castigo divino do que obra de homens ávidos de poder, ânsia de controle e pretensões de transcendência histórica, eu havia aprendido que a verdadeira grandeza humana está na prática da bondade sem condições, na capacidade de dar aos que nada têm, mas não dar o que nos sobra, mas dar uma parte do pouco que temos. (...)” (p. 538).
A solução talvez seja não tentar construir grandes projetos de engenharia social, grandes devaneios políticos que invariavelmente acabam mal, mas é em partilhar um pouco do que temos, em partilhar a nossa desgraça uns com os outros, em ajudarmos uns aos outros a carregarmos nossa cruz nessa existência decaída. Talvez esse seja o sentido mais nobre para o gênero humano, o que pode aproximar Padura (ou ao menos esse trecho do livro) com uma antiga tradição cristã da caridade. Porque vendo toda a violência, tragédias, desgraças, mendacidades e mentiras que os seres humanos são capazes de produzir, ver que alguém é capaz de partilhar o pão com outro irmão humano, é algo que traz uma pequena luz dentro desse livro obscuro (por tratar de um tema tenebroso).
De qualquer forma, esse é um livro fundamental e impressionante. Há tempos não lia um livro tão impactante como esse. Incrível e ótimo descobrir que Cuba ainda têm bons escritores, que não se entregaram ao discurso oficial.
Pouca gente sabe, mas a abertura do famoso seriado Chavo del 8 (conhecido no Brasil como Chaves) tem como trilha sonora nada mais nada menos que a "Marcha Turca" de Ludwing Van Beethoven. Roberto Bolaños, criador da série, tinha uma predileção pelos clássicos da música e literatura. Vez ou outra podíamos ver Romeo e Julieta, O homem Invisível, Dom Quixote ou Chopin perambulando por entre os episódios. Além da comédia, o seriado contava com esse lado educativo, de ao menos apresentar alguns clássicos (à maneira deles, é bem certo). Seria esse o segredo do sucesso de Chaves?
O estilo turco foi muito usado na música do século XVII e XIX. Essa de Beethoven (que foi usada na abertura de Chaves) e a de Mozart são as mais famosas. O curioso é que a composição de Beethoven inicialmente era independente. Contudo, Beethoven reaproveita essa música como parte da ópera "As ruínas de Atenas".
O que vemos, neste caso do seriado Chaves, é que é possível unir cultura pop (ou cultura de Massas, se assim preferir) e a cultura clássica. É possível darmos continuidade aos clássicos, mesmo quando utilizados pela cultura popular. Claro que há a chance de dar errado (como já vimos várias vezes acontecer de clássicos serem mutilados). Contudo, essa é uma forma de os grandes clássicos da música e literatura se disseminarem na população em geral, tão massacrada por cultura de baixíssima qualidade.
A Biblioteca de Alexandria foi o primeiro e mais grandioso acervo de conhecimento de que se tem notícia do mundo antigo. O tamanho de seu acervo é algo que impressiona, visto a dificuldades de se fazer livros naquela época. Criada no século III a.C., tornou-se o polo do conhecimento após o natural declínio de Atenas. Criado, ao menos finalizada, por Ptolomeu II, a biblioteca contava com um acervo rico. Diz-se que boa parte da biblioteca de Aristóteles fora adquirida. Aliás, Aristóteles tinha uma biblioteca à parte e tinha recebido o apelido na academia platônica de “O Leitor”, tamanha dedicação aos livros.
A Biblioteca de Alexandria, assim como o próprio mundo antigo, sucumbiu ao Império Romano. Plutarco, historiador do mundo antigo, conta que Júlio César, na Batalha em Alexandria, queimou os próprios navios para poder se defender. Esse incêndio acabou afetando parte da biblioteca, que viu boa parte do seu acervo ser completamente destruído. Livros, de apenas um exemplar, destruídos para sempre. Esse incêndio marcou o início do fim da Biblioteca de Alexandria, que aos poucos foi sendo esquecida, com a ascensão cada vez maior de Roma como hegemônica.
A ocasião da destruição e declínio da Biblioteca de Alexandria nos mostra como nossos conhecimentos é um bem muito frágil, que do dia para a noite pode ser perdido. O progresso do conhecimento deve ser acompanhado pelo progresso do esquecimento. Há coisas que permanecem no tempo e há conhecimentos que são esquecidos (ou perdidos) e que talvez nunca retornem mais, ou até talvez retorne milênios depois, mas sem uma conexão causal. Infelizmente, não teremos garantia nem do nosso próprio conhecimento, se na próxima geração, ou daqui cem anos, terá alguma continuidade histórica.
O desejo de glória, o desejo de ser elogiado e amado, é o nosso primeiro e principal pecado, é o fruto mais terrível da queda humana, como diz Emil Cioran em “La chute Dans le Temps” (Queda no Tempo). Não foi o desejo de ciência que nos fez aceitar a proposta da serpente, como nos faz pensar Nietzsche em “O Anticristo”. Mais do que isso, fomos assombrados pelo esplendor da glória de Deus e buscamos, junto com o Diabo, ter um pouco dessa glória. O que fez Lúcifer cair foi o mesmo que nos fez tombar no tempo: o desejo de ser como Deus, de ter seu poder e majestade. Quando aceitamos a proposta serpente, ficamos mais próximos do Diabo, nos tornamos seu amigo e seu sócio. Assim nos deleitamos naquilo que o demônio inventou (o pecado) e nos martirizamos, dia após dia, por termos trocado nossa felicidade eterna por um desejo extremo de vaidade.
Não é à toa que o elogia nos comove tanto. É a sedução das mais irresistíveis, como diz o dr. Freud, pois isso toca no ponto fundante de nossa psique. Mas esse desejo de glória sempre permanece inconfesso. Racionalizamos e preferimos dizer coisas elevadas de nós mesmos, como o fato de sermos movidos pela “busca pela verdade”, “busca por Deus”, “busca pela eficiência no trabalho” etc. Mas quanto isso irá durar se nunca formos elogiados? Se não recebermos nenhum afago no ego, nos sentiremos fracassados naquilo que achávamos estar buscando. “Não sou bom em procurar a verdade” diremos. “Não sou bom arquiteto”, “não sou bom escritor”, “não sou bom em meu trabalho” e assim por diante. Não confessamos nunca onde está nosso coração e nosso verdadeiro desejo, pois tememos o ridículo. Tememos que nos chamem de infantis, de imaturos. Então nos travestimos de pessoas sérias, de homens de ciência, mulheres de negócios, pais de família. Tudo para esconder nosso fundo psicológico primordial: “vaidade, vaidade, tudo é vaidade” como diz Salamão em Eclesiastes.
Não há remédio para o desejo de glória. O apego em Deus não faz com que as pessoas parem de ser vaidosas, pelo contrário. A experiência nos mostra que há tanta vaidade dentro das igrejas, principalmente em cima dos púlpitos, quanto na conta do Instagram mais narcisista. Mas sem o apego à eternidade, obviamente que só nos resta a história e o tempo terreno. E como seres históricos, só no resta tentar a glória máxima que é morrer e ser lembrado por gerações. Isso excita tanto as pessoas que chegam às raias do ridículo. Mas se só há essa existência material, e se somos constituídos de vaidade, não há solução a não ser procurar aquilo que é natural no homem, ou seja, o desejo de ser conhecido.
Mas é possível fugir da vaidade. Fugir do desejo de glória é tentar fugir de si mesmo; é deixar de ser humano. É tentar superar o próprio pecado e deixar de ser pecador. Nem mesmo Deus nos prometeu que ficaríamos livres do pecado, mas sim que ele nos perdoaria. Mas como nos livrar disso? Se a glória é nosso desejo e nosso terror, se é aquilo que nos eleva e nos destrói, como poderemos suportar tamanha contradição? Não há remédio, não há solução. Somos essa contradição ambulante. No momento mesmo que aceitamos fazer empreitada com o demônio, deixamos a unidade e a felicidade de lado. Escolhemos o horror e a contradição do pecado, i.e., o desejo de glória, que irá nos alucinar e nos atormentar pelos séculos dos séculos.
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem. Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma!
Não há como negar que há uma dificuldade extrema em nosso país de se levar a cabo qualquer sonho que seja, desde o mais simples (montar o próprio negócio, por exemplo) até os mais altos e elevados, como ser um escritor, um intelectual sério, um poeta etc. Numa mistura de dinheirismo pueril e falta de esperança, qualquer brasileiro cai num dilema terrível: preciso arrumar um emprego que dê dinheiro, mesmo que isso se afaste completamente do meu sonho. Nessa dicotomia auto excludente, obviamente que escolhemos o feijão; escolhemos pôr comida à mesa e nos entregamos a qualquer coisa que pague o mínimo necessário para viver. Dessa forma, o sonho torna-se ruína, pois entregue aos deveres práticos da vida (cuidar do emprego, da família etc.), não nos sobra tempo nem energia para cuidarmos do nosso sonho. Para àqueles que têm um pouco mais de recursos, eles têm a sorte de ver seus sonhos tornar-se hobbies. Ai vemos uma série de pessoas que são pintores por hobby, fazem poesia por hobby ou até mesmo escrevem romances inteiros por hobby. Claro, essa dicotomia é uma marca do pensamento burguês, como diria Marx (talvez na única coisa que ele esteja certo), onde há um abismo intransponível entre o mundo prático e o mundo do espírito, sendo ambos inconciliáveis.
Esse é o drama da alma brasileira e esse é o tema central de “O Feijão e o Sonho” de Orígenes Lessa. Num livro tão simples, e tão profundo ao mesmo tempo, Lessa toca no ponto central do drama brasileiro de “como viver?”. Viver torna-se uma escolha entre colocar a comida na mesa ou viver um sonho que não vai te trazer nenhum recurso material. Poucos são àqueles que conseguem ganhar dinheiro vivendo o seu sonho. Lessa mostra com perfeição a loucura dessa escolha auto excludente. Campos Lara, o poeta que tenta viver até as últimas consequências o seu sonho literário, e Maria Rosa, a esposa materialista, dinheista, que sofre com a pobreza e miséria da família e queria apenas que o esposo abandonasse tudo e fosse como o marido de sua irmã, Gomes, um burro, um ignorante, mas milionário que fez fortuna trabalhando com café.
Durante todo o livro nós vemos esse drama. O afastamento do casal por terem cosmovisões completamente distintas mostra essa dicotomia. Não conseguimos tomar nenhuma posição em relação a esse conflito. Ora apoiamos Maria Rosa, por conta de todo desleixo de Campos Lara e por sua falta de conhecimento prático da vida, ora apoiamos o poeta, que tenta viver genuinamente da literatura. Aliás o heroísmo de Campos Lara é algo que beira o absurdo. Lessa esticou essa corda de propósito. Como um Dom Quixote, ou um príncipe Míchkin (“O Idiota”, Dostoiévski), nós vemos Campos Lara como um desses personagens hiperbólicos, incompreendido por todos, sui generis em todos os aspectos, mas que traz em si algo de genuíno, algo de transcendente.
Apesar da aparente vitória na maturidade da vida de Campos Lara, uma espécie de reconciliação entre o hiato do feijão e do sonho, percebemos que o romance de Orígenes Lessa é trágico. Ele vê a sociedade brasileira como ignorante e falsa, apegada às mesquinharias do pequeno conflito, alimentados claro pela inveja, covardia e ganância. Não importando se estamos no interior ou na capital, as pessoas são baixas igualmente, com a diferença de que na capital há um requinte na baixeza. As pessoas são baixas, porém chiques, letradas, intelectualizadas. No Brasil, nunca o “homo homini lupus” de Hobbes foi tão verdadeiro. Depois de uma pequena vitória nas letras, depois de tanta peleja e miséria, depois de aparente paz, Campos Lara é devorado pelos lobos da nova geração literária. Origenes Lessa nos mostra assim que não há solução, mesmo reconciliando o feijão e o sonho, o ser humano é ruim por natureza, e as almas mais nobres sempre serão as primeiras a serem destruídas.
Ao final de “o Feijão e o Sonho” fica a pergunta, não respondida pelo autor: valeria a pena? Seria lícito tentar correr tão desesperadamente atrás do sonho, sendo o ser humano do jeito que é e, em especial, sendo o brasileiro do jeito que é? Vale a pena sacrificar tudo, até mesmo o bem-estar de si mesmo e daqueles que você ama, para no fim ser devorado por abutres novos? Se uma resposta final para essa questão, ficamos com a leve impressão, contudo, de que não vale a pena. Que tudo é inútil e caíra na degenerescência de qualquer forma.
Para mim a Teodiceia sempre foi a maior dificuldade na crença em Deus. O que diabo é uma teodiceia? É a justificativa do Deus bondoso em face da maldade, dor e desespero do mundo. Como essas duas coisas podem ser conciliadas? Não sei e na verdade ninguém sabe de fato. A resposta fácil do cristianismo em geral, de que o mal no mundo é fruto do pecado e, por isso, sofremos feito um cão presos nessa herança maldita, sempre me pareceu de uma crueldade fora do comum. Se é assim, só posso concluir que Deus é sádico, pois cria os sujeitos sem o aviso prévio de que eles virão ao mundo e receberão tal herança. Descobrimos aos poucos tal desgraça, quando se torna demasiado tarde para desistir da oferta pela vida. Contudo, tudo pode piorar ainda mais no além morte, pois como todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, nada nos resta a não ser o inferno eterno e imutável. “Ah, mas Jesus é a ponte que nos salva e nos dá a vida eterna”, dirão os incautos. É mesmo, sabichão? Mas isso é uma dádiva dada de graça e completamente aleatória aos olhos humanos. Então chegamos a conclusão que Deus cria a todos para jogar a todos no inferno, mas salva alguns por misericórdia. Ninguém pode se salvar por obras, por ser bonzinho, por força própria... ninguém pode forçar a fé. Isso tudo é dado pelo próprio Deus. Deus abre os olhos daqueles que Ele bem entende. Ninguém pode buscar a Deus de fato se Ele não permitir que O busquem. Isso é a dedução lógica do conceito de soberania de Deus. Se é assim temos algum influência em nossa salvação e, de alguma forma, conseguimos nos salvar por esforço próprio.
Então isso é uma situação insolúvel: Deus cria o homem, sem consultar o homem se ele quereria ou não ser criado, sendo este homem já destinado ao pecado, a destruição eterna (e Deus já sabia, desde a fundação do mundo, que o homem iria pecar), mas por misericórdia Deus salva alguns, quais sejam, os santos, que apenas adquirem santidade porque Deus assim o quis. Eu não sei vocês, mas me sinto extremamente desconfortável com isso. Nunca, ninguém, absolutamente ninguém conseguiu responder como isso pode ser racionalmente bondade. Apenas dizem “aos olhos humanos isso não parece bondade, mas para Deus faz sentido”. Outros dizem que como Deus não pode ir contra seus princípios e fundamentos, tinha que fazer as coisas tal como as fez. Visto a queda do homem no Éden, não há outro remédio. Mas se Deus não poderia mudar tudo, até mesmo os fundamentos dos fundamentos, que tipo de onipotência Ele tem? Há então coisas (princípios de Deus, por exemplo) que são irrevogáveis até mesmo por Deus? Então a onipotência divina vai até a página 2, ou até chegarmos aos seus princípios e fundamentos, que são impossíveis de serem modificados.
Como não há nenhuma resposta racional e lógica que concilie o mal do mundo e a bondade e onipotência de Deus, a única alternativa é o apego à fé. Acredita-se que Deus é bom e isso basta. Confia-se na bondade divina. Acredita-se que Ele tem uma resposta para tudo isso e que só na mente d’Ele todas essas contradições são conciliadas. Para quem não nasceu com o órgão da fé, contudo, ó terrível desgraça. Terão que viver apenas com a razão humana, pois nem todos darão esse salto na fé. Nem todos podem ou conseguem fazer isso. Seriam maus por isso? Merecem a morte eterna por não terem fé (algo que apenas Deus poderia dar e não deu para alguns, porque... ninguém sabe)? Mas visto que o conhecimento foi algo oferecido pela serpente no Éden (aqui está o primeiro embate entre ciência e religião na história do mundo, qual seja, ordens de Deus x sugestão da serpente), deve ser algo visto por Deus como maligno mesmo, pois foi a causa da queda do homem. Viver apenas buscando a razão humana seria o mesmo que viver do diabolismo puro e simples. Mas, ó raios, nem todos conseguem dar o salto de fé. Nem todos tem esse “dom do espírito”. Nem todos podem ver a bondade no desespero ou o amor no fato de alguns estarem destinados ao fogo eterno e a nunca terem seus nomes escritos no Livro da Vida.
Paulo Uzai Junior
Nietzsche, Cioran e o cristianismo
Mesmo que você não concorde com as conclusões de Nietzsche, devemos reconhecer uma coisa neste filósofo: ele explorou como ninguém as fraquezas humanas, expondo-as a exaustão. Ninguém mostrou tão bem a miséria e a baixeza humana como Nietzsche, julgo que nem mesmo a filosofia cristã conseguiu chegar a esse nível. Para mim aqui está o centro da filosofia nietzschiana. O homem é fraco, poucos são aqueles que ao menos tentam superar a fraqueza e o vício. O cristianismo, segundo Nietzsche, ao tentar salvar o homem, o transporta para um poço ainda maior. O homem se encerra no pecado, na fraqueza, tendo que apelar a Deus para salvá-lo num além-mundo. Como Nietzsche não acreditava nos deuses, ele precisava de alguma salvação humana, algo que tirasse o ser humano do lodo em que se encontra. Claro, ele culpa demasiadamente o cristianismo pela fraqueza humana (nisso, acho a pior parte de sua filosofia, como irei argumentar adiante). A moral vigente, principalmente a moral cristã, é o que de mais baixo se produziu, segundo Nietzsche. Então ele acredita que superando a moral cristã, mais do que isso, transvaloração de todos os valores, conseguiremos uma nova aurora, superaremos o homem e nos transformaremos numa coisa superior -- esse “algo superior” Nietzsche não diz bem o que é, aliás julgo que ele não sabia muito bem o que seria esse “homem superior” – Então a partir daí temos a teoria do além do homem (Übermensch), pois apenas ele pode nos levar para uma nova aurora. Apenas esse Übermensch pode superar verdadeiramente todos os valores e criar novos a partir de sua força. Nietzsche diz que não deveremos julgar o Übermensch, pois apenas conseguimos julgá-lo a partir de nossa moral (moral fraca cristã), então vamos julgá-lo com critérios de bem e mal que não fazem sentido para um além do homem forte e superior.
Claro, absolutamente tudo isso pode ser contestado, uma vez que um psicopata, imbuído de nietzschianismo, pode dizer que está matando pessoas porque é um além do homem e não pode ser julgado por isso, julgado através de uma moral cristã fraca (claro que esse argumento não funcionará no tribunal, mas tudo bem). O próprio Hitler acreditava ser uma espécie de Übermensch, que conduziria a humanidade a um novo patamar. No entanto, independente da crítica se é ou não possível colocar em prática a filosofia nietzschiana, o fato é que Nietzsche acredita que apenas o homem, através de suas forças (sem Deus, portanto), pode superar o homem, pode evoluir. Aqui vemos que Nietzsche parte do niilismo e vai na direção de superação do niilismo (que está na figura do Übermensch). Aqui há também uma diferença brutal entre a abordagem de Nietzsche e a de Cioran. Emil Cioran como Nietzsche acredita na decadência humana. Mas Cioran é mais maduro por assim dizer, pois não coloca na conta do cristianismo todas as mazelas humanas. Ele acredita que com cristianismo ou sem cristianismo, o homem não tem solução, sempre seremos ruins e decadentes. Para Cioran, e aqui está o ponto principal, não há solução para o homem. Não há Deus e nem Übermensch. O homem deve ruminar esse vazio e falta de sentido, essa decadência interior. Se vai se suicidar ou não, isso pouco importa. Cioran é trágico e Nietzsche tragicômico.
O mais curioso é que esse tipo de filosofia niilista se parece com a filosofia cristã, principalmente com a doutrina do pecado. O Cristianismo acredita que o homem é decadente e que essa vida não tem jeito. Contudo, a diferença crucial está na esperança. O Cristianismo deposita suas esperanças em Deus (mais especificamente no sacrifício de Jesus Cristo), Nietzsche deposita sua esperança no além do homem, já Cioran, não deposita esperança em lugar nenhum. Mas todos se parecem se observarmos apenas da natureza humana. Todos enxergam decadência e miséria, mas as conclusões e as possíveis soluções para esse problema são diferentes.
2 years ago | [YT] | 23
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Paulo Uzai Junior
A contradição da oração
Uma das “provas” da existência de Deus é a oração, onde o fiel fala diretamente com o criador (ou com alguém que está ao lado dele, ou seja lá o que for) e o próprio Deus escuta e responde as orações. Contudo, a própria oração traz uma contradição em si mesma, mesmo supondo a existência de um Deus pessoal. Em primeiro lugar, se Deus é soberano e onisciente, Ele pode tudo e sabe de tudo. Se Ele pode tudo, Ele faz as coisas independentemente de você pedir ou não, pois como Ele também sabe de tudo, Ele já sabe o que você quer de antemão. Então para quê pedir? Para ter uma relação com Deus? Que tipo de relação o infinitesimal (nós) poderíamos ter com o Absoluto? Isso faz algum sentido? Há obviamente uma pretensão e uma vaidade velada nisso, pois o crente que se diz “íntimo de Deus”, se encontra no mais alto grau na escala cosmogônica: ele é íntimo do supremo absoluto, não simplesmente de um rei humano qualquer. Com isso, as pessoas sentem-se muito mais importantes, porque fracassando em vida, ao menos elas garantem um sucesso post mortem.
Aliás, se a oração realmente funciona, por que diabo as pessoas não ficam apenas orando ao invés de agirem na vida? Isso é blasfêmia? Mas se precisamos agir e Deus vai apenas nos “ajudar”, então Deus precisa de nós de alguma forma para Ele agir após pedirmos. Então onde fica a soberania de Deus se nós precisamos orar para ele agir sobre nossas vidas? Ninguém, absolutamente ninguém (a não ser fanáticos e doidos de pedra) ficam apenas orando e não agem. Diante da doença grave, diante do desemprego, por que não pedem simplesmente a Deus, para que Ele resolva o problema? “Ah, mas Deus não faz assim, pois se não nos tornaremos filhos mimados que não vão fazer nada e só esperar que Deus faça”, certo, mas na escala macro, nós realmente não podemos fazer nada e se simplesmente a oração não funciona por si só, mas necessita da ação humana, esse parece muito mais um deus criado por nós mesmo, onde dados o crédito a Ele a posteriori. Se der certo, o crédito é d’Ele que nos ajudou, se der errado são os “mistérios de Deus”, a culpa é nossa ou do Diabo.
A oração e a dita “intimidade com Deus” não provam absolutamente nada, apenas contam menos para a existência desse Deus pessoal, pois o ato de orar é cheio de contradições e você tem que simplesmente fechar os olhos e confiar; ter fé que tudo dará certo (se não der certo, já sabe né? A culpa é sua, do Diabo etc). Aliás, por que a oração e os pedidos a Deus não fazem algo realmente fantástico, como ressuscitar mortos por exemplo? Dizer que meras coincidências fortuitas (um dinheiro que entrou inesperado, um pneu que furou, um projeto que deu certo etc) são obras de Deus, ou do Diabo, é apenas uma invocação da magia para explicar algo que você não sabe. Aliás, ignora-se todo esforço humano e coloca-se todos os créditos em Deus, que só aparece nos momentos bons (como é o supremo bem, obviamente que só vai aparecer quando tudo der certo).
As pessoas obviamente nunca deixaram de orar, mesmo que se prove a inexistência de Deus. A oração tem um efeito psicoterapêutico, as pessoas se sentem melhor após a oração, assim como se sentem melhor após falar sobre seus problemas para um psicólogo. Por isso, as igrejas nunca deixaram de existir e nunca deixará de haver fé no mundo, mesmo que esse Deus pessoal nunca venha a se revelar realmente.
2 years ago | [YT] | 20
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Paulo Uzai Junior
Hoje, dia 23 de Abril, é o dia mundial do livro. Data que é simplesmente esquecida e menosprezada, até mesmo pelo Google, que sempre traz mensagens especiais em datas comemorativas. Hoje, silêncio total.
O livro para mim é sinônimo de busca pelo conhecimento e uma oportunidade de diálogo com homens e mulheres de todos os tempos, com sábios de todas as eras. É muito diferente você assistir uma aula e ler diretamente, por exemplo, Dostoiévski. Então o livro e a leitura é um tipo de tecnologia fundamental, que age na transformação da consciência e inteligência das pessoas. Claro que o livro por si só não vai transformar a pessoa em mais ou menos inteligente, mas sim a assimilação profunda do conteúdo que está ali; assimilação profunda através da leitura.
A leitura transforma a vida as pessoas. Não que vamos ficar mais ricos ou mais populares (às vezes, acontece o oposto), mas ganharemos um aprofundamento da consciência que seria impossível sem o contato com os vários sábios que a história humana já produziram. Quem não lê, simplesmente fica preso ao seu tempo história, quem lê se abre para o diálogo universal supra-histórico.
Que nosso pobre país (em todos os sentidos, pobre) interesse-se mais pela leitura. Somente valorizando a inteligência poderemos sair do buraco que estamos.
2 years ago | [YT] | 20
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Paulo Uzai Junior
A existência é um absurdo. Existir antes o ser, e não o nada, é um absurdo. Então qual o propósito e o significado disso tudo? Absolutamente nenhum. Essa é a conclusão que chegamos após lermos “O mito de Sísifo” de Albert Camus.
O problema do absurdo não está em nós, em particular, nem na realidade, em geral. Está tudo muito bem organizado e estruturado. Alguns dirão que divinamente organizado e estruturado, dada a perfeição de cada detalhe (é isso que a metafísica tradicional irá dizer, que o Ser de Deus, ou o Ser do divino, é a base sob a qual se estrutura toda a realidade). O absurdo começa na interação da nossa subjetividade com o mundo que nos rodeia. Pois enquanto humano, demasiado humano, temos a necessidade de dar sentido às coisas. O problema central começa aí. Nossa existência é muito pequena e fugaz, e a realidade muito grande e, se comparada conosco, perene, que qualquer sentido que dermos a existência parecerá infinitamente artificioso.
"Não sei se esse mundo tem um sentido que o ultrapasse. Mas sei que não conheço esse sentido e que, por ora, me é impossível conhecê-lo." (p. 54)
Mas é Deus? Ele não é o sentido de tudo? Aristóteles chega à essa conclusão (ignorando aqui as particularidades do deus aristotélico). Contudo, a noção de Deus parece infinitamente mais do que possamos conceber. Sendo a substância de Deus perfeita e diferente da humana, Ele não poderia se mover apenas nas categorias da racionalidade humana. Esta é a única forma que temos de conhecer as coisas. Dessa forma, Deus se torna um estranho, pois é muito pouco conhecido pelas criaturas humanas, que em geral entendem errado as vontades de Deus. Então mesmo que Deus seja o sentido último da existência, este se torna um sentido nebuloso e de impossível acesso à racionalidade humana. Não o conheceríamos de fato, mas apenas poderíamos especular sobre (é o que faz, basicamente, a teologia).
Então mesmo que Deus exista, o sentido da vida não nos aparece de forma clara. Necessitamos de uma fé, de um salto, para chegamos até Ele, sem obviamente entendermos direito Seus desígnios e Suas vontades. Agora e se Deus não existe? Neste cenário, tudo fica mais simples. Se Deus não existe, a vida não faz sentido mesmo. Se torna estúpido e inútil perguntar qual o sentido da vida, do universo e tudo o mais. Porque as coisas simplesmente estarão aí. Elas simplesmente existem, independentemente da vontade ou projeção humana sobre a realidade. Perguntar sobre o sentido da vida, ou o sentido da existência, é o antropomorfismo mais infantil que podemos conceber.
Se Deus não existe e a vida não faz sentido, então caímos num absurdo. O que faremos? Vamos meter uma bala na cabeça? Essa é a pergunta filosófica fundamental, segundo Camus. É aqui que começa a filosofia, pois esse é o fundamente de tudo? Viver ou não viver, eis a questão. Mas quem escolhe o suicídio não o escolhe por uma profunda reflexão filosófica (a não ser Kirilov, personagens de “Os demônios” de Dostoiévski), mas sim por questões existenciais e emocionais (às vezes patológicas) muito sérias. O absurdo, quando desabado na vida de alguém na forma de tragédia, pode levar o sujeito ao suicídio. Mas quando refletimos sobre o absurdo, a imensa maioria de nós decide viver. Por quê? Porque a vida vale a pena ser vivida, mesmo não tendo sentido nenhum.
"O sentido, como dissemos, é apenas a nossa relação com o mundo e com as coisas (dentre essas “coisas”, está nossa subjetividade). Então o sentido que damos a vida é o sentido que construímos para nossa existência. "Sim, o homem é seu próprio fim. E é seu único fim. Se quer ser alguma coisa, é nesta vida. Agora eu o sei de sobra." (p 87)
Não haverá um grande sentido da vida, mas sim um sentido para nossa vida. Viktor Frankl falava a mesma coisa, apesar de acreditar na transcendência. Porque qualquer salto que dermos, seja religioso, seja político, seja de transcendência histórica, será uma fuga dessa vida, da nossa vida presente e concreta. Fugir dessa vida é o mesmo que os suicidas fazem, então o salto é uma forma de suicídio.
"Eu tomo a liberdade de chamar agora de suicídio filosófico a atitude existencial. Mas isso não implica um julgamento. É uma maneira cômoda de designar o movimento pelo qual um pensamento se nega a si mesmo e tende a se ultrapassar naquilo que constitui sua negação. Para os existenciais, a negação é seu Deus. Exatamente: esse deus só se sustenta com a negação da razão humana. Mas, como os suicidas, os deuses mudam junto com os homens. Há diversas maneiras de saltar, mas o essencial é saltar. Essas negações redentoras, essas contradições finais que negam o obstáculo ainda não vencido, podem nascer tanto (é o paradoxo o alvo deste raciocínio) de uma inspiração religiosa como da ordem racional. Elas aspiram sempre ao eterno, é apenas nisso que dão o salto." (p. 46)
Como só temos essa vida, essa situação concreta, tal como falava Ortega y Gasset, devemos criar um sentido para ela. Claro que a tentação da transcendência história estará sempre à porta, porque sempre desejamos perpetuar nossa existência após a morte, mesmo que seja apenas para ficar “para a história”. Mas, como bem fala Fernando Pessoa, o que será de nossa era daqui cem, duzentos, mil anos? Nada! Seremos completamente esquecidos e varridos para a lata do lixo da história humana. E, pior ainda, um dia a história humana pode acabar e sermos extintos. O universo permanecerá, impávido colosso, como se nunca tivesse existido seres humanos num pequeno ponto azul do espaço.
"Nós não o ignoramos: todas as Igrejas estão contra nós. Um coração tão aplicado se esquiva ao eterno e todas as Igrejas, divinas ou políticas, aspiram ao eterno. A felicidade e a coragem, o salário ou a justiça são, para elas, fins secundários. É uma doutrina que trazem e nos impõem subscrever. Mas eu não tenho nada a fazer com as ideias ou com o eterno. As verdades que estão na minha escala podem ser tocadas com a mão. Não posso me separar delas. Eis por que você não pode basear nada em mim: nada do conquistador dura muito, sequer suas doutrinas". (p 88)
Dessa maneira, a única forma de viver é viver no absurdo da existência. Aceitá-lo e criar seu próprio destino, sem nenhum tipo de mito transcendente, mesmo que a transcendência ou até mesmo Deus exista. Pois se não conseguimos encontrar a transcendência nesse mundo, torna-se inútil procurá-la. Mais vale encontrar nosso próprio destino em vida, construir nosso próprio sentido, seja lá qual você quiser que ele seja.
"Trata-se, anteriormente, de saber se a vida devia ter um sentido para ser vivida. Aqui fica parecendo, ao contrário, que ela será vivida melhor ainda se não tiver sentido. Viver uma experiência, um destino, é aceitá-la plenamente. Ora, não se viverá esse destino, sabendo-o absurdo, se não se faz tudo para manter diante de si esse absurdo aclarado pela consciência. Negar um dos termos da oposição de que ele vive é escapar-lhe. Abolir a revolta consciente é esquivar-se ao problema. O tema da revolução permanente se transporta assim para a experiência individual. Viver é fazer viver o absurdo. Fazê-lo viver é, antes de tudo, encará-lo." (p. 56-57)
Tudo isso se torna inútil? A vida se torna inútil numa escala mais geral? Obviamente. É nesse sentido que que somos todos Sísifo. Estamos condenados a viver uma vida que não tem um sentido último, mas tem apenas o sentido que empregamos ao trabalho árduo que fazemos de rolar a pedra todos os dias morro acima. Somos todos Sísifo e, pior ainda, para alguns de nós, somos o Sísifo feliz. Imaginar Sísifo feliz é olhar todos os dias para o sentido da vida que criamos para nós mesmos. É olhar para o trabalho inútil de rolar uma pedra montanha acima, para ela descer de novo montanha abaixo e pensar no sentido que Sísifo inventava para essa empreitada sem propósito. Esse somos nós todos os dias. Sísifo é absurdo, assim como nós o somos.
2 years ago | [YT] | 27
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Paulo Uzai Junior
A morte da Utopia ou o niilismo político
Leonardo Padura Fuentes, escreveu um dos maiores e mais incríveis romances históricos do século XXI: O homem que amava os cachorros (El hombre que amaba a los perros). Por que esse romance é tão incrível? Pelo simples motivo de que Padura nos mostra as entranhas do maior sonho utópico que o século XX já teve: o comunismo, personificado pela revolução bolchevique de 1917 e refletido nas inúmeras revoluções ao redor do mundo, dentre elas, Cuba.
Padura é um escritor cubano e infelizmente é impossível desassociá-lo da ilha. Primeiro, porque ele é um escritor cubano, que vive em Cuba e ele se orgulha disso (como já disse em entrevistas). Segundo porque ele é um escritor cubano, que vive em cuba e, apesar de tudo isso, escreveu “O homem que amava os Cachorros”, que não contêm apenas críticas ao modus operandi da União Soviética, mas também a algumas questões sociais em Cuba (ele não chega a criticar o regime em si).
Mas “O Homem que Amava os Cachorros” é um romance histórico e como tal tem doses de verdades e doses de ficção. E do que trata esse livro? Do assassinato de Leon Trotski, encomendada por Joseph Stálin e realizada pelo militante espanhol (depois agente da URSS) Ramón Mercader. O livro conta toda a história, desde o início do exílio de Trotski e sua família, saindo da União Soviética e perambulando pelo mundo, até chegar no México, bem como a história de Ramón Mercader, que teve uma infância burguesa, passou por uma separação dos pais, a mãe virou revolucionária (o que o influenciou decisivamente), ele lutou na guerra espanhola e depois se tornou agente secreto soviético, treinado e incumbido de matar Trotski. Somente isso nos dá um frio na espinha do tamanho que é essa história. É gigantesca desproporção entre um homem isolado e acossado com todos os tipos de humilhações e cada vez mais enfraquecido, que era Trotski, com um dos homens mais poderosos do mundo, que era Stálin, que mobilizou parte de seus agentes secretos para matar Trotski, que mais se parecia com uma vingança pessoal. Trotski foi um dentre os milhares de russos mortos pela revolução bolchevique de 1917.
Mercader foi apenas um peão dentro dessa história toda. Alimentaram nele, assim como em toda militância comunista da época, um ódio por Trotski desproporcional (para vermos o tamanho e o poder da propaganda soviética). Trotski tornou-se o pior inimigo da revolução e ficou no imaginário de todos que era alguém capaz de tramar uma conspiração anti-revolucionária (ou contra-revolucionária) capaz de destruir a União Soviética, quando na verdade ele era um homem completamente isolado, humilhado e desiludido por ter visto que a revolução bolchevique tinha se transformado numa tirania stalinista.
No meio do caminho, o livro ainda traz a presença de Iván, um cubano que encontra Ramón Mercader numa praia em Cuba (claro que ele não fala quem realmente é) e conta a história para ele. É aí que Iván, um escritor que se sente oprimido dentro de Cuba, que se autocensura, resolve escrever essa história. Os capítulos que contam com Iván são uma forma de mostrar a vida cubana e também de fazer críticas sociais à ilha.
Todos esses elementos tornam esse livro extremamente interessante. Mesmo nós sabendo, de antemão, como Trotski morreu, quando, onde morreu, quem o matou e quem mandou matá-lo, a história é simplesmente deliciosa e há uma tensão no ar.
Apesar de tudo, vemos uma tristeza imensa e um desencanto com tudo com este livro. O último grande sonho humano, de construir uma sociedade perfeita, morreu com o comunismo de fato praticado nos diversos países. O sonho só permanece no olhar ingênuo de quem acredita saber o que é melhor para a vida de todos os outros. A organizações social rígida, vinda de um comando central, não poderia acabar diferente do que milhões de mortos dentro do próprio país, dentro da própria revolução. Apenas quem conhece muito pouco do gênero humano acredita que possamos fazer realmente alguma cosia boa, partindo desses pressupostos autoritários.
Não acredito ter uma solução para a maldade e necessidade de poder que nós, seres humanos, temos. O livro deixa margem para esse tipo de pensamento niilista: não há solução para o homem. Porém, ele deixa brecha para uma interpretação, quando diz:
“Lendo e escrevendo sobre como se havia pervertido a maior Utopia que uma vez os jovens tiveram em suas mãos, mergulhando nas catacumbas de uma história que mais parecia um castigo divino do que obra de homens ávidos de poder, ânsia de controle e pretensões de transcendência histórica, eu havia aprendido que a verdadeira grandeza humana está na prática da bondade sem condições, na capacidade de dar aos que nada têm, mas não dar o que nos sobra, mas dar uma parte do pouco que temos. (...)” (p. 538).
A solução talvez seja não tentar construir grandes projetos de engenharia social, grandes devaneios políticos que invariavelmente acabam mal, mas é em partilhar um pouco do que temos, em partilhar a nossa desgraça uns com os outros, em ajudarmos uns aos outros a carregarmos nossa cruz nessa existência decaída. Talvez esse seja o sentido mais nobre para o gênero humano, o que pode aproximar Padura (ou ao menos esse trecho do livro) com uma antiga tradição cristã da caridade. Porque vendo toda a violência, tragédias, desgraças, mendacidades e mentiras que os seres humanos são capazes de produzir, ver que alguém é capaz de partilhar o pão com outro irmão humano, é algo que traz uma pequena luz dentro desse livro obscuro (por tratar de um tema tenebroso).
De qualquer forma, esse é um livro fundamental e impressionante. Há tempos não lia um livro tão impactante como esse. Incrível e ótimo descobrir que Cuba ainda têm bons escritores, que não se entregaram ao discurso oficial.
2 years ago (edited) | [YT] | 22
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Paulo Uzai Junior
Pouca gente sabe, mas a abertura do famoso seriado Chavo del 8 (conhecido no Brasil como Chaves) tem como trilha sonora nada mais nada menos que a "Marcha Turca" de Ludwing Van Beethoven. Roberto Bolaños, criador da série, tinha uma predileção pelos clássicos da música e literatura. Vez ou outra podíamos ver Romeo e Julieta, O homem Invisível, Dom Quixote ou Chopin perambulando por entre os episódios. Além da comédia, o seriado contava com esse lado educativo, de ao menos apresentar alguns clássicos (à maneira deles, é bem certo). Seria esse o segredo do sucesso de Chaves?
O estilo turco foi muito usado na música do século XVII e XIX. Essa de Beethoven (que foi usada na abertura de Chaves) e a de Mozart são as mais famosas. O curioso é que a composição de Beethoven inicialmente era independente. Contudo, Beethoven reaproveita essa música como parte da ópera "As ruínas de Atenas".
O que vemos, neste caso do seriado Chaves, é que é possível unir cultura pop (ou cultura de Massas, se assim preferir) e a cultura clássica. É possível darmos continuidade aos clássicos, mesmo quando utilizados pela cultura popular. Claro que há a chance de dar errado (como já vimos várias vezes acontecer de clássicos serem mutilados). Contudo, essa é uma forma de os grandes clássicos da música e literatura se disseminarem na população em geral, tão massacrada por cultura de baixíssima qualidade.
2 years ago | [YT] | 15
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Paulo Uzai Junior
A Biblioteca de Alexandria foi o primeiro e mais grandioso acervo de conhecimento de que se tem notícia do mundo antigo. O tamanho de seu acervo é algo que impressiona, visto a dificuldades de se fazer livros naquela época. Criada no século III a.C., tornou-se o polo do conhecimento após o natural declínio de Atenas. Criado, ao menos finalizada, por Ptolomeu II, a biblioteca contava com um acervo rico. Diz-se que boa parte da biblioteca de Aristóteles fora adquirida. Aliás, Aristóteles tinha uma biblioteca à parte e tinha recebido o apelido na academia platônica de “O Leitor”, tamanha dedicação aos livros.
A Biblioteca de Alexandria, assim como o próprio mundo antigo, sucumbiu ao Império Romano. Plutarco, historiador do mundo antigo, conta que Júlio César, na Batalha em Alexandria, queimou os próprios navios para poder se defender. Esse incêndio acabou afetando parte da biblioteca, que viu boa parte do seu acervo ser completamente destruído. Livros, de apenas um exemplar, destruídos para sempre. Esse incêndio marcou o início do fim da Biblioteca de Alexandria, que aos poucos foi sendo esquecida, com a ascensão cada vez maior de Roma como hegemônica.
A ocasião da destruição e declínio da Biblioteca de Alexandria nos mostra como nossos conhecimentos é um bem muito frágil, que do dia para a noite pode ser perdido. O progresso do conhecimento deve ser acompanhado pelo progresso do esquecimento. Há coisas que permanecem no tempo e há conhecimentos que são esquecidos (ou perdidos) e que talvez nunca retornem mais, ou até talvez retorne milênios depois, mas sem uma conexão causal. Infelizmente, não teremos garantia nem do nosso próprio conhecimento, se na próxima geração, ou daqui cem anos, terá alguma continuidade histórica.
2 years ago | [YT] | 15
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Paulo Uzai Junior
O desejo de glória, o desejo de ser elogiado e amado, é o nosso primeiro e principal pecado, é o fruto mais terrível da queda humana, como diz Emil Cioran em “La chute Dans le Temps” (Queda no Tempo). Não foi o desejo de ciência que nos fez aceitar a proposta da serpente, como nos faz pensar Nietzsche em “O Anticristo”. Mais do que isso, fomos assombrados pelo esplendor da glória de Deus e buscamos, junto com o Diabo, ter um pouco dessa glória. O que fez Lúcifer cair foi o mesmo que nos fez tombar no tempo: o desejo de ser como Deus, de ter seu poder e majestade. Quando aceitamos a proposta serpente, ficamos mais próximos do Diabo, nos tornamos seu amigo e seu sócio. Assim nos deleitamos naquilo que o demônio inventou (o pecado) e nos martirizamos, dia após dia, por termos trocado nossa felicidade eterna por um desejo extremo de vaidade.
Não é à toa que o elogia nos comove tanto. É a sedução das mais irresistíveis, como diz o dr. Freud, pois isso toca no ponto fundante de nossa psique. Mas esse desejo de glória sempre permanece inconfesso. Racionalizamos e preferimos dizer coisas elevadas de nós mesmos, como o fato de sermos movidos pela “busca pela verdade”, “busca por Deus”, “busca pela eficiência no trabalho” etc. Mas quanto isso irá durar se nunca formos elogiados? Se não recebermos nenhum afago no ego, nos sentiremos fracassados naquilo que achávamos estar buscando. “Não sou bom em procurar a verdade” diremos. “Não sou bom arquiteto”, “não sou bom escritor”, “não sou bom em meu trabalho” e assim por diante. Não confessamos nunca onde está nosso coração e nosso verdadeiro desejo, pois tememos o ridículo. Tememos que nos chamem de infantis, de imaturos. Então nos travestimos de pessoas sérias, de homens de ciência, mulheres de negócios, pais de família. Tudo para esconder nosso fundo psicológico primordial: “vaidade, vaidade, tudo é vaidade” como diz Salamão em Eclesiastes.
Não há remédio para o desejo de glória. O apego em Deus não faz com que as pessoas parem de ser vaidosas, pelo contrário. A experiência nos mostra que há tanta vaidade dentro das igrejas, principalmente em cima dos púlpitos, quanto na conta do Instagram mais narcisista. Mas sem o apego à eternidade, obviamente que só nos resta a história e o tempo terreno. E como seres históricos, só no resta tentar a glória máxima que é morrer e ser lembrado por gerações. Isso excita tanto as pessoas que chegam às raias do ridículo. Mas se só há essa existência material, e se somos constituídos de vaidade, não há solução a não ser procurar aquilo que é natural no homem, ou seja, o desejo de ser conhecido.
Mas é possível fugir da vaidade. Fugir do desejo de glória é tentar fugir de si mesmo; é deixar de ser humano. É tentar superar o próprio pecado e deixar de ser pecador. Nem mesmo Deus nos prometeu que ficaríamos livres do pecado, mas sim que ele nos perdoaria. Mas como nos livrar disso? Se a glória é nosso desejo e nosso terror, se é aquilo que nos eleva e nos destrói, como poderemos suportar tamanha contradição? Não há remédio, não há solução. Somos essa contradição ambulante. No momento mesmo que aceitamos fazer empreitada com o demônio, deixamos a unidade e a felicidade de lado. Escolhemos o horror e a contradição do pecado, i.e., o desejo de glória, que irá nos alucinar e nos atormentar pelos séculos dos séculos.
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem. Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma!
2 years ago | [YT] | 13
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Paulo Uzai Junior
O Brasil é o país dos sonhos fracassados!
Não há como negar que há uma dificuldade extrema em nosso país de se levar a cabo qualquer sonho que seja, desde o mais simples (montar o próprio negócio, por exemplo) até os mais altos e elevados, como ser um escritor, um intelectual sério, um poeta etc. Numa mistura de dinheirismo pueril e falta de esperança, qualquer brasileiro cai num dilema terrível: preciso arrumar um emprego que dê dinheiro, mesmo que isso se afaste completamente do meu sonho. Nessa dicotomia auto excludente, obviamente que escolhemos o feijão; escolhemos pôr comida à mesa e nos entregamos a qualquer coisa que pague o mínimo necessário para viver. Dessa forma, o sonho torna-se ruína, pois entregue aos deveres práticos da vida (cuidar do emprego, da família etc.), não nos sobra tempo nem energia para cuidarmos do nosso sonho. Para àqueles que têm um pouco mais de recursos, eles têm a sorte de ver seus sonhos tornar-se hobbies. Ai vemos uma série de pessoas que são pintores por hobby, fazem poesia por hobby ou até mesmo escrevem romances inteiros por hobby. Claro, essa dicotomia é uma marca do pensamento burguês, como diria Marx (talvez na única coisa que ele esteja certo), onde há um abismo intransponível entre o mundo prático e o mundo do espírito, sendo ambos inconciliáveis.
Esse é o drama da alma brasileira e esse é o tema central de “O Feijão e o Sonho” de Orígenes Lessa. Num livro tão simples, e tão profundo ao mesmo tempo, Lessa toca no ponto central do drama brasileiro de “como viver?”. Viver torna-se uma escolha entre colocar a comida na mesa ou viver um sonho que não vai te trazer nenhum recurso material. Poucos são àqueles que conseguem ganhar dinheiro vivendo o seu sonho. Lessa mostra com perfeição a loucura dessa escolha auto excludente. Campos Lara, o poeta que tenta viver até as últimas consequências o seu sonho literário, e Maria Rosa, a esposa materialista, dinheista, que sofre com a pobreza e miséria da família e queria apenas que o esposo abandonasse tudo e fosse como o marido de sua irmã, Gomes, um burro, um ignorante, mas milionário que fez fortuna trabalhando com café.
Durante todo o livro nós vemos esse drama. O afastamento do casal por terem cosmovisões completamente distintas mostra essa dicotomia. Não conseguimos tomar nenhuma posição em relação a esse conflito. Ora apoiamos Maria Rosa, por conta de todo desleixo de Campos Lara e por sua falta de conhecimento prático da vida, ora apoiamos o poeta, que tenta viver genuinamente da literatura. Aliás o heroísmo de Campos Lara é algo que beira o absurdo. Lessa esticou essa corda de propósito. Como um Dom Quixote, ou um príncipe Míchkin (“O Idiota”, Dostoiévski), nós vemos Campos Lara como um desses personagens hiperbólicos, incompreendido por todos, sui generis em todos os aspectos, mas que traz em si algo de genuíno, algo de transcendente.
Apesar da aparente vitória na maturidade da vida de Campos Lara, uma espécie de reconciliação entre o hiato do feijão e do sonho, percebemos que o romance de Orígenes Lessa é trágico. Ele vê a sociedade brasileira como ignorante e falsa, apegada às mesquinharias do pequeno conflito, alimentados claro pela inveja, covardia e ganância. Não importando se estamos no interior ou na capital, as pessoas são baixas igualmente, com a diferença de que na capital há um requinte na baixeza. As pessoas são baixas, porém chiques, letradas, intelectualizadas. No Brasil, nunca o “homo homini lupus” de Hobbes foi tão verdadeiro. Depois de uma pequena vitória nas letras, depois de tanta peleja e miséria, depois de aparente paz, Campos Lara é devorado pelos lobos da nova geração literária. Origenes Lessa nos mostra assim que não há solução, mesmo reconciliando o feijão e o sonho, o ser humano é ruim por natureza, e as almas mais nobres sempre serão as primeiras a serem destruídas.
Ao final de “o Feijão e o Sonho” fica a pergunta, não respondida pelo autor: valeria a pena? Seria lícito tentar correr tão desesperadamente atrás do sonho, sendo o ser humano do jeito que é e, em especial, sendo o brasileiro do jeito que é? Vale a pena sacrificar tudo, até mesmo o bem-estar de si mesmo e daqueles que você ama, para no fim ser devorado por abutres novos? Se uma resposta final para essa questão, ficamos com a leve impressão, contudo, de que não vale a pena. Que tudo é inútil e caíra na degenerescência de qualquer forma.
3 years ago | [YT] | 14
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Paulo Uzai Junior
Para mim a Teodiceia sempre foi a maior dificuldade na crença em Deus. O que diabo é uma teodiceia? É a justificativa do Deus bondoso em face da maldade, dor e desespero do mundo. Como essas duas coisas podem ser conciliadas? Não sei e na verdade ninguém sabe de fato. A resposta fácil do cristianismo em geral, de que o mal no mundo é fruto do pecado e, por isso, sofremos feito um cão presos nessa herança maldita, sempre me pareceu de uma crueldade fora do comum. Se é assim, só posso concluir que Deus é sádico, pois cria os sujeitos sem o aviso prévio de que eles virão ao mundo e receberão tal herança. Descobrimos aos poucos tal desgraça, quando se torna demasiado tarde para desistir da oferta pela vida. Contudo, tudo pode piorar ainda mais no além morte, pois como todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, nada nos resta a não ser o inferno eterno e imutável. “Ah, mas Jesus é a ponte que nos salva e nos dá a vida eterna”, dirão os incautos. É mesmo, sabichão? Mas isso é uma dádiva dada de graça e completamente aleatória aos olhos humanos. Então chegamos a conclusão que Deus cria a todos para jogar a todos no inferno, mas salva alguns por misericórdia. Ninguém pode se salvar por obras, por ser bonzinho, por força própria... ninguém pode forçar a fé. Isso tudo é dado pelo próprio Deus. Deus abre os olhos daqueles que Ele bem entende. Ninguém pode buscar a Deus de fato se Ele não permitir que O busquem. Isso é a dedução lógica do conceito de soberania de Deus. Se é assim temos algum influência em nossa salvação e, de alguma forma, conseguimos nos salvar por esforço próprio.
Então isso é uma situação insolúvel: Deus cria o homem, sem consultar o homem se ele quereria ou não ser criado, sendo este homem já destinado ao pecado, a destruição eterna (e Deus já sabia, desde a fundação do mundo, que o homem iria pecar), mas por misericórdia Deus salva alguns, quais sejam, os santos, que apenas adquirem santidade porque Deus assim o quis. Eu não sei vocês, mas me sinto extremamente desconfortável com isso. Nunca, ninguém, absolutamente ninguém conseguiu responder como isso pode ser racionalmente bondade. Apenas dizem “aos olhos humanos isso não parece bondade, mas para Deus faz sentido”. Outros dizem que como Deus não pode ir contra seus princípios e fundamentos, tinha que fazer as coisas tal como as fez. Visto a queda do homem no Éden, não há outro remédio. Mas se Deus não poderia mudar tudo, até mesmo os fundamentos dos fundamentos, que tipo de onipotência Ele tem? Há então coisas (princípios de Deus, por exemplo) que são irrevogáveis até mesmo por Deus? Então a onipotência divina vai até a página 2, ou até chegarmos aos seus princípios e fundamentos, que são impossíveis de serem modificados.
Como não há nenhuma resposta racional e lógica que concilie o mal do mundo e a bondade e onipotência de Deus, a única alternativa é o apego à fé. Acredita-se que Deus é bom e isso basta. Confia-se na bondade divina. Acredita-se que Ele tem uma resposta para tudo isso e que só na mente d’Ele todas essas contradições são conciliadas. Para quem não nasceu com o órgão da fé, contudo, ó terrível desgraça. Terão que viver apenas com a razão humana, pois nem todos darão esse salto na fé. Nem todos podem ou conseguem fazer isso. Seriam maus por isso? Merecem a morte eterna por não terem fé (algo que apenas Deus poderia dar e não deu para alguns, porque... ninguém sabe)? Mas visto que o conhecimento foi algo oferecido pela serpente no Éden (aqui está o primeiro embate entre ciência e religião na história do mundo, qual seja, ordens de Deus x sugestão da serpente), deve ser algo visto por Deus como maligno mesmo, pois foi a causa da queda do homem. Viver apenas buscando a razão humana seria o mesmo que viver do diabolismo puro e simples. Mas, ó raios, nem todos conseguem dar o salto de fé. Nem todos tem esse “dom do espírito”. Nem todos podem ver a bondade no desespero ou o amor no fato de alguns estarem destinados ao fogo eterno e a nunca terem seus nomes escritos no Livro da Vida.
Há um terrível mistério inefável na teodiceia.
3 years ago (edited) | [YT] | 14
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